Sombras da Eternidade

6 O Peso da Escolha


A luz da Ordem não era quente.

Era branca, implacável, sem misericórdia. Um brilho que não acolhia julgava.

Malthael ajoelhou-se no centro do Círculo, as asas recolhidas, o elmo inclinado num gesto que outrora fora natural. Agora, cada segundo ali parecia uma traição silenciosa ao que sentira nos braços de Lysandre.

— Foste chamado, — ecoou a voz do Conselho, múltipla, desprovida de identidade. — E demoraste a responder.

— Estava em missão — respondeu Malthael, firme, apesar da tensão que lhe percorria o corpo.

— Mentira por omissão continua a ser mentira.

O ar à volta dele tornou-se mais pesado.

— As sombras reagiram à tua presença. — continuou a voz. — Explica-nos porquê.

Malthael fechou os olhos. Por um instante, viu-a. O olhar dela, firme apesar do medo. O toque. O calor impossível.

— Houve… uma interferência — disse.

— Nomeia-a.

Silêncio.

— Nomeia-a, Malthael!!!

— Chama-se Lysandre — respondeu finalmente.

O Círculo estremeceu.

— Uma humana.

— Uma ligação proibida.

— Uma falha.

As palavras cortavam como lâminas.

— Não é uma falha — disse ele, levantando lentamente a cabeça. — É uma consequência.

— O que sentes não tem lugar aqui. — respondeu o Conselho. — Tu és a Morte.

— Fui moldado para isso. — corrigiu Malthael. — Mas nunca me perguntaram se queria sê-lo.

O silêncio que se seguiu foi mais assustador do que qualquer grito.

— A tua função é equilíbrio. Não o desejo.

— Então porque me deram consciência? — desafiou ele. — Porque me permitiram observar os vivos, aprender com eles, se não para compreender o valor do que retiro?

— Estás a justificar fraqueza.

— Estou a admitir verdade — respondeu. — E ela… fez-me lembrar quem eu era antes do vazio.

— Não existe “antes”.

— Existe!!! — insistiu Malthael. — Só foi enterrado.

O Conselho aproximou-se, as luzes convergiram sobre ele.

— Essa humana está a alterar-te.

— Não. — respondeu ele. — Está a despertar-me.

— E isso é inaceitável.

A sentença caiu como um trovão silencioso.

— Terás de escolher.

Malthael sentiu o peso dessas palavras atravessarem-lhe a essência.

— Escolher…? — murmurou.

— Ela. Ou a Ordem.

O mundo pareceu parar.

— Se a escolher… — começou ele.

— Será eliminada. — respondeu a voz, sem hesitação. — E tu serás apagado.

— E se escolher a Ordem? — perguntou, já sabendo a resposta.

— Eliminarás o vínculo. Com as próprias mãos.

Malthael fechou os olhos. Eliminar o vínculo. Eliminar o que sentia. Eliminar… Lysandre.

— Eu… Eu Não posso — sussurrou.

— Então condenas tudo aquilo que juraste proteger.

— E se a Ordem estiver errada? — perguntou ele. — Se o equilíbrio que defendem for apenas estagnação?

— Cuidado, Malthael.

— Não — respondeu, erguendo-se lentamente. — Chega de cuidado.

As asas abriram-se num gesto instintivo, as sombras ondulando em resposta.

— Não vou tocá-la — disse. — Não vou usá-la como exemplo. Se querem punição… que seja eu.

O Conselho ficou em silêncio.

— Então aceita o peso da escolha.

A luz apagou-se.

Lysandre acordou com a sensação de estar a ser observada.

Sentou-se de imediato, o coração acelerado. O quarto estava mergulhado na penumbra, mas algo no ar parecia… errado.

— Malthael? — chamou, em voz baixa.

Nada. Levantou-se e aproximou-se da janela. A lua estava encoberta por nuvens espessas, e as sombras pareciam mais densas do que nunca.

— Isto não é normal… — murmurou.

Um arrepio percorreu-lhe a espinha quando sentiu uma presença atrás de si.

— Não te mexas — disse uma voz desconhecida.

Ela virou-se bruscamente.

A figura diante dela era alta, envolta em luz branca, os olhos vazios de empatia.

— Quem és tu? — perguntou Lysandre, tentando manter a calma.

— Eu sou um emissário — respondeu. — E tu… és uma anomalia.

— Se vieste matar-me, — disse ela, com firmeza — então fá-lo de uma vez.

O emissário inclinou a cabeça.

— Curioso. Não estás a implorar.

— Já sobrevivi a coisas bem piores. — respondeu.

Ele aproximou-se um passo.

— Estás ligada à Morte. Sabes o que isso significa?

— Significa que ele escolheu sentir — respondeu ela. — E isso assusta-vos.

O emissário hesitou, por um breve instante.

— Ele está a ser julgado neste momento — disse. — E a tua existência pesa contra ele.

O coração de Lysandre apertou-se.

— Então eu sou o problema — murmurou.

— Tu és a escolha — corrigiu ele.

Antes que pudesse reagir, o ar à volta dela congelou.

— Se ele te escolher, — continuou a voz — tudo o que ele é deixará de existir.

Lysandre sentiu lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto.

— Então diz-lhe.. — sussurrou. — Diz-lhe que não me escolha.

O emissário olhou-a fixamente.

— Mesmo sabendo que isso te condena?

Ela assentiu.

— Eu amo-o — disse, com a voz a tremer. — E não vou ser a razão da destruição dele.

A presença desapareceu tão abruptamente como surgira.

Lysandre caiu de joelhos, soluçando.

— Volta… — murmurou, sem saber a quem falava.

Entre mundos, Malthael sentiu algo rasgar-se dentro de si.

Dor. Medo. E uma certeza cruel. Ela estava em perigo.

— Não!!! — rosnou, abrindo as asas. — Não vou deixar que a usem.A escolha estava feita. Mesmo que lhe custasse tudo.