Solstício de Verão
9 A noite mágica do solstício
Notas iniciais
Lars acabou ficando com eles a noite inteira, o que não era grande surpresa, já que ele fazia isso quase todo ano.
Conforme a escuridão se expandia e a lua cheia subia cada vez mais no céu, a celebração tornava-se casa vez mais animada e mais cheia também.
Oito horas, como Lars havia previsto, foi o momento em que todos se juntaram em volta da fogueira e vários pegaram gravetos em chamas e os jogaram, criando diversos pequenos focos de chamas, que pouco a pouco se uniram e tornaram-se uma única labareda. Desta vez, até Trine foi participar.
A enorme fogueira, montada e acesa, emprestava uma atmosfera mágica ao local. Muitas das barracas haviam sido desmontadas e agora restavam apenas algumas vendendo comida e bebida, além de uma única que vendia amuletos de proteção em forma de bonecas de palha e souvenirs para turistas.
O fogo brilhava com intensidade e subia alto na direção do céu e a multidão ficou um tempo parada ao seu redor, apreciando a beleza do espetáculo.
— Esse ano está maior que do ano passado, não acha? –Cecilie comentou com o neto.
— Sim. Dessa vez trouxeram muito mais madeira.
— Eu estou cansada, minha idade já não me permite mais aproveitar a noite inteira como nos velhos tempos.
— Quer ir para casa, Cecilie? – Nora, que estava abraçada com o marido, em uma rara demonstração pública de afeto, perguntou.
— Não quero estragar a noite de vocês – respondeu a senhora.
— Imagina, nós também já estamos cansados, não é, querido?
— Sim, passamos o dia todo aqui – Egil respondeu. – Os meninos podem continuar, eles têm disposição para isso.
— Então eu agradeço, meu filho. – ela respondeu, aliviada.
Reidar e os outros “garotos” se despediram dos mais velhos, felizes por não serem mais crianças e não precisarem mais voltar cedo para casa com os pais.
O jovem criador de coelhos percebeu, com curiosidade, que Luka não aproveitou aquele momento para se afastar com Trine para algum lugar mais reservado, como os casais normalmente faziam. Ao contrário, ele parecia interessadíssimo em permanecer ali ao lado dos dois rapazes. Lars percebeu a mesma coisa e, para testá-lo, chamou Trine para ir com ele pegar alguma coisa para beberem.
Luka não demonstrou nenhuma emoção e ela também aceitou o convite sem pensar duas vezes. Enquanto os dois se afastavam, ele finalmente se manifestou.
— Reidar, eu gostaria de falar com você.
Aquilo definitivamente não era o que ele esperava escutar.
— Comigo?
— Sim. Será que podemos ir para um lugar mais reservado? É um assunto importante.
Reidar pensou em recusar, mas se deteve. Que mal haveria de escutar o que ele tinha a dizer? Talvez ele estivesse cansado da vida no campo e não soubesse como dizer a Trine que queria ir embora.
Ele o seguiu para longe da multidão, na direção da floresta que rodeava a feira. Diferente da festa, que estava animada e muito barulhenta, a mata estava escura e silenciosa, exceto pelo burburinho de alguns casais que haviam ido lá em busca de privacidade. Mas mesmo isso era apenas na borda e Luka não parava de se embrenhar mais e mais por entre as árvores, como se conhecesse aquele lugar com a palma de sua mão. A luz alaranjada e dançante da grande fogueira diminuía cada vez mais de intensidade conforme caminhavam.
“Não vá...” – um sussurro quase inaudível passou como uma brisa por Reidar e ele olhou em volta. Apenas um vagalume solitário vagava a esmo a alguns metros dele.
— Eh... Luka, você não acha que estamos já em um lugar bem reservado? – ele arriscou por fim, quebrando o silêncio.
— Só mais alguns metros... – Luka murmurou, até um ponto em que a luminosidade do fogo não os alcançava mais e enfim parou. – Aqui está perfeito.
— E então? –Reidar perguntou, colocando as mãos nos bolsos e já sentindo um indício de impaciência.
