Solstice - Interativa

45 「XII • Charlotte」 Solstício de Verão


Já fazia mais de dez minutos que Charlotte e os outros que escolheram ficar no térreo estavam esperando algo acontecer – que alguém de fora chegasse no edifício ou que alguém do outro grupo os chamassem para ir a algum andar superior.

Um pouco impaciente, Charlotte andou até as portas de vidro que davam para a rua e encostou-se na parede, observando o céu. Quase não dava para ver a lua naquele manto estrelado...

— Hey — Cosme aproximou-se com um sorriso tímido e encostou-se ao lado dela, olhando também para o céu. — É lindo, não é?

— Sim…

Lembrou-se de sua infância, quando costumava explorar o céu noturno todos os dias através do telescópio que havia recebido de presente dos seus pais, em seu décimo aniversário.

Havia sido um instrumento bem caro, e mesmo sem terem uma boa condição financeira, seus pais economizaram bastante e o compraram para fazê-la feliz.

Será que hoje em dia eles estariam ali, em meio às estrelas? Charlotte tinha aprendido com o tempo a não pensar muito neles, mas vez ou outra flagrava-se imaginando o porquê deles terem desaparecido.

A atenção de Charlotte se desviou para um carro prateado de luxo que acabara de estacionar.

— Gente! Olhem — ela alertou Cosme e os outros sete, que estavam dispersos pelo hall de entrada. Em um instante todos se reuniram ao redor da jovem para ver quem sairia do carro.

Finalmente a identidade da pessoa por trás do quebra-cabeças do Solstice seria revelada…

A porta de motorista se abriu, e um homem de terno branco com máscara de raposa saiu do veículo. Em seguida, uma mulher saiu do banco de trás vestindo um caríssimo sobretudo roxo e óculos escuros.

A dupla inusitada caminhou elegantemente até a porta de entrada e saudou os nove convidados.

— Boa noite. Creio que o restante já está lá em cima, correto? — A desconhecida analisou rapidamente cada um deles e sorriu misteriosamente.

Todos estavam pasmos, sem saber o que dizer… Até que Yeri balançou a cabeça nervosamente e deu um passo a frente.

— Quem é você? E quem é ele? Por que estamos aqui? Que história é essa de tarefas, e punições, e recompensas? Pra quê esse mistério todo? E pra quê essa máscara esquisita?

A misteriosa dama fitou serenamente Yeri.

— Todas as perguntas de vocês serão respondidas. Quanto à máscara — Marie olhou de relance seu acompanhante —, ele irá removê-la assim que todos estiverem reunidos no quarto andar.

Falando isso, ela entregou um molho de chaves ao mascarado ressaltando uma chave específica, e dirigiu-se ao elevador enquanto o homem desaparecia em meio à escuridão de um corredor.

— Uh… Não sei se você notou, mas por isso aqui ser um prédio abandonado, nenhum dos elevadores nem coisa alguma que precise de energia está funcionando — Henri falou meio confuso, mas mantendo seu tom de voz bom-humorado.

— Não sei se você notou, mas este prédio é meu — retrucou séria, sorrindo logo após e deixando todos ainda mais intrigados.

Ela cruzou os braços e esperou seu acompanhante retornar do corredor, o que durou em torno de cinco minutos. Assim que o avistou, apertou os botões de ambos os elevadores. Em questão de segundos, as portas se abriram.

— Então a energia estava apenas desligada? — Charlotte perguntou, e a misteriosa dama assentiu com a cabeça.

— Vocês quatro vão comigo neste elevador — falou na direção de Yeri, Astrid, Jiho e Alyssa, que estavam juntos no canto direito do grupo rodeando-a —, e os outros vão com ele no elevador ao lado.

Charlotte engoliu em seco, fitando o mascarado enquanto entrava com Jieun, Henri, Cosme e Francis no outro elevador. O homem misterioso entrou por último e apertou o botão do quarto andar.

