Sombra
1 Calor humano
“Continue sendo indispensável para mim, ou não o quero como filho.”
Suas frias palavras me cortam como aço toda vez que encaro uma nova pilha de corpos desvividos cobertos em tons vibrantes carmesim. A cada morte, eu sinto o peso dos meus pecados acumularem no meu coração. Cada gota de sangue inocente derramada deixa uma mácula na minha alma, cada grito agonizante volta a me atormentar em meus mais profundos pesadelos todas as noites... mas no fim tudo terá valido à pena, não é?
“Não é longe demais se for para finalmente ter o seu amor. Mesmo que precise sujar minhas mãos para isso. Sim, foi para isso que o senhor me criou, não é papai? Então... por que essa dor não passa? Como pode você estar feliz com todos esses sacrifícios e eu não? O que falta em mim?!” – Agonizava mentalmente um pequeno garotinho que aparentava ter seus 6 anos de idade. Seu manto, outrora preto, agora era tingido pelo rubro de suas vítimas.
“É por causa dele, não é? Aquele maldito... roubou tudo o que eu tinha e agora sou uma mera sombra sua. Como pode eu, com tantos dotes mágicos, ser tratado igual a você, um trouxa patético, estúpido e indefeso?! Mas por alguma razão, o papai sempre pareceu gostar mais de você...” – Ele cerrava seu punho esquerdo fortemente sobre seu peito em meio ao seu pranto.
Não tardou para a chuva chegar e com suas gotas lavar o líquido purpúreo do triste abate que se deu naquele beco escuro e sem saída. Percebendo a deixa, o menino tratou de puxar a sua vassoura encostada na fria parede e voou em retirada seguindo o céu estrelado da cálida noite.
Abaixo, casas podiam ser avistadas, cada qual abrigando uma família. Da janela de uma das várias habitações ali, a cena de um pai amoroso lendo uma história ao seu filho estava a se passar, o que captou sua atenção. Aproximou-se lentamente da modesta habitação para espiar o que se desenrolava do lado de dentro sem que os donos do casebre se dessem conta de estarem sendo espionados. Aparentemente, o patriarca estava terminando a narrativa e a criança já se encontrava no sétimo sono.
— Então, o grupo de jovens aventureiros venceu o Rei Demônio, a paz voltou àquelas terras e todos viveram felizes para sempre. Exceto para uma certa elfa que ficou de consertar os resquícios dessa bagunça... considerando o seu longo tempo de vida, não é impossível que uma nova aventura esteja para começar. E fim. – O pai terminou sua leitura, fechou o livro em suas mãos e com um terno sorriso levantou-se do assento de onde estava sentado, devolveu a obra ao seu devido lugar na estante do quarto e foi de encontro ao seu filho agora adormecido na cama.
— Sonhe com Deus, meu pequeno. – Inclinou-se e beijou uma de suas bochechas cobrindo-o, em seguida, com os lençóis e depositando um leve carinho nos cabelos do menino. – Papai te ama.
Depois disso, o homem se retirou do quarto. Não tendo mais o que fazer ali, o garoto que se encontrava do lado de fora se retirou em direção à sua morada.
— Por quê? Por que você não pode me amar também? – Lágrimas solitárias brotavam de seus olhos rosados e belos como a flor de Carmélia. A lua sendo a única e silenciosa testemunha de sua dor naquela noite estrelada...
~ * ~
De súbito, um jovem rapaz de seus 16 anos desperta em plena madrugada no seu dormitório. O suor se fazia presente por debaixo de seu pijama devido às memórias desagradáveis do passado a lhe atormentar novamente.
— De novo esse sonho...
— Domina, tá tudo bem? Você parece pálido... teve um pesadelo? – Questionou um rapaz visivelmente preocupado de cabelos curtos esverdeados na cama vizinha.
— Quase isso, Charles. – Respondeu o mais novo sem-graça. Não gostava de deixar transparecer suas vulnerabilidades assim, ainda mais na frente de um de seus rivais no exame para seleção dos visionários divinos da escola de magia de Walkis, que estava prestes a acontecer.
— Entendo. Mamãe sempre me abraçava quando eu era atormentado assim... – Replicou o mais velho enquanto admirava fixamente um dos vários retratos de sua tão adorada mãe, que trouxera consigo desde o primeiro dia que pisara naquele quarto.
— Ah, sim... que bom, né? – Retorquiu o calouro um pouco constrangido e enojado com a manifestação intensa e exagerada do colega de quarto, mas no fundo sentindo um pouco de inveja pelo carinho que recebera durante a infância. Ser tratado como um filho genuíno, era tudo o que ele mais queria em toda a sua vida, mas aparentemente nem mesmo a isso ele teria direito.
No instante seguinte, o calouro sentiu um par de braços a lhe envolver ternamente.
— Ei, o que pensa que está fazendo?! – Indagou Domina pego completamente de surpresa em meio aos seus devaneios.
— Apenas aproveite o momento, você tá precisando... – Inquiriu o veterano em sua voz serena costumeira.
O mais novo então se rendeu. Não possuía o mínimo de força física para tentar repelir Charles naquele momento, então apenas cedeu à nova sensação aconchegante e confortável que o calor humano lhe proporcionava.
“Então isso é um abraço... eu poderia me acostumar com isso...”
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