Solstice - Interativa
42 「XI • Vivienne」 As peças se juntam
É hoje.
Naquela manhã de domingo, os dezenove convidados iriam se reunir na mansão de Evelyn conforme o combinado na noite anterior para finalmente completar a mensagem dos bilhetes.
Particularmente, Vivienne estava bastante interessada para encontrar os outros. E... Curiosamente o motivo principal de sua excitação não era o mistério.
Empolgada, vestiu um blusão vermelho com capuz e seu short jeans favorito; em seguida escolheu um batom com tonalidade mais suave do que estava acostumada a usar, e para terminar de se aprontar, passou BB Cream com cuidado no rosto e uma sombra bem clara.
Não era hábito dela sair com um look tão básico – gostava de passar uma imagem mais forte, provocativa... Porém desejava assemelhar-se mais a Amélie para sentir-se mais próxima da outra e entrar na zona de conforto dela. Assim, quem sabe as chances da ruiva aceitar um convite seu para tomar café aumentassem...
Borrifou um perfume com cheiro de cereja e pegou a bolsinha de alça que estava com seu envelope do Solstice, antes de finalmente sair do apartamento.
Iria de carona no carro de Jean, junto com Wallace, Alois e Amélie.
Quando o veículo chegou, a garota já estava esperando do lado de fora do prédio onde morava.
— Demorou, hein? — Ela sorriu para Jean enquanto abria a porta de trás. Acabou tendo uma desagradável surpresa: Amélie estava sentada no banco de passageiro da frente, e com isso Vivi havia perdido uma oportunidade de ficar mais perto da outra. — Espera aí... Amélie vai na frente? — Soltou sem pensar duas vezes.
— Sim... Tem algum problema? — Jean perguntou quase que asperamente, e Amélie, confusa, desviou o olhar da direção de Vivienne, tentando entender o porquê da pergunta dela.
— Não. Nenhum — forçou um sorriso e sentou com seu amigo Wallace, que estava ao lado de Alois.
— Wow, quem é você e o que fez com Vivi? — O hacker notou de imediato o visual novo da garota e fez uma expressão de espanto.
— Cale a boca, Wall-E — Às risadas, desferiu levemente um soco no ombro do melhor amigo.
Vivienne respirou fundo e cruzou as pernas, pensativa. Ainda teria outras chances de sentar-se perto de Amélie e chamá-la para um café.
Distraindo-se com a conversa que se iniciou entre os cinco, Vivienne mal notou o tempo passar. Em pouco tempo chegaram ao destino.
Dois seguranças com óculos escuros estavam parados ao lado do portão de entrada, que dava acesso à propriedade por trás daqueles altos muros.
— Seus nomes e sobrenomes, por favor — pediu um deles, com tom de voz brando após o grupo estacionar e descer do veículo.
— Eu sou Jean Kim, esta é Amélie Jung, e aqueles são Alois Jo, Vivienne Choi e Wallace Moon.
— Tudo certo. Evelyn está os aguardando. — Enquanto o segurança de cabelo preto falava, seu colega de trabalho loiro abriu o portão para os cinco entrarem.
A mansão Klavier era simplesmente linda. Vivienne nunca fora fã de edificações em estilo vitoriano fora da Inglaterra, mas estava realmente impressionada com o lar de Evelyn.
Entrando pela porta principal, deparou-se com uma espaçosa sala de estar. Havia dois sofás de quina no centro do cômodo, rodeando uma mesinha de vidro com um vaso com camélias. Quase todos os dezenove convidados que haviam se reunido na noite passada estavam ali; apenas Alyssa estava ausente.
Em pé, perto da enorme janela que dava vista ao jardim bem-cuidado da mansão, conversavam Astrid e Cosme em uma das extremidades enquanto Daehwi e Francis dialogavam na outra. Os únicos que não interagiam com os outros eram Sunhee, que estava entretida com o celular, e Hansol, que estava anotando algo num caderninho.
Mirando um espaço livre no canto de um um dos sofás, Vivienne tocou delicadamente o braço de Amélie e apontou o lugar.
— Olha, a gente pode se sentar ali.
A ruiva sorriu com a gentileza e as duas foram sentar-se lado a lado, próximas a Yeri, Jiho e Jieun. O pessoal as cumprimentou e logo cada um envolveu-se em conversas diferentes. Amélie ficou dialogando com Yeri, e Vivi acabou sem ter como interagir com a garota sozinha, como gostaria. Sem muita vontade de se intrometer na conversa das duas, Vivienne permaneceu em silêncio.
