Solitude

9 Clube de debate - parte dois.


Notas iniciais
Ninguém aqui quer ler as minhas reclamações da faculdade, então eu vou me contentar com um pedido de desculpas pela demora, é isto. Eu disse que os flashbacks iam fazer sentido nesse capítulo, mas acabou que ele ficou ENORME, e eu dividi em dois rs. Menções de bebidas alcoólicas nesse capítulo, espero que ninguém se importe. Se estiveram afim, leiam esse capítulo ao som de Falling Down, da banda Atreyu, porque eu o escrevi ouvindo essa música, haha. Espero que gostem!

Percy só conseguia lembrar-se de correr.

Só conseguia ouvir os sons dos próprios tênis contra o piso escuro, o coração batendo nos ouvidos. Suor corria pelo seu pescoço, pelas suas costas. Suas mãos tremiam ao lado do corpo. Ele engoliu em seco, e sentiu a garganta dolorida.

Parada cardíaca.

Ele deu de encontro com um soldado grandalhão quase cinquenta centímetros a mais de altura do que ele, com músculos da grossura de vigas de aço. O impacto foi tão forte que Percy cambaleou para trás, e só não caiu de costas no chão porque Annabeth o segurou pelo braço.

O soldado tinha um amigo, parado ao lado dele. Atrás, portas duplas fechadas com vidros tingidos de preto. Percy sabia o que havia do outro lado.

Ou melhor, quem.

— Sai da frente, Jackson — Clarisse o empurrou com um ombro, abrindo passagem entre os guardas —, eu quero ver a garota.

Os soldados bateram continência, e deram um passo para ao lado, afim de deixar Clarisse passar.

Percy não pensou duas vezes.

— Jacks— Clarisse interrompeu a própria fala com um palavrão quando Percy trombou nela e saiu correndo para dentro da sala.

Atrás dele, Percy ouviu Annabeth murmurar um “foi mal”, e no momento seguinte, estava ao lado dele. Clarisse o fuzilou com o olhar, mas a atenção dele não estava mais na sargento.

Dos pés de Percy até onde ele podia enxergar, toalhas, papeis e tecidos ensopados de sangue escuro cobriam o chão. Havia um jaleco embolado em um canto, com as mangas completamente arruinadas. Os fios da máquina embolavam debaixo da cama suspensa.

O corpo de Rachel estava deitado nela, com uma série de papeis igualmente manchados por baixo. Era difícil ver muita coisa, porque uma tenda azul clara havia sido montada acima dela, e uma dupla de médicos cutucavam alguma coisa nela.

Foi como se o coração de Percy houvesse voltado a bater juntamente com o bip-bip da máquina.

Uma mulher surgiu, desvencilhando-se da equipe de médicos. Ela parou na frente de Clarisse a bateu continência. Percy a observou. Não havia sobrado absolutamente nenhuma superfície branca em seu avental, o cabelo preto longo escapava da touca e o rosto dela estava coberto de suor. Em algum lugar de sua mente, Percy tinha certeza que ela estava violando ao menos umas três regras do código de higiene hospitalar, mas a única coisa em sua mente era o fato de que aquela mulher era um dos motivos pelos quais o coração de Rachel ainda estava batendo.

— Ela teve uma parada cardíaca quando precisamos aprofundar o talho, sargento — ela explicou. — Nós conseguimos reanima-la pouco depois, mas o Coronel Ares havia pedido que tudo sobre ela fosse avisado.

As palavras dela ecoaram na cabeça de Percy. Ele só então lembrou-se que, a cirurgia pós-acidente de Rachel há dois anos atrás houvera durado quase quatro horas. Ele nunca soubera de nenhuma parada cardíaca, mas, parando para pensar sobre isso agora, era perfeitamente possível que aquilo já houvesse acontecido daquela vez — e ele apenas nãos soubesse porque, afinal, não era da família.

Agora, no entanto era diferente.

Percy era a única família de Rachel naquele lugar.

— E como ela está? — Clarisse questionou.

— Ela é forte — a médica informou —, como já foi dito, eu acredito, nunca mais poderá andar. Isso é definitivo. O fragmento de metal ficou acoplado entre duas vértebras, e rompeu um nervo. Mas possui uma grande possibilidade de sobreviver.

— O médico disse que não podia tirar o fragmento — Percy falou pela primeira vez, lembrando-se do que Rachel havia dito.

— E não podia mesmo — a mulher ergueu uma sobrancelha para ele com um olhar irritado, como se pensasse: o que esse pirralho está fazendo aqui? — Porque, como eu disse, qualquer movimento romperia o nervo. A situação era diferente. O impacto da queda fez o fragmento se mover e enterrar-se mais fundo. Ela teve muita sorte de estar alojado na lombar, mas se ele houvesse cortado mais fundo, poderia chegar aos órgãos.

Percy respirou fundo — o que foi uma péssima ideia, porque o cômodo cheirava à sangue, e outras coisas que ele não queria nomear —, e direcionou o olhar para maca. Rachel estava de bruços, e o cabelo dela cobria-lhe completamente o rosto, mas Percy sentiu o coração acalmar-se no peito.

