Somebody to love.
13 Praia.
Notas iniciais
O resto da aula passou deixando rastros de agonia em Violetta. A prova disso fora suas unhas totalmente roídas no final do período.
– Vilu, seu pai não vai ficar bravo se eu for almoçar na sua casa? – Francesca confrontou a menina, estando notavelmente preocupada.
– Claro que não, sua idiota. Ele adora você. – Respondeu, dando um leve tapa na cabeça da amiga.
– AI! – Gritou enquanto arrumava o cabelo rapidamente ao ver Marco passar em um pequeno vão no meio da multidão.
– Você tá caidinha por ele! – Violetta disse com prontidão.
– Cla-cla-claro que não! Ele é legal, só isso.
– Você tá tentando enganar quem, Fran? Eu ou ele? – Riu sem humor algum.
– Você definitivamente não sabe o quão ridículo isso soou. É claro que nenhum dos dois. – Forçou a voz na tentativa de transparecer certeza. Por fim, rendeu-se – Ok, ok, eu admito.
– EU SABIA! – Violetta soltou um grito agudo mais alto que o esperado.
– Fala baixo, vadia.
– Desculpa, foi a força do momento. – As duas continuaram rindo das caretas irreconhecíveis e conversando sobre a suposta queda de Fran pelo novato por mais alguns minutos, quando enfim o sr. Castillo foi busca-lás.
Depois de almoçadas, subiram para o quarto que antes de ser adentrado pelas mesmas, encontrava-se com tudo no lugar. Violetta, que estava com os nervos a flor da pele, despiu-se e fora direito pro banho.
Violetta’s pov.
Fora, talvez, o banho mais demorado. Saí do banheiro, e enquanto me enrolava na toalha, me fitei no espelho encima da pia. A mesma Violetta fisicamente; A mesma garota com os cabelos castanhos e os olhos fundos depois de noites frias. O que restara da antiga argentina saudosa da sua pátria? Eu me perguntava ferozmente. “O tempo é agridoce como a droga mais perigosa”, minha mente dizia à mim mesma. Espantei os fantasmas que pairavam minha mente, enrolei meu cabelo em uma toalha seca, e corri para o closet onde me vesti com minha camisola de sempre.
– Fran, preciso da sua ajuda, tipo agora. – Corri até ela segurando algumas blusas – Tô com medo de usar a errada.
– Ai, Vilu, relaxa um pouco. Qualquer uma que não diga oi, quer transar? tá ótimo.
– Claro que não! – Respondi fria- eu tenho que dar boa impressão.
– Vilu, a única impressão que você tem que dar e que você não vai dar. – Ela riu loucamente com o trocadilho.
– Ai ai, muito engraçada. Talvez eu queira dar, e daí? – Dessa vez, quem riu fui eu. Ri, porque no fundo sabia que era mentira. Eu não passava de uma virgem que na verdade só havia beijado quatro meninos na vida. Pra mim, virgindade era um assunto sério e que precisava ser prezado, gostando ou não. Eu, confesso, já me tornara tão rotineira à esse assunto que não fazia mais diferença uma barreira rompida ou não.
– Ui, agora eu vi valor. Mas sério, não se preocupa com isso não. Um short e essa blusa tá ótimo. – Ela apontou pra uma blusa azul marinho. – Ah, esse cardigã também. – O cardigã era branco, rendado nas costas e com perolas em lugar de botões.
– Perfeito! Ele combina com a blusa e com a sapatilha. Combina, né? – Perguntei mais para mim mesma do que para ela.
– Uhum.
Peguei as peças e fui direto pro closet, onde me troquei e soltei o cabelo, o deixando natural. Passei corretivo embaixo dos olhos tentando esconder as olheiras, e um pouco –muito- de rímel para dar destaque aos olhos. No lábio, apenas um brilho labial leve. Saí do closet e fui de encontro de Fran, que estava deitada na cama vendo alguma coisa estranha na tv ao lado.
– Ei, como estou? – Girei os calcanhares e quando voltei a visão para ela, a mesma se encontrava com a boca em espécie de ‘o’. Ou eu estava definitivamente muito feia a ponto de tal expressão, ou estava apresentável demais.
