Solstício de Verão

5 As outras estrelas aguardam


— Ei, Grifo — Reidar sentou no chão, próximo ao coelho e se recostou na certa. — Está pronto para ser bicampeão?

O animal mexeu as orelhas , encarando-o com atenção.

— Sorte sua não ter passado a manhã inteira ligando para um monte de médicos para marcar uns cem exames diferentes.

— Se o coelho responder, me avisa pra eu nunca mais voltar – a voz debochada de Lars anunciou sua aproximação.

— Muito engraçado – Reidar revirou os olhos.

— Ih, já vi que está de mau-humor hoje – Lars sentou ao lado dele.

— Não é você que vai ser espetado – resmungou o rapaz.

— Quando?

— Semana que vem.

— E você já está sofrendo? – Lars explodiu em uma gargalhada. – Você é muito dramático, Rei.

— Acho que a minha mãe passou todos os exames que tem naquele hospital.

— Até tomografia? – Lars ergueu as sobrancelhas.

— Sim, até essa tal de tomografia aí.

— Legal!

— Legal porque não é a sua cabeça que vai entrar naquilo.

— Depois me conta como foi – o outro cutucou o amigo.

— Vou é te dar uns cascudos, isso sim – Reidar resmungou em resposta.

— Você nunca mais teve nada estranho? – Lars ficou subitamente sério.

— Eu tive um sonho esquisito. Nesse sonho eu estava em um castelo e estava procurando alguma coisa – Reidar olhar para o amigo. – Mas eu não sei o que era.

— Será que isso é uma pista? – Lars segurou o queixo, pensativo.

— Eu não sei. Mas não tenho muita certeza se quero descobrir.

— Uma hora você vai ter que descobrir – ele deu de ombros. – Bom, não vou te alugar muito essa manhã. Tenho que cuidar das minhas abóboras.

— De seiscentos quilos? – gracejou ele.

— Quatrocentos e oitenta! Trinta a mais que no ano passado! – Lars gritou enquanto se afastava.

Reidar deitou no gramado e olhou para o céu, que naquele dia estava repleto de nuvens brancas e fofas como tufos imensos de algodão doce. O pássaro asa-de-cera cantou no alto do mesmo galho de sempre. Preguiçosamente, o jovem virou o rosto para o lado e olhou para Grifo, que o fitava de maneira curiosa. Suas orelhas estavam erguidas, muito eretas e seu focinho se movia sem parar, farejando. Em um segundo, todos os pelos do corpo do animal se eriçaram e ele deu um salto para trás, nervoso.

— Grifo? – Reidar se virou e olhou em volta, preocupado. Contudo, não havia nada ao redor. O coelho olhava diretamente para ele.

Quando tentou alcançá-lo, Grifo se esquivou e se afastou alguns metros.

— Ei, garoto, o que aconteceu? Sou eu, Rei... volta aqui, Grifo... – subitamente, a voz dele se alterou, tornando-se mais grave e autoritária. – Volte aqui, animal estúpido.

Quando mais Grifo se afastava, mais uma estranha irritação o tomava. E isso deixava o coelho ainda mais arisco, tornando tudo um terrível ciclo vicioso.

Foi no momento que ele esticou ambas as mãos, em um gesto que lhe trouxe uma estranha e ao mesmo tempo incompreensível sensação de familiaridade, que Reidar voltou a si.

Franzindo a testa, ele olhou para os próprios dedos, como se fossem os de outra pessoa. Quando Grifo se aproximou e tocou sua perna de leve com a cabeça, Reidar quase saltou pelo susto, de tão distraído que estava.

— Pelos céus, Grifo... O que está acontecendo comigo?

Nos dias seguintes, nenhum outro acontecimento fora do normal ocorreu. Reidar conseguiu marcar os exames que a mãe pedira e a rotina da família manteve-se na mesma tranquilidade que costumava. O dia marcado no hospital se aproximava, para desespero do rapaz.

Ao mesmo tempo, não muito longe dali, em Oslo, uma outra estrela maligna despertava. Ao contrário de Reidar, o jovem humano chamado Sander não foi capaz de resistir ao destino e Lune de Balron, a Estrela Celeste da Eminência, reapareceu na Terra. De olhos violeta como duas frias ametistas e longos cabelos cinzentos, o espectro responsável por julgar os pecados dos mortos e com acesso direto ao livro que registrava todas as vidas humanas, era o braço direito de Minos, sendo usualmente incumbido por ele de cuidar da 1° prisão do Submundo.

Assim sendo, e ciente de que Hades ainda não havia possuído o corpo humano escolhido, sua primeira ação foi justamente procurar pelo cosmo de seu superior. No entanto, para sua surpresa, não havia nenhum resquício da presença do espectro de Griffon na Terra. E isso era muito estranho, já que eles normalmente despertavam em dias muito próximos.

Decidido a não perder tempo vagando sem rumo, Lune se transportou para o castelo de Heinstein, na Alemanha, onde os espectros se agrupavam para aguardar a volta de Hades e, posteriormente, usá-lo como quartel-general no mundo dos vivos. Procuraria algum dos outros juízes, Aiacos e Radamanthys, ou até mesmo Pandora, aquela responsável por liderar as tropas. Precisava se inteirar do que estava acontecendo.

No dia marcado, uma semana depois, Reidar pegou sua moto, uma Honda preta com detalhes em vermelho e branco, que ele usava sempre que precisava ir à capital.

— Com essa cara – Cecilie implicou, parada na varanda da casa – parece que você está indo para a forca.

— Não começa, vó – ele mostrou a língua.

— Seu filho anda muito malcriado – a velha senhora riu.

— Pois eu acho que o criei muito bem – Nora, que estava debruçada na janela, meneou a cabeça.

