Somebody to love.
12 Encontro.
Notas iniciais
Violetta's pov.
O sinal tocou, anunciando finalmente o fim de duas longas aulas de história, e trazendo consigo a próxima aula: química.
Olhei o celular pela milésima vez em um intervalo de tempo recorde. Nada.
– Fran? – a cutuquei, fazendo-a pular de susto pois estava dormindo. – ACORDA! – gritei, brincando com seus cabelos levemente caídos em minha carteira. Tínhamos trocado de lugar há alguns dias, talvez pelo fato de eu ser um pouco mais alta que ela.
– Hm? – Murmurou, tentando abrir os olhos, devido a claridade e a sonolência que estava.
– Já acabou a aula, querida. – Ri cínica, mostrando a língua. – E você, como sempre, dormiu.
– E você por acaso prestou atenção nas baboseiras que o nosso querido professor disse? – Ela retribuiu o olhar, com os olhos ainda semicerrados. Sorri ao vê-la se esforçar para deixa-los totalmente abertos.
– Er... não. – Confessei. – Na verdade, preciso falar com você. – Franzi a testa mostrando a seriedade do assunto. – Só que você não pode contar pra ninguém. NINGUÉM.
– Ai, Vilu, claro que não vou. Conta o que aconteceu logo, tô ficando preocupada.
– Relaxa. – Dei de ombros. – É que... sei lá, não sei como contar.
– Pelo começo é uma boa ideia, não? – Rimos juntas. – É sobre você? Ou sobre outro alguém?
– Em partes, as duas opções. – Fran, que agora já conseguia ficar com seus olhos totalmente abertos, pousava seu olhar em mim, acabando com todas minhas chances de mentir, mesmo que fossem poucas. Éramos amigas a pouco tempo, mas nos conhecíamos muito bem. Bastava um olhar para sabermos qual era a da vez. Um olhar. Sorri fraco, vendo que ambos os olhares iam enfraquecendo conforme minha respiração marcava um ritmo calmo. Senti um odor entrar pelas minhas narinas. Era o perfume do nosso novo professor de química, sr. Jorsley.
– Esse aí parece ser uma figura. Ei, te conto tudo depois. – Disse apontando pro homem vestido com um suéter verde musgo, e jeans extremamente apertado à altura das coxas.
– Não pense que vou esquecer! – Ela disse autoritária. – Acho que vou tirar outra soneca. – Ri, sentindo meus olhos queimarem. Eu estava certa. As coisas realmente pareciam bem mais normais para Francesca. Respirei fundo, lutando com as lagrimas que brigavam para vir a tona. Sorri fraco ao ver a figura ainda não apresentada correr para a sala dos professores atrás do diário.
– Prazer, sou o professor Brain Jorsley. – Ele riu, encarando cada rosto que o fitava com estranhamento. – E antes de mais perguntas, quero deixar claro que posso ser a melhor pessoa do mundo. Ah, sim, eu posso! Contanto que vocês, sejam os melhores também. – Ele soltou um riso vitorioso ao perceber que todos estavam realmente prestando atenção na apresentação – o que era muitíssimo estranho, pois as únicas aulas em que prestávamos atenção eram as de gramatica (lê-se professor Leon) e espanhol (lê-se professora Lara) – sorri ao lembrar da figura de Leon; Lembrar do seu senso de humor que me tirava do sério, dentro e fora da aula; Lembrar das mensagens. MENSAGENS! Minha mente gritou, fazendo-me pular da cadeira. Leon não havia dado sinal de vida no colégio, e eu estava possessa, além de curiosa o bastante à ponto de fazer qualquer loucura. Não que isso me importasse... Mas no fundo, eu sabia, isso me importava muito.
– Professor, posso ir ao banheiro? – Fingi uma careta de doente para escapar daquela aula irritante. O cansaço e as olheiras que eram meus companheiros de sempre ajudaram na encenação. Brian virou-se pra mim com o típico olhar nossa-sério-mesmo? E eu assenti com a cabeça. – Por favor, é importante. – Ouvi alguns múrmuros vindo do outro lado da sala e ri junto, mesmo não sabendo o assunto. Quer dizer, eu sabia. Eu estava rindo da minha própria desgraça. Ri, dessa vez por pensar na loucura que estava prestes a fazer.
