Solstice - Interativa
24 「VII • Marie」 Resgate
A mensagem que Marie tinha recebido de seu contato não era boa em aspecto algum. Saber que seus planos estavam ameaçados era algo que a deixava nervosa o suficiente para tomar decisões arriscadas, dirigir acima da velocidade permitida e passar dois sinais vermelhos enquanto se locomovia rumo ao cais.
Tinha passado lá na noite passada para tratar de outros assuntos com Terry, um traiçoeiro homem de negócios ilegais que estava devendo-a certa quantia de dinheiro. Mas naquela madrugada, o assunto a ser tratado era diferente.
Aparentemente, um dos vinte selecionados de seu projeto tinha sido sequestrado e estava sob cativeiro numa das instalações subterrâneas que Terry possuía no cais. Uma notícia bastante desagradável que amargou o despertar da empresária; e para tal inconveniência não surtir impactos negativos em seu grandioso plano, a dama precisava se apressar.
No momento, já se encontrava na via ao lado do terminal de containers. Em alguns minutos, chegaria à área das docas, onde alguns depósitos e pequenos prédios de propriedade privada se encontravam.
Chegando ao seu destino, Marie parou o carro na frente do pequeno prédio de primeiro andar em que Terry executava seus serviços. Saindo do veículo, andou apressada no beco da lateral do edifício até chegar a uma pequena escada externa junto à parede. Descendo os degraus, Marie chegou à porta que levava ao primeiro dos andares subterrâneos.
Acionou o interfone, com uma expressão mal-humorada no rosto.
“Quem está aí?”
— Sou eu de novo, Jongin. Deixe-me entrar.
“Oh... Sim, senhora.”
Em poucos segundos, o homem abriu a porta para a senhora, que entrou ali de imediato.
Aquele local era conhecido como “Masmorra”. Sua fama, propagada tanto entre corruptos poderosos como mafiosos e gangues locais, devia-se principalmente a duas coisas: o fato de que as paredes rústicas de pedra lembravam bastante um calabouço medieval, e as temíveis histórias de tortura ambientadas nas celas daquele local. Caso um aliado de Terry – fosse chefe de gangue, mafioso ou alguém de cargo importante – quisesse se livrar de alguém ou dar uma lição na pessoa em questão, tudo o que era necessário era pagar determinada quantia àquele homem. Os alvos seriam capturados em questão de horas e seriam jogados numa daquelas celas tenebrosas.
No entanto, ambientes como aquele não assustavam Marie. Muito menos Terry, aquele cachorrinho babão que vivia lhe devendo um monte dinheiro. Para liquidar a dívida aos poucos, o criminoso cumpria pequenos favores para a dama de vez em quando. Em suma, era uma relação de benefício mútuo.
— Terry se encontra, Jongin? — Seu semblante sério era um dos pontos mais fortes de Marie, que não tinha problemas em intimidar as pessoas ao seu redor com um olhar frio.
— Acho que ele ‘tá nas dependências dele, lá em cima. Sabe como é, ele sempre dorme até tarde quando passa a noite n--
— Não tenho tempo para ouvir fofocas sobre a vida pessoal de seu chefe. Preciso que o chame urgente. Quero ver um dos seus prisioneiros recentes.
Jongin engoliu em seco e discou o número de Terry em seu celular. Como era esperado, o homem demorou para atender.
“Alô?”
— Ô chefinho, pode descer aqui rapidinho? Marie ‘tá aqui querendo falar com você.
A mulher conseguiu escutar um resmungo baixinho na linha telefônica, e seus lábios formaram um pequeno sorriso de desprezo. Parece que certos cachorrinhos precisam ser adestrados de forma melhor.
Finalmente o robusto Terry chegou ao corredor de entrada do andar subterrâneo, onde Marie e Jongin o aguardavam.
— Ora, ora. Não esperava vê-la aqui tão cedo, madame. Suponho que seja sobre o meu empréstimo extra de ontem? — ele de um sorriso falso. Patético.
— De certa forma, sim. Estou procurando por um prisioneiro seu. Len Park.
Terry soltou uma gargalhada genuína.
— Ah, sim... O senhor Jaeyong da Iridescent Corp. me entregou esse moleque ontem. Parece que o bobinho estava tentando fugir do país, e veio pedir ajuda pro Jaeyong pensando que ia se safar depois do que ele fez. Ridículo, não acha? Mesmo tendo envenenado o senhor Chang, tentou contatar os amigos do falecido em busca de ajuda, hoho!... Agora está sendo vítima da vingança merecida. — Fez uma pausa dramática durante alguns segundos. — Ah, o bondoso senhor Chang. Ele era uma pessoa tão boa. Uma verdadeira perda. — Apesar de ter falado as três últimas sentenças com um tom de voz nostálgico, Terry ainda mantinha um sorriso estampado em seu rosto. Ugh.
