Solstício de Verão
7 O visitante
Notas iniciais
Faltavam dois dias para o solstício. Reidar terminava de lustrar o pelo de Grifo com uma escova quando viu um carro chegando pela estrada de terra. O veículo, de um tom bem chamativo de vermelho, parou bem ao lado do cercado e uma moça loira, com uma blusa amarela e jeans boca-de-sino desceu do banco do motorista e acenou.
— Rei, larga um pouco o coelho e vem falar comigo!
— Trine! – ele colocou Grifo no chão e correu para abraçar a irmã.
— Credo – ela fez uma careta, no momento em que se soltaram. – Você está fedendo a coelho.
— Não estou nada, deixa de ser fresca.
Reidar revirou os olhos e, nesse momento, notou que a irmã não estava sozinha. Um homem alto e esbelto, com os cabelos longos presos de maneira casual com um elástico e vestindo preto da cabeça aos pés. Por um instante, Reidar sentiu um forte aperto no estômago, pois aquele sujeito parecia muito com o que ele havia visto na saída do hospital. Entretanto, esse era ruivo, não grisalho e seus olhos tinham um belo tom de verde.
— Rei, esse é meu amigo Luka. Ele é da minha faculdade também – Trine o apresentou. – Luka, esse é meu irmão, Reidar.
— Muito prazer, Reidar – Luka se aproximou e estendeu a mão.
— Prazer.
No momento em que seus olhares se cruzaram, Reidar sentiu um estranho arrepio, como se aquela não fosse a primeira vez que os dois se encontravam.
— Nós cursamos algumas matérias juntos, ele e eu começamos a sair tem uns dias e o Luka gostou muito da ideia de conhecer o nosso festival, não é, Luka?
— Sim, eu nunca participei de um festival desses do interior – ele sorriu de um jeito afetado. – Lá em Oslo a gente não liga muito para essas coisas de solstício.
— Eu sei bem, faz pouco tempo que nos mudamos para cá, passei praticamente minha vida toda na capital.
Mas que cara mais almofadinha, pensou Reidar, azedo.
— Esses são os coelhos que você cria? – Luka olhou para Grifo e os demais que estavam espalhados pela relva.
— São sim – Reidar respondeu, seco.
— Encantadores – Luka comentou com afetação ainda maior, o que deixou Reidarmais enervado.
— Vamos, Luka – Trine, sentindo o clima estranho, o puxou pela mão. – Vamos conhecer o restante da minha família.
Com um aceno, o rapaz saiu, deixando Reidar olhando com desagrado na direção seguida pelo casal. Aquele ruivo metido a mauricinho parecia querer tirá-lo do sério. Curiosamente, Grifo, que olhava para ambos com as orelhas bem eretas e o corpo retesado, parecia partilhar da mesma opinião.
Nora e Egil, por outro lado, ficaram encantados pelo convidado e, na hora do almoço, o cobriram de atenção. Apenas Cecilie parecia um pouco mais reservada, embora também o tratasse muito bem.
— Então, eu pretendo partir em uma viagem pelo mundo para abrir meus horizontes. – Luka falava animadamente durante o jantar.
Ouvir aquele papo fez Reidar sentir vontade de revirar os olhos.
— Você não acha que deveria procurar alguma coisa para tirar você um pouco dessa visão restrita da vida no campo criando coelhos? – Luka se voltou para ele.
— O quê? – Reidar perguntou, pensando ter entendido mal.
— Respirar novos ares, fazer uma faculdade, sair um pouco daqui. – insistiu o outro.
— Não, obrigado. – Reidar comeu o salmão defumado em seu prato com uma expressão assassina. — Estou muito satisfeito criando meus coelhos e vivendo aqui com a minha família.
— Cada um tem sua visão de mundo – Luka deu de ombros.
— Assim vai traumatizar meu pobre irmãozinho – Trine olhou para o pretendente com certa exasperação.
— Foi só um conselho.
Ouvir aquilo fez Reidar sentir vontade de arrancar a cabeça do rapaz. Principalmente pelo tom condescendente em sua voz.
— E como foi esse semestre, Trine? – Nora perguntou para a filha, tentando mudar o rumo daquela conversa.
— Ah, eu tive umas aulas bem cansativas, sabe? Inclusive aquele professor que eu peguei no ano passado...
Por sorte, Trine era sempre uma ótima oradora e todos adoravam prestar atenção no que ela falava.
Assim que todos terminaram de comer, Reidar se levantou e, sem paciência para continuar escutando a conversa fútil de seu talvez futuro cunhado, Reidar resolveu sair um pouco para respirar o ar fresco da noite.
