Sombras, Fogo e Gelo

17 Consequências e Recomeços


O estranho eclipse que havia envolvido a cidade começava a dissipar-se, deixando a luz suave da manhã iluminar o campo de batalha. A luz revelava a destruição e a devastação deixadas para trás, as cinzas e sangue agora se tornando as únicas testemunhas da batalha travada. Entre os restos dos escombros no descampado, Di estava ajoelhada, segurando o corpo de Joshua em seus braços, abraçando-o como se sua própria vida dependesse disso. Lágrimas silenciosas rolavam por seu rosto, traçando caminhos brilhantes em meio à sujeira e ao sangue.

Seu coração estava pesado com uma mistura de desespero e culpa. A culpa por ter arrastado Joshua para esta guerra, por não ter sido capaz de protegê-lo completamente. Cada respiração dele, cada batida fraca de seu coração, era um lembrete doloroso de sua responsabilidade. Di estava tão imersa em seus próprios pensamentos e emoções que quase não percebeu o som fraco de uma tosse.

O som a trouxe de volta à realidade de forma abrupta. Seus olhos castanhos, geralmente cheios de energia, agora estavam opacos de dor e cansaço. Ela olhou ao redor, os sentidos aguçados de volta ao alerta. Foi então que o viu. Hu Can, ainda vivo, embora à beira da morte.

Di levantou-se lentamente, quase como se estivesse em um transe. Seus passos eram erráticos, cada movimento refletia a tempestade de emoções dentro dela. Caminhou em direção ao homem que havia causado tanta dor e destruição. Cada passo que ela dava, a paisagem ao redor parecia se desfocar, seu foco era totalmente em Hu Can.

A expressão de Hu Can era de zombaria, mesmo em seu estado crítico. Sangue escorria pelos cantos de sua boca, mas seus olhos ainda brilhavam com uma malevolência que fez o sangue de Di ferver. Ele tossiu novamente, uma tosse úmida e cheia de sangue, e forçou um sorriso.

"Então, foi isso, Di," disse ele, a voz fraca, mas carregada de desprezo. "No final de tudo, foi você quem transformou aquele garoto em um monstro."

Di parou a poucos passos dele, sentindo a raiva fervilhar dentro dela. A ideia de Joshua, seu Joshua, sendo chamado de monstro, era intolerável. Sua mão tremia quando ela estendeu-a para criar uma lâmina de gelo, afiada e brilhante, refletindo a luz da manhã que agora banhava o campo de batalha.

"Joshua não é um monstro," ela sibilou, cada palavra carregada de emoção crua. "Você é o único monstro aqui, Hu Can."

Ela se ajoelhou ao lado dele, trazendo a lâmina de gelo mais perto de seu pescoço. Seus olhos se encontraram, e por um momento, tudo ao redor deles desapareceu. Hu Can, mesmo à beira da morte, ainda tentava manipular a situação, torcendo a realidade para suas próprias mentiras cruéis.

"Você acha que isso acaba aqui?" Hu Can conseguiu murmurar, cada palavra um esforço agonizante. "Você acha que pode simplesmente me matar e tudo ficará bem? Joshua... ele sempre lembrará... de como você o transformou nisso..."

Di apertou a mandíbula, a raiva e a dor misturando-se em um turbilhão dentro dela. Ela sabia que Hu Can estava tentando plantar sementes de dúvida em seu coração, mesmo em seus últimos momentos. Ela não podia permitir que suas palavras a abalassem. Não mais.

"Eu não fiz isto," Di disse, sua voz firme apesar da dor. "Eu protegerei Joshua e todos os outros. E você... você nunca mais machucará ninguém."

Com um movimento rápido e decidido, ela cravou a lâmina de gelo no pescoço de Hu Can, acabando com sua vida de uma vez por todas. O corpo dele estremeceu uma última vez antes de ficar imóvel. Di permaneceu ajoelhada por um momento, observando o sangue se espalhar pelo chão, misturando-se com a terra e cinzas que espalhavam-se ao redor.

Ela levantou-se lentamente, a lâmina de gelo desaparecendo de sua mão, gotejando por entre seus dedos. Com um último olhar para o corpo de Hu Can, Di voltou sua atenção para Joshua, determinado a fazer tudo o que fosse necessário para salvá-lo. As palavras de Hu Can ecoavam em sua mente, mas ela as afastou. Ela não poderia permitir que o medo e a dúvida a dominassem.

