Sombras da Eternidade
8 O Confronto Final
O céu partiu-se.
Não com trovões ou relâmpagos, mas com um rasgar profundo, como se a própria realidade estivesse a ser aberta à força. A luz da Ordem desceu sobre o mundo como uma sentença, fria e impiedosa, varrendo as sombras que durante séculos tinham servido de abrigo aos esquecidos.
Malthael avançou sozinho.
Cada passo ecoava como um sino fúnebre, pesado, inevitável. As asas arrastavam fragmentos de noite pelo chão de pedra, deixando para trás marcas negras que fumegavam lentamente. Onde antes caminhava como executor da Ordem, agora caminhava como algo novo, algo ferido.
Algo que se lembrava.
Ele ergueu o olhar. À sua frente, as figuras etéreas da Ordem flutuavam num círculo perfeito, envoltas em luz dourada. Não tinham rosto, não tinham corpo verdadeiro, apenas intenção.
— O meu propósito morreu quando a tiraram de mim. — respondeu ele, com a voz firme, carregada de uma dor controlada à força.
As palavras caíam como lâminas. Malthael abriu os punhos lentamente.
— Ela era humana. — disse. — E foi isso que vocês nunca compreenderam.
A luz intensificou-se.
Ele deu um passo em frente.
— Eu existo para lembrar-vos do preço!!! — respondeu.
A Ordem reagiu.
A primeira onda de energia atingiu-o como um golpe físico, lançando-o vários metros para trás. Malthael cravou as lâminas no chão para se manter de pé, o impacto a reverberar-lhe pelo corpo. A dor era intensa, mas não o parou.
— Não… — murmurou, erguendo-se novamente. — Já não.
Avançou, cortando a luz com movimentos precisos, cada golpe rasgando fragmentos da Ordem que se dissipavam num grito silencioso. A batalha não era apenas física era uma guerra de vontades, de verdades enterradas.
As palavras foram cuspidas com desprezo. Malthael riu-se, num som baixo, quebrado.
— Não. — corrigiu. — Foi por escolha.
A memória de Lysandre surgiu-lhe com força. O sorriso contido. A coragem silenciosa. A forma como aceitara o fim sem pedir clemência.
— Ela não pediu para ser salva — disse ele, avançando mais. — Pediu apenas para ser lembrada. E eu vou honrar isso.
A Ordem reuniu-se numa única forma colossal, uma entidade de pura luz que fazia o ar vibrar.
O golpe seguinte foi devastador. Malthael caiu de joelhos, sentindo as asas a rasgarem-se parcialmente, a essência da Morte a instabilizar-se. A Ordem avançou, implacável.
Ele cuspiu sangue negro para o chão.
— Estão errados.
Com esforço, ergueu-se novamente. As sombras reuniram-se à sua volta, não como armas, mas como memórias. Fragmentos de vidas tocadas por Lysandre. Gestos pequenos, escolhas silenciosas, humanidade crua.
— Ela ensinou-me isto. — disse ele. — Que até o fim pode ser um acto de resistência.
A luz hesitou. Foi o suficiente.
Malthael avançou num último ataque, concentrando tudo o que restava da sua essência. O impacto entre sombra e luz foi ensurdecedor. O mundo tremeu, o céu abriu-se ainda mais, e por um momento pareceu que tudo iria desaparecer.
Quando a poeira assentou, restava apenas silêncio.
A Ordem estava fragmentada, dispersa, incapaz de manter a sua forma perfeita. A luz diminuía, enfraquecida.
Malthael permaneceu de pé, exausto, as asas destruídas, o corpo marcado por fissuras de energia instável.
— Eu sei. — respondeu. — E aceitarei o preço.
A luz extinguiu-se por completo. O céu fechou-se lentamente, deixando para trás uma noite estranhamente calma.
Malthael caiu.
Não em derrota, mas em rendição ao cansaço. O corpo começou a desfazer-se em partículas de sombra, a essência a regressar ao vazio de onde viera.
No entanto, antes que tudo se perdesse, sentiu algo. Uma presença suave.
— Ainda estás aqui… — murmurou, incrédulo.
A sombra à sua frente tomou forma. Lysandre não estava inteira, nem completamente sólida. Era um eco, uma memória persistente, sustentada pela escolha que ele fizera.
— Eu disse que não me esquecerias — respondeu ela, sorrindo.
Ele estendeu a mão, mesmo sabendo que não podia tocá-la.
— Eu falhei — disse. — O mundo continuará cruel. A morte continuará inevitável.
— Eu sei. — respondeu ela. — Mas lembras-te e isso muda tudo.
A imagem começou a dissipar-se lentamente.
— O que acontece agora? — perguntou ele.
— Agora, — disse Lysandre — tornas-te o legado.
Ela desapareceu. Malthael fechou os olhos. Quando os abriu novamente, já não era apenas a Morte. Era algo entre o fim e a memória. Algo que caminharia eternamente, não para apagar, mas para testemunhar. E enquanto houver alguém que se lembre… as sombras nunca estarão vazias.
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