Solstício de Verão
4 No final do corredor
Lars olhou para o amigo com certa frieza, enquanto ele tentava entender o que havia acontecido.
— O que eu fiz? – Reidar tentou se aproximar de Lars, que recuou um passo. – Lars?
— Você está muito estranho. Sério.
— Me perdoa. Eu não sei por que eu fiz aquilo.
— Eu também não sei – Lars retrucou, bastante irritado. – A gente estava brincando e de repente você me atacou igual um bicho.- Eu achei que você ia meter um soco na minha cara.
— Não, eu jamais faria isso, você sabe – Reidar se deixou cair no chão e bagunçou os próprios cabelos, desorientado. – Você é o meu melhor amigo.
— Já não sei de mais nada.
— Lars eu... – Reidar suspirou, desamarrou os cabelos e os prendeu novamente. – Lars... Ultimamente tem acontecido umas coisas estranhas comigo.
— Como assim? – Lars perdeu um pouco da dureza na voz e sentou no chão ao lado dele.
— Eu tenho tido sonhos estranhos, visões... – ele olhou para o outro rapaz, infeliz. – Acho que estou ficando louco.
— Há quanto tempo isso vem acontecendo?
— Tem algumas semanas...
— Rei... Por que você não me contou isso?
— Eu estou com medo – Reidar respondeu, desamparado. – Fiquei com medo de vocês acharem que eu estou ficando maluco e se afastarem de mim.
— Rei, eu nunca vou me afastar de você – Lars olhou com intensidade para o amigo. – Nunca.
— Mesmo se estiver mesmo ficando louco?
— Nunca – ele repetiu.
— Nossa – Reidar escondeu o rosto sobre os joelhos dobrados. – Que alívio – a voz dele soou abafada.
— A sua mãe é médica, Rei – Lars continuou. – Você já devia ter falado isso para ela.
— Eu sei – Reidar continuou com o rosto escondido.
— Rei, eu to falando sério.
— Eu sei, eu sei – ele finalmente ergueu a cabeça. – Eu prometo que vou falar com a minha mãe.
— Eu vou te cobrar, hein, seu cabeçudo! – Lars deu um tapa no alto da cabeça do amigo.
Dessa vez, Reidar fez uma careta e riu, como deveria ser. E depois de mais algum tempo de conversa, cada um dos rapazes foram para suas respectivas casas.
Mais tarde, quando Nora chegou em casa, ele estava sentado no sofá da sala, nervoso, fingindo que assistia a um filme qualquer que estava passando.
— Mãe? – ele chamou, sem muito entusiasmo.
— Fala, filho – ela respondeu, enquanto tirava os sapatos e se dirigia para o próprio quarto.
— Depois eu queria conversar com você – ele respondeu.
— Deixa só eu trocar de roupa.
Enquanto esperava, Reidar retorcia os dedos, nervoso. E se ela decidisse que o caso dele era grave e o levasse para um hospício? Ele sacudiu a cabeça, tentando se controlar. Ficar nervoso daquele jeito não ia ajudar em nada.
— O que foi? – Nora voltou e sentou no sofá ao lado do filho.
— Mãe, lembra daquela dor de cabeça que eu tive?
— Lembro – a voz dela ganhou imediatamente uma nota de preocupação.
— Eu não contei, mas eu tenho sentido outras coisas.
— Que tipo de coisas?
— Eu tive uns sonhos estranhos e umas... visões.
— Que tipo de visões? – ela perguntou, definitivamente preocupada.
Reidar contou todas as coisas estranhas que haviam acontecido, inclusive sua briga com Lars. Nora ouviu a tudo com atenção e, quando ele terminou, ela se levantou e imediatamente pegou um termômetro na caixa de medicamentos da estante. Enquanto esperava o aparelho apitar com a temperatura corporal do filho, ela examinou seus olhos mais uma vez. Ainda sem dizer nada, ela foi até sua maleta de trabalho e pegou o estetoscópio e o aparelho de pressão. O rapaz sentiu como se estivesse dentro de um consultório de verdade.
Depois que todos os seus sinais vitais mostrarem-se normais, Nora se sentou novamente e soltou um suspiro.
— Eu vou te prescrever alguns exames – ela pegou seu bloco se receitas, uma caneta e seu carimbo – Uma tomografia da cabeça, um hemograma completo, um...
— Eu vou ter que tirar sangue? – gemeu ele.
— Mas é lógico – ela respondeu, sem dar muita atenção.
Reidar fez uma careta, ele sempre detestara agulhas.
— Você vai me encaminhar para um neurologista?
— Minha especialidade é clínica geral, você vai precisar de uma investigação mais específica. Por isso trate de marcar todos esses procedimentos logo. Na clínica onde eu trabalhei em Oslo, você deve conseguir tudo para esse mês ainda.
— Obrigado, mãe – ele se levantou e a beijou na testa.
— Será que você não anda muito preocupado com o festival? Você passa o dia todo lidando com isso.
— Não, mãe, não tem nada a ver – ele meneou a cabeça. Nora às vezes exagerava nas preocupações.