*****

Di se afastou do corpo sem vida de Hu Can, sentindo um peso ser levantado de seus ombros, mas o alívio durou apenas um momento. Com passos ainda trêmulos, ela caminhou de volta para onde Joshua estava desacordado, caído entre as pedras que cobriam o chão e a poeira que ainda pairava no ar. O sol iluminava seu rosto pálido e as feridas em seu corpo, destacando cada queimadura, cada corte que ele havia sofrido para protegê-los. Sangue ainda escorria do grande corte em seu peito.

Ela ajoelhou-se ao lado dele, seu coração apertando-se em um nó de culpa e desespero. Os olhos de Di, tão cheios de dor, varreram o corpo de Joshua, vendo as queimaduras profundas e as feridas abertas. Ela pressionou as mãos contra o peito dele, sentindo o fraco batimento de seu coração sob seus dedos.

"Eu sinto muito," ela sussurrou, as lágrimas caindo livremente de seus olhos. "Eu sinto muito por tudo isso, Josh."

O peso da responsabilidade esmagava seu espírito, mas ela não podia desistir. Di enxugou as lágrimas e tomou uma decisão. Ela não o deixaria morrer ali. Com um esforço tremendo, ela ergueu o corpo dele, apoiando-o sobre seu próprio. Seus músculos protestaram contra o esforço, mas ela ignorou a dor, começando a caminhar o mais rápido que podia em direção à cidade.

Cada passo parecia uma eternidade. Di tropeçou, quase caindo, mas manteve-se firme. O coração dela batia forte, movido pela determinação. Ela tentou chamar pela telepatia de Lea, mas a distância e a fraqueza das duas dificultavam a conexão.

"Lea," Di murmurou, concentrando-se com toda sua força. "Lea, por favor, me escute... eu preciso de ajuda..."

O silêncio foi sua única resposta. Di lutou contra o desespero, continuando a tentar o contato incessantemente enquanto avançava. Seus pensamentos estavam em turbilhão, lembrando de todos os momentos em que Joshua havia arriscado sua vida, de como ele havia confiado nela.

Finalmente, uma voz fraca surgiu em sua mente. "Di...? Onde você está?"

"Lea!" Di quase gritou em alívio, sua mente clareando momentaneamente. "Estou a caminho da cidade. Joshua... ele está gravemente ferido. Eu preciso de ajuda para chegar ao hospital."

A resposta de Lea foi hesitante, carregada de preocupação. "Di, eu... eu não sei como posso ajudar. Estou tão fraca..."

"Não desista agora, Lea," implorou Di, a voz trêmula de emoção. "Você pode fazer isso. Eu preciso de você. Joshua precisa de você."

Lea ficou em silêncio por um momento, e Di quase podia sentir sua luta interna. Então, a resposta veio, fraca mas determinada. "Eu vou tentar. Aguente firme, Di. Eu vou encontrar alguma ajuda."

Di sentiu um fio de esperança surgir dentro de si. Ela continuou caminhando, cada passo alimentado por essa nova força. Joshua gemia em seus braços, e ela sussurrou palavras de conforto, tentando manter a conexão com Lea.

"Você vai ficar bem, Josh," ela murmurou, mais para si mesma do que para ele. "Eu prometo. Nós vamos sair dessa."

O horizonte da cidade finalmente apareceu à vista, e com ele, uma esperança surgiu em Di. Cada passo a aproximava mais de um hospital, cada passo era um passo para salvar a vida de Joshua. As palavras de Hu Can ainda ecoavam em sua mente, mas ela as afastou. Joshua não seria um monstro. Ela não permitiria isso.

A caminhada era árdua, cada passo uma batalha contra a exaustão e o desespero. Joshua estava cada vez mais pesado em seus braços, mas ela não podia parar. Não agora. O sol subia lentamente no céu, lançando longas sombras sobre a terra devastada, mas essas sombras eram diferentes das que haviam causado tanto terror durante as horas do eclipse.

A voz de Lea soou em sua mente, hesitante e cansada, mas determinada. "Di... Di, eu consegui entrar na mente de alguém… de uma equipe de resgate. Eu coloquei na cabeça deles a localização aproximada de onde vocês enfrentaram Hu Can. Eles estão a caminho. Queria poder fazer mais… mas…"

Di sentiu um alívio momentâneo, mas a sensação foi rapidamente substituída por uma nova onda de desespero quando Lea continuou. "Di, as criaturas de sombras... elas atacaram todas as cidades da região. Está tudo em completo caos. Não sei como a cidade vai estar, mas você precisa manter a calma, alguém virá para ajudar."

