Sombras da Eternidade

7 O Último Abraço


A noite parecia mais escura do que nunca.

Não era apenas a ausência de luz era um silêncio pesado, quase consciente, como se o próprio mundo soubesse que algo estava prestes a quebrar-se para sempre.

Lysandre permanecia sentada no chão frio do quarto, as costas encostadas à parede, os braços apertados contra o corpo. Os olhos ardiam-lhe de tanto chorar, mas já não havia lágrimas suficientes para aliviar o aperto no peito. As palavras do emissário ecoavam-lhe na mente, cruéis e definitivas.

Tu és a escolha.

— Não… — murmurou, com a voz fraca. — Eu não queria ser uma escolha.

O ar à sua frente ondulou.

As sombras moveram-se como se fossem puxadas por uma força invisível, reunindo-se lentamente até tomarem forma. Lysandre levantou a cabeça num sobressalto, o coração a disparar.

— Malthael… — sussurrou.

Ele surgiu diante dela, mais sombrio do que nunca. As asas estavam abertas, agitadas, como se lutassem contra algo que o queria prender. O elmo ocultava-lhe o rosto, mas Lysandre sentia a dor dele como se fosse sua.

— Não devias estar aqui — disse ela de imediato, levantando-se com dificuldade. — Eles vão destruir-te.

— Já tentaram — respondeu ele, com a voz baixa, carregada de tensão. — Não conseguiram.

Aproximou-se um passo. Lysandre recuou instintivamente.

— Não — disse, erguendo a mão. — Não te aproximes.

Malthael parou.

— Porque foges de mim? — perguntou.

Ela respirou fundo, reunindo a pouca coragem que lhe restava.

— Porque se ficares… morres. — A voz dela quebrou. — E eu não consigo viver, sabendo que fui eu a causa disso.

O silêncio caiu entre eles, pesado.

— Eles vieram falar contigo — disse ele, num tom grave.

Lysandre desviou o olhar.

— Vieram?

— Disseram-te o que está em jogo?

— Sim disseram.

Malthael fechou os punhos.

— Então sabes que não posso escolher a Ordem.

— E sabes que não podes escolher-me — respondeu ela, com firmeza forçada.

Ele avançou outro passo.

— Não me peças isso.

— Não estou a pedir — disse Lysandre, as lágrimas a voltarem-lhe aos olhos. — Estou a implorar.

— Lysandre…

— Olha para mim.. — interrompeu ela. — Por favor…

Ele hesitou, depois o elmo dissipou-se em sombras, revelando o rosto marcado pela angústia. Os olhos dele, outrora vazios, estavam agora cheios de algo profundamente humano.

— Eu sobrevivi a perder tudo — continuou ela. — A minha família, o meu lar, a minha inocência. Vivi porque aprendi a aceitar a dor. Mas tu… — engoliu em seco. — Tu és diferente. Tu ensinaste-me que ainda era possível sentir algo bom neste mundo.

Malthael aproximou-se lentamente, ignorando o perigo.

— E tu ensinaste-me que a morte não precisa de ser vazia. — respondeu ele. — Que pode haver significado até no fim.

— É por isso que tens de ir — disse ela, com um sorriso triste. — Porque tu ainda tens um papel a cumprir. Eu… eu sou apenas uma passageira.

— Nunca digas isso — disse ele, com dureza. — Tu és tudo menos passageira.

Ela soltou um riso breve, entre lágrimas.

— Olha para nós. Isto nunca poderia durar.

— Eu sabia disso desde o início — confessou Malthael. — Cada momento contigo foi contado. E mesmo assim… — a voz falhou-lhe pela primeira vez — eu escolheria outra vez.

Lysandre deu um passo em frente.

— Se me amas, — disse, quase num sussurro — deixa-me ir.

O mundo pareceu parar. Malthael estendeu a mão, os dedos a tremeram-lhe ligeiramente.

— Não sei como existir sem ti agora.

Ela pousou a mão sobre a dele.

— Vais aprender — respondeu. — Tal como eu aprendi a sobreviver sem tudo o resto.

Ele puxou-a para si num gesto súbito, desesperado.

O abraço foi intenso, quase doloroso. As asas envolveram-na, criando um refúgio breve contra o destino que se aproximava. Lysandre enterrou o rosto no peito dele, sentindo o eco de algo que não devia existir um coração a bater.

— Não me esqueças — murmurou ela.

— Nunca… — respondeu ele, a voz rouca. — Mesmo que o mundo se apague, tu serás a última coisa que levarei comigo.

Ela afastou-se ligeiramente, o suficiente para olhar para ele.

— Promete-me uma coisa.

— Tudo.

— Quando isto acabar… lembra-te que foste mais do que a Morte. Que foste capaz de amar.

Malthael fechou os olhos.

— Esse será o meu castigo. — disse. — E também a minha redenção.

Uma presença começou a formar-se à volta deles. A luz da Ordem infiltrava-se pelas sombras, reclamando o que era seu.

— Malthael, — disse Lysandre, sentindo o corpo a enfraquecer. — está na hora.

— Não, — rosnou ele. — ainda não.

— Malthael…Amo-te… — respondeu ela, tocando-lhe no rosto. — Obrigada… por me teres escolhido, mesmo sabendo que não podias ficar.

Ela inclinou-se e beijou-o. Foi um beijo contido, trémulo, mas carregado de tudo o que nunca poderiam viver. Quando se afastou, o corpo dela começou a dissolver-se lentamente em partículas de luz e sombra.

— Lysandre! — gritou Malthael, tentando segurá-la.

— Vive. — foram as últimas palavras dela. — Por nós….

Ela desapareceu. O silêncio que se seguiu foi absoluto.

Malthael caiu de joelhos, as asas abertas num gesto inútil, enquanto a dor o atravessava por completo.

— A escolha foi feita. — murmurou a voz da Ordem.

Ele levantou-se lentamente. Onde antes havia conflito, restava agora uma determinação fria, moldada pela perda.

— Então que o mundo trema — disse Malthael, onde a sombra a envolver-lhe novamente o corpo. — Porque a Morte lembra-se. E iria cobrar.