Solstice - Interativa
19 「VI • Alois」 Vidas cruzadas
Notas iniciais
Para ser um bom jogador de xadrez, é necessário sempre pensar na frente. Prever a maioria dos movimentos do oponente, e armar estratégias que sempre lhe deixem preparado para dar a volta por cima.
Também é importante não subestimar peça alguma do oponente, até mesmo os peões – que apesar de parecerem inofensivos por causa de sua aparente fragilidade, podem tornar-se tão perigosos quanto a rainha.
Algumas pessoas comparam a vida a um jogo de xadrez. Para ser bem sucedido, bastaria seguir os mesmos princípios. Não subestimar os problemas – por menores que eles pareçam –, ser calculista e sempre tentar prever o que irá acontecer.
No entanto, estes princípios pareciam não se aplicar mais à vida de Alois; principalmente nas últimas semanas. Como pensar na frente se nada acontece como planejado?
Na faculdade, a nota dele em certas matérias não havia sido tão bem como ele achava que seria. Ele tinha recebido um convite estranho para um teatro abandonado sem mais nem menos, e ao chegar lá só recebeu um bilhete sem sentido. Seus pais precisaram viajar para uma viagem de negócios de última hora, deixando-o sozinho em casa. E além disso tudo, ele havia perdido uma importante aposta com seus amigos e agora tivera que ceder o casarão em que morava para que os outros darem uma festa.
Alois era bem popular, mas odiava festas. Sua sorte era que sua residência possuía o lugar ideal para se recolher e ignorar completamente o que acontecesse no resto da casa: o escritório de seu pai. Era um cômodo calmo, repleto de coisas vintage, cheio de livros de romance... E o mais importante de tudo, quase não dava para escutar som algum do exterior. Com certeza não iria ouvir o pessoal de fora conversando alto.
O rapaz pretendia passar a noite ali até que a festa acabasse, em paz e harmonia. Um de seus amigos quis ficar lá também para que ele não ficasse sozinho. Iriam ler, conversar e jogar xadrez sem se preocupar...
Bom, isso se seu plano tivesse ocorrido como planejado.
Alois estava prestes a dar xeque-mate em seu colega quando de repente os dois ouviram uma batida forte na porta. Seu amigo se dispôs para ver o que era, e… uma garota e um rapaz segurando um jovem desacordado estavam aguardando do lado de fora do escritório.
— O que houve? — perguntou Alois depois que entraram e o amigo trancou a porta novamente. A vida é cheia de imprevistos, não é mesmo?
— Não sabemos. Disseram que ele tinha bebido demais, mas o Jongin aqui — a garota fez um gesto com a cabeça em direção ao garoto ao seu lado — estava sentado ao lado dele e me afirmou que esse menino nem chegou perto do álcool.
— A única coisa que ele bebeu foi água — Jongin reforçou, claramente nervoso. — Talvez isso seja uma crise de alguma d-doença que ele tenha? Olhe como está suando! E está t-todo vermelho...
Alois respirou fundo antes de decidir o que fazer.
— Deitem ele no sofá e desabotoem alguns botões da camisa dele para tentar melhorar esse estado. Vou usar alguns lenços para enxugar o suor do rosto. — De repente, alguém começou a bater na porta sem parar. Seu amigo olhou em sua direção, como se esperasse por uma permissão para verificar o que era. — Ignorem essas batidas por enquanto; primeiro vamos cuidar deste problema aqui.
O jovem dono da casa pegou uma caixinha de lenços e sentou-se numa cadeira de frente para o sofá do escritório, onde Jongin e a moça haviam deitado o rapaz inconsciente.
Era uma cena deplorável. O rosto do coitado estava todo vermelho, cheio de suor. Seus lábios se movimentavam de maneira quase imperceptível, como se estivessem gemendo silenciosamente. E de alguma forma, aquele rosto parecia familiar a Alois.
As batidas na porta continuavam. Cada vez mais fortes.
— Acho que deveríamos atend-- — seu amigo falou, mas Alois o interrompeu de imediato.
— Deixe baterem por um tempo. Já tem gente demais neste cômodo.
Com cuidado, o garoto passou o lenço no rosto do desconhecido. De onde já tinha visto aquele menino? Não era de sua sala. Talvez já tivessem cruzado caminho na faculdade?...
Bam. Bam. BAM.
— Desculpa gente, mas eu não aguento mais essas batidas — seu amigo disse e correu até a porta. Assim que ele a abriu, uma garota entrou no cômodo o empurrando violentamente. Logo atrás dela, veio um rapaz.
A jovem olhou para o garoto no sofá, com um misto de preocupação e indignação em seu olhar.
— O que aconteceu com o Wallace?! E por que demoraram tanto pra deixar a gente entrar?!
— Calma, calm-- — Jongin tentou acalmá-la, mas foi só ele se aproximar que a garota segurou a gola dele com força.
— Você quer que eu fique calma? Eu estava prestes a sair daqui e do nada vejo meu melhor amigo inconsciente sendo carregado pra cá! Bati várias vezes na porta e ninguém abriu essa porcaria!
Alois fechou os olhos por um instante e então continuou a enxugar o rosto de Wallace, tentando ignorar a situação ao redor – o que infelizmente não dava para fazer.
— Olha, é melhor algum de vocês dar uma explicação razoável pra Vivi — o rapaz que estava a acompanhando falou em tom ameaçador, mas apenas se dirigindo aos rapazes. A moça que tinha trazido Wallace com Jongin mordeu o lábio enquanto observava a cena.
— Aqui tem gente demais — Alois enfim falou. Mirou o amigo, a moça e Jongin. — Vocês três, podem sair.
— Ninguém vai sair daqui até dar alguma explicação — a tal Vivi disse.
— Eu disse que podem sair. Darei as devidas explicações a vocês dois assim que eu terminar de cuidar do seu amigo aqui, certo?
Os outros saíram do cômodo, e apenas Vivi, o rapaz que estava com ela, Alois e Wallace permaneceram.
— Queria resolver um problema de cada vez e não me sinto confortável com muitas pessoas no mesmo cômodo. Peço perdão.
— Quem você pensa que é? O dono da casa? — o amigo de Vivi perguntou de maneira agressiva.
— Bom... Isso mesmo.
O desconhecido se calou, mas Vivi ainda estava claramente ressentida.
— Você não faz ideia de como fiquei nervosa com essa droga de espera desnecessária. Eu juro que só não quebro a sua cara porque você está cuidando dele.
Alois engoliu em seco diante daquela constatação, que havia soado como uma ameaça, e voltou a focar no garoto desacordado.
O jovem tinha certeza de que havia algo de familiar não só no rosto de Wallace, mas também no daqueles dois desconhecidos... Como se tivesse os encontrado recentemente. Mas quando, e onde...?
Esforçou um pouco a memória e finalmente se lembrou. Havia os visto na noite passada, no teatro. Todos eles foram convidados do encontro.
— Vocês também foram ao Solstice — afirmou, ao passo que Vivi e o outro rapaz ficaram perplexos com a afirmação.
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