Solitude
8 Clube de debate - parte um.
Notas iniciais
Percy lembrava de ter dezesseis anos e ter sido arrastado por Rachel para uma partida do estúpido clube de debate da escola. Ela havia dito que seria divertido, que talvez ele, sempre tão rápido para responder e contrariar, até se interessasse.
Ele se lembrava de ter visto a cabeleira loura de Annabeth, em um terninho um pouco grande demais para ela, sentada em um dos bancos reservados para a escola deles, parecendo mais nervosa a cada gole que tomava de sua garrafinha de água.
Alguém sentou ao lado deles.
— Ei, Jackson — Thalia havia aberto um sorriso — você tem esse costume de fazer coisas inesperadas?
— Foi mais a Rachel, mesmo — ele deu de ombros.
— Bem, vocês não vão se arrepender — Luke garantiu, com um sorriso quase brilhante, passando um braço pelos ombros da namorada — é a estreia da Annabeth hoje, afinal.
Luke e Thalia eram dois anos mais velhos do que eles, o que significava que estavam no último ano da escola. Jason havia deixado escapar que Thalia estava tentando entrar em Oxford por meio de uma bolsa de esportista, e Luke tinha notas boas o suficiente para ir para a faculdade, onde, mais tarde, ele gostaria de se formar em Ciências Políticas.
Eles eram alunos consideravelmente ocupados. Então vê-los ali, “jogando tempo fora”, enquanto deveriam estar treinando ou estudando, apenas para ver Annabeth no seu primeiro debate, o fez pensar que ela era realmente importante para eles.
E então, Percy assistiu.
Ao redor de Percy, a realidade se quebrou como um vidro.
Piper e Frank surgiram de algum lugar, ajudando Annabeth a mantê-lo de pé. Piper estava dizendo alguma coisa, provavelmente para acalmá-lo — ela era muito boa naquilo, mesmo. Já o havia impedido de sair na porrada com valentões ao menos uma centena de vezes — mas a voz dela parecia distorcida. Frank passou um braço por trás do torso dele e o trouxe de volta aos próprios pés.
— Percy — o garoto mais forte chamou —, vamos, a Clarisse quer que a gente... —
Antes que tivesse tempo para pensar, Percy já havia feito o estrago. Seu punho colidiu com o nariz de Frank em um só impacto rápido e forte, lançando o garoto para trás. Frank vacilou uma vez, antes de cair de costas no chão, segurando o próprio rosto. Annabeth gritou alguma coisa.
Havia sangue no punho de Percy.
Sem registrar mais nada, ele andou em passos firmes e pesados até onde Clarisse estava. Ela havia, obviamente, visto a comoção que se formara, mas mantinha o olhar duro e impassível, uma mão casualmente colocada sobre o punho da faca de caça em seu cinto.
— Jackson — ela vociferou, em um tom de aviso — eu pensaria muito bem no que você está prestes a fazer.
Mas Percy não avançou sobre ela. Ao invés disso, deu mais dois passos calculados, até estar frente a frente com a sargento. Clarisse era alta, o que fazia com que eles ficassem exatamente da mesma altura. Ele olhou no fundo dos olhos dela, soltou uma respiração trêmula, e disse:
— Eu sei sobre zumbis — sua voz não era mais do que um sussurro, e ele correu o olhar rapidamente ao redor, certificando-se de que ninguém parecia conseguir ouvi-lo direito — eu sei como eles se transformam. Sei que a maioria de nós já está infectado.
Ao lado deles, a doutora soltou o que pareceu uma exclamação contida. As írises estreitas de Clarisse deslizaram pelo branco do olho dela de relance, erguendo uma sobrancelha para a outra soldada, que ficou em silêncio imediatamente. Com o olhar grudado em Percy de novo, ela respondeu:
— E?
Não soava surpresa.
— O quanto você sabe?
— Não muito — ela admitiu — corrente sanguínea, estímulos altos. Você?
— O que eu sei não interessa — sibilou —, mas essa garota da qual vocês estão falando, ela sabe. Passou os últimos dias recolhendo relatos sobre os mortos-vivos, ela tem muita informação.
A expressão de Clarisse fechou.
— O que você quer dizer com isso, Jackson?
— Que você não vai deixa-la morrer — ele deu outro passo à frente, encostando a ponta do tênis dele no couro da bota dela, e rosnou: —, porque, se deixar, eu mesmo te mato, entendeu?
A mão de Clarisse sobre a faca não tremeu, o que Percy, em outra ocasião, admiraria: não muitas pessoas eram capazes de se manterem impassíveis sob uma ameaça de morte, principalmente quando tinham todos os meios para revidar.
Mas naquele momento, ele não pensava em nada disso.