– ARRASOU! – Ela me olhou como um caçador e eu sua presa. Era por esse e outros mil e um motivos que eu a amava. Ela era simplesmente ela, sem receios nem mentiras.
– Obrigada. Agora já podemos acabar com as gracinhas e nos pegar, gata? – Dei uma palmada em sua bunda. Tínhamos intimidade, e aquilo era, à nossos olhos, normal. – Não, sério, já são 13:25, precisamos pedir um táxi.
– Concordo. – Ela fez que sim com a cabeça e saiu do quarto, me deixando sozinha por pouco.
Peguei uma bolsa bege e a carreguei com celular, óculos escuros e algumas presilhas caso precisasse prender o cabelo. Gargalhei ao ver Francesca, que já havia descido os degraus da pequena escada, dançando com Olga de modo extremamente constrangedor.
– Olga, linda do meu coração, vou sair com a Fran. Não sei a hora que volto, mas não se preocupe, tudo bem?!
– Tome cuidado, pequena. – Ela beijou minha testa me entregando algumas notas de dinheiro.
– Sempre tomo. – Pisquei. – Ei, viu a Fran? FRAN? – A garota tinha sumido da sala, não estava em nenhum dos quatros cantos. Varri com os olhos novamente. Nada.
– Tô aqui. Alguém tinha que pedir um taxi, não acha! – Ela estava na cozinha, encostada ao telefone da parede. Ri, orgulhosa do carinho da menina. Ela sequer iria comigo até a sorveteria, mas estava se preocupando, me ajudando a tornar aquele dia perfeito.
Mais dez minutos de conversa perdida, e lá estávamos nós duas, paradas em frente a minha casa, nos despedindo e me fazendo mentalmente e fisicamente entrar naquele táxi rumo ao encontro. O fiz, mesmo temendo. A viagem era longa, pois a sorveteria tinha uma certa distancia. Encostei minha cabeça no vidro gelado, na intenção de sorver os pensamentos ruins. Boba. Idiota. Nada, definitivamente, estaria mais gelado que meu coração e minha mente naquele momento. Era cortante, sangrava por dentro. Pela primeira vez em muito tempo, eu estava sem reação. Não sabia o que sentir, o que pensar, sequer o que fazer. Continuei a viagem, aquilo já estava longe demais pra acabar assim, sem explicações e medidas sórdidas.
O carro parou enfrente a sorveteria que antes fora a minha predileta. Paguei o motorista e rumei a uma mesinha perto do hall de entrada da sorveteria. Faltavam ainda dez minutos pro combinado, então decidi sentar-me e pedir uma água pra acalmar os nervos.
– Me ajuda a não surtar, por favor. – Olhei pra cima, como se estivesse falando com Deus. E, no momento, eu realmente estava.
Voltei toda a minha atenção para a garrafa. Um momento extremamente cômico à quem assistisse. Eu a fitava com tanta vontade, que, se estivéssemos no corpo de algun x-men, sairíamos de lá queimadas ou algo parecido. Ri, mais pra dentro do que pra fora. Quem estava tentando enganar? Eu ainda era uma criança viciada em tartarugas ninjas e três espiãs demais.
– Vilu? – Paralisei. Aquela voz, aquela maldita voz de rock pornô. Eu queria olhar o dono da maldita, mas não o fiz. Não o fiz por não ter coragem o suficiente; Por ainda ser a menininha chorando no corredor da escola suplicando para que a mãe voltasse. Continuei cabisbaixa, como se não tivesse o ouvido nem o visto. – Desculpa, acho que me atrasei. – Ele se sentou na cara frente à minha. Aquela era a deixa perfeita. Pegar ou correr. Escolhi, depois de mais alguns segundos paralisada, pegar.
– Ah, não se preocupe, eu cheguei adiantada. – Sorri fraco, fitando com cuidado cada pedacinho daquele maravilhoso corpo. Ele estava com uma bermuda clara, uma camiseta com a gola em forma v e uma camisa xadrez roxa e branca. Nós pés, era visível um vans extremamente branco, forçando a limpeza. Suas íris, hoje em especial, estavam ainda mais verdes, se é que era possível. E o sorriso transbordava simplicidade. Leon, era sem sombra de duvidas, um eterno adolescente em seu teenage dream.
