Talvez Scorpius não fosse mesmo a pessoa mais centrada do universo. Sua mãe sempre lhe dizia, com um meio sorriso, que uma pitada de responsabilidade não fazia mal a ninguém. Ele vivia esquecendo os prazos de entrega dos deveres, os dias dos treinos de quadribol, a senha para a sala comunal da Sonserina e seus materiais nunca pareciam estar no lugar onde acreditava ter colocado, mas ele nunca se deu muito mal por causa daquilo. Em geral conseguia contornar razoavelmente bem aqueles pequenos eventos em sua vida.

Mas aquilo era um pouco diferente.

Scorpius costumava perder coisas sem muito valor, como um relógio ou o seu livro de Aritmância, mas nunca aquele caderno, que continha todos os seus textos. Coisas sem sentido que escrevia, mas ainda assim pessoais — e não lhe agradava a ideia de que alguém, em algum lugar do castelo, estivesse rindo dele. Quando deu por falta do caderno naquela manhã, revirou todo o dormitório a sua procura, deixando um Alvo irritado e resmungão, pois era sábado e queria se dar ao luxo de acordar um pouco mais tarde.

No fim, não encontrou nada.

— Cara, uma hora vai acabar aparecendo — Alvo o tranquilizou, dando um tapinha amigável nas costas do amigo e enchendo a boca com um punhado de mingau de aveia — Talvez da próxima vez que você limpar o seu malão.

— Certo — disse Scorpius sério e se levantou da mesa. Não sentia fome, de qualquer jeito — Preciso ir ao Corujal... enviar uma carta para mamãe — explicou para Alvo — A gente se vê mais tarde.

Scorpius estava quase na metade do caminho para o Corujal quando trombou com uma pessoa. Ele ergueu os olhos e viu Rose Weasley, uma garota pequena, de cabelos flamejantes e revoltos, intensos olhos amendoados e bochechas rosadas e salpicadas por delicadas sardinhas. Ela era meio que adorável, pensou Scorpius sem querer. Eles ficaram parados, um na frente do outro.

— Ah — ele sorriu pelo canto da boca depois de um tempo, se afastando do caminho para que a garota passasse — Desculpe.

Mas ela não se moveu.

— Hã... Scorpius — Rose tirou a mochila das costas e apanhou um caderno que ele logo reconheceu —, acho que isto é seu.

— Valeu! — respondeu e precisou se controlar para não abraçar a garota ali mesmo. Não poderia estar mais aliviado — Você não leu, leu?

Perguntou em tom de brincadeira, mas a garota ficou pálida de repente.

— Não! — Rose se apressou a dizer, mas então emendou: — Quero dizer... Sim.

— Você leu?!

— Sim — admitiu — E... E-eu sei que foi errado... Me desculpe.

Scorpius não respondeu, apenas a encarou sem acreditar. Ela deu um sorrisinho constrangido e, em seguida, perguntou:

— O que acha de participar do jornal da escola?