— Eu não preciso ser comprada com informações para salvar a vida de uma garota, Jackson.
— Não acho que precise. Mas eu achei que um incentivo a mais não faria mal.
Com isso, ele deu meia volta e saiu caminhando, sob o olhar inquisitório de dezenas de adolescentes e soldados, ao mesmo tempo em que Clarisse ordenava:
— Todo mundo para os seus carros! Nós vamos voltar para a base.
[...]
Lhe foi informado que Rachel estava sendo mantida no Humvee no centro da formação, e assistida pela equipe de médicos. Ela estava sob observação e não podia receber visitas (“muito menos de um surtado como você, Jackson” Clarisse havia dito, quando ele exigira vê-la). Percy, Annabeth e outros estavam no Humvee mais à esquerda, que tremia cada vez que o motorista ignorava um quebra-molas ou fazia uma curva acentuada.
A base do exército de Clarisse ficava à quatro quarteirões dali. Não levaria mais do que dez minutos, ela garantira, mas Percy sentia como se o tempo não estivesse passando.
Ele lembrou-se com pesar dois verões atrás, no qual haviam passado por uma situação parecida. Quando o helicóptero do pai de Rachel havia colidido com um prédio (felizmente abandonado), e Grover ligara para ele de madrugada para avisar que Rachel estava desacordada no hospital.
Ele havia acabado de tirar a licença de motorista, então pegou as chaves do carro do padrasto e deixou um bilhete para Sally na cozinha.
Tinha certeza que ultrapassara ao menos uns três sinais vermelhos.
O hospital era o mais caro da cidade (a recepcionista o olhou com o nariz franzido quando Percy cruzou o saguão em sua calça de moletom com estampa do Aquaman e camiseta amassada da equipe de líderes de torcida do ano anterior), mas não ficava muito longe do conjunto de prédios de apartamentos minúsculos onde ele morava. Grover já estava lá, com um copo de café já frio esquecido entre as mãos, olhar preso nos azulejos brancos. Percy aproximou-se, mas não conseguiu falar por cima do nó que havia se formado em sua garganta.
E então, eles haviam esperado.
Quase cinco horas depois (quando Sally já houvera ligado furiosa, e então, após uma explicação rápida, pegara o metrô com Paul para juntar-se a eles no hospital), foi que o médico responsável apareceu. Os pais de Rachel haviam recebido os impactos mais fortes: o sr. Dare tinha um fragmento de metal alojado logo acima do nariz, entre os olhos, que, dois centímetros mais fundo, teria rasgado seu cérebro, e a sra. Dare sequer podia mexer o pescoço. Ainda assim, Percy só sentiu melhor quando lhe foi permitido que ele entrasse e visse Rachel com os próprios olhos. Ela estava coberta de roxos, pele inchada e havia um corte longo, do canto de lábio até a orelha, coberto de bandagens.
Ela estava sedada para dormir, então Percy apenas segurara a mão dela e ouvira o bip da máquina.
Naquele dia, ele havia prometido a si mesmo que nunca mais deixaria Rachel se machucar.
— Você mentiu — Annabeth disse.
Percy levantou a cabeça tão rápido que quase estalou o pescoço. Ela deslizou para o lado dele, cautelosamente. Ele abaixou os ombros. Depois da confusão que havia feito com Frank, ele imaginou que ela não seria a única a ficar meio hesitante com ele. Ele não havia tido a intenção de machucar o garoto — ele só não queria que Frank o impedisse de falar com Clarisse.
Como sempre, a raiva havia levado a melhor.
— Eu... o quê?
— Você mentiu — ela respondeu — disse à Clarisse que Rachel sabia mais sobre os zumbis do que ela. Não é verdade. E, mesmo se fosse, eu sei tanto quanto ela.
Pelo tom de voz dela, Percy soube que ela não estava se gabando. Era um tom instigador, como se ela o estivesse incentivando a falar.
— Eu sei — ele fungou, esfregando o nariz com a manga do moletom — eu só não... só não posso perder ela também, entende? Grover... —
— Está tudo bem — ela colocou uma mão sobre a dele. — Eu entendo. Eu... — o olhar dela vacilou por um momento —, eu não consigo entender, é claro. Thalia e Luke estão bem, mas eu acho... acho que faria a mesma coisa se fossem eles no lugar da Rachel.
Ele abriu a boca para dizer algo, mas o carro parou com um solavanco, fazendo-o bater a cabeça na de Annabeth sem querer. Lá da frente, veio a voz do soldado dizendo que eles haviam chego. Eles saíram do Humvee juntamente com os outros. Os primeiros indícios do amanhecer começavam a surgir por trás das nuvens, mas ainda faltava muito para que o dia ficasse iluminado.