Ela fechou os olhos e respirou fundo. Não era apenas o fato daquele desconhecido silencioso estar usando máscara que perturbava Charlotte -- muitas pessoas estavam reunidas num lugar apertado, e isso fez a garota sentir falta de ar…

Felizmente, em pouco tempo chegaram ao quarto andar. Saindo da cabine, Charlotte e os outros depararam-se com o restante dos convidados e vinte pequenas mesas arranjadas linearmente em quatro colunas. Sobre cada uma delas, havia uma luminária, um papel com o nome do convidado a quem aquela mesinha estava destinada e uma caixa cor-de-rosa em formato de coração.

A porta do elevador ao lado abriu alguns segundos depois, e o outro grupo saiu acompanhado pela dama misteriosa.

— Okay… Quem são vocês e por que esse cara está usando máscara? — Vivienne questionou.

A princípio ignorando a pergunta, a dama contou mentalmente as pessoas ali presentes e franziu as sobrancelhas por um breve intervalo de tempo, voltando depois à sua expressão facial de serenidade.

— Fico feliz em finalmente conhecê-los nesta noite. Meu nome é Marie, e sou a responsável por vocês serem convocados.

O homem mascarado ao seu lado retirou do bolso o molho de chaves que Marie o entregara há alguns minutos e saiu do meio deles, adentrando num corredor escuro.

— Cada um de vocês foi escolhido a dedo para trabalhar para mim realizando certas tarefas. As recompensas valem a pena, mas caso alguém queira partir, sinta-se livre para sair agora… Porém afirmo que não serei responsável pelo que acontecer a essa pessoa.

— Eu não posso trabalhar! Sou menor de idade. — Yeri colocou as mãos na cintura.

— O que quero que façam são no geral simples tarefas, como entregar coisas — olhou para Francis, que engoliu em seco —, achar pessoas e arranjar um meio de obter informações —, olhou para Amélie, Astrid e Yeri —, e outras pequenas coisas. Vocês serão bem recompensados, posso lhes garantir.

— Mas como escolheu a gente? E como os folhetos foram parar em meio a nossas coisas pessoais? — Wallace perguntou.

— Os responsáveis pela seleção e que criaram as tarefas que irão receber têm seus métodos.

— Pera aí, como assim? — Henri mordeu o lábio inferior. — E pra quê você quer que a gente realize essas, uh, missões?

— Não posso revelar muito, mas trata-se um grupo que contratei justamente para arranjar uma maneira de eliminar os obstáculos do caminho de minha empresa. Inclusive, todo esse pequeno enigma que com o qual vocês se divertiram nas últimas duas semanas foi um plano deles.

— Resumindo essa história, você quer que a gente trabalhe pra te fazer mais rica do que já deve ser? Poupe-me — Vivienne bufou, cruzando os braços.

Marie apenas sorriu, permanecendo em silêncio. O mascarado regressou do corredor carregando um uma pilha de sete maletas.

— Ah, ótimo. Vivienne, Alyssa, Francis, Jieun, Wallace, Daehwi, Sunhee. Cada um de vocês está recebendo uma maleta. É a recompensa por terem ajudado a resolver o quebra-cabeças… É claro que os outros também vão receber prêmios, conforme o que fora designado em seus bilhetes.

Desconfiados, os sete apressaram-se para abrir suas maletas… E viram, dentro de cada uma delas, muitos maços de dinheiro arranjados linearmente.

— Primo, você tá rico! — Yeri gritou com um pulo. Francis e os outros que ganharam uma maleta permaneceram paralisados, pasmos com aquela surpresa.

— O que significa isso? — perguntou Wallace, sem tirar os olhos de seu dinheiro.

— “MDD” — Daehwi balbuciou —, “maleta de dinheiro”. E “CDC”, caixa de chocolates… Todos tinham “CDC” na recompensa, por isso tem uma caixa em todas as vinte mesinhas.

— Quanto dinheiro você investiu nesse projeto? — Astrid cruzou os braços, atônita.

— O suficiente para conseguir o que eu quero — Marie deu um sorriso para a garota.

Nesse momento, o homem mascarado dirigiu-se até a mesa designada a Len, removeu a máscara de raposa de seu rosto e retirou uma trufa de dentro da caixa. Sunhee deu um grito abafado e recuou um passo.