— Poupe-me dessa conversa. Mostre-me onde ele está.
— Oh, supus que você quisesse checar se ele estava recebendo o que merece! Por favor, me acompanhe.
Os três andaram pelo corredor até Terry parar e abrir uma das portas. Do outro lado se encontrava uma longa e escura escadaria para um andar mais inferior da “Masmorra”.
— Lá embaixo estão as celas. Acho que nunca as mostrei para você, não é mesmo, querida?
Marie ignorou o homem e desceu os degraus elegantemente. Aproximando-se do final da escadaria, escutou gemidos baixinhos que ecoavam por todo o caliginoso corredor. Com um suspiro de desprezo, a dama virou-se para Terry e o encarou friamente.
— Leve-me até a cela de Len.
— Uhuhu. Como quiser, senhora! — antes de prosseguir, o criminoso deslizou a mão pela parede até encontrar o interruptor. As lâmpadas fracas do corredor se acenderam e Terry voltou a caminhar na frente. — Aquele desgraçado é um bom pedaço de carne, devo admitir. Abdômen bem definido, coxas grossas, rostinho bonitinho... Bom, não mais tão bonitinho. Hehe. Pode ter certeza que ele está recebendo o castigo que merece.
Os três pararam na frente de uma das portas, que tinha o número “28” inscrito na sua superfície.
— Jongin, abra aqui — o tom de voz que Terry usou para o capanga era violentamente autoritário. O rapaz obedeceu as ordens, pegando um molho de chaves de dentro do bolso e destrancando a cela de Len.
O cômodo era soturno e espaçoso. Não havia mobília no local. O jovem prisioneiro estava desacordado, sentado no canto. Seus braços estavam levantados, pois suas mãos estavam acorrentadas em grilhões ligados à parede. Tudo o que ele estava vestindo era apenas uma roupa íntima preta e uma venda negra nos olhos. Seu corpo estava cheio de hematomas e cortes.
Uma cena deplorável e desumana.
Marie observou aquela situação por uns instantes, imóvel. Era mais do que óbvio que precisava tirá-lo dali imediatamente.
Ela virou-se casualmente para Terry e cruzou os braços.
— Vim negociar a libertação dele.
— Hein? — o criminoso ficou perplexo ao ouvir essas palavras. — Mas... Como assim? Ele deu um fim no senhor Chang!
— Pare de atuar. Você nunca gostou daquele velho rabugento. — Marie ponderou sobre qual seria o melhor movimento naquela hora, enquanto Terry fica ainda mais desnorteado com a resposta que recebeu. Alguns segundos se passam antes dela tomar uma decisão. — Que tal se metade da sua dívida ser liquidada?
A confusão de Terry logo transformou-se em um sorriso cheio de prazer.
— Oh, querida! Isto definitivamente seria excelente! Ohoho... Mas o que devo dizer ao senhor Jaeyoung quando ele perguntar como está sendo a estadia de Len?
— Diga que você pegou pesado demais e ele não resistiu. Aí seus capangas jogaram o corpo do mar para liberar a cela. Fim.
— Hum... — Terry parou para refletir um pouco, provavelmente suspeitando que Len tinha envenenado o senhor Chang a mando de Marie. — Está bem. Jongin, tire o rapaz dali.
— Deixe-o no meu carro. — Marie ordenou ao capanga do homem. Em poucos minutos, Len já estava posto no banco de trás do veículo da dama.
A dama planejava alojá-lo em sua casa por um tempo. Não acreditava que ele era culpado pelo crime que lhe condenavam, por isso não estava muito receosa em cuidar dele. Além de tudo, a execução do seu plano era importante demais para ela preocupar-se com segurança.
As vinte pessoas do Solstice tinham sido escolhidas por um bom motivo. Marie acreditava nisso, e estava disposta a arriscar bastante para os proteger.
Mas, lá no fundo, uma parte dela não entendia os motivos que levaram aquelas pessoas a serem selecionadas. E iria continuar sem entender, pois era sábia o suficiente para não questionar os indivíduos que as escolheram...
Ao estacionar o carro em casa, Marie observou por alguns momentos o pobre rapaz semi-nu que estava na banco de trás. Ele ainda estava inconsciente, com algumas feridas ainda à flor-da-pele. Precisava urgentemente de cuidados, pois o tratamento que ele tinha recebido na “Masmorra” havia o debilitado bastante.
Por que pessoas como Jaeyoung e Terry eram tão desprezíveis? E como ela suportava fazer negócios com gente assim? Bom, chega de pensar nisso. Suas alianças não eram o maior problema do momento.
Iria cuidar do rapaz, e talvez descobrir o que realmente aconteceu com o tal senhor Chang...
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