Sombras da Eternidade
2 Laços Proibidos
A noite regressou como uma ferida que se recusava a fechar.
Lysandre sabia que devia ter partido ao amanhecer, afastar-se das ruínas, regressar à estrada segura, à vida que conhecia. Mas os passos levaram-na de volta ao mesmo lugar, como se algo invisível a puxasse pelas entranhas.
— O que estou a fazer… — murmurou, apertando o manto contra o corpo.
O vento cortava-lhe o rosto, trazendo consigo um frio diferente daquele que vinha do Norte. Este frio era mais profundo, mais antigo. Um frio que não vinha do mundo.
As sombras alongavam-se à sua frente, distorcidas pela luz pálida da lua. Cada passo parecia ecoar mais alto do que devia. O coração batia-lhe descompassado, dividido entre medo e uma estranha expectativa.
— Sei que estás aqui — disse, parando abruptamente. — Não te escondas.
O silêncio respondeu-lhe. LPor um momento, pensou que tinha imaginado tudo. O encontro da noite anterior. A voz. O olhar invisível.
Então, o ar mudou.
As sombras tornaram-se densas, como fumo a solidificar-se. Ele surgiu sem aviso, emergindo da escuridão como uma sentença inevitável.
Malthael.
As asas espectrais estendiam-se atrás dele, imóveis. A foice repousava na mão, mas não erguida. Observava-a em silêncio, como se avaliasse algo que não compreendia.
— Voltaste — disse ele.
A voz era neutra, mas havia algo diferente. Menos distante.
— Não estava nos planos — respondeu Lysandre, engolindo em seco. — Mas… precisava de respostas.
Ele aproximou-se lentamente. Cada passo parecia roubar o calor ao ar.
— Os vivos raramente procuram respostas na morte — disse. — Procuram o perdão ou o fim.
— Eu não procuro nenhum dos dois — disse ela. — Quero entender.
Malthael parou a poucos passos dela.
— Entender o quê?
Ela levantou o queixo, enfrentando-o.
— Porque me deixaste viver.
Silêncio. As sombras ondularam subtilmente à volta deles.
— Não foi uma escolha — disse ele finalmente. — Foi uma… impossibilidade.
— Isso não faz sentido.
— A morte raramente faz — respondeu.
Ela soltou uma gargalhada nervosa.
— És terrível a explicar coisas.
Por um instante, pareceu-lhe que algo se moveu nele. Um quase-gesto. Um eco de algo que poderia ter sido um sorriso, se ele fosse humano.
— Não fui criado para dar explicações. — disse ele. — Fui criado para terminar.
— E, no entanto, aqui estás — respondeu ela. — A conversar comigo.
— Não devia — disse Malthael, mais baixo.
O tom fez-lhe o peito apertar.
— Então por que não te vais embora? — perguntou.
Ele desviou o olhar. Um gesto simples, mas carregado de peso.
— Porque cada vez que me aproximo… o teu fio resiste.
Ela sentiu um arrepio.
— Estás a dizer que… eu deveria estar morta?
— Já deverias ter sido tomada — respondeu, sem crueldade. — Mas algo te prende ao mundo com uma força invulgar.
— Algo… ou alguém?
Ele voltou a fitá-la. O vazio do elmo parecia mais atento agora.
— Os laços humanos são frágeis — disse. — Mas perigosos.
— Perigosos para quem? — perguntou ela.
— Para mim.
A confissão pairou no ar entre eles. Lysandre deu um passo em frente, ignorando o instinto que lhe gritava para fugir.
— Tens medo? — perguntou, quase num sussurro.
Malthael ficou imóvel.
— O medo é uma emoção mortal.
— E mesmo assim… — insistiu ela. — Sentes algo.
Ele fechou a mão em torno da foice com mais força.
— Não devias estar aqui — disse, com a voz mais dura. — A proximidade corrompe.
— A quem? — perguntou ela. — A mim… ou a ti?
Ele virou-se bruscamente, como se a pergunta o tivesse ferido.
— Não sabes do que falas.
— Sei que, quando me olhas, não me vês apenas como mais uma alma — disse ela, a voz a tremer agora. — Sei que hesitaste. Sei que ainda hesitas.
O silêncio tornou-se pesado.
— Vai-te embora — disse ele. — Antes que seja tarde.
— E se eu não quiser? — perguntou.
Ele aproximou-se de repente, tão perto que ela sentiu o frio a envolver-lhe a pele.
— Então morres — disse.
Ela não recuou.
— Então mata-me.
Por um instante interminável, ficaram assim. O mundo inteiro parecia suspenso naquela distância mínima entre eles.
A foice ergueu-se. Depois… baixou.
— Ainda não é altura… — murmurou Malthael.
As palavras foram quase imperceptíveis. Mas suficientes para fazer o coração dela disparar.
— Porque não? — perguntou, a voz suave agora.
Ele afastou-se bruscamente, como se tivesse sido queimado.
— Porque cada vez que o teu nome ecoa no vazio… algo em mim responde.
Lysandre sentiu os olhos encherem-se de lágrimas.
— Isso assusta-te?
— Mais do que qualquer guerra — respondeu.
As sombras começaram a agitar-se violentamente.
— Não voltes! — disse ele, com a voz novamente fria, mas quebrada por baixo. — Estes laços são proibidos.
— Então porque dói tanto afastar-me? — perguntou ela.
Ele não respondeu. Quando o vento cessou e o silêncio regressou, ele já não estava ali.
Lysandre ficou sozinha nas ruínas, com o peito a arder, o coração preso num dilema impossível.
Sabia agora a verdade mais perigosa de todas: A morte não só a poupava, mas também estava a aprender a desejá-la.
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