Assim que colocou os pés no chão, Percy correu na direção do carro de onde tiravam cuidadosamente uma maca. Não surpreendentemente, foi barrado se aproximar por um trio de soldados, então ele assistiu, em silêncio, bem como os demais adolescentes, enquanto Rachel era levada uma maca às pressas para dentro da base, uma soldada correndo ao lado carregando a bolsa de soro ligada a ela.
Clarisse surgiu atrás dele, vociferando:
— Todos os sobreviventes, em uma fila atrás do Wilson. Ele vai levar vocês até os seus quartos e explicar como as coisas funcionam aqui!
De repente, ela pousou uma mão no ombro de Percy.
— Jackson, Chase — chamou — Castellan e Grace, venham comigo — quando Jason e Thalia trocaram um olhar incerto, Clarisse rolou os olhos — só a Grace que com a qual eu me importo, por favor.
Luke e Thalia juntaram-se a ela enquanto o pátio era esvaziado. Pela primeira vez desde que descera do carro, Percy permitiu-se olhar ao redor. O pátio era uma enorme área aberta, que se estendia até onde ele podia ver, e rodeado de gigantescas grades com arame farpado no topo. Próximo dali, havia um prédio de três andares, cinzento e de aparência velha nada simpática, e, acoplado a ele, um estacionamento aberto, para onde os carros estavam sendo levados.
Estranhamente, ele notou, parecia já haver um, lá dentro.
Ele achou que não fazia sentido: se só haviam seis carros na base, por que levar apenas cinco? Certo, talvez Clarisse houvesse deixado aquele para trás para caso alguém da Base precisasse fugir, mas, ainda assim, sentia como se algo não fizesse sentido.
— Annabeth — ele sussurrou — aquele carro já estava ali quando chegamos?
Os olhos cinzas dela se iluminaram, como se houvesse se lembrado de algo muito bom. Seja lá o que fosse, manteve-se quieta.
— Sigam-me — Clarisse ordenou, e eles deram a volta no prédio.
Após uma quantidade interminável de escadas, corredores e mais escadas (Percy estava começando a achar que iria desmaiar de novo), eles finalmente pararam. Percy engoliu em seco. Até então, estivera andando roboticamente, um passo atrás do outro, seguindo o loiro do cabelo de Annabeth balançando no rabo de cavalo à frente dele, seus pensamentos zunindo em torno de três únicas palavras. Rachel, fragmento, sangue. Fragmento, Rachel, sangue. Fragmento, sangue, Rachel.
Rachel. Sangue.
Sangue, sangue, sangue.
Clarisse bateu duas vezes na porta maciça de metal. Demorou algum tempo até que uma voz masculina e grave respondesse:
— O que é?
— Coronel, eu os trouxe. Eles estão aqui comigo.
Passos ressoaram do lado de fora. Passos pesados. A porta foi aberta com um barulho de metal arrastado. Do outro lado, havia um homem ainda mais alto que Clarisse, vestido com um uniforme preto do exército, colete à prova de balas, botas de couro amarradas firmemente, e luvas. Além da similar faca de caça em seu cinto, ele tinha uma pistola de coldre prateado e um pente de balas cruzando seu torso. O rosto, retorcido em uma carranca, apresentava várias cicatrizes e os olhos eram de um tom tão claro de castanho que pareciam dourados, frios e duros.
Duas sobrancelhas escuras e espessas se ergueram quando ele os viu. Depois, seus olhos rígidos voltaram-se para a soldado.
— Muito bem — foi a única coisa que ele disse para ela —, vocês. Entrem. Jackson, certo? Eu acho que tenho uma boa notícia para você.
Percy era um dos últimos da fila, então só alcançou o cômodo quando o homem já estava no final da frase. Ele pareceu dizer algo entre Ares, pai e Clarisse. Mas Percy não ouviu nada.
Grover.
Grover estava deitado na cama de lençóis pretos no quanto da parede.
Os adolescentes imediatamente começaram a correr na direção da cama, mas Clarisse os segurou com facilidade.
— Não — advertiu — ele está descansando. Os médicos acabaram de sair daqui.
— Mas... — Percy engoliu as próprias lágrimas — como ele está aqui?
— Percy! — Annabeth virou-se para ele com um sorriso — Era isso que eu dizer! Clarisse e os outros o encontraram quando estavam cruzando o prédio de volta. Ela mandou um soldado trazê-lo para cá na mesma hora, porque os ferimentos dele eram muito expostos. Se alguém além de nós o visse...
— Achariam que ele está infectado — Thalia completou.
— Isso — Clarisse assentiu — o que, por sua vez, causaria pânico.
