Solstice - Interativa
2 「I • Francis」 O folheto
Notas iniciais
Abra os olhos.
Francis espreguiçou-se na cama, ainda sem levantar.
O clima estava bastante frio e agradável; perfeito para relaxar em casa sob as cobertas quentinhas da cama e também ideal para saborear uma xícara de chocolate quente. Ou duas.
Pena que era quarta-feira e Francis precisava sair para “trabalhar”.
O jovem reuniu suas forças e ficou de pé, ainda com um pouco de dificuldade. Esfregou uma mão no cabelo, respirou fundo e tirou a camiseta cinza, dirigindo-se ao banheiro de seu pequeno apartamento para tomar banho e se aprontar.
O “chefe” não gostava quando ele se atrasava. As entregas precisavam ser pontuais e por algum motivo Francis havia sido escolhido por ele para o serviço.
Ainda tinha a memória vívida do dia em que ele entrou naquele negócio. Estava voltando do seu antigo emprego para casa, fazendo o mesmo percurso de sempre, quando foi abordado por um homem numa limousine. Aquele desconhecido ofereceu grandes quantias de dinheiro a Francis em troca de “serviços”, no caso, entregar maletas em determinados lugares sem ser visto por outras pessoas. Com a crise no restaurante da família e com os problemas do trabalho da irmã, Francis não teve muita escolha. Até aprendeu a gostar daquilo, mesmo com... Umm, deixa pra lá.
Ao sair do banho, começou a trocar de roupa enquanto pensava no que teria que fazer naquele dia. Colocou um casaco verde-claro e uma bermuda com estampa tropical florida, e calçou uma sandália branca.
Tomou um rápido café da manhã, escovou os dentes e saiu correndo. Tinha apenas dez minutos para estar no beco onde recebia as tarefas.
Chegando lá, aproximou-se da porta dos fundos de uma boate, onde uma moça mascando chiclete estava sentada à uma mesinha. Uma maleta preta estava do lado dela.
— Bom dia, Francis. A entrega hoje será na rua Bas-Bulgwang.
— Sério? Ouvi falar que acontecem conflitos entre gangues lá.
— O chefe não se importa, querido. — A moça deu uma risada baixa. — Quando você pediu pra parar de fazer essas entregas, deixou de ser o menino de ouro do chefe. Agora que voltou, tem que se esforçar o dobro.
Francis engoliu em seco.
— Seu contato estará lhe esperando num beco sem saída que fica à frente de uma padaria. Você tem até o meio-dia para cumprir sua tarefa.
— Mas essa rua é do outro lado da cidade!
— E? Problema seu. — A moça fez uma pequena bola de chiclete.
Com um suspiro, Francis pegou a maleta e escondeu-a por baixo do casaco que estava vestindo. Não era muito discreto, mas com certeza era melhor do que deixá-la exposta.
Enquanto andava pela avenida, pensou qual seria o melhor trajeto para chegar no lugar onde deveria entregar a maleta. Precisava ser rápido e escolher as ruas certas para não chamar atenção...
Basicamente, assim era a rotina dele. Após concluir as entregas do dia, Francis passaria no restaurante dos pais para ajudá-los e, durante a noite, trabalharia como caixa num minimercado. Então voltaria para seu apartamento, apenas para dormir por poucas horas até o despertador de seu celular tocar e o dia recomeçar...
Pelo menos o dinheiro que recebia ao final da semana era suficiente para ajudar sua família, pagar as contas e comprar algumas coisas extras. E estava ótimo assim, para ele.
Talvez algum dia as coisas mudassem. Talvez a vida melhorasse. Quem sabe, ele voltasse para a faculdade. Mas até lá...
— Francis?
Um rapaz segurou o braço dele, o obrigando a parar. A voz era conhecida, de alguém próximo mas que há muito tempo não falava com ele...
