Solstice - Interativa
4 「I • Charlotte」 Corações paralelos
Notas iniciais
— O que você está fazendo, Lotte? — Lorelei perguntou jogando-se na cama de sua melhor amiga, que estava sentada à uma mesinha há alguns passos de distância.
— Estou acompanhando o estado do Jisung. A nova namorada dele está me deixando por dentro da estadia dele no hospital — Charlotte respondeu um pouco distraída, vendo o celular.
— Ow, sério que você ainda está preocupada com aquele cara? Ele não te merece — a garota bufou, impaciente.
— Não é como se eu estivesse interessada nele... Só quero saber se ele está bem. O acidente foi sério, talvez ele precise amputar uma perna.
— Coitado — Lorelei falou, sem alterar o tom de voz ríspido. — Mas você sabe o que ele te fez. Não se apegue ao que te faz mal. Seja como eu.
Charlotte mordeu o lábio e olhou para amiga, que estava a encarando séria. Sabia que aquele olhar significava que, apesar de parecer estar com raiva, Lorelei estava bastante preocupada. A convivência as ensinou a se conhecerem melhor do que a qualquer outra pessoa.
Moravam na mesma casa desde que Charlotte tinha quinze anos. Os pais dela sempre foram muito próximos dos pais de Lorelei, que eram seus vizinhos, e desde criança as duas meninas eram muito amigas. Um dia, por algum motivo desconhecido, Charlotte foi entrega aos cuidados dos pais da outra. Tentaremos voltar o mais breve possível, o pai dela havia dito antes do casal partir; mas cinco anos haviam se passado e nenhuma notícia deles havia chegado.
Seus pais não atendiam os celulares, não respondiam os numerosos e-mails que a jovem havia enviado… E as redes sociais deles estavam estagnadas, sem nenhuma atualização.
Provavelmente Charlotte nunca mais os veria de novo, e isso doía. Queria muito sair para procurar por eles, mas primeiro pretendia terminar a faculdade e ter recursos suficientes para iniciar a busca.
Enquanto isso, Lorelei a ajudava a se distrair dos problemas pensando em outras coisas. A garota era sua melhor amiga, e Lotte a considerava como uma irmã.
— Hoje é aniversário de um colega da faculdade. Ele vai dar uma festa, vai começar às sete da noite... Ou seja, daqui a meia hora. — Lorelei levantou-se da cama e ajeitou o cabelo. — Venha comigo.
— Mas eu não conheço as pessoas da sua turma...
— E? Eu te apresento. Se solte, menina! — As duas riram enquanto Lorelei pegava de seu guarda-roupa uma bolsa clutch branca com detalhes dourados.
— Eu sou solta. — Charlotte levantou-se da cadeira e pôs o celular na mesinha. — Certo, eu vou com você. Mas ainda vou me arrumar, ficarei pronta em dez minutos.
Em pouco tempo, as duas já estavam dentro do táxi indo em direção à casa do tal colega. Chegando lá, Charlotte se encantou com o local: era um casarão branco bonito, sofisticado e extremamente grande; havia um pequeno jardim na frente e grandes janelas modernas ao redor da casa.
Saíram do carro, e entraram na enorme casa. O volume do som estava alto, no momento estava tocando a música “Rollin’” das Brave Girls. A cor das lâmpadas oscilava entre vermelho, verde, azul, violeta e turquesa... E muitas pessoas estavam lá.
Lorelei cumprimentou alguns conhecidos e foi logo apresentando Lotte.
— Essa aqui é minha irmã — falou aos amigos, extremamente feliz. — o nome dela é Charlotte.
— Hey, Charlotte!
— E aí, tudo bem? Quantos anos você tem?
— Posso te chamar de Lotte? Ou você prefere Char?
— Você faz Medicina, né? Meu irmão estuda na sua sala~.
— É verdade que você faz aula de tiro? Nossa!
Aquela estava sendo a noite mais movimentada da vida da jovem Charlotte. Nunca tinha ido a uma festa, e estava se sentindo um pouco perdida sendo apresentada a tantas pessoas.
Realmente, muitas pessoas. Muitas.
Estava abafado demais. Muita gente conversando ao mesmo tempo. Quase não dava pra ouvir a música, mesmo com o volume tão alto.
Charlotte começou a suar. Não estava se sentindo bem.
— ...E este aqui é o Jungkook, o aniversariante. — Lorelei o apresentou sorrindo para Charlotte, entretanto a jovem não estava prestando muita atenção. — Charlotte? Planeta Terra chamando Charlotte!
