Sombras da Eternidade
3 Proximidade Mortal
O mundo parecia ter-se tornado mais estreito desde que Lysandre conhecera a morte… e sobrevivera.
Caminhava agora por trilhos que antes evitava, sentindo a presença dele mesmo quando não estava ali. Cada sombra parecia observá-la, cada rajada de vento murmurava o nome que ela não devia repetir em voz alta.
Malthael.
— Não penses nele — disse a si mesma, sem grande convicção.
Mas era inútil.
A noite caía quando sentiu novamente aquela mudança subtil no ar. Não houve aviso, nem frio imediato. Apenas a certeza profunda de que já não estava sozinha.
— Estás a desafiar-me outra vez — disse a voz atrás dela.
Lysandre virou-se devagar. Ele estava ali, à margem do bosque, meio envolto na penumbra. As asas permaneciam recolhidas, como se tentasse ocupar menos espaço no mundo.
— Eu não te chamei — respondeu ela.
— Mas pensaste em mim — corrigiu ele.
Ela engoliu em seco.
— Isso não é justo.
— Nada disto é — respondeu Malthael, aproximando-se. — Cada passo teu aproxima-te de um fim que não devia ser adiado.
— E cada vez que apareces — retorquiu ela — afastas-me dele.
Ele parou a poucos passos, como se uma linha invisível os separasse.
— Vejo que estás a aprender — disse. — Isso torna-te mais perigosa.
— Para quem?
— Para mim — respondeu, sem hesitar.
O coração de Lysandre acelerou. Nunca o ouvira admitir algo com tanta clareza.
— Então, porque continuas a vir? — perguntou. — Se a minha proximidade te ameaça?
Malthael desviou o olhar, algo raro nele.
— Porque a morte observa tudo — disse. — Até as próprias falhas.
Ela deu um passo em frente. Depois outro. A distância diminuiu, e o ar entre eles tornou-se denso, quase eléctrico.
— Não te vou tocar — disse ela, como se lesse os pensamentos dele. — Mas preciso de saber se és real… ou apenas o medo que ganhou forma.
Ele fechou a mão em torno da foice.
— Se me tocares — advertiu — algo irreversível acontecerá.
— A mim… ou a ti?
Ele não respondeu.
O silêncio prolongou-se, pesado. Ela podia sentir o frio da presença dele a envolver-lhe a pele, mas havia algo mais agora. Um peso diferente. Um eco de calor impossível.
— Disseste que os laços humanos são perigosos — murmurou ela. — E, no entanto, continuas a criar um comigo.
— Não escolhi isto — respondeu Malthael, a voz mais baixa. — A tua alma ressoa de forma errada. Não devia ecoar no vazio.
— Talvez porque não pertenço ao vazio — disse ela suavemente. — Nem tu.
Ele ergueu o rosto bruscamente.
— Não me compares aos vivos — disse, num tom mais duro. — Não sabes o que fui obrigado a deixar para trás.
— Então fala-me disso — pediu ela. — Fala-me do que perdeste.
As asas dele estremeceram ligeiramente.
— Perder implica apego — respondeu. — E eu fui moldado para o abandonar.
— Mesmo assim… — insistiu ela — algo em ti ainda lembra.
Ele permaneceu imóvel por longos segundos.
— Lembro-me do silêncio antes de tudo — disse por fim. — Antes da ordem. Antes da guerra. Antes de eu ser apenas uma função.
Lysandre sentiu o peito apertar.
— E isso dói?
— Tudo o que não devia existir… dói — respondeu.
Um som ecoou ao longe. Um rasgar do ar. Algo aproximava-se.
Malthael ergueu a cabeça de imediato.
— Afasta-te — disse ele, com urgência. — Eles sentem-te agora.
— Quem? — perguntou ela, com medo a subir-lhe à garganta.
— Outros como eu — respondeu. — E não hesitam.
O chão pareceu vibrar.
— Não me deixes — disse ela, num impulso.
Ele virou-se para ela de imediato.
— Não compreendes o que pedes.
— Compreendo que ficar sozinha agora… é morrer — respondeu, a voz a tremer.
Malthael aproximou-se de repente e, pela primeira vez, colocou-se deliberadamente à frente dela. As asas abriram-se, imensas, envolvendo-a numa sombra protectora.
— Fica atrás de mim — disse.
— Estás a escolher-me — murmurou ela.
— Estou a adiar o inevitável — corrigiu, mas havia tensão na voz.
Uma figura luminosa surgiu entre as árvores, envolta numa luz fria e implacável.
— Malthael — ecoou uma voz etérea. — A alma humana não te pertence.
Ele não se virou.
— Afasta-te — disse.
— Estás a desviar-te do teu propósito — respondeu a figura.
Lysandre sentiu o medo gelar-lhe o sangue.
— Isto é por minha causa? — sussurrou.
— Sim — respondeu ele. — É por isso que é perigoso.
A presença aproximou-se mais, e Malthael ergueu a foice.
— Vai — disse ele a Lysandre, sem olhar para ela. — Agora.
— Não — respondeu, agarrando-lhe o manto. — Não desta vez.
O contacto foi breve. Um toque involuntário. Mas suficiente.
O mundo pareceu estremecer.
Malthael estremeceu como se tivesse sido atingido por uma lâmina invisível.
— Não… — murmurou. — Isto não devia acontecer.
Lysandre sentiu o coração disparar.
— O quê?
Ele virou-se para ela, e pela primeira vez não havia apenas distância no seu olhar. Havia conflito.
— Cada vez que te aproximas — disse — eu afasto-me daquilo que sou.
O anjo ao longe recuou, alarmado.
— Malthael… — avisou.
— Vai-te embora — ordenou ele à figura. — Antes que eu escolha errado.
O ser de luz desapareceu num rasgar do ar.
O silêncio regressou. Malthael afastou-se bruscamente de Lysandre.
— Não voltes a tocar-me — disse, com a voz trémula de raiva contida. — Se o fizeres… posso não conseguir parar.
— Parar o quê? — perguntou ela, quase em sussurro.
Ele fechou os olhos.
— De te proteger… ou de te levar comigo.
Lysandre sentiu o peso daquelas palavras como uma sentença e uma promessa ao mesmo tempo.
A proximidade entre eles tornara-se mortal. E ambos sabiam que o próximo encontro já não poderia terminar sem consequências.
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