– Estranho eu ter me atrasado, porque aqui é minha casa. – Ele riu, me surpreendendo. Quer dizer então que eu propus que nosso primeiro encontro fosse na casa dele. Digo, na sorveteria dele? E, aliás, como essa sorveteria era dele e eu não sabia de nada? Lara não seria tão ordinária a ponto disso, seria? Porra. – Mas acho que você não sabia disso. – Ele voltou a sorrir, mas dessa vez como explicação. Como aquele satírico conseguia ser tão calmo e sorrir pra tudo, até pra isso? Sorri de volta para não parecer mais antipática do que já estava.
– Essa sorveteria é sua? É, isso eu realmente não sabia. – Sorri amarelo.- Então comece me explicando o porquê de ter o desenho de um lagarto bem no hall de entrada. – Agora fora a vez de Leon sorrir verdadeiramente, o que me motivou a sorrir junto. O sorriso dele era contagiante demais, eu já mencionei isso?
– Sim, é minha. Mas quem realmente cuida é meu pai. Sempre foi o sonho do velho vender sorvetes. E sobre o lagarto, hum... é estranho dizer, mas lagartos sempre foram meus animais preferidos.
– Levando em conta que meu animal preferido é cobra, isso não é tão estranho.
– SÉRIO QUE VOCÊ GOSTA DE COBRAS? – Ele proferiu animado.
– Sim. – Disse, calma e devagar com a testa franzida. – Por que?
– Seria muito estranho eu te convidar pra ir na minha casa, mais exatamente no meu quarto no primeiro encontro? – Ele disse cabisbaixo. O olhei de soslaio, e estava nítido que suas bochechas queimavam. Sim, era estranho. Era quase um convite pra sexo grátis, se não fosse pra mim. Era um risco a correr. Até porque, nenhuma barreira seria rompida. Não naquela tarde.
– Sim, seria. – Respondi sinceramente. – Mas estamos falando de você e eu, nada é mais estranho que nós dois.
– É, concordo. Então, vamos? – Ele estendeu a mão para que eu pudesse agarra-la e seguir caminho.
– Não. Primeiro um pedido meu.
– Tá. – Ele fez que sim com a cabeça mas continuava pensativo.
– Vamos pra praia? Eu não fui desde que cheguei aqui, e hoje tá um dia tão lindo. Vamos, por favor?
– Praia? Qual é, Vilu. – Ele suplicou, fazendo cara de criança que acabou de perder o brinquedo. Isso me martirizou muito, mas não a ponto de matar meu fetiche por praia.
– Vamos, por favor. Eu nunca fui a nenhuma praia brasileira. – Esbocei uma cara ainda mais infantil que a dele, e ele riu, quase cedendo. Talvez eu não fosse tão ruim assim.
– Mas isso seria quebrar as regras, não seria?
– Regras? — Indaguei, fitando seriamente os olhos esverdeados que tanto conhecia — Ah, elas foram feitas para serem quebradas, meu querido professor. Aliás, já quebramos trilhões delas a partir do momento em que ousamos trocar as primeiras mensagens. Isso, aqui e agora, é só repercussão do já havíamos quebrado. Então, seja um bom samaritano e me siga. — Levantei rapidamente, o levando junto em um só puxão de mão. Ele, que mesmo tímido, sorriu cabisbaixo. – Vamos aproveitar que só precisamos andar dois quarteirões e pronto, seu preguiçoso.
– Ninguém citou a preguiça aqui, risadinha. Mas beleza, vamos. – Ele me seguiu.
– Acho melhor você ir na frente, princesa. Sabe, eu ainda não me acostumei muito com o termo morar no Rio de Janeiro e saber andar decentemente aqui. – Ri fungando e o deixando tomar frente.
– Também não se acostumou muito com o sotaque né, senhorita tudo soa estranho. Aliás, eu sei que você quer olhar minha bunda, não venha com cavalheirismo pro meu lado não. – Ele riu, mas continuou andando na frente me guiando. Eu ri também. Ri por estar conhecendo um Leon tão diferente daquele ogro carrancudo da sala. Ri por tê-lo odiado por tanto tempo e estar prestes a curtir um dia de praia com ele. Ri, somente pela situação que, por mais estranha que fosse, estava me deixando completamente feliz.
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