— Len!

Os outros convidados o encararam perplexos. Ele reagiu com um tímido sorriso.

— Não se preocupem, ele não é um criminoso. A propósito, mandei uma equipe minha investigar suas condições e fizemos uma descoberta um tanto inusitada. O homem que ele está sendo acusado de ter assassinado está vivo e bem. — Enquanto Marie dizia isso, Charlotte notou que Sunhee continuava trêmula. — Em questão de dias, Len será absorvido e poderá voltar a andar livremente pelas ruas… Mas por enquanto, é meu protegido.

A mulher atravessou o hall indo até a enorme janela e observou os distantes prédios do centro da cidade por alguns segundos, antes de prosseguir seu discurso.

— Então, todos aqui presentes concordam em me ajudar?

Os convidados se olharam, hesitantes, e concordaram.

— Espera, cadê Alois?! — Wallace procurou o amigo entre as pessoas que estavam ali, mas não o viu. — Hansol também não está aqui… Eles haviam descido para avisar o que achamos para vocês que ficaram no térreo.

— Eles não apareceram por lá — Charlotte engoliu em seco, compartilhando a preocupação do hacker. Onde teriam ido?

Franzindo as sobrancelhas, Marie refletiu um pouco e caminhou de volta ao elevador.

— De qualquer forma, anotem no verso dos papéis que estão nas mesinhas seus números de celular, IDs do Kakao Talk e e-mails. Len — o rapaz arregalou os olhos, prestando ainda mais atenção no que Marie estava falando —, vá procurar esses dois nos andares inferiores. Caso não apareçam, serão cortados do projeto.

— Sim, senhora — e andou rapidamente até a escadaria.

Cada um anotou seus dados nos versos dos papéis com seus nomes e depois os entregaram para Marie.

O mistério havia se desenrolado de maneira bem inesperada para Charlotte. Mal podia esperar para trabalhar com Lorelei para cumprir as missões que iriam receber... Apesar de morarem juntas, as duas estavam se distanciando bastante por causa das atividades pessoais de cada uma.

Lore vivia ocupada. Não bastava o curso de Administração, a garota também era líder do clube de teatro e sempre arranjava um jeito de tornar-se parte dos líderes de projetos extracurriculares… Sem falar que ela vivia indo às festas dos amigos. Como ela ainda conseguia arrumar tempo para estudar com todo esse engajamento era um verdadeiro mistério para Charlotte…

Queria que voltasse a ser como quando eram estudantes de ensino médio — tinham quase as mesmas preocupações e passavam bastante tempo juntas. Mas agora…

Ah, quantas pessoas Charlotte teria que perder em sua vida? Seus pais, Lorelei, Jisung

Não, não era hora de pensar nele. Tudo bem que ele ainda estava numa condição crítica dentro do hospital, mas ainda assim… Charlotte precisava seguir o conselho que Lorelei havia lhe dado duas semanas atrás. Não se apegue ao que te faz mal, seja como eu.

Com caixas de chocolates em mãos, Cosme e Charlotte andaram juntos até a enorme vidraça do hall e, notando que o chão estava limpo, sentaram-se para retornar a admirar o céu estrelado.

— Hey — ela fala ao mais novo —, tem sido uma noite e tanto, hein?

— Sim… — Ele morde uma trufa com delicadeza e saboreia o creme em seu interior.

Serenos, os dois estavam imersos em seus próprios pensamentos enquanto viam o céu.

Subitamente Cosme encostou-se no vidro e olhou para baixo, como se algo estivesse na rua.

— Olhe! Aquele homem acabou de sair correndo deste prédio… Essas roupas me são familiares. — Cosme engoliu em seco enquanto Charlotte e todos os outros convidados que estavam no andar e Marie apressaram-se em direção à janela para ver a cena inesperada. Após uns segundos, o garoto abafou um grito. — É Hansol!

O homem corria aos tropeços pela rua, como se estivesse desesperado para afastar-se do edifício.

— Mas se ele está ali, cadê Alois? — Wallace mordeu o lábio inferior, cada vez mais preocupado.