A lua estava cheia e brilhava orgulhosamente o céu, sem uma nuvem para se colocar em seu caminho. O piado de uma coruja ecoou pela propriedade e o jovem sentiu-se um pouco mais calmo. Ali era seu reduto.
Os coelhos já estavam recolhidos na Toca e Reidar sentiu vontade de ficar um pouco com Grifo, mas se conteve. O bichinho precisava descansar para o festival. Ele sentou em um banco feito de um toco de árvore, bem na beira da floresta, e não haviam passado nem quinze minutos quando notou que alguém se aproximava. Não foi tanta surpresa perceber que era o ruivo forasteiro, afinal, seus familiares sabiam que em certos momentos ele gostava de ficar sozinho e já haviam aprendido a lhe dar esse espaço.
— Reidar – o outro falou e, pela primeira vez, sua voz não tinha aquele tom arrogante.
— Oi.
— Desculpe se te incomodei hoje.
Ao ouvir aquilo, Reidar finalmente encarou o rapaz. Ele estava encostado no tronco largo de um pinheiro e o luar iluminava seu perfil. Era um homem bonito, pensou. Por isso sua irmã se encantara por ele.
— Não foi nada – respondeu, por fim.
— Aqui é um lugar muito agradável — Luka continuou.
— É.
Reidar ainda não havia superado por completo a antipatia pelo universitário.
— Você está aborrecido comigo.
— Não estou.
— Está sim. – Luka parecia estar achando graça daquilo.
Reidar revirou os olhos e encarou o outro com a máxima expressão de tédio que conseguiu. Foi quando notou algo muito curioso. Luka olhava para ele agora de uma maneira diferente. Era como se houvesse algo muito semelhante a admiração, em sua face, algo muito próximo a... servidão? Mas aquilo era impossível, não era?
“Seu fiel subordinado.” A frase ecoou na mente de Reidar e ele piscou várias vezes, confuso.
— Você está bem? – Luka o encarava com preocupação.
— Estou sim, eu... – Reidar se levantou esfregou os olhos. – Acho melhor entrar, estou um pouco cansado. Com licença.
Luka observou o jovem fazendeiro se afastar e se recostou novamente no pinheiro. Se Reidar tivesse olhado para trás, teria visto o sorriso satisfeito que surgiu em seu rosto tão atraente. Ou o brilho violeta, sinistro como o de duas pedras de ametista.
— Senhor Lune – uma voz servil o chamou por entre as árvores. – Parece que o senhor Minos está prestes a despertar finalmente.
— Sim. Logo o terceiro juiz finalmente estará pronto para a Guerra Santa.
— Mas o rapaz parece não gostar muito de você.
— Isso é perfeito. Ele me detesta e, quanto mais irritado ele ficar, mais fácil será para a estrela maligna dominar sua mente.
— Isso é maravilhoso! – o soldado soltou uma estrondosa risada.
— Silêncio, idiota! Não quero chamar atenção antes da hora certa.
— Perdão, senhor Lune – o soldado se encolheu.
— Ande, volte para a floresta – Lune o dispensou. As coisas aqui estão sob controle.
— Sim, senhor.
O espectro desapareceu nas sombras e Lune olhou em volta. Mesmo sendo parte do plano tratá-lo daquela maneira arrogante, era difícil agir assim, sabendo que se tratava de Minos, e não de um humano idiota qualquer. Por isso que ele fora se desculpar. Além do mais, sob a forte energia lunar, tinha certeza que sua proximidade o afetaria.
A poucos passos de seu próprio quarto, Reidar quase atropelou Cecilie, vinha andando pelo corredor escuro.
— Ai, vó, porque não acendeu a luz?
— Pelo mesmo motivo que você, ora – a senhora respondeu sem pestanejar.
— Nossa, vó... – ele fez um muxoxo.
— Bom que você entrou, achei que ia ficar lá fora para sempre – antes que o neto pudesse protestar, ela o empurrou para dentro do quarto dele. – Eu quero te dar uma coisa.
Curioso, Reidar sentou na cama e esperou enquanto Cecilie tirava um cordão do pescoço. Era uma corrente fina, de prata e possuía um pingente belamente trabalhado.
— O seu Valknut, vó? – ele levantou na mesma hora.
— Está na hora de passá-lo a você – ela sorriu.
— Mas por quê? – ele a encarou, preocupado. – A senhora está doente?
— Não, não é isso. – ela meneou a cabeça. – Mas algo me diz que agora você precisa mais dele do que eu.
Reidar hesitou, mas por fim, deixou que a avó colocasse o cordão em seu pescoço. A velha senhora ocasionalmente tinha suas intuições e para ele, não havia nada de mal em acreditar nelas.
