Solstício de Verão
6 Uma voz familiar
No castelo de Hades, onde todos aguardavam ansiosos a volta do deus do submundo, Aiacos, um dos três juízes do inferno, a elite do exército do senhor dos mortos, tamborilava os dedos nos braços de sua suntuosa cadeira.
— O imperador está quase voltando e Minos ainda não chegou.
— Eu o vi, senhor Aiacos.
O espectro de Garuda direcionou sua atenção para Lune. Balron era o único membro do exército de Hades, além de dos outros dois juízes e, claro, Pandora, que que o encarava diretamente, sem se ajoelhar respeitosamente antes de falar. E, incrivelmente, isso não o incomodava. Ele era forte o bastante para ter esse direito.
Alguns dias antes, logo após seu despertar, Lune havia ido diretamente para o castelo e assegurara que Minos certamente apareceria na capital da Noruega e que era apenas questão de tempo até encontrá-lo.
— Eu senti um fraco lampejo de seu cosmo em Oslo e o vi saindo do hospital – continuou. – O humano deve estar lutando contra a estrela maligna.
— Isso é absurdo. Vá buscá-lo, sem demora. Tenho certeza de que, se você o confrontar, ele vai parar com essa brincadeira de queda-de-braço com esse humano inútil.
— É bom mesmo que ele desperte logo.
Uma terceira voz, feminina, se juntou à conversa.
— Senhorita Pandora – Lune a saudou, enquanto Aiacos, sem levantar de sua cadeira, meneou q cabeça em reconhecimento à entrada da mulher.
— Nosso senhor está prestes a retornar e precisamos estar prontos para iniciarmos logo a guerra para tirar Atena do comando da Terra de uma vez por todas – ela meneou a cabeça, um sinal de desgosto com a postura da deusa grega da sabedoria. – Ela e essa mania de se envolver com esses humanos imundos, isso é uma vergonha.
Alheio às maquinações de Pandora e dos espectros, Reidar se preparava para o festival que se aproximava. Aquela época, quente e cheia de vida, o deixava sempre empolgado. As macieiras, que ficavam do outro lado do cercado dos coelhos, estavam carregadas de frutas maduras e ele pegou algumas para ele e para Grifo, que viera logo atrás, à espera da guloseima. E notou, divertido, que não era o único. Os arbustos de framboesas e amoras silvestres estavam coalhados de asas-de-cera e outros pássaros, que se fartavam dos frutos.
Faltavam agora duas semanas para o solstício. Isso significava que sua irmã também viria e, ele detestava admitir, estava morrendo de saudades dela.
— Esse arbusto cheio de pássaros me deu uma ótima inspiração para o final do meu livro – seu pai apareceu de repente, assustando-o.
— Ah, pai, por que você sempre faz isso? – Reidar resmungou. – Que mania de chegar sem avisar.
— Você que anda assustado demais –Egil respondeu calmamente. — Você não falou diretamente comigo, mas sua mãe me contou das coisas estranhas que tem sentido.
Surpreso e um pouco sem jeito pela declaração do pai, Rei o fitou, sem saber o que responder.
— Não estou brigando. Você sempre foi muito fechado e eu entendo isso. Sua mãe é médica e ela vai poder te ajudar muito mais do que eu – Egil apoiou uma das mãos no ombro do filho. – E eu imagino que seja um assunto que você não goste de comentar muito, mas eu gostaria que pudesse contar comigo, como sendo seu pai, mesmo que você me considere muitas vezes um apenas escritor avoado.
— Mas é claro que eu considero você como pai – Reidar respondeu na mesma hora. – Um pai maravilhoso.
— Então me diga, tem sentido coisas estranhas ainda?
— Nada, desde que voltei do hospital.
— Mas isso não quer dizer que você pode parar de procurar o que é – Egil usou seu melhor tom paterno, mesmo não tendo muita desenvoltura com esse tipo de comportamento.
— Não, pai, pode deixar. Eu vou continuar fazendo tudo que a mamãe pediu, pode ficar tranquilo.
— Ótimo. O festival está chegando e eu imagino que você não queira passá-lo doente.
— Claro que não!
Com um olhar de soslaio, Egil sorriu diante da resposta enfática do filho.
— O pequeno protagonista da minha história vai encontrar uma pássaro mágico que, em troca de algumas amoras frescas, indicará qual caminho deve seguir em sua jornada – ele mudou de assunto bruscamente. – O que acha?