— Está bem, mas nada de ficar noites sem dormir. Eu sei que o festival é daqui a 20 dias e você sempre fica muito agitado.
Reidar fez um muxoxo, como ele sempre fazia desde que era criança e Nora riu, enquanto se afastava.
Naquela noite, Cecilie interpelou o neto pouco depois da última refeição. Ele tinha ido checar os animais pela última vez antes de ir dormir e a avó o seguiu.
— Fala, vó – ele perguntou distraidamente, enquanto caminhava até a toca.
— Sua mãe conversou comigo um pouco antes do jantar.
Ao ouvir aquilo, Reidar virou a cabeça na mesma hora. Ele não queria que isso se espalhasse, não sem antes descobrir o que era.
— Sabe, Rei... Essa é uma época de muito poder – a velha senhora olhava para o céu estrelado, pensativa. – A magia está muito forte nessa proximidade com o solstício de verão. Desde pequena, sempre me diziam que essa é uma das épocas do ano que, se entrar muito fundo na floresta, poderá ouvir os seres que vivem nela falarem com você. Dando conselhos difíceis de compreender, mas que são muito certeiros – ela o encarou e parecia estar muito mais jovem do que realmente era. – É claro que você não deve descartar a investigação médica. Mas, às vezes, há mistérios nesse mundo que estão além da nossa compreensão.
— Vó, eu acho que ouvi esses seres... – ele olhou para ela com expectativa. – E eles falaram avisos estranhos.
— Tente entender, deve haver uma mensagem importante – ela respondeu.
— Eles falaram alguma coisa sobre estrela maligna... Foi assustador, na verdade. O que você acha que pode ser?
— Eu não sei, filho. Os seres da floresta nunca são claros.
— Não deve ser nada demais, não é?
Cecilie fitou o neto e viu em seu olhar novamente aquela expressão de ansiosa expectativa.
— Claro, tenho certeza que você logo descobrirá e verá que não era nada demais – ela o tranqüilizou. – Deve ser alguma coisa a ver com a premiação de Grifo no festival.
No entanto, a verdade era que ela não tinha tanta certeza daquilo. Normalmente se dizia que, quando o povo da floresta resolvia se manifestar, era porque alguma coisa bem ruim estava para acontecer.
Alheio aos pensamentos da avó, Reidar voltou para casa bem mais calmo, após verificar que todos seus queridos animais estavam bem acomodados. Naquela noite, o sonho começou diferente. Ele estava em um castelo. Muito bonito, amplo e imponente. Contudo, era sombrio e a atmosfera era pesada e nada acolhedora. Ainda assim, parecia muito familiar. Ele se sentia bem ali.
Andando a esmo, Reidar sentiu que se dirigia para algum lugar muito importante. Seus passos ecoavam de repente por corredor comprido e, do final desse corredor, alguém veio correndo ao seu encontro lhe chamar.
— Senhor Minos! O senhor precisa despertar logo.
— Do que está falando? – a voz de Reidar soou estranha para ele mesmo.
Entretanto, foi a inusitada aparência do homem o que mais chamou sua atenção. Ele vestia uma espécie de armadura negra e um elmo que cobria seu rosto quase que por completo.
— O imperador o aguarda. Desperte logo.
— Mas o corredor... – ele olhou para o final do corredor. – Eu preciso chegar lá, não é lá que ele está?
— Sim, vá, senhor. Siga até o imperador, ele o espera.
O servo correu na direção de onde viera, para a porta no final do caminho, que Reidar desejava tanto alcançar. Ele tentou correr, mas o homem era rápido demais.
— Espere!
O barulho de seus passos era cada vez mais alto e ele percebeu que também usava uma armadura negra. Esticou a mão, numa vã tentativa de alcançá-lo e estranhos frios saíram de seus dedos, esticando-se na direção do estranho, que havia desaparecido. Os fios continuavam crescendo indefinidamente e logo o cenário mudou em um flash. Havia outro homem à sua frente, vestindo uma armadura dourada e se retorcendo, com uma expressão torturada de dor em seu rosto. E as linhas brancas que saíam de seus dedos eram as responsáveis por aquele sofrimento. Desesperado, Reidar tentou desfazê-las, mas elas eram resistentes como aço. O homem lançou para ele um olhar repleto de desafio, superioridade e coragem. E um lado do jovem norueguês, um lado obscuro e escondido nas profundezas de seu coração, se irritou com aquele olhar. Ele queria apagá-lo, fazê-lo sofrer até perder aquela arrogância. Queria esmagá-lo.
Reidar acordou com um sobressalto, mal conseguindo respirar. Que pesadelo horrível era aquele? E quem era aquele tal Minos? E o homem que sofria em suas mãos?
No entanto, conforme os minutos passavam, os detalhes perdiam a clareza e, pouco a pouco, Reidar os esqueceu quase que por completo. Dividido entre a frustração e o alívio por não conseguir mais recordar o conteúdo daquele estranho sonho, ele olhou no relógio e, vendo que eram ainda duas horas da manhã, deixou-se cair na cama. Por sorte, em poucos minutos voltou a dormir.
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