— Você não tem sentido nada estranho recentemente, Reidar? Sonhos estranhos, visões? Uma violência fora do comum fervilhando em seu interior?
Reidar sentiu um frio desagradável se apoderando de suas vísceras e encarou o amigo esnobe de sua irmã, sem coragem de responder. Como ele poderia saber daquilo?
Luka se aproximou, os fios ruivos balançando ao sabor do vento sobrenatural que surgiu repentinamente. Agora a mata parecia ainda mais escura e sombria, mesmo com os feixes intensos de luar que se infiltravam pelas copas das árvores antigas. Ele colocou a mão direita sobre o ombro de Rei, que estremeceu sob o toque.
— Venha, senhor Minos. Está mais do que na hora.
E tudo explodiu. Reidar sentiu uma pressão estranha em sua nuca, puxando-o para trás, para dentro de si mesmo.
Ele não pôde ver o sorriso satisfeito de Lune ao testemunhar a transformação pela qual passava. Seus cabelos louros tornaram-se branco-prateados, seu corpo ganhou alguns centímetros de altura e seus músculos ficaram mais desenvolvidos. Uma aura roxa e sinistra o envolveu, ardendo ao seu redor de forma sobrenatural.
Era forte, muito forte e difícil para Reidar resistir. A figura imponente de um grifo, com sua cabeça de águia e corpo de leão, surgiu de repente e o encarou com intensidade. Não havia mais nada em volta, nem árvores, nem barracas, apenas um manto escuro e sombrio, que rodeava a ambos, como numa redoma de trevas.
Ao mesmo tempo em que sentia um medo mortal, ele se sentiu envolvido por uma curiosa sensação de reconhecimento. Aquela criatura mitológica fazia parte do seu destino. Mas por quê? Ele levou as mãos à cabeça, tomado agora pelo pânico. Ele era apenas um garoto do campo, não tinha nada a ver com monstros lendários.
“O menino não quer desistir...” – uma voz etérea e aguda soou, atravessando aquela escuridão.
“Mas o destino é implacável, a estrela o aguarda...”
“Vai desistir, jovem Reidar?”
“Vai resistir, jovem Reidar?”
“As chances são pequenas...”
“Não pode vencer...”
“Vale a pena lutar contra a estrela?”
O coro de vozes sobrenaturais rodopiava em sua cabeça e ele não sabia se eles o estavam dizendo para desistir ou se era apenas uma triste constatação dos fatos.
Enquanto Reidar lutava para voltar à superfície, Minos, que nesse momento estava em seu lugar, olhava em volta com um sorriso satisfeito nos lábios. Agora que estava novamente na Terra para mais uma Guerra Santa, mal podia esperar para agir.
No instante em que se preparava para invocar sua sapuris e procurar pelo castelo de Hades, o espectro sentiu o novo receptáculo humano travar, como se... como se não estivesse completamente dominado. E seu riso foi desaparecendo à medida que ele sentia que estava perdendo o controle daquele corpo.
Lune, que estivera observando seu superior durante toda a transformação, arregalou os olhos, incrédulo, ao ver que as íris de Minos perdiam o tom amarelo brilhante e voltavam matiz ordinário de azul. Seus cabelos voltaram a ser louros e seu corpo diminuiu de tamanho. “Não pode ser...” o espectro de Balron murmurou para si mesmo. Bem diante de seu rosto, o simples garoto humano estava fazendo o temível juiz do inferno retroceder.
Quando voltou a si, Reidar olhou em volta, atônito. Agora, não estava mais diante do grifo e sim do mesmo homem que vira muito tempo antes, na saída do hospital. O estranho de cabelos brancos e olhos violeta. Quem era aquele homem, que agora trajava uma estranha armadura negra? Aquele desconhecido que olhava para ele com um misto de horror e irritação, como se tudo que menos quisesse no planeta fosse vê-lo. Reidar fechou os olhos com força, sentindo a cabeça pulsar terrivelmente, tentando compreender o que estava acontecendo.
— Para de lutar contra a estrela, humano. – a voz do homem era a mesma voz de Luka, embora despida daquele tom afetado que o rapaz costumava usar. Era agora uma voz terrível, ameaçadora.