Reidar acelerou a moto, fazendo bastante barulho antes de soltar a embreagem, apenas para implicar com as duas e saiu, com a disposição menor do que a de seu pai quando tinha de ir a uma reunião com os editores.

Apesar de tudo, a paisagem da estrada, ladeada ora pela densa floresta, ora pelos campos cultivados, era sempre uma vista de tirar o fôlego.

A cidade parecia crescer assustadoramente mais a cada ano, pensou enquanto estacionada o veículo na calçada. Com os ombros caídos, ele entrou no prédio de paredes amareladas e Maggie, a recepcionista que já o conhecia literalmente desde bebê, o saudou:

— Bom dia, Reidar – Maggie sorriu de maneira simpática.

— Bom dia. – respondeu ele, amuado.

— Parece que vai para a forca – ela riu, enquanto pegava os documentos do rapaz.

— Eu detesto esses exames – ele resmungou de volta.

— Apenas relaxe – ela parecia estar se divertindo com a angústia dele. – Pode ir por esse corredor à direita até o final. A Susan vai colher o seu sangue primeiro.

— A Susan sempre erra a minha veia – ele reclamou.

— Anda logo, deixa de ser medroso – ela riu.

Com uma careta, ele seguiu na direção apontada por Maggie. O corredor comprido, mesmo com bastante gente aguardando atendimento, assemelhava-se a um abatedouro para ele. Curiosamente, uma sensação estranha de déjà vu pareceu pulsar em sua cabeça, mas ele não soube identificar o porquê.

Havia cinco pessoas na sua frente e Reidar sentiu a tensão da espera ainda pior. Quando Susan finalmente chamou seu nome, ele sentiu vontade de sair correndo na direção oposta, mas se conteve. A enfermeira, do alto de seus 1,85m e com os cabelos louros presos em um coque apertado, olhou para ele com uma expressão semelhante a uma ave de rapina.

— Sua mãe te obrigou a vir? – ela comentou com a tranquilidade de quem o conhecia desde que ainda engatinhava pelo chão.

— Com certeza – ele soltou um suspiro pesado e sentou na cadeira verde acolchoada. – Vamos logo terminar essa tortura.

Reidar esticou o braço e sentiu o momento em que ela amarrou seu braço com o elástico, limpou com álcool a dobra sensível,a picada e, no instante seguinte, tudo havia desaparecido. Como se ele tivesse sido desligado. E quando voltou, pouco tempo depois, notou que Susan o encarava com a boca aberta, o tubo com sangue caído no chão.

— Susan? – ele se ergueu, se corpo se refazendo do desmaio rapidamente. – O que aconteceu?

— Nossa, eu levei um susto, Reidar. De repente seus olhos pareceram estar com um brilho amarelo – ela apertou a ponte do nariz, trêmula. – Acho que esse plantão de 24h não me fez bem.

Ouvir aquilo fez Reidar quase desmaiar novamente. Ela dissera “um brilho amarelo”. Fora a mesma coisa que ele havia visto no espelho. Enquanto ela pegava a amostra de sangue e se desculpava pela situação, ele saiu, um pouco desorientado, na direção da sala onde faria a tomografia, que ficava ali no mesmo corredor.

Dessa vez, ele não estava tão angustiado, porque não havia agulhas envolvidas no procedimento. E assim que Martin, o técnico que faria a tomografia, saiu da sala e o deixou sozinho na maca, Reidar repassou em sua mente o que Susan havia dito. Olhos amarelos, olhos amarelos. Conforme os minutos passavam e a máquina trabalhava, repetidamente fazendo ruídos mecânicos e ritmados, a mente dele divagou pouco a pouco para longe. Novamente um corredor longo e sombrio surgia à sua frente e uma estranha urgência o impelia a continuar.

Estava logo ali, tão próximo, então por que ele não conseguia alcançar? O que ele queria alcançar?

Repentinamente, um estalo alto se fez ouvir e as luzes apagaram. Reidar se ergueu, desorientado. Em poucos instantes, a luz voltou, mas o aparelho permaneceu desligado.

— Parece que teve um pico de energia. O hospital todo ficou sem luz e o gerador de emergência foi acionado. Mas acho que esse bonitão não vai voltar – ele apontou o aparelho. — Você vai ter que marcar outro exame.

Reidar saiu da sala atordoado. Aquilo poderia ser uma coincidência, não podia? Não possuía necessariamente um significado sobrenatural. Apesar de que, pensou ironicamente, uma manifestação sobrenatural o livraria de um diagnóstico de alguma patologia mental.

Na saída do hospital, o jovem fazendeiro saiu na direção da moto e, no momento em que passava a perna por cima do assento, algo chamou sua atenção do outro lado da calçada. Um homem, muito vistoso e que deveria ter a sua idade, o observava atentamente. Com cabelos compridos e de um tom peculiar de branco, que parecia quase prateado, ele se destacava dos outros.

Reidar franziu a testa, colocou o capacete e ligou a moto. Engatou a primeira marcha e, antes de sair, olhou novamente para o outro lado da rua. O homem ainda o encarava. As íris dele tinham uma cor tão estranha... Quem era aquele homem? Decidido a ir perguntar quem ele era, ele voltou para o ponto neutro e, no instante que desligou a moto, percebeu que não poderia descobrir mais nada. O homem já havia desaparecido.

Notas finais
Como a história de Saint Seiya foi lançada em 1986, eu pensei em fazer essa fic nessa época. E, curiosamente, a tomografia foi inventada alguns anos antes, em 1979. Então imaginei que seria uma novidade esse tipo de exame hehe Agora que Lune também despertou, uma maior movimentação dos espectros vai acontecer. E o de Minos está cada vez mais próximo!