Solstício de Verão
8 O festival começa
Notas iniciais
Pouco depois do café-da-manhã, Cecilie, Egil e Reidar se prepararam para ir ver os pássaros mortos, enquanto Nora saía para o hospital. Trine não se mostrou nem um pouco empolgada em ver aquela cena, no entanto, Luka pediu para acompanhar o grupo, já que ficara curioso com o caso.
Reidar mostrou o caminho e apesar da névoa ter se dissipado, as aves ainda estavam caídas sem vida no chão. Cecilie e Egil se aproximaram e observaram os bichos, penalizados.
— Coisa mais estranha, não é? – Luka comentou com Rei, que não queria se aproximar mais uma vez daquele cenário mórbido.
— Horrível...
— Você tem medo da morte, Reidar?
Ao ouvir aquela inusitada pergunta, o jovem loiro se virou para o outro, encarando-o com atenção.
— Acho que sim, como qualquer pessoa normal – ele respondeu, por fim.
— Mas a morte é o fim inevitável – Luka continuou, calmamente.
— É claro, mas mesmo assim ninguém quer morrer.
“A morte é o julgamento final.” A frase pulsou fracamente no fundo dos pensamentos de Reidar e ele desamarrou e amarrou os cabelos em um gesto distraído.
— Estranho, será que o vento trouxe um acúmulo de pesticida de alguma propriedade? – Egil perguntou, coçando a cabeça.
— Não sei, isso nunca aconteceu antes. – Cecilie murmurou em resposta, pensativa.
Luka finalmente se aproximou dos dois e olhou para a cena com desagrado. Aquilo provavelmente era obra de Niobe. Será que Radamanthys também resolvera se envolver no despertar tardio de Minos? O Wyvern costumava se importar mais com as questões relativas ao ressurgimento do imperador Hades e com as ordens de Pandora. A fidelidade dele à comandante do exército de espectros era muitas vezes superior à capacidade de Lune de entender tamanha devoção. De qualquer maneira, ter Niobe ali talvez fosse útil para seus planos.
— Talvez seja o surto de alguma doença aviária. – comentou, emprestando um tom de interesse à própria voz que estava bem longe sentir realmente.
— Mas isso não explicaria a névoa que Reidar viu – Egil respondeu.
— Talvez tenha sido apenas a névoa normal da manhã.
— Eu sei bem o que vi – Reidar retrucou, irritado.
— Ora, todos nós podemos nos confundir – Luka deu de ombros.
Reidar respirou fundo, tentando conter a onda de irritação que ameaçava tomá-lo. Ele não sabia o que era, mas algo naquele homem o afetava de uma maneira muito estranha.
— De qualquer maneira, Rei, acho melhor manter os coelhos longe daqui.
Ele assentiu para a avó e os quatro voltaram na direção da casa. O festival era no dia seguinte e ele não queria arriscar que nada pudesse dar errado.
Luka antes de partir, lançou um último olhar para a floresta e, ao sentir que não havia a presença de nenhum outro espectro por ali, se retirou.
Enquanto Egil e Cecilie também voltaram para casa, Reidar ainda ficou um tempo do lado de fora, colocando os animais para dentro da Toca. Sair da rotina sempre o aborrecia e os bichos também, insatisfeitos por perderem aquela preciosa tarde de tempo bom ao ar livre.
Quando finalmente conseguiu entrar, viu Trine entretida com o pai em uma animada conversa sobre seus feitos na universidade e Luka e Cecilie falando sobre o festival do dia seguinte.
— E depois do concurso realizado pela manhã, Reidar volta pra casa, deixa o coelho e volta para a celebração à noite – explicava a senhora.
— Parece que vai ser bem animado –Luka comentou.
— Sempre é. A festa mais esperada da região.
Luka estava sentado em uma poltrona de tecido marrom, ligeiramente inclinado para frente e os olhos fixos na senhora, que respondia as perguntas do rapaz com toda atenção. Os dedos compridos das mãos do universitário esnobe repousavam sobre seus joelhos de uma maneira relaxada e, naquele momento, ele se encaixava perfeitamente na cena.
— Reidar, o que acha de fazermos um passeio até o litoral depois de amanhã. Podemos aproveitar o último dia de Trine e Luka aqui.