O desespero retornou ao coração de Di com força total. A ideia de que a destruição e o caos estavam espalhados por toda parte era quase insuportável. Sua mente girava com as imagens de cidades em chamas, pessoas desesperadas, vidas destruídas. Ela quase tropeçou, mas se forçou a seguir em frente, mantendo Joshua firme em seus braços.

Lea, sentindo o tumulto emocional de Di, tentou acalmá-la. "Di, escute-me. Você não pode se culpar pelo que aconteceu com Joshua. Hu Can é o único culpado. Você fez o que pôde, e fez o melhor que qualquer um poderia fazer nessas circunstâncias."

Di não respondeu, sua garganta apertada de emoção. Cada palavra de Lea era uma tentativa de afastar a culpa que ela sentia, mas o peso da responsabilidade ainda estava lá, pressionando seu coração. Ela lutava para continuar o caminho, focando em cada passo, em cada respiração.

"Eu deveria ter sido mais forte," pensou Di, o desespero ameaçando dominá-la. "Eu deveria ter protegido todos eles. Joshua não merecia isso."

Lea continuou a falar, sua voz telepática um fio de esperança. "Di, você não está sozinha. Nós vamos passar por isso juntos. Joshua vai ficar bem. Nós precisamos acreditar nisso."

Di forçou-se a acreditar, a manter a esperança viva em seu coração. Ela sentiu a presença de Lea, como um apoio invisível que a ajudava a seguir em frente. Cada passo a levava mais perto da cidade, mais perto de salvar Joshua.

"Eu não vou desistir," ela murmurou, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa. "Eu não vou deixar que ele morra."

O caminho era longo e difícil, mas Di continuava. Ela sabia que a equipe de resgate estava a caminho, mas não podia esperar por eles. Cada momento era crucial para Joshua.

Di sentiu o peso de Joshua em seus braços, cada segundo parecendo uma eternidade enquanto aguardava a chegada da ajuda. Seus olhos, marejados de lágrimas, fixaram-se no rosto pálido de Joshua, procurando por qualquer sinal de vida. A exaustão finalmente começou a tomar conta de seu corpo, mas ela se recusava a ceder. Cada respiração era um esforço, cada batida de seu coração uma lembrança dolorosa do perigo que haviam enfrentado.

Finalmente, as luzes piscantes de um veículo de emergência começaram a iluminar o caminho de terra improvisado, como um farol de esperança na escuridão. Di, sentindo-se à beira do colapso, caiu de joelhos no chão, segurando Joshua com toda a força que ainda lhe restava. Suas mãos tremiam enquanto ela levantava os braços, acenando desesperadamente para que a ambulância os visse.

"Por favor, por favor," murmurava ela, a voz entrecortada pelo desespero. "Alguém, ajude-nos!"

A ambulância parou bruscamente, e a porta traseira se abriu com um estrondo. Um enfermeiro, um homem alto e corpulento, correu até eles, a expressão de urgência clara em seu rosto, suas roupas brancas estavam sujas de sangue, indicativo de todo o trabalho que as equipes de resgate estavam tendo. Di olhou para Joshua, a esperança brilhando em seus olhos, mas seu coração se apertou ao não ver nenhuma resposta dele. As lágrimas que ela tentava segurar agora corriam livremente por seu rosto, cada gota uma expressão de medo e dor.

"Ele... ele vai ficar bem, não vai?" Di perguntou, a voz cheia de angústia. "Ele tem que ficar bem!"

O enfermeiro se ajoelhou ao lado deles, verificando rapidamente os sinais vitais de Joshua. "Vamos fazer tudo o que pudermos," disse ele, a voz calma mas firme. "Precisamos levá-lo ao hospital agora."

Di assentiu, o rosto contorcido de preocupação. Ela segurou a mão de Joshua, sentindo a frieza de sua pele, e sussurrou: "Fique comigo, Josh. Por favor, fique comigo."

Enquanto o enfermeiro e outros paramédicos levantavam Joshua com cuidado, Di se sentiu momentaneamente paralisada. Ela se levantou com dificuldade, os músculos doloridos protestando, e seguiu os paramédicos até a ambulância. Antes de entrar, ela olhou uma última vez para o caminho que levava para a mansão devastada, um lembrete sombrio da batalha que haviam travado.

Dentro da ambulância, Di manteve os olhos fixos em Joshua, cada segundo de silêncio um tormento. Ela segurou sua mão, apertando-a levemente, como se sua força pudesse de alguma forma ser transferida para ele.

