Solstice - Interativa
44 「XI • Alois」 Miasma
Alois estava se sentindo num filme de terror enquanto subia cada vez mais degraus, iluminado apenas pelas lanternas dos celulares de seu grupo.
Com cuidado para não tropeçar nos degraus, Alois apoiou-se no corrimão meio trêmulo. Estava prestes a chegar no primeiro andar…
Depois de um tempo explorando, os dez de seu grupo constataram que não havia coisa alguma ali e decidiram subir mais um andar, mas viram ali as mesmas coisas: portas fechadas, luzes apagadas, corredores desertos. No terceiro andar também não encontraram coisa alguma, e Alois já estava sentindo-se exausto de tanto caminhar e subir escadas. Talvez devesse ter ficado no térreo...
Quando finalmente chegaram ao hall do quarto andar, tiveram uma surpresa bastante intrigante.
Naquele espaço, vinte pequenas mesas estavam postas linearmente em quatro colunas. Cada uma das mesas tinha uma luminária em cima, um papel com o nome de um convidado e uma caixa cor-de-rosa em formato de coração.
Aproximando-se da mesinha destinada a ela, Sunhee abriu sua caixa... E pegou uma trufa gourmet de seu interior.
— O que é isso...? — Jean e todos os outros nove que com ele estavam foram tomados por um único sentimento: confusão. Todo esse mistério para encontrar caixas com chocolates?
— Vou descer para avisar os outros — Hansol se ofereceu, um pouco desnorteado com a surpresa.
De repente uma onda de ansiedade possuiu Alois como se algo de errado estivesse acontecendo... Ou prestes a acontecer.
— Vou contigo — falou para ele sem pensar duas vezes. Seu único motivo para querer ir junto era a sensação estranha de que precisava sair dali.
— Volte logo. — Wallace tocou em seu ombro com afeto antes dele partir com Hansol.
Os dois rapazes desceram os degraus até o segundo andar.
Distraído, Alois ultrapassou Hansol sem notar que o outro havia parado e desceu dois degraus rumo ao próximo andar. Percebendo a hesitação do Lacroix, o mais novo voltou alguns passos.
— Está tudo bem? — perguntou. Hansol estava encarando fixamente o final de um escuro corredor daquele andar, apontando a lanterna de seu celular em direção às trevas.
— Eu acho que… Vi alguma coisa. Não sei bem o que era — ele começou a avançar pelo corredor, com uma mão segurando a pedra azulada em seu pescoço e a outra segurando o celular.
Hesitante, Alois se dividiu entre seguir Hansol naquele cenário de filme de terror ou deixá-lo ir embora e descer até o térreo. Na dúvida, acabou seguindo o rapaz.
Onde esse cara está indo?!
Dobrando a esquina de um corredor e indo parar numa galeria perpendicular àquela, os dois perderam visão da escadaria e penetraram cada vez mais na escuridão, abraçados por uma brisa fria que entrava pelas frestas das janelas.
De repente, escutaram um som vindo de trás deles – algo semelhante a um murro na parede.
Sobressaltado, Alois virou-se bruscamente, segurando seu celular com força e apontando a luz para a direção do barulho. No processo, bateu em Hansol sem querer e o mais velho soltou seu celular.
— Droga! — Praguejou e abaixou-se para pegar seu aparelho do chão. Nesse momento, Alois soltou um grito abafado e Hansol levantou-se ainda sem recolher seu pertence. — O que foi?!
— E-Eu vi algo sendo jogado ali — ele recuou um passo, assustado —, tipo uma bola de papel, sei lá! Vamos embora, por favor...
Mais calmo, Hansol refletiu um pouco e pôs a mão sobre o ombro do mais novo.
— Deve ser algum jogo psicológico de seja lá quem nos chamou aqui para testar se somos bons o bastante para realizar as tais tarefas que vamos receber. Mas vamos provar que somos — Hansol abaixou-se novamente para pegar seu celular e andou confiante até a esquina do corredor, por onde tinham passado há alguns segundos. Com auxílio da lanterna, avistou um aviãozinho de papel que não estava ali antes. Pegou-o sem hesitação para examinar o objeto.
Engolindo em seco, o mais novo aproximou-se de Hansol, que estava desdobrando o misterioso aviãozinho. De onde aquela coisa tinha vindo? Será que aquilo tratava-se meramente de um teste para avaliar suas reações, como Hansol sugerira? E se assim o fosse, será que os outros convidados também estavam passando por situações parecidas?
Repentinamente Hansol soltou o papel no chão com um gemido, e segurou a pedra do seu cordão fortemente, com as duas mãos.
— Aquela caligrafia... — Ele balbucia trêmulo. — E-Ela...
Curioso mas com temor, Alois apanhou o papel — que tinha pequenas manchas azuis de tinta na ponta — e leu as palavras que estavam lá escritas. A princípio o conteúdo não pareceu fazer muito sentido, mas então lembrou-se do que Astrid havia dito sobre as descobertas de Amélie sobre Hansol.
“Você não tinha gostado quando te dei, mas agora ele é teu bem mais precioso. Você pode ter me abandonado, mas eu nunca te abandonei.”
O cordão com a pedra azulada que aquele homem sempre carregava em seu pescoço... Era presente da irmã... Que havia falecido... Há muitos anos.
— H-Hansol... — Alois segurou instintivamente o braço do outro com um calafrio.
O mais velho sacudiu a cabeça tentando afastar os pensamentos negativos e racionalizar a situação. Levantou seu celular, apontando a luz para a direção de onde vieram — para a escadaria que os levaria para longe dali…
E ambos os rapazes ficaram horrorizados ao verem, a poucos metros de distância, uma garota vestida de branco com longos cabelos negros ondulados cobrindo parte de seu rosto.
Vendo que Hansol estava tendendo a avançar em direção à figura, Alois o puxou ao caminho contrário — para o mesmo corredor perpendicular que iam adentrar anteriormente.
— Me larga! — Hansol berrou. Ele estava… Lacrimejando?
— Você é louco?!
Hansol começou a chorar estarrecido.
— E-Eu nunca te abandonei! — gritou para a figura misteriosa em meio a soluços desesperados, enquanto era arrastado com muita dificuldade por Alois para o outro corredor. — E-Eu nunca... — Num impulso, Hansol soltou-se das mãos de Alois e correu para onde estava a menina… Apenas para descobrir que ela tinha desaparecido.
Ali estava apenas outro aviãozinho de papel, também com manchas azuis. Seu conteúdo deixou Hansol e Alois paralisados.
“Você devia ter ido comigo.”
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