O rapaz olhou para o pai por um instante antes de assentir lentamente. Seria mesmo uma ótima maneira de aproveitar o último dia de sua irmã ali, antes dela voltar para Oslo. Além disso, fazia um bom tempo que ele não ia à praia, sempre atarefado com os animais.
Mais tarde naquela noite, logo após o jantar, Reidar se retirou para dormir, pois acordaria bem cedo no dia seguinte. Atento, Luka decidiu que era uma ótima oportunidade para tentar acelerar as coisas. Assim, cerca de uma hora depois, ele aproveitou que o restante da família também ia se recolher mais cedo do que de costume e foi para o próprio quarto.
Entretanto, ao invés de dormir, ele se esgueirou pela janela e foi na direção da Toca, onde os coelhos repousavam. Certificando-se de que não havia mais ninguém ali, ele abriu a porta de madeira e entrou.
Olhou em volta, observando os pequenos animais que começavam a se movimentar e farejar ante a presença do estranho. Seu famigerado chicote surgiu em sua mão direita e Lune adquiriu sua aparência real, conforme elevava seu cosmo em sua potência mais branda. Liquidar aqueles animais certamente ajudaria a desfazer pelo menos um pouco do irritante elo que mantinha Minos preso em sua forma humana.
Pressentindo o perigo, os coelhos se agitaram ainda mais. Determinado, Lune preparou seu chicote. Um único movimento, rápido e mortal seria suficiente. E foi nesse momento que seu olhar recaiu sobre Grifo, o coelho premiado que, num ato de pura ousadia, se levantou sobre as patas traseiras e encarou o inimigo, farejando-o.
A coragem, contudo, não durou muito tempo e logo o animalzinho se retraiu e deu um passo para trás. Lune olhou para aquela bola de pelos pretos e marrom-ferrugem. O celeiro estava bem escuro, mas os olhos do espectro eram mais do que acostumados com a escuridão. Era apenas um movimento... Um movimento, então o que o impedia? Aquele era o momento perfeito para começar a destruir toda aquela ilusão humana inútil da vida de Minos.
Como que percebendo a hesitação de seu possível algoz, Grifo fez um sinal e, em questão de segundos, todos os outros o seguiram e debandaram pela porta entreaberta. Com um suspiro de irritação, Lune se virou e saiu atrás dos fugitivos. No entanto, uma visão o fez alterar seus planos.
Nora, que naquela noite havia se atrasado mais do que o usual devido a um caso de alguns rapazes que haviam se acidentado tentando acender fogos de artifício, acabava de chegar.
Contrariado, o espectro se moveu de volta para o quarto em uma velocidade que ele sabia que seria imperceptível para meros olhos mortais. Se a mulher o visse, ele teria que matá-la e, se o fizesse, acabaria tendo que acabar que o resto da família inteiro. E Hades, apesar de ser o deus que governava o mundo dos mortos, não era muito dado a banhos de sangue, assim como ele. Aquela miríade de gritos de pavor e súplica que os humanos lançavam quando estavam cara a cara com a morte eram, para Lune, um suplício para seus tímpanos tão acostumados ao silêncio. Teria mais um pouco de paciência e esperaria pela noite do solstício. Seria mesmo uma bela noite para o surgimento de Minos. Se apetecesse a ele, e ele sabia que o Griffon era afeito a esse tipo de coisa, Minos decidiria se acabaria ou não com as vidas insignificantes daquela família.
Na manhã seguinte, alheio aos planos sombrios do convidado insuspeito de sua irmã, Reidar acordou mais cedo do que de costume e saiu quase correndo para cuidar de Grifo.
Os coelhos estavam todos espalhados pela propriedade e Reidar quase teve um ataque cardíaco. Alguém havia deixado a porta aberta e eles haviam saído em algum momento da noite. Mas ele tinha certeza que havia fechado tudo... A não ser que a porta estivesse com defeito. Porque ele duvidava muito que alguém da sua família tivesse ido até a Toca no meio da noite. Muito menos o amigo de Trine.