— E... e ele... — Percy olhou de relance para a cama mais uma vez — ele está?
— Há pelo menos quatro mordidas espalhadas pelo corpo dele — ela respondeu, escorando-se na porta atrás de si — todas bem expostas. Mas já estava desacordado quando o encontramos.
— Então por que você o trouxe? — Percy sentiu o estômago embrulhando. — Vocês não querem fazer testes nele ou algo do tipo, querem?!
— Jackson — o homem o chamou a atenção. Ele deu um passo à frente, e enrolou uma das mangas do uniforme até o cotovelo. Uma enorme e ensanguentada atadura rodeava seu antebraço. — Se quiséssemos cobaias, teríamos uma, bem aqui.
Ninguém ousou falar nada. Percy foi mais uma vez lembrado da irmã de Reyna, e perguntou-se qual era a história dele. E porque ele ainda estava ali, quando havia claramente sido mordido.
— Nós todos sabemos que uma mordida não é o que transforma as pessoas — ele continuou, começando a andar em torno do cômodo —, eu soube disse quando um dos meus soldados se transformou na minha frente arrancou a garganta de um recruta, sem ter sido mordido antes. Isso me fez perguntar...
Percy trocou um olhar com Annabeth. Ela também não pareceu gostar de onde aquela história estava indo.
— Eu os matei, depois, é claro. Mas antes, deixei que um deles me mordesse — ele declarou.
— Isso foi há quatro dias — Clarisse completou, movendo os ombros — até agora, nada. Foi assim que descobrimos.
O homem voltou os olhos para Percy, e o rapaz notou algo que não havia ali antes: um fogo incandescente, uma chama de curiosidade e desafio que queimava por trás das írises amareladas. Instintivamente, deslizou até a frente da cama, colocando-se entre ele e Grover.
— E quem é você?
— Coronel Ares, muito prazer. Clarisse é minha filha.
Algo clicou na cabeça de Percy.
— Você é o pai do Frank.
Era muita coisa para ele. A dois minutos, sua única preocupação era Rachel, na sala de cirurgia (pensamento esse que ainda rondava sua mente), mas, agora, havia Grover — vivo. Grover. Vivo. Percy queria ter mais tempo para ficar repetindo essa frase em sua cabeça —, e o fato de que o pai de Frank não era apenas um Coronel do Exército — ele era um louco.
Mas ele pensaria sobre tudo isso depois. Naquele momento, tudo o que ele fez foi cortar a distância entre ele e o amigo, ajoelhar-se ao lado da cama e entrelaçar os dedos dele nos de Grover. O rapaz estava magro e abatido, pálpebras escurecidas pelo que pareciam dois olhos roxos e o lábio inferior cortado.
Mas estava vivo.
Percy encostou a testa na costa da mão dele.
Vivo.
Alguém bateu a porta.
— Coronel, senhor!
Ares desenrolou a manga do uniforme, mesmo com a porta ainda fechada.
— Pois não?
— A garota, srta. Dare — ele respirou — ela teve uma parada cardíaca.
Quando Annabeth terminou o argumento que encerraria o primeiro round, o auditório explodiu em aplausos tão altos que o mediador precisou pedir silêncio. Luke tinha dois dedos à boca, assoviando, enquanto Thalia gritava algumas palavras não muito educadas à bancada adversária.
Ao seu lado, Rachel usou os apoios de braços das cadeiras para impulsionar-se no ar e ficar de pé. Percy emergiu em puro terror, colocando-se ao lado dela e segurando-a pelos cotovelos.
— Você está doida? E se tivesse caído? — Ralhou, o olhar vacilando entre ela, o palco, e as muletas.
— Qual é! — Rachel sorriu, as bochechas ficando vermelhas como sempre acontecia quando ela ria demais — Annabeth é incrível, não é? Isso foi demais!
Percy deixou o olhar viajar para o palco, onde uma Annabeth consideravelmente mais calma sorvia pequenos goles de sua garrafinha de água. O olhar dela encontrou o dele, e ela sorriu, timidamente. Era estranho ver qualquer expressão no rosto dela que não aborrecimento quando o assunto era ele.
— É, é — ele rolou os olhos, cuidadosamente colocando-a sentada de volta da cadeira do auditório — só toma cuidado, tá bom? Eu não quero que você se machuque.
Rachel balançou a cabeça, movimentando os cachos.
— Eu sempre tomo cuidado — ela o acertou com um peteleco no meio da testa.
Ele olhou de volta para Annabeth. E sorriu.
O debate recomeçou, e Percy pensou em como era bom estar ali, com a melhor amiga e vendo sua quase-rival completamente humilhar seus oponentes.
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