— Um asa-de-cera? – Reidar respondeu, segurando o queixo.
— É, acho que sim.
— E qual foi mesmo o prazo que a editora deu para terminar?
— Daqui a 12 horas – Egil respondeu, estóico.
— Ai, pai... – Reidar suspirou.
— Falta apenas esse final. Já está tudo aqui – o homem apontou para a própria cabeça e o filho notou como seus cabelos castanho-claros estavam já bastante tomados pelos fios grisalhos.
— Anda logo e deixa de enrolar – Reidar o empurrou na direção de casa, rindo e, por um instante, na beira da mata, ao longe, ele teve a impressão de ver o homem de cabelos brancos de Olso. No entanto, assim que piscou, ele não estava mais lá.
Com um tropeção, Reidar quase derrubou o pai.
— Cuidado, está caindo à toa? – Egil olhou para ele, preocupado.
— Acho que pisei num buraco – ele olhou mais uma vez na direção da mata, mas realmente não havia mais nada lá.
Mas Lune não tinha planos de interferir assim tão diretamente. Pelo que observara nos últimos dias, o jovem receptáculo de Minos ainda estava demasiadamente ligado a sua vida humana e não seria simples cortar esse elo que o prendia. Por isso, uma ideia audaciosa surgiu em sua mente.
Naquela mesma noite, a família Larsen se uniu na casa da fazenda para comemorar o término de mais um livro de Egil que, como sempre, conseguira entregar o material nos últimos cinco minutos do último dia do prazo.
— Um brinde à pessoa menos pontual de toda Noruega – Reidar levantou a taça de espumante que ele havia comprado com um dos vizinhos que possuía uma vinícola.
— Dizem que no Brasil ninguém liga para pontualidade é um ótimo lugar, todos são felizes lá – Egil respondeu, embora seus olhos estivessem fixos no quadro fixado na parede da sala.
— Pois você não tem um pingo de sangue brasileiro, pai – Reidar fez um bico de desdém.
— Como você pode saber? – o homem mais velho retrucou.
— Não, você não tem – Cecilie respondeu, sem preâmbulos. – Nem de longe.
— Pois eu acho que gostaria de um marido com sangue latino – Nora comentou, divertida.
— Não está satisfeita com seu marido norueguês viking? – Egil ergueu as sobrancelhas.
Cecilie e Reidar riram dentro de suas taças e Nora ruborizou.
— Viking? – ela não resistiu. – Querido, acho que você bebeu espumante demais.
— Eu ainda estou na primeira taça – Egil comentou calmamente.
— Pois eu acho...
Reidar recostou confortavelmente no sofá e observou enquanto seus pais, no sofá em frente ao seu, conversavam abobrinhas sem nenhum sentido. Cecilie também parecia estar se divertindo e, notou ele, revirava distraidamente algo entre os dedos da mão direita. Era o amuleto que ela sempre carregava, percebeu. Sua avó sempre havia sido bastante supersticiosa e nunca tirava aquele cordão, que ela havia ganhado de sua própria avó. O valknut, símbolo antigo da mitologia nórdica.
O sonho veio mais uma vez naquela noite, quando o jovem dormia confortável em sua cama. Havia muitos fios, que brilhavam como teias de aranha cobertas de orvalho sob o sol.
Reidar caminhou alguns passos e estava novamente no corredor misterioso. Dessa vez, no entanto, a porta estava entreaberta. E havia alguém parado ali, esperando por ele. A luz forte que vinha de dentro do cômodo, contudo, ocultava sua aparência, deixando-o imerso nas sombras.
— Senhor Minos, estamos aguardando seu despertar.
— Quem é você? – Reidar perguntou.
— Sou seu braço direito – respondeu o homem misterioso. — Seu fiel subordinado.
— Meu... subordinado?
— O que está impedindo seu despertar?
— Eu... não sei do que está falando... Que lugar é esse afinal?
— Tudo em seu tempo certo – respondeu o outro.
— Eu não consigo entender nada.
Quando o sonho começou a desaparecer e Reidar sentiu que estava acordando, ele tentou reter aquelas imagens, manteve os olhos bem fechados, mas elas continuaram sumindo contra sua vontade. Por fim, ele se levantou e, conforme os minutos foram passando, a tensão foi diminuindo até quase desaparecer. Apenas uma coisa ficou gravada em sua mente. A voz profunda daquele homem... Ele tinha certeza que já a ouvira antes.
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