Para seu alívio, Grifo mastigava um tufo de trevos bem verdes, próximo ao celeiro e Reidar correu até ele. Ver a pelagem perfeita e a saúde em dia do bichinho, como o deixara no dia anterior, diminuiu um pouco da ansiedade do jovem e, com um sentimento de crescente satisfação, ele alimentou os coelhos, que logo se agruparam de volta ao verem que o café-da-manhã estava sendo colocado.
Mais tarde, por volta de oito horas, com todos divididos entre o carro dos pais de Reidar e o de sua irmã, a família e o convidado seguiram para o local onde aconteceria a Feira Anual do Solstício de Verão.
O lugar, repleto de barracas diversas e muita gente, fervilhava de agitação. As barracas estavam dispostas em três compridas fileiras, que culminavam no palanque onde eram realizadas as competições. Logo atrás ficavam os cercados em que caminhavam distraidamente cavalos, bois, ovelhas e outros, em que seus proprietários haviam deixados os animais inscritos.
Reidar, carregando de forma um pouco desengonçada a gaiola com um Grifo muito mal humorado por estar preso, foi logo na direção da mesa onde estavam os jurados, para inscrever o coelho e os outros membros de sua pequena comitiva familiar se dirigiram para a infinidade de barracas em que eram vendidos vegetais frescos, em conserva, doces, salgados, tapetes, bijuterias e mais uma miríade de coisas.
Para Lune, foi extremamente difícil fingir admiração por toda aquela balbúrdia, no entanto ele conseguiu encobrir todo seu tédio e parecer empolgado por um tapete rústico de pele de vaca malhada ou por um vaso de argila feito à mão. Conseguiu até mesmo ter a espirituosidade de comprar um colar feito de pedras naturais e penas coloridas para Trine.
Foi por volta de meio dia que eles enfim foram até a arena das competições, procurar por Reidar. Ele seria o próximo a apresentar seu animal e parecia estar suando o equivalente a todos os rios da Noruega. Trine acenou alegremente e ele balançou os dedos de volta, num cumprimento tímido, poucos antes de ser chamado.
Ele se adiantou e colocou Grifo em uma mesa de madeira, que ficava de frente para os juízes. Estes, dois homens de meia idade e uma mulher que beirava os setenta anos, analisaram o pequeno mamífero detalhadamente, tocaram seu pelo, tomaram suas medidas e pediram a Reidar que o fizesse caminhar por alguns instantes dentro de um mini cercado feito especialmente para aquilo.
Luka observava tudo com curiosa atenção. Seus olhos dançavam sobre a ação cadenciada dos jurados, que deliberavam sobre as qualidades do coelho. Aquilo o lembrava de si próprio e Minos, julgando as almas na 1ª prisão, na Morada do Juízo. Aquele simples ritual humano, contudo, exerceu um interessante fascínio sobre o espectro, naquele momento. Do espaçamento entre as orelhas à tonalidade da pelagem, que tipo de critério decidiria se Grifo merecia ou não o primeiro lugar?
— Acho que Grifo vai ganhar de novo esse ano – Trine comentou, como se adivinhasse seus pensamentos.
— Por que acha isso? – indagou ele, realmente curioso pela resposta.
— É só olhar para os outros, não chegam aos pés do coelho do meu irmão. Além disso – ela deu de ombros – aquele bicho ganhou na loteria genética. Ele tem todas as proporções corretas da raça Tan. Por isso que Rei cuida dele como um filho.
O espectro voltou a sua atenção para o palco e viu que Reidar já saía com Grifo no colo e o colocava de volta na gaiola. O resultado sairia dali a pouco tempo, faltavam cerca de quinze animais.
A despeito da afirmação confiante de Trine, Reidar parecia bastante ansioso pelo resultado, e mal conseguia manter-se parado no lugar, próximo aos outros competidores. Ele soltava e prendia os longos fios louros tantas vezes que Trine teve que se segurar para não se aproximar e amarrar suas mãos. Apesar de a vitória de Grifo não ter sido surpresa para nenhum de seus familiares, o jovem fazendeiro comemorou com gigantesco entusiasmo, erguendo a gaiola no ar e fazendo uma dancinha de comemoração constrangedora.
— Nem parece que ganhou ano passado – Trine riu e ajeitou os fios louros que ela havia prendido em um penteado simples pela manhã.