— Ela vai ficar bem — ele disse, por fim.

— Eu não posso garantir isso — a médica foi firme. Mas, como se ela também precisasse de um pouco de esperança, acrescentou: — mas, eu diria que ela está lutando o bastante para isso.

Clarisse agradeceu, pediu que ela retornasse à operação, e enxotou Percy e Annabeth da sala de cirurgia. Depois, desapareceu em uma curva do corredor e disse que eles não perturbassem mais os médicos ou Grover, que ainda precisava descansar.

Percy e Annabeth ficaram então sozinhos no corredor silencioso.

Pela primeira vez no que parecia uma eternidade, Percy respirou fundo — e sorriu.

Eles estavam bem. Grover estava vivo, Rachel estava viva, e Annabeth, Annabeth estava bem ali, do lado dele. Ele olhou para a garota, e só então notou que ela ainda tinha uma mão no braço dele.

Uma sensação gostosa começou a formigar na boca do estômago dele, e então foi subindo, e subindo... até materializar-se em uma risada leve. Percy riu. Annabeth o olhou com aqueles olhos cinzas brilhantes, e então começou a rir também. Em um impulso, ele envolveu o corpo dela com os braços e a trouxe para perto. Annabeth enlaçou o tronco dele com os próprios braços e enterrou o rosto no moletom encardido que Percy usava, e riu mais.

Com os corpos tremendo de tantas sensações diferentes — alívio, felicidade, cansaço, e aquele típico nervosismo que o invadia sempre que Annabeth estava por perto ultimamente — ele tirou as mãos dela da própria cintura, e enlaçou seus dedos. Distanciando-se apenas um pouco, ele trouxe as mãos de ambos, unidas, até a altura dos ombros, e balançou-as.

Annabeth balançou a cabeça, incrédula, mas o seguiu. Percy ergueu um dos braços acima da cabeça dela e a fez girar.

Eles estavam dançando — sem música, sem plateia, em um corredor vazio no meio do fim do mundo.

Mas eles estavam vivos.

E estavam juntos.

Tudo ia ficar bem.

A cabine de Percy era igual à dos demais — um cubículo com uma cama de colchão fino, uma arara para roupas, e uma janela. Ele e Annabeth estavam sentados na ponta da cama, de mãos dadas repousadas no espaço entre eles.

— Eu fiquei tão bêbada que o Luke precisou pegar a moto da Thalia para me buscar, às tipo, quatro da manhã — ela contou, exasperada com a própria história.

— Eu ainda não acredito — Percy ergueu uma sobrancelha. — Você não pode estar falando sério.

— Ah, não?

Ela usou a mão livre para abaixar a gola da camiseta, e Percy viu a cicatriz branca que começava no ombro, e — segundo ela — terminava entre as omoplatas. Involuntariamente, ele arregalou os olhos, enquanto a garota abria um sorrisinho vitorioso.

— Você realmente invadiu uma casa abandonada pela janela — ele admitiu.

— Nunca duvide de mim, Cabeça de Alga — Annabeth riu — o quão antes você aprender isso, melhor.

— Ah, eu já aprendi — ele rolou os olhos.

E então eles ficaram em silêncio. Era de madrugada, eles haviam jantado no refeitório uma sopa grudenta que a cozinheira afirmava de creme de batata e uma porção de carne, e então tomado longos e merecidos banhos. Annabeth estava agora vestindo uma camiseta azul, e um short jeans. O cabelo, preso em um rabo-de-cavalo.

Percy não soube exatamente o que foi.

Talvez ele houvesse apenas se esquecido do quão bonita Annabeth era quando estava, bem... limpa.

Ou talvez fosse o fato de que ele já estava há dias notando aquelas pequenas coisinhas. Há dias pensando em como os olhos de Annabeth brilhavam e o quão absurdamente hipnotizante aquele sorriso de canto dela era.

Talvez fosse o silêncio, a madrugada, e a promessa de uma vida segura naquele lugar.

Mais provavelmente, no entanto, era o fato de que a camiseta de Annabeth era azul, a alça do sutiã dela que estava aparecendo também, e o coração de Percy estava batendo como uma dúzia de bandas rock no peito dele.

Ele se aproximou. A mão dela na dele tremeu.

Annabeth engoliu em seco. Tomou impulso. A respiração de Percy acelerou tanto que ele julgava que provavelmente parecia um peixe fora da agua.

Toc-toc, pombinhos! — Leo escancarou a porta com um chute.

Eles se separaram tão rápido que Percy caiu da cama, o pé dele deslizou no lençol e Annabeth escorregou de cara no chão.

O garoto riu estrondosamente. Ele ouviu Piper acertando-o no ombro e dizendo que ela estava “certa” e Percy e Annabeth estavam “ocupados”.

Percy só então o porquê de Leo ter usado o pé: ele estava carregando uma caixa.

— Cara — ele tomou fôlego —, que merda é essa?

— Ora, meu caro amigo — Leo abriu um sorriso sinistro — o melhor e mais precioso tesouro do Coronel Ares.

— E o que seria isso exatamente? — Annabeth perguntou, massageando o nariz.