Foda-se, soltei mentalmente.
– Só não demore! – Ele falou calmo e autoritário. Como se aquilo já não importasse mais, voltou a encarar a lousa e eu saí da sala, deixando meus amigos de classe frustrados revendo a famosa lei de Lavoisier. Sou muito pau no cu, pensei e logo soltei um riso aliviado imaginando como Tomás estaria me praguejando nesse exato momento.
Segui reto o corredor vazio –literalmente- até a entrada do banheiro feminino. Dei de ombros passando reto a porta rosa chamativa e indo em direção à dispensa. Tomás me contara um dia que de vez em quando, cabulava aula ali, e que era quase humanamente impossível ser encontrado. Abri a porta ranheta e entrei no pequeno cubículo, dividindo o espaço com vassouras velhas. Fiquei alguns minutos apenas encarando a tela do celular, criando coragem suficiente para fazer tal coisa. Coragem que, aparentemente, eu não tinha. Em um surto curto, cliquei em algumas teclas do celular, e o posicionei perto do ouvido.
Primeiro bipe: Eu não deveria ter ligado. Segundo bipe: Ainda dá tempo de desistir. Faça isso. Terceiro bipe: Agora é tarde demais.
– Alô? – uma voz sonolenta e ofegante disse do outro lado. – Alô? – Consegui ouvir sua respiração, e aquilo tomou conta do meu ser. O simples fato de saber que ele estava ali me deixava bem.
– Alô. – disse tímida. – Não vem pra aula? – Continuei, silabando todas e quaisquer palavras que saíam de minha boca.
– Violetta? – Ele trincou os dentes e eu pude ouvir pequenos ruídos, misturando com sua respiração já tomada em um único ritmo. – Não! Estou com atestado. – O QUÊ? LEON ESTAVA COM ATESTADO? Isso só poderia indicar algo grave.
– O que aconteceu? – Falei rápida, pouco me importando em demonstrar que estava preocupada. Nessa altura do campeonato, eu já não tinha desculpas, a não ser a própria preocupação em si.
– Calma – Ele riu, como se a minha reação tivesse mesmo o divertido. E de fato, tinha. – E só... febre. – Dita a ultima frase, o silêncio tomou conta da ligação. E ficamos assim, apenas ouvindo o silêncio um do outro por quase dois minutos.
– Tem algo que eu possa fazer pra ajudar? – Senti minhas pernas tremerem. Eu estava agindo como uma vadia, me atirando sem nenhuma restrição pro meu professor, era isso mesmo? Respirei, ainda sentindo as pernas tremerem e me segurei em uma das paredes, soltando todo o meu peso.
– Isso é alguma brincadeira? – Ele disse confuso.
– Não! De modo algum. Só estava tentando ser legal.
– Ah – Ele disse conformando-se de tal ato. Ele havia sido rude. – Tá, então. – E outra vez, o silêncio tomou conta da ligação. Dessa vez, no entanto, um silencio paradoxo e cheio de questões.
– Tá. – Respondi seca. – Então, tchau. Melhoras! – Disse friamente, com o estomago revirado. Agora sim eu estava passando mal.
– Obrigada! – Ele sorriu baixinho e o acompanhei, sentindo um calor queimar meu corpo; uma brisa diferente. – Tchau, Vilu. Se cuida. – Ele desejou e eu parti a ligação.
– Me cuida você. – Falei baixinho, ainda não absorvendo totalmente meu desejo proibido e cheio de lamentação.
Depois de ter certeza que meus pulmões já haviam filtrado ar o bastante pra voltar, e que minhas pernas conseguiam se locomover sem vacilo, saí da pequena dispensa, rumo a sala de aula. Adentrei a sala, ainda pálida, e graças a Deus –e ao Professor Brian- a atenção estava toda voltada para o mesmo, e somente para ele. Segui cabisbaixa até minha carteira, onde Fran já me olhava de lado.
– Aconteceu algo, né? – Fran me perguntou, mesmo já sabendo a resposta. Ela esperou que eu respirasse fundo, me acompanhando e franzindo a testa. Aquilo não seria fácil.
– Estou trocando mensagens com o professor Leon. – Falei baixo. Baixo e rápido, quase não entendendo o que acabara de pronunciar.