— Você conseguiu uma bolsa integral na L'Art est Supreme?! Meu sonho é cursar Artes Visuais lá! Mas é tão caro ingressar nessa faculdade... — escutou a conversa entre Jieun e Jiho. Aparentemente aqueles dois tinham várias coisas em comum e estavam se aproximando bastante.
O tempo passou e Alyssa enfim chegou na sala de estar com duas malas de viagem.
— Você vai viajar? — perguntou Henri ao vê-la daquele jeito.
— Só depois que este encontro acabar... Tenho que retornar a Paris, porque moro lá.
O semblante de Evelyn ficou um pouco melancólico com essas palavras; Vivienne percebeu e tentou ignorar.
Passados alguns minutos, Yeri levantou-se repentinamente do sofá e cruzou os braços.
— Ai, vamos logo completar a mensagem dos bilhetes que eu tô ansiosa pra terminar esse mistério! — falou alto — Todos aqui trouxeram seus envelopes, né? Ótimo. Coloquem eles aqui nessa mesinha. Vamos organizar os bilhetinhos de acordo com a numeração e decifrar essa loucura.
Todos colocaram seus bilhetes sobre a mesa e ajudaram a organizar. Logo o quebra-cabeças seria resolvido...
— Vivienne, “encontre” com letra inicial maiúscula. Francis, “me”. Alois, “no”. Daehwi, “prédio”. Hansol, “abandonado”. Wallace, “em”. Eu, “frente”. Cosme, “à”. Lorelei, “estação”. Amélie, “Lune”. Alyssa, “Sinimun”. Jiho, “daqui”. Sunhee, “a”. O número 14 está ausente. Yeri, “semanas”. Astrid, “suas” com letra inicial maiúscula. Jean, “próximas”. Henri, “tarefas”. Evelyn, “os”. Charlotte, “aguardam”. — Jieun terminou de recitar e todos ficaram em silêncio, tentando processar em suas mentes as duas frases que haviam se completado.
Encontre-me no prédio abandonado em frente à estação Lune-Sinimun daqui a _ semanas. Suas próximas tarefas os aguardam.
— Tarefas? Quem esse povo pensa que sou? Tenho dezesseis anos! Sou jovem demais pra me meter em conspirações — bufou Yeri.
— Realmente... No que a gente foi se meter? — atordoado, Henri cobriu a boca com uma mão.
— ...Esse quebra-cabeças foi um teste para saber se somos bons o suficiente, então? — Hansol finalmente falou alguma coisa. Vivienne não conseguiu decifrar a expressão facial do rapaz – se ele estava sentindo medo ou enorme admiração.
— Calma, calma aí, gente — Astrid tentou conter o burburinho que estava florescendo. — Está faltando a palavra de Len. Não sabemos daqui a quantas semanas devemos ir a esse tal prédio... Nem em que dia da semana.
— Acho que deve ser em uma quarta-feira, porque recebemos os envelopes numa quarta-feira e poderíamos ter resolvido esse quebra-cabeça lá no teatro caso tivéssemos interagido mais entre nós naquela noite — Daehwi constatou — Ah, e com certeza não é a próxima quarta, pois a palavra “semanas” está no plural.
— Mas também não sabemos de que horas precisamos ir para evitarmos a punição — Lorelei cruzou as pernas.
Punição. Que loucura. Aquela semana toda não podia ser real. Tudo precisava não passar de um sonho ruim... Entretanto, Vivienne estava de fato vivendo aquilo. De alguma forma tinha se envolvido numa conspiração ou fosse-lá-o-quê, e tudo o que queria naquele momento era voltar à sua rotina comum.
Pelo menos havia conhecido Amélie. E salvo Wallace de uma encrenca... Ugh, por que suas vidas não podiam ser normais?
Já não bastava as dificuldades que precisou enfrentar na infância. Todas as perdas e batalhas…
Porém, acontecesse o que acontecesse, a garota permaneceria como havia prometido a sua querida avó: forte, inteligente e independente. Iria conseguir dar uma volta por cima e arranjar um jeito de se sair bem naquela situação: não precisava se preocupar, bastava confiar em si mesma.
— Pessoal — Cosme interrompeu a todos com o celular em mãos, vendo um aplicativo de calendário enquanto falava. — Gosto bastante de ler sobre astros, corpos celestes e fenômenos que os envolvem, assim como ciclos lunares e afins. Pode ser coincidência, mas acho que não: daqui a duas semanas, no dia 21 de junho, quarta-feira, será solstício de verão.