Todos permaneciam atordoados observando Hansol distanciar-se até que Len finalmente retornou ao andar às pressas pela escadaria.

— Senhora — dirigiu-se a Marie, ofegante —, fiz uma descoberta um tanto… Desagradável.

A dama encarou o ex-empresário.

— Fale.

— Encontrei Alois num cômodo destrancado do segundo andar.

— O quê? E por quê ele não veio com você?

— Bom… Este é o problema. Ele está inconsciente.

Inconsciente?! — Ouvindo isso, Wallace disparou até a escadaria. O restante dos convidados seguiu-o de imediato; Marie e Len indo logo depois.

— Mas quando estávamos explorando, testamos todas as maçanetas dos cômodos do primeiro, segundo e terceiro andar! Tudo estava trancado — Jean afirmou durante a descida... Tudo estava ficando cada vez mais e mais confuso.

Já no corredor do segundo andar, Wallace moveu-se rapidamente por entre as portas até achar uma aberta. Entrou apressado e parou bruscamente ao ver Alois jazendo desacordado no chão do cômodo vazio.

Agachou-se ao lado do outro, trêmulo, e encostou a cabeça no peito dele durante alguns segundos como se quisesse ouvir seu batimento cardíaco. Com os olhos lacrimejando, pôs as mãos no rosto de Alois e deu um beijo na testa dele. Mal dava para acreditar que há alguns dias, era ele quem estava desacordado sendo cuidado por Alois.

Charlotte hesitou antes de se aproximar. Respirou fundo e agachou-se ao lado de Wallace, com a intenção de examinar a situação do outro garoto.

— Tudo indica que ele foi drogado — disse após uma rápida e superficial análise das condições de Alois —, e do jeito que ele está, já deve fazer mais de dez minutos. Suspeito que a substância utilizada foi aquela nova droga que dizem ser dez vezes mais forte que flunitrazepam, WXF-32. — Recordou-se de uma palestra sobre drogas depressoras do sistema nervoso central que tinha assistido semana passada na faculdade. — Em dose mínima, ela causa apenas sonolência; porém, em maiores quantidades, faz alguém perder os sentidos em questão de poucos minutos. Dependendo da dosagem, pode até causar a m--

— Não fale! — Wallace berrou, passando a chorar em voz alta e abraçar com força o corpo imóvel de Alois.

Todos ficaram em silêncio durante um minuto, exceto Wallace, que continuava chorando. naquela sala.

— Hansol não teria feito isso… Teria? — Yeri finalmente perguntou em voz alta o que todos estavam questionando a si mesmos.

— Bom, se ele fez, qual foi o motivo? — Pensativo, Daehwi pôs a mão no queixo. — E por quê estaria correndo daquele jeito?

De repente, o som de uma sirene de ambulância surgiu e rapidamente ficou cada vez mais alto. Ouvindo isso, Marie saiu do cômodo e Len foi logo em seguida.

Vendo-os fazer isso, Charlotte respirou fundo e resolveu levantar-se para sair também. Não estava conseguindo pensar direito numa atmosfera tão pesado daqueles... Ver Wallace tão desesperado segurando Alois em seus braços lembrava-a de Jisung, seu ex-namorado, que continuava hospitalizado e cujo quadro clínico só piorava.

Cosme aproveitou que Charlotte estava saindo da sala para fazer isso também. O garoto parecia levemente desconfortável com o que estava acontecendo, porém estava visivelmente menos apreensivo do que o restante do pessoal, como se estivesse acostumado em ver cenas assim… Ou talvez estivesse sob efeito de um calmante.

Os dois andaram até a enorme janela do hall, onde Marie e Len estavam vendo o que estava se passando do lado de fora. A ambulância passou pela frente do edifício onde estavam e parou no cruzamento poucos metros mais à frente, onde alguém havia sido atropelado por um carro.

— Oh, um acidente? — Cosme disse, tocando na vidraça.

Charlotte debruçou-se na enorme janela e esforçou a vista para tentar ver mais detalhes do acidente.

— Gente... Aquele cara atropelado no asfalto é Hansol.