E embora aquelas palavras não fizessem nenhum sentido para ele, algo em seu interior se agitou, como se compreendesse seu significado muito bem e estivesse muito disposto a obedecer.
Sentindo que se ficasse mais algum segundo parado naquela parte obscura da floresta, acabaria ficando louco, Reidar começou a correr, deixando para trás aquele homem que parecia saído de um de seus piores pesadelos. Sua mente estava confusa e embaralhada, como se tivesse acabado de acordar de uma longa noite mal-dormida e ele apenas seguia o instinto, que lhe dizia claramente para fugir.
Usou toda a potência que tinha em suas pernas e, pulando por cima de raízes e pedras, ele não teve coragem de diminuir o ritmo, mesmo quando a respiração começou a ficar difícil e seus pulmões pareciam que ia se rasgar pelo esforço. Como se, em seu íntimo, soubesse que sua própria vida dependia de sair daquele lugar o mais rápido possível.
Quando finalmente chegou à borda da mata, Reidar esbarrou em um corpo feminino e, com o impacto, os dois caíram pesadamente no chão.
— Rei!
— Ida... É voce.
A jovem estranhou o tom aliviado na voz dele.
— O que houve? Você está pálido, estava fugindo de alguém?
— Não, eu... – ele franziu a testa, confuso. As lembranças em sua memória se esvaíam pouco a pouco, como água – Eu estava conversando com o amigo da minha irmã e de repente ficou tudo escuro. Eu não lembro bem o que aconteceu.
— Nossa, você parece péssimo – ela o apoiou e começou a levá-lo de volta para a festa.
— Eu não sabia que estava aqui, Ida – ele comentou enquanto caminhavam.
— Eu me atrasei esse ano. Acabei trazendo um grupo de amigos e cheguei quase agora.
— Espera... – Reidar falou de repente. – O Luka. Ele estava comigo, ainda deve estar lá na floresta.
— Quem? – Ida franziu a testa.
— Esse amigo da minha irmã que estava comigo.
— Reidar, pelo amor de Deus – ela revirou os olhos. – Em vez de se preocupar com os outros, preocupe-se com você mesmo. Esse tal Luka pode muito bem encontrar o caminho de volta sozinho.
— É verdade – ele meneou a cabeça e deu uma risada fraca. – Na realidade, eu nem vou com a cara dele mesmo.
— É mesmo? – ela riu também. – E por quê?
— Ele é um metido a burguesinho da cidade –Reidar fez uma careta e se endireitou. Acho que já me sinto melhor.
— Ainda bem, já estava me dando dor nas costas – Ida o soltou e logo ambos encontraram Lars e Trine, que pareciam aflitos.
— Reidar, o que aconteceu? – o amigo foi o primeiro a falar. – Quando nós voltamos, vocês tinham sumido.
— O Luka me chamou para conversar sobre alguma coisa – ele olhou para a irmã – Eu achei que era sobre você, mas de repente me veio aquela dor de cabeça esquisita e eu não lembro de mais nada. Eu estava saindo da floresta quando eu quase atropelei a sua irmã.
— Você está bem? – Trine encarou o irmão, preocupada.
— Agora estou. Ainda bem que a Ida me achou – ele olhou para a amiga e sorriu. – Obrigado.
— Imagina, eu vi você com aquela cara de quem tinha visto um fantasma e dos bem feios, não tinha como não te ajudar.
— E onde ele está, o Luka? – Trine perguntou por fim.
— Não faço ideia – Reidar deu de ombros.
— Trine, por que você não leva o Rei pra casa? – Lars se manifestou. – Eu vou ficar ainda mais um tempo aqui com a Ida, se eu encontrar com o seu amigo eu dou uma carona pra ele.
— Está bem então – ela assentiu. – Vamos, Rei. E me conta direitinho tudo isso que aconteceu.
Enquanto seguia a irmã até o carro, Reidar arriscou olhar para a floresta. E uma coisa intrigante chamou sua atenção. Pequenos pontos de luz, parecidos com vaga-lumes, piscavam bem na direção de onde ele viera. E então desapareceram.
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