— Jinyoung! — Francis deu uma risada e abraçou o antigo melhor amigo de infância, quase esquecendo-se que estava com uma maleta por baixo de sua roupa. Por pouco ela não caiu. Para disfarçar o problema, Francis levou sua mão direita à lateral esquerda da barriga, afastando-se do outro rapaz. — Faz um bom tempo, hein?
— Sim, sim! Já estava com saudades. Você nem sequer ligou ou mandou uma mensagem pra dizer que estava vivo!
Francis mordeu o lábio, com vergonha.
— E já vai fazer uns seis meses que você não posta coisa no Instagram. Nem fotos do seu poodle fofo~.
— Ah... Nuvem está morando com meus pais. E minha vida anda meio corrida ultimamente — falou, retirando o smartphone do bolso e olhando as horas. — Umm... Como vai Marie?
— Minha tia está ótima, como sempre. Só chega em casa tarde da noite, e quando acordo ela já saiu. Pena, né? Ela é tão legal, queria passar mais tempo com ela. — Jinyoung morava com a tia desde os oito anos, e considerava-a uma mãe. — Como está sua família?
— Estão todos bem... — O fato de estar parado naquele momento estava perturbando bastante Francis, mesmo se tratando seu antigo melhor amigo. Precisava entregar a maleta até o meio-dia; estava quase na hora e ainda faltavam seis quarteirões para chegar ao local. — Ei--
— Ah, acho tão bom que nos reencontramos! — Jinyoung sorriu, e notou que Francis ainda estava segurando a barriga. — Uh, você está bem?
— Sim, estou ótimo. — Francis recuou um passo. — Mas preciso ir agora. Estou me atrasando para um compromisso. Vê se me liga, tá?
— ...Certo. — Após o amigo falar isso, Francis acenou e se virou. Já estava há alguns passos de distância quando Jinyoung gritou para ele. — Ei! Você não usa mais o Kakao?
— Não, desinstalei! — Francis respondeu de longe, e saiu correndo para não chegar tarde demais ao ponto de encontro.
Foi muito bom reencontrar seu amigo de infância, mas pequenos atrasos como aquele podiam custar-lhe o emprego.
Felizmente, chegou dois minutos antes da hora e tudo deu certo.
Enquanto retornava correndo para perguntar se ainda receberia alguma tarefa nova, sentiu seu celular vibrar na sua bermuda. Pôs a mão no bolso e notou que além do celular, também estava um papel. Estranho, não deixo coisas no bolso além do celular e da carteira.
Francis parou num canto, retirou ambos os objetos, e atendeu a ligação.
“Primooo.”
— Oi, Yeri — o rapaz suspirou com um sorrisinho. Todo dia sua prima mais nova ligava contando coisas da escola; os dois eram muito próximos e ela era a pessoa com quem Francis mais conversava nos últimos anos. — O que aconteceu?
“Estou chateada com você.”
— Como assim, o que eu fiz?
“Você esqueceu que ontem foi meu aniversário.”
— O quê?! Ontem foi seu aniversário?! Olha, desculpa, eu realmente esqueci, eu tenho andado bastante ocupado ultimamente, mas eu--
“Primooo, se toca. Estou brincando, cara. Meu aniversário é mês que vem~”
— Ah — ele riu por ter caído na brincadeira, e desdobrou o papel estranho que estava em seu bolso com sua mão livre.
“Mas sério, estou chateada com você. Não foi ao almoço da família no último sábado.”
— Já me desculpei por isso. Tive que fazer hora extra, lembra?
“Meh.”
O papel nas mãos de Francis era um folheto. Uma propaganda de uma peça no antigo teatro Solstice, que estava fechado há muitos anos e abandonado desde a última apresentação no local...
Ainda ouvindo a prima falar no telefone, o rapaz virou o papel para ver se havia algo no verso; tendo uma grande surpresa ao ler as palavras lá escritas em cor vermelha.
Encontre-me aqui, às 10pm de hoje. NÃO FALTE, FRANCIS.
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