— Sério? — Jean suspirou. — Então precisamos ir a esse prédio abandonado daqui a duas quarta-feiras, não importando o horário?
— Talvez o horário seja o mesmo que tinha no folheto marcando o encontro no teatro — Vivienne sugeriu, lembrando-se das palavras que a levaram ao Solstice. Encontre-me aqui, às 10pm de hoje. NÃO FALTE.
— Okay, mas... Nem todo mundo poderá comparecer ao tal prédio abandonado daqui a duas quarta-feiras, às dez horas da noite. — Evelyn engoliu em seco e olhou para Alyssa, que estaria bastante longe na data marcada.
— Não se preocupem, eu tentarei pedir uma folga extra ao meu chefe para viajar de volta para Nouvelle-Corée quando chegar a semana do encontro. Será uma despesa extra, mas estou realmente curiosa para saber qual é o fim dessa história.
O encontro acabou com isso; Sunhee sendo a primeira a levantar-se para ir embora. Evelyn cumprimentou a todos antes de saírem da mansão e ela tornou a ficar sozinha com Alyssa.
Um pouco decepcionada com o fato de não ter convidado Amélie para tomar café ainda, Vivienne retornou para o carro de cara fechada, junto com Wallace. Sua última oportunidade de chamá-la para sair seria agora, no caminho de volta para casa.
Quando passaram pelo portão, seu melhor amigo notou seu semblante meio aflito e pôs a mão em seu ombro.
— Está preocupada por causa do dia 21? Desse encontro doido que vai ter?...
— Não, não muito... Sabe, tem certas coisas que eu queria fazer hoje mas não consegui uma chance apropriada até agora.
— Ué, pensei que nada fosse difícil para Vivienne Choi! Você é uma das melhores alunas de Direito, a melhor lutadora que conheço e também a melhor guarda-costas que já existiu.
— Já parei de trabalhar com isso há um tempinho, lembra? — Ambos riram e chegaram ao carro de Jean. — Mas talvez eu volte, em breve. Estou deixando esse período pesado da faculdade acabar e...
— Ei! Não mude de assunto. Que coisa é essa que você queria fazer e não teve chance?
Vivienne encarou o garoto e olhou para Amélie, que estava entrando no veículo.
— Ah — o hacker falou. Os dois entraram com Alois e fecharam as portas.
Ela conhecia Wallace há dois anos, e uma olhadela já era o suficiente para um entender o que o outro queria dizer.
Sua amizade havia se desenvolvido de maneira bastante inusitada.
Quando Vivienne estava a dias de completar dezoito anos, encontrou recibos estranhos no quarto de seu rigoroso tio cujo coração parecia ser de pedra, que a forçava a fazer todos os afazeres da casa e com quem morava sozinha desde o acidente de sua mãe. Surpresa por causa da quantia estupidamente grande de dinheiro nos recibos, Vivienne procurou por alguém que fosse capaz de rastrear de onde seu tio havia arrumado tanto dinheiro. Por sorte, um amigo de um amigo conhecia um garoto hacker que seria capaz de a ajudar: Wallace. Ela pediu sua ajuda e acabou descobrindo que seu tio estava envolvido com desvio de dinheiro; era a oportunidade perfeita de livrar-se daquele homem horrível.
Depois do ocorrido, Vivienne não esperava mais encontrar com Wallace… Entretanto, poucos meses depois, cruzaram o caminho em uma academia. Ela ficou bastante surpresa, pois não esperava ver alguém tão dedicado à tecnologia frequentar locais de atividade física.
Ainda no dia daquela ocasião, ele iria sair com uns amigos para assistir a estreia de um filme de suspense que Vivienne também estava super interessada em assistir. Wallace a convidou para acompanhá-los ao cinema, e obviamente Vivi não recusou. Desde então, tornaram-se próximos o suficiente para se considerarem melhores amigos.
E por coincidência, agora estavam juntos numa aventura bizarra envolvendo mensagens com códigos secretos e edifícios abandonados.
— Hey, chegamos ao teu prédio — Jean sorriu para Vivi após estacionar, interrompendo o momento introspectivo em que a moça estava recordando-se do passado.
— Okay. Obrigada pela carona — ela sorriu de volta e abriu a porta. — Se cuidem, vocês~.
Antes de sair do veículo, inclinou-se repentinamente na direção de Amélie.
— Hey, eu gostaria de te conhecer melhor. Você está livre para tomar um cappuccino comigo no Le Petit Café amanhã, às três da tarde?
A ruiva hesitou um pouco, pensativa, e deu sua resposta.
— Eu adoraria.
Fale com o autor