No dia seguinte, Reidar acordou de uma bela noite sem sonhos perturbadores. Era o último dia antes do festival e ele precisava ter certeza de que Grifo estava em sua melhor forma. O céu estava parcialmente nublado, e um vento frio soprava, balançando as folhas das árvores. Assim que chegou na Toca, escutou o asa-de-cera cantando e um sorriso involuntário surgiu em seus lábios. Aquele passarinho já estava se tornando mais um morador da propriedade.
Os coelhos pareciam agitados naquela manhã e, curiosamente, após a comida e a água, nenhum deles quis sair. Uma sensação desagradável tomou o jovem, e ele foi até o cantinho onde Grifo costumava dormir.
Para seu alívio, o coelho estava ali, encarando-o com seus pequeninos olhos negros, embora parecesse ligeiramente desconfiado, como os demais.
— O que foi, menino? Viram alguma raposa por aqui?
O animal, naturalmente, não respondeu, mas se aproximou e farejou a mão que Reidar estendeu.
— Vamos lá fora tomar sol.
—Ah, finalmente! – Lars acenou para Reidar, que saía com o coelho no colo. – Você continua mimando demais esse coelho.
— Ah, vai plantar mais abóboras, vai – Reidar resmungou, enquanto sentava em uma das vigas de madeira da cerca. – Eu ainda nem tomei café e você já veio me perturbar.
— Ih, que humor é esse? – Lars implicou.
— Nossa, você não sabe...
Reidar contou tudo sobre o visitante hospedado na casa e como era irritante, afetado, convencido e arrogante. O amigo escutava a tudo com interesse e, quando o outro terminou de falar, a primeira pergunta de Lars foi:
— Então ele e sua irmã estão namorando?
— Eu não sei, ela não disse abertamente, mas eu imagino que sim.
— E ela não ligou de ele tratar você dessa maneira?
— Ah, ela está encantada por ele – Reidar fez uma careta. – Espero que não dure muito.
— Estou até curioso para conhecê-lo.
— Não vai demorar muito para isso. Ele está lá em casa, deve estar dormindo ainda.
— Ele vai amanhã, não vai? – Lars perguntou, risonho.
— Com certeza.
— Então amanhã eu vou conhecer esse bonitão aí. Agora pode deixar que eu não vou impedir você de tomar seu café-da-manhã. Tenho muita coisa pra fazer ainda, até amanhã.
Reidar acenou enquanto o amigo se afastava, curioso com aquela visita-relâmpago. Ele provavelmente havia visto o carro de Trine e viera perguntar por ela. Lars nunca dissera abertamente, mas ele desconfiava que o vizinho tinha uma paixão secreta por sua irmã.
Prestes a voltar para casa, o jovem parou subitamente quando viu que os coelhos pareciam agitados com alguma coisa. Ele não sabia se era alguma ilusão de ótica, mas, na beira da floresta, parecia haver um pequeno acúmulo de névoa. Passo a passo, ele se aproximou daquele ponto e um arrepio percorreu todo seu corpo.
Havia ali quase uma dúzia de pássaros mortos, e não apenas isso, os arbustos ao redor, formando um pequeno círculos, estavam ressequidos e sem folhas. Piscou com força, mas a cena não desaparecia. O que poderia ter causado aquele tipo de coisa?
Ansioso para se afastar daquele cenário terrível, Reidar reconduziu os coelhos para dentro da Toca e voltou para casa. Não queria arriscar que Grifo ou algum dos outros animais passasse por ali e sofresse algum tipo de intoxicação ou o que quer que fosse.
Dentro de casa, todos já o esperavam para a primeira refeição e Nora foi a primeira a notar seu semblante pálido.
— Aconteceu alguma coisa? – a mãe perguntou, se levantando imediatamente.
— Não comigo – ele a acalmou. – Algum de vocês passou algum tipo de pesticida perto da floresta? – diante da negativa de todos, ele continuou. – É que havia alguns pássaros mortos ali, e parecia ter uma névoa esquisita. Não tinha cheiro, nem nada, mas achei melhor recolher os coelhos.
— Que horror! – Nora exclamou.
— Depois eu vou lá com seu pai dar uma olhada – Cecilie respondeu com firmeza. – Agora vem comer.
Reidar assentiu, apesar de ter perdido boa parte da fome e sentou à mesa. Luka estava sentado ao lado de Trine e parecia perdido em pensamentos, o cenho franzido. Pouco interessado pelo assunto que poderia estar passando pela cabeça do outro rapaz, ele logo voltou a atenção para a comida. O festival seria no dia seguinte e ele ainda tinha muito com que se preocupar.
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