— Você não pode falar muita coisa, Trine – Nora a encarou com superioridade. – Sua dancinha quando descobriu que havia passado para a faculdade foi bem parecida.
— Não foi nada! – a garota franziu o cenho e a mãe riu, enquanto Egil e Cecilie se adiantavam para parabenizar Reidar.
Após receber o prêmio em dinheiro e a nova medalha de Grifo, Reidar pegou o carro do pai emprestado, apenas para deixar o bichinho em casa, para que pudesse desfrutar de um merecido descanso e voltou quase que em seguida, para finalmente aproveitar as festividades.
Lars surgiu pouco depois que Reidar retornou, com sua querida abóbora em um carrinho de mão e um sorriso enorme do rosto. Ambos usavam calça e jaqueta jeans, além as clássica camisa xadrez, o que os deixava ainda mais parecidos. A diferença ficava por conta da cor da camisa, verde-musgo no primeiro e vermelha no segundo.
— Eu disse, não disse? – comentou o rapaz. – Quatrocentos e oitenta e dois quilos e trezentos gramas. A campeã das campeãs. Vem comigo, vou colocar essa belezura aqui na picape e depois vamos ajudar a montar a fogueira. A madeira já está toda lá – a alegria fazia Lars tagarelar enquanto o amigo o seguia apenas escutando. – Esse ano vai ser bem grande, pela quantidade de lenha que tem lá. Nós vamos acendê-la só no final do dia, mas é melhor já começar a arrumar tudo. Lembra do ano passado, que a gente deixou pra cima da hora e...
Lars se interrompeu quando notou que Luka vinha se aproximando, parecendo pouco à vontade. Com suas costumeiras vestes negras e elegância inata, ele destoava completamente dos dois amigos. Trine acenava ao longe e o fazendeiro acenou de volta para a vizinha. Nora, Egil e Cecilie não estavam à vista.
— Ah, Lars, esse é o Luka, o amigo da minha irmã.
— Prazer. – Lars apertou a mão do outro com firmeza.
— Prazer. Trine me disse que seria uma experiência interessante ajudar vocês – ele olhou de um para o outro. – Vocês estão indo montar a fogueira, não estão?
— Sim – Lars analisou universitário de cima abaixo. – Vamos, acho que vai ser bem interessante para você.
Reidar observou enquanto o amigo interrogava o forasteiro, perguntando sobre o que fazia, há quanto tempo conhecia Trine, onde morava, sobre sua família. Ele respondia a tudo calmamente e, no entanto, parecia que estava tudo certo demais. Como se estivesse interpretando um papel, como se nada daquilo fosse verdade. Mas Reidar sabia a verdade. Mas o que ele sabia? Sua mente se agitou e se afastou dali, parecia que estava a muitos quilômetros de distância.
Luka nesse momento o olhou fixamente, como se lesse seus pensamentos e soubesse. Ele sabia. E em seu olhar, parecia ansiar por alguma reação de Reidar. Um sorriso de satisfação e expectativa dançava em seu belo rosto.
— Vocês vão ficar aí se encarando nesse love ou vão ajudar? – Lars reclamou em voz alta e Reidar piscou, saindo do estupor
As toras de madeira estavam sendo arranjadas bem no centro da feira e ao seu redor, vários homens de diferentes idades descarregavam pilhas de lenha de dentro de um caminhão, enquanto outros as arrumavam no formato da fogueira.
Ao contrário do que os dois amigos imaginavam, Luka não teve nenhum problema em carregar uma quantidade bastante razoável de madeira, quase como se não precisasse fazer esforço. Diante daquilo, ambos tiveram que se esforçar ao máximo para mostrarem que achavam aquilo tão fácil quanto ele.
Quarenta depois, com a fogueira já montada e ambos os rapazes do campo esbaforidos, Luke teve a desfaçatez de soltar um suspiro, como se só naquele momento lembrasse de sentir cansaço.
— Ufa, até que trabalhamos bastante – ele olhou para a estrutura que havia dado tanto trabalho.
— É – Lars grunhiu em resposta. – Ainda está cedo, vamos acendê-la só lá pras oito horas. Vamos voltar – ele se virou para Reidar. – Eu ainda não falei com a sua família hoje.
— Vamos.
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