Sombras da Eternidade

4 Tentação das Sombras


O silêncio que se seguiu ao último encontro não trouxe paz.

Trouxe ausência.

Lysandre tentou convencer-se de que era melhor assim. Dias inteiros passaram sem sentir o frio antigo, sem ouvir a voz que ecoava como pedra a rasgar o vazio. Dormiu mal. Teve pesadelos. Sonhou com asas feitas de sombra a envolverem-na, com uma voz que dizia o seu nome como se fosse uma oração proibida.

— Isto está a destruir-me — murmurou, sentada junto à fogueira quase apagada.

O mundo dos vivos continuava igual. As pessoas passavam, falavam, riam. Mas ela sentia-se deslocada, como se uma parte de si tivesse ficado presa noutro plano algures entre a vida e a morte.

Foi nessa noite que ele voltou.

Não com o frio habitual. Não com a presença esmagadora. Veio… silencioso demais.

Lysandre sentiu-o atrás de si antes mesmo de se virar.

— Disseste que não voltarias — disse, sem o encarar.

— Disse muitas coisas que já não controlo — respondeu Malthael.

Ela virou-se devagar. Ele estava diferente.

As asas permaneciam recolhidas, mais escuras, como se absorvessem a luz em vez de a reflectirem. A foice não estava visível. E havia algo no modo como se mantinha ali menos distante, mais… vulnerável.

— Estás ferido? — perguntou, instintivamente.

— Não da forma que compreendes — respondeu.

Ela aproximou-se um passo.

— Então da forma como eu sinto.

Ele estremeceu.

— Não te aproximes — disse, mas não recuou.

— Disseste isso da última vez — respondeu ela. — E mesmo assim ficaste.

Silêncio.

— Cada encontro contigo enfraquece-me — confessou Malthael, a voz mais baixa. — A ordem observa-me. Questiona-me.

— E isso assusta-te? — perguntou Lysandre.

— Mais do que o vazio — respondeu.

Ela sentiu o coração apertar.

— Porque não te afastas, então?

Ele ergueu o rosto. O vazio do elmo parecia fixo nela, intenso.

— Porque há algo em ti que chama — disse. — Algo que não pertence a este mundo… nem ao meu.

— Talvez seja só solidão — murmurou ela.

— A solidão não quebra leis eternas — respondeu.

Ela respirou fundo.

— Olha para mim — disse.

— Não devo.

— Olha… — insistiu.

Por um instante interminável, ele permaneceu imóvel. Depois, lentamente, ergueu a mão, como se lutasse contra uma força invisível, e tocou-lhe no queixo sem pele, sem calor, mas com uma delicadeza impossível.

O mundo pareceu prender a respiração. Lysandre fechou os olhos.

— Malthael… — sussurrou.

O toque não era físico como o dos vivos. Era algo mais profundo. Uma pressão suave na alma, um reconhecimento silencioso.

— Se continuar… — disse ele, com a voz trémula — não haverá retorno.

— Talvez nunca tenha havido — respondeu ela.

Ele afastou a mão abruptamente.

— Não compreendes — disse, dando um passo atrás. — O que sentes é tentação e isso passa.

— E o que sentes tu? — perguntou.

Silêncio. As sombras à volta ondularam, inquietas.

— Culpa — respondeu finalmente. — E desejo.

A palavra caiu entre eles como um golpe. Lysandre sentiu o peito apertar-se.

— Desejo de quê?

— De te manter viva — disse. — De te esconder daquilo que sou.

— Isso não é desejo — respondeu ela suavemente. — Isso é cuidado.

Ele virou-se bruscamente.

— Não o chames assim! — disse, com uma dureza que não escondia o conflito. — O cuidado é cria laços. E os laços… levam à perda.

— Talvez — disse ela, aproximando-se outra vez. — Mas também dão sentido.

Ele fechou os olhos.

— Não quero sentir isto — murmurou. — Não fui feito para querer.

— Ninguém é feito para amar — respondeu ela. — E mesmo assim… acontece.

O vento ergueu-se de repente. Um sussurro antigo percorreu o espaço, carregado de aviso.

Malthael ficou rígido.

— Eles aproximam-se — disse. — A tentação deixa rasto.

— Então fica — pediu ela. — Não me deixes sozinha com isto.

Ele hesitou. O corpo parecia dividido entre avançar e desaparecer.

— Se ficar — disse — corro o risco de escolher-te… acima de tudo.

Lysandre estendeu a mão.

— Então escolhe — disse, a voz firme apesar das lágrimas nos olhos.

Por um instante, ele pareceu dar um passo em frente. Depois, o ar rasgou-se. Uma presença antiga, severa, manifestou-se à margem da clareira.

— Malthael!!! — ecoou a voz. — Estás a cruzar uma fronteira irreversível.

Ele ergueu a cabeça.

— Já a cruzei. — respondeu.

Lysandre sentiu o coração parar. A figura aproximou-se.

— A humana será a tua queda.

Malthael olhou para Lysandre.

— Ou a minha escolha — disse.

A presença recuou, alarmada, e desapareceu. O silêncio caiu pesado.

Malthael virou-se para Lysandre, a voz baixa, quase quebrada.

— Não posso proteger-te de tudo — disse. — Nem de mim.

Ela aproximou-se e, desta vez, não pediu permissão. Encostou a testa ao peito dele.

— Então não me protejas — sussurrou. — Fica comigo.

As asas dele envolveram-na lentamente, num gesto instintivo. Foi um abraço que não devia existir.

E, naquele momento, ambos souberam: A tentação deixara de ser sombra e tornara-se escolha.