"Joshua," ela sussurrou, a voz quebrando. "Eu sinto muito. Sinto muito por ter te arrastado para isso."

Ela não podia evitar os pensamentos que corriam por sua mente. Será que ele a odiaria por tudo isso? Será que ele a culparia por suas feridas? Di sentiu uma onda de culpa e arrependimento, mas também uma determinação crescente. Ela faria qualquer coisa para garantir que ele ficasse bem.

Enquanto a ambulância acelerava pelas ruas escuras em direção ao hospital, Di fechou os olhos por um momento, tentando encontrar um pouco de paz. "Você vai ficar bem," ela repetiu para si mesma, como um mantra. "Você tem que ficar bem."

*****

Di estava sentada no chão frio da sala de espera, envolta em um pequeno cobertor que o hospital lhe havia cedido. Sua aparência estava abatida; os olhos, vermelhos e inchados, eram um testemunho das horas de angústia que havia passado. As roupas hospitalares, demasiado grandes para sua figura esbelta, apenas ressaltavam seu estado frágil e vulnerável. O cabelo, normalmente tingido de branco e estilizado, estava agora desarrumado e sem brilho.

A sala de espera era um espaço impessoal, com bancos de couro surrados e mais de dezena de cadeiras de plástico dispostas em fileiras ordenadas. O silêncio era quebrado apenas pelo som ocasional de passos apressados e vozes abafadas ao longe. Di puxou o cobertor mais perto de si, buscando um calor que não parecia vir. Seus pensamentos eram um turbilhão de medo e culpa, a imagem de Joshua inconsciente assombrando sua mente.

Após algum tempo, a porta se abriu silenciosamente e Jia entrou na sala. Ela se movia com a graça e a calma que lhe eram características, os olhos pequenos e expressivos observando Di com preocupação. A visão das jovens contrastava, enquanto a recém-chegada vestia uma calça jeans e uma camiseta amarela estilizada, ninguém poderia dizer que ambas eram integrantes de uma mesma banda. Sem dizer uma palavra, sentou-se ao lado de Di no chão, respeitando o silêncio pesado que pairava entre elas. Ficaram assim por alguns minutos, lado a lado, compartilhando uma quietude que era ao mesmo tempo confortante e dolorosa.

Finalmente, Di quebrou o silêncio, a voz baixa e trêmula. "Jia, eu... não sei o que fazer," ela confessou, as palavras saindo com dificuldade. "Se algo acontecer com Joshua... eu não vou conseguir continuar."

Jia olhou para Di, sua expressão suavizando-se com a compreensão. "Di, você é uma das pessoas mais fortes que eu conheço," disse ela, a voz calma mas cheia de convicção. "Você já passou por tanta coisa, enfrentou tantos desafios. Sei que parece impossível agora, mas você vai encontrar uma maneira de seguir em frente."

“Este ano… isso tem sido uma provação para todas nós, mas estamos aqui, inteiras!” Completou, tentando soar o mais positiva que poderia. “Hoje… isto, vai ser só mais um degrau nas nossas histórias.”

Di balançou a cabeça, as lágrimas começando a rolar novamente por seu rosto. "Eu não tenho certeza se posso, Jia. Ele... ele significa tanto para mim. E foi minha culpa... é minha culpa que ele estava lá… que ele esteja assim."

Jia colocou uma mão reconfortante no ombro da amiga. "Di, você não pode se culpar por tudo. O mundo está cheio de acidentes, e às vezes, as coisas simplesmente acontecem, por mais que não queira aceitar. O importante é estarmos aqui, juntas, para apoiar umas às outras."

Di respirou fundo, tentando encontrar força nas palavras de Jia. "Mas eu sinto que... que deveria ter feito mais, protegido ele melhor. Eu o arrastei para isso, Jia. E se ele não acordar? Se eu o perder?"

Jia apertou levemente o ombro de Di. "Você não vai perder Joshua. Ele é forte, assim como você. E ele tem você ao seu lado, lutando por ele. Depois de tudo, eu não subestimaria aquele garoto."

Di olhou para Jia, os olhos cheios de uma mistura de esperança e desespero. "Eu só queria poder voltar atrás e fazer as coisas diferentes. Proteger ele desde o começo. Mas agora... agora tudo está fora de controle."

Jia suspirou, sua expressão mostrando a sabedoria adquirida através de anos de experiência com os ensaios e a convivência com aquele grupo de garotas. "Di, todos nós temos coisas que gostaríamos de mudar, arrependimentos que carregamos. Mas o que define quem somos é como lidamos com essas situações, como seguimos em frente apesar dos obstáculos."