— Hã, o quê? Ah, desculpa. Não estou muito bem. — Lotte engoliu em seco e tentou processar o que a amiga tinha dito. Encarou o jovem, que estava a olhando. — Oh, parabéns! — falou, tentando sorrir.
Ele permaneceu sério e se aproximou, um pouco preocupado.
— Você realmente não parece bem... Sabe dirigir? Se você quiser, posso te emprestar meu carro para ir para casa. Ou se preferir, posso te levar.
— Eu... Não preciso, obrigada. — Os olhos de Lotte estavam ardendo. — Vou voltar para casa andando.
Lorelei fez uma cara de espanto.
— O quê?! Você não pode voltar para casa sozinha à essa hora. É muito tarde.
— Eu preciso de ar fresco. Desculpa por sair tão cedo de sua festa, Jungkook. Te vejo mais tarde, Lotte.
— Pode me chamar de Cookie — ele sorriu. — Espero que você melhore. Até outro dia.
Ela respondeu com um sorriso desajeitado, acenou para Lorelei e tentou se locomover entre a multidão de pessoas que estavam presentes na festa.
Finalmente chegou à porta de saída. Sentia-se exausta.
A lua estava brilhando no céu, que estava um pouco nublado.
As calçadas estavam quase vazias, e poucos carros passavam pelas ruas em que ela passava. A garota sabia, mais ou menos, por onde estava andando e qual caminho precisava percorrer para chegar em casa-- bastava ver pontos de referência, e na dúvida era só checar no celular.
O celular! Tinha o esquecido em casa... Mas sem problemas, sabia se cuidar.
O clima estava bastante frio. Sem motivo aparente, Lotte parou e olhou para trás, notando uma silhueta humana num beco há alguns metros de distância. Parecia um rapaz segurando uma mochila… Olhando diretamente para ela.
Lembrou-se de uma notícia que havia passado no jornal da noite passada; um jovem criminoso estava foragido. Se lembrava bem, esse tal criminoso era um jovem empresário chamado Len Park. Ele havia... Er, “dado um fim” a um inimigo do trabalho. Tentaram prendê-lo, mas Len agrediu os seguranças brutalmente e escapou.
...Se bem que aquele homem misterioso também poderia ser um membro de gangues qualquer. Ou um maluco, quem sabe.
Felizmente, ele desviou o olhar e penetrou mais ainda no beco escuro, misturando-se com as sombras.
Charlotte deu um suspiro de alívio por ele ter desaparecido e apressou seu passo. Queria chegar em casa o mais rápido possível.
Cortou caminho pela praça. Atravessou dois quarteirões e correu por um trecho que achava perigoso. Dobrou uma esquina, desceu mais cinco quarteirões… E finalmente estava em casa.
Chegando, trancou-se e foi direto para o quarto. Os pais de Lorelei ainda não haviam chegado do trabalho.
Mal entrou no cômodo e seu celular, que estava na mesinha, começou a tocar. De imediato, Lotte pensou que poderia ser Lorelei ligando para saber se ela chegou, ou os pais da amiga avisando que iriam se atrasar. Também poderia ser a nova namorada de Jisung com novidades do estado de saúde do rapaz. A garota correu para atender, e...
— Alô?
“Charlotte... Como é bom ouvir sua voz. Achava que tinha lhe perdido para sempre.”
A voz era bem grossa, sem dúvida de um homem. Só que Lotte não fazia a menor ideia de quem era.
— Perdão, mas quem está falando?
Nesse momento, a ligação começou a chiar. As únicas outras palavras que Charlotte conseguiu distinguir foi “eu vou te encontrar”.
Com medo? Não, ela havia esquecido como era sentir medo. Não frequentava aulas de autodefesa à toa; se aquela ligação se tratava de uma ameaça, coitado de quem estava do outro lado da linha.
Ah, que noite... Precisava relaxar e tirar as preocupações da cabeça. Tomou um rápido banho que a fez acalmar-se bastante. Enquanto ela vestia o pijama, notou um papel em cima da cama. Uma propaganda de uma peça do antigo teatro Solstice.
Estranho... Tinha certeza de que quando chegou, nada estava sobre sua cama. A garota pegou aquele folheto e percebeu que havia algo escrito em vermelho atrás dele.
Encontre-me aqui, às 10pm de hoje. NÃO FALTE, CHARLOTTE.
Eram 21h12; Charlotte tinha quarenta e oito minutos para não se atrasar.
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