– VOCÊ O QUÊ? AI MEU DEUS.- Fran gritou, não tão alto, mas à medida que eu pudesse ouvir até mesmo seu espanto.
– Soou tão estranho como eu pensei? – Falei, finalmente podendo respirar. Sentei-me no meu devido lugar, virando-me para a mesma, que ainda suportava um semblante impactado.
– É só... estranho.
– É, eu sei. – Respondi, lamentando.
– Vocês não se gostavam. Aí do nada, TAN, tão trocando mensagens. – Ela reproduziu o TAN com um som extremamente engraçado, e eu não pude contar o riso. Ri, cada vez mais intensificado, brincando com minha mente. O mundo realmente dá voltas.
O celular que ainda estava no meu bolso vibrou, e eu dei um pulinho involuntário. Depois de todo o reboliço causado no meu estômago, eu não estava preparada pra algo mais, seja lá o que fosse. Peguei o celular, sem coragem alguma e então, Fran, tomou-o de mim, piscando várias vezes, ainda não acreditando.
– Ai meu Deus, o que foi? – Falei, assustada e apavorada com as expressões da garota.
Ela leu o pequeno texto, pausadamente me fazendo sentir a mesma sensação de alguns minutos atrás, as pernas tremulas. Peguei o celular bruscamente, lendo o texto com os olhos cheios de chamas.
“Na verdade, há sim algo que você possa fazer pra me ajudar. Quer passear? Tomar um ar? Sei lá... Andar é bom!” xxLeon.
– VILU, VOCÊ VAI ACEITAR? NÃO VAI? – Fran gritou, não se contendo e recebendo olhares rudes dos colegas ao lado.
– Claro que não. Tá louca!!! – Respondi devagar, pois ainda me faltava o ar. Sorri ao ver Francesca reler o texto e repeti à mim mesma: NÃO, eu não posso.
– VOCÊ SÓ NÃO PODE, COMO VAI, ORAS! – Ela disse autoritária. Quando percebi, a mesma já havia respondido a mensagem sem meu consentimento. Pensei em repreende-la, mas seria inútil. Afinal, aquilo seria meu álibi para a aceitação. Peguei o celular para ler a resposta, e me surpreendi em ver que Leon já havia respondido.
– Rápido ele. – Fran disse rindo, e eu sorri fraco, com medo da resposta.
“Claro! Onde nos encontramos?” xxVioletta. – Senti meu corpo ferver, e minhas bochechas queimarem.
“Você escolhe. Menos shopping, por favor. Rs ” xxLeon
– Fran, e agora? – Olhei apavorada. – Eu escolho. AI MEU DEUS.
– Relaxa, Vilu. — Ela disse calma demais pra ocasião.- Praia?
– Praia? Tá louca? Parece um convite pra ficarmos seminus. – Rimos juntas.
– HMMMM, até que não seria má ideia. – Fran esboçou um semblante malicioso, e mordeu o lábio inferior tentando seduzir.
– Cala a boca. – Mostrei o dedo do meio. – Eu só conheço um lugar perfeito, mas é meio estranho.
– Meio estranho, como assim? – Perguntou.
– É uma sorveteria, Fran. E tipo, ele está com febre, deve estar gripado também. – Sorri triste. Eu tinha gostado tanto daquele lugar, queria compartilhar com Leon.
– Foda-se. – Fran respondeu rápido. – Ele mandou você escolher.
– Ai, beleza! – Respondi sem saída.
“Sorveteria? Conheço uma perfeita ;)” xxVioletta.
“Perfeito! Depois da aula? Me passa o endereço e nos encontramos lá.” xxLeon.
Passei o endereço sentindo meu estômago se contorcer. Iriamos nos encontrar em publico, problema a vista.
– Que se foda esse povo. – Ouvi Francesca murmurar enquanto eu digitava o endereço e a hora adequada. 14:00 horas.
– Preciso de ajuda com a roupa. Almoço em casa ou na rua? – Perguntei.
– Não trouxe grana. Na sua casa tá bom. E sobre a roupa, eu iria sem. – Soltou uma gargalhada alta recebendo novamente olhares brutos tomados pela frustração dos colegas de sala.
– Cala a boca, nojenta. – Mostrei a língua e gargalhei junto.
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