Di assentiu lentamente, absorvendo as palavras de Jia. "Eu só... eu só quero que ele fique bem. Não sei o que faria se o perdesse. Ele se tornou... uma parte tão importante da minha vida."

Jia sorriu suavemente, compreendendo a profundidade dos sentimentos de Di. "Eu sei. E isso é o que vai te dar força. O amor que você sente por ele, e o amor que ele sente por você, isso vai te ajudar a superar qualquer coisa. Você tem que acreditar nisso."

Di fechou os olhos por um momento, permitindo-se sentir o consolo das palavras de Jia. Quando os abriu novamente, havia uma nova determinação em seu olhar. "Você está certa, Jia. Eu não posso desistir agora. Tenho que ser forte por ele, e por todos nós."

Jia assentiu, satisfeita. "Exatamente. E lembre-se, você não está sozinha. Todos nós estamos aqui para ajudar, de qualquer maneira que pudermos."

Di sorriu, um sorriso fraco mas genuíno. "Obrigada, Jia. Não sei o que faria sem você."

Jia retribuiu o sorriso, segurando a mão de Di por um momento. "Estamos todas juntas nisso, Di. Vamos superar isso, juntas."

Lea entrou na sala de espera do hospital, seu rosto abatido refletindo o mesmo cansaço e desespero que suas amigas sentiam. Ela também vestia uma roupa do hospital, o tecido grosso e áspero não conseguindo proporcionar qualquer conforto. Silenciosamente, ela se aproximou de Di e Jia, sentando-se ao lado delas no chão frio. Sem uma palavra, as três amigas se abraçaram, buscando um consolo mútuo que parecia estar sempre fora de alcance.

O silêncio retornou, pesado e sufocante, até que Lea finalmente o quebrou, a voz baixa e sombria. "Ainda não conseguimos avisar a família do Joshua," disse ela, com um suspiro cansado. "Nem a do Ethan."

Di tentou parecer firme, mas a preocupação era visível em seu olhar. "E Madison?" perguntou, tentando controlar a tremedeira em sua voz.

Lea mudou o tom para um ar triste, os olhos abaixando. "Madison ficou sabendo de tudo e... ela entrou em choque quando descobriu a morte de Ethan. Ela desmaiou com a notícia, mas a equipe do hospital já medicou ela… vai ficar desacordada por algumas horas..."

A notícia foi como um golpe para Di, mais um peso em seus já cansados ombros. Ela sentiu o desespero crescer dentro de si, mas tentou manter a compostura. "Eu sou... sou uma boa pessoa?" ela perguntou, a voz fraca e hesitante. "Eu mereço ser feliz? Nem que seja por alguns dias?"

Lea olhou para Di com uma expressão enigmática, suas palavras cuidadosamente escolhidas para que Jia não as entendesse completamente a mensagem. "Estas são as escolhas que fizemos, Di," disse ela suavemente, o significado oculto apenas compreendido por Di.

Jia, confusa mas tentando apoiar, colocou a mão sobre a de Di. "Di, você é uma pessoa incrível. Todos nós merecemos ser felizes, mesmo que o mundo pareça dizer o contrário. Você fez o melhor que pôde, e isso é tudo o que podemos fazer."

Di olhou para Jia, os olhos cheios de gratidão e dor. "Obrigada, Jia. Eu só... às vezes é difícil acreditar que o que fiz foi suficiente. Que sou suficiente."

Lea apertou a mão de Di, seu olhar transmitindo um apoio silencioso. "Você é mais do que suficiente, Di. E vamos superar isso."

Di respirou fundo, sentindo um leve conforto nas palavras de suas amigas. "Eu só quero que Joshua fique bem. E que Madison... que ela possa encontrar alguma paz. Que Ethan... droga! Eu não queria que tivesse acabado assim… foi tão cedo."

Jia assentiu, a expressão séria. "Nós vamos fazer tudo o que pudermos para garantir isso, Di. Estamos aqui por você, por Joshua, por Madison. Por tudo que aqueles dois precisarem."

Lea olhou para Di, sua expressão suavizando-se ligeiramente. "Di, você é forte. E não está sozinha. Não importa o que aconteça, estamos todas juntas nisso. E vamos encontrar uma maneira de seguir em frente."

Di sentiu uma onda de gratidão e amor por suas amigas. Mesmo em meio ao caos e à dor, elas permaneciam ao seu lado, firmes e leais. E isso, por si só, era uma razão para continuar lutando. "Obrigada, Lea. Obrigada, Jia. Eu não sei o que faria sem vocês."

Jia sorriu suavemente, apertando a mão de Di. "Você nunca vai ter que descobrir. Estamos aqui, e vamos enfrentar isso juntas."

O silêncio voltou a cair sobre as três amigas, mas desta vez era um silêncio de entendimento e apoio mútuo. Elas se sentaram juntas no chão frio da sala de espera, compartilhando a carga do sofrimento e encontrando força umas nas outras.

Este silêncio foi interrompido pelo som repentino da porta se abrindo com força. O enfermeiro que havia resgatado Di e Joshua entrou correndo, seu rosto marcado pela urgência. Ele se dirigia rapidamente para outra saída, mas antes que pudesse passar, Di saltou do chão e correu até ele, bloqueando seu caminho. Suas mãos tremiam enquanto ela segurava o braço dele, o desespero evidente em seus olhos.

"Por favor, diga-me o que está acontecendo com Joshua!" A voz de Di era um misto de súplica e pânico, ecoando pela sala.

“Ei, garota! Eu preciso pegar mais sangue e antibióticos na outra ala, você está atrapalhando…” Começou o homem, com um tom de voz autoritário.

Mas, percebendo o desespero na voz dela, o enfermeiro parou por um momento, a expressão suavizando-se ligeiramente. Ele respirou fundo antes de continuar. "Ele está estável agora, apesar da perda significativa de sangue. Os médicos estão fazendo tudo o que podem. Mas... o pior ainda não passou."

Di sentiu uma pontada de alívio, mas seu coração ainda estava apertado de preocupação. "O que você quer dizer com isso? O que mais está acontecendo?"

O enfermeiro hesitou, a dor em seu olhar tornando a notícia ainda mais difícil de dar. "Um dos pulmões daquele garoto está prestes a colapsar, seja lá o que fez aquele corte limpo no peito dele, encheu um dos pulmões de sangue. E... seus olhos, eles queimaram. Nunca vimos nada daquele jeito, não posso garantir que ele vá voltar a enxergar."

As palavras atingiram Di como um golpe físico. Ela soltou o braço do homem e caiu de joelhos no chão, o mundo ao seu redor desmoronando. O enfermeiro, com um olhar de compaixão, voltou a correr para onde era necessário, deixando Di para lidar com a notícia devastadora.

As amigas imediatamente se aproximaram de Di, ajoelhando-se ao seu lado. "Di, o que aconteceu?" perguntou Jia, a preocupação evidente em sua voz.

Di, lutando contra as lágrimas, olhou para suas amigas com olhos desesperados. "Joshua... ele ainda está em risco. E... e ele pode acabar cego, se sobreviver." A voz dela quebrou no final, os soluços escapando descontroladamente.

Lea e Jia ficaram atônitas, sem palavras por um momento. "Oh, Di..." sussurrou Lea, puxando-a para um abraço apertado.

"Ele vai me odiar," murmurou Di entre lágrimas. "Se ele sobreviver, ele vai me odiar. Eu... eu causei isso. Arrastei ele para tudo isso." Disse, batendo com as palmas das mãos contra a testa.

Jia segurou o rosto de Di, forçando-a a olhar em seus olhos. "Di, isso não é culpa sua. Joshua fez sua escolha de estar ao seu lado. Ele sabia dos riscos quando vocês saíram da pensão, e ele fez isso porque se importa com você. Você não pode se culpar por isso."

Di balançou a cabeça, incapaz de aceitar as palavras de conforto. "Mas se ele não conseguir enxergar de novo, se ele nunca mais for o mesmo... como posso não me culpar? Eu o amo, Jia. E eu o coloquei em perigo."

Lea apertou a mão de Di, sua expressão firme. "Di, nós vamos superar isso. Juntas. E Joshua vai precisar de você agora mais do que nunca. Ele não vai odiar você, ele vai precisar do seu amor e apoio para enfrentar isso."

Di fechou os olhos, deixando as lágrimas caírem livremente. "Eu só queria que ele ficasse bem. Que tudo isso fosse um pesadelo do qual pudéssemos acordar."

Jia e Lea permaneceram ao lado de Di, oferecendo-lhe a única coisa que podiam naquele momento: sua presença e apoio incondicional. As três amigas ficaram juntas no chão frio da sala de espera, unidas pela dor e pela esperança, prontas o que viesse, desde que estivessem juntas.