— Vodca — Piper respondeu —, uísque. Acho que tem uma garrafa de rum também, se você curte uma parada mais chique.

— Piper... — a boca de Annabeth abriu tanto que o queixo dele quase acertou o chão. E então a voz dela subiu ao menos três oitavos: — você roubou do Coron—

Percy avançou nela a tempo de cobrir a boca da loira com a mão.

— Talvez você não queria que o resto do corredor inteiro escute, sabe.

Annabeth sussurrou, bem irritada:

— Isso é uma péssima ideia.

— É uma ótima ideia — Leo a corrigiu —, enfim, nós só viemos deixar aqui mesmo. Pipes e eu ainda vamos chamar os outros, mas achamos melhor deixar o mais longe do Coronel o possível, e o quarto do Percy é o mais afastado.

Ele depositou a caixa no chão, soprou um beijo para eles, disse:

— Nós já voltamos, não se divirtam muito!

E saiu arrastando Piper pelo braço, que pelo menos teve a decência de dizer “desculpa!”.

Percy e Annabeth trocaram um olhar, e então desataram em risadas. Percy ainda estava vermelho como um pimentão, mas notar que Annabeth estava tão envergonhada quanto, o fez sentir-se um pouco melhor.

Quando estavam no auditório, com a comida acabando e literalmente tudo dando errado, Percy sentia como se precisasse correr. Como se, se não agarrasse qualquer oportunidade para ficar com os amigos — com Annabeth, mais especificamente — o fim do mundo os devoraria e ele morreria com todas as palavras que não conseguiu dizer na garganta.

Mas ali, o tempo parecia passar mais devagar. Ele e Annabeth tinham tempo para descobrir o que era aquilo — aquilo que estava acontecendo entre eles. Eles tinham tempo para conversar, para contar histórias embaraçosas e rir da cara vermelha um do outro. Eles tinham tempo para serem só dois adolescentes com quedas bem grandes um no outro, e não líderes de um grupo de sobreviventes do apocalipse. Percy tinha tempo para pensar no momento perfeito para aquele primeiro beijo, quando não estava preocupado com o que poderia acontecer quando a comida acabasse na sala de som.

Um momento se passou, e alguém bateu na porta.

Eles trocaram um olhar confuso.

— Já? — Percy perguntou.

Mas não houve resposta.

Hesitantemente, a atmosfera se dissipou. Ele levantou do chão e foi até a porta.

— Leo?

Um grunhindo dolorido foi a única resposta. No segundo seguinte, Annabeth estava ao lado dele. Eles tiveram uma conversa silenciosa por olhares e assentiram. Percy puxou a maçaneta.

Um corpo alto e bronzeado cambaleou para dentro da cabine e caiu no chão.

— Reyna?

Annabeth correu para se ajoelhar ao lado dela, e Percy ajudou-a a virar com o peito para cima.

Lembranças do cenário escarlate da sala de cirurgia invadiram a cabeça de Percy como um turbilhão.

Porque havia um talho aberto no abdome de Reyna, e ela estava coberta com o próprio sangue.

— Reyna? Reyna! Fala comigo, Reyna, fica acordada! — Annabeth balançou o rosto da amiga pelo queixo.

Reyna tentou falar algo, mas tudo o que escapou de seus lábios foi um filete de sangue e um suspiro sem fôlego.

Percy e Annabeth se olharam.

O tempo deles estava acabando.

[...]

Clarisse manteve a multidão do lado de fora. Todos queriam saber o que havia acontecido com Reyna.

Mais do que isso, Nico queria matar alguém.

Ele estava andando em círculos pela enfermaria, respirando tão fundo que Percy quase conseguia ouvir o ar entrando e saindo.

— Julgando pela trajetória das manchas de sangue no assoalho... eu diria que é seguro dizer que ela foi atacada em frente à sala de cirurgia — Clarisse ponderou, lançando um olhar pensativo à garota desacordada na maca. — Nico?

— Ela só saiu para tomar água!

— O bebedouro do nosso corredor está vazio — Hazel contribuiu — ela deve ter ido buscar no próximo.

— Eu só não consigo entender, por que alguém... — Clarisse começou a dizer, mas foi interrompida por uma comoção na porta.

Um garoto loiro alto que Percy não conhecia e um cara igualmente musculoso, com um olhar duro entraram arrastando alguém, empurrando as pessoas da entrada. A voz de Octavian surgiu esganiçada por cima do burburinho:

— Sargento, eu exijo que você tome uma providência.

Clarisse observou toda a cena com os olhos atentos. Ela pareceu estar mais preocupada com a multidão do que com o quer que Octavian estivesse reclamando. Ela direcionou um olhar cuidadoso à Percy.

Por algum motivo, as palavras dela de apenas momentos antes vieram ecoando.

Isso causaria pânico. O que a última coisa que precisamos.

O coração dele errou uma batida. Do lado de fora, as pessoas se amontoavam.

Do lado de dentro, os dois grandalhões forçaram o garoto até que ele estivesse ajoelhado. Percy só então reconheceu a cabeleira loira da cor de areia e a cicatriz.

Luke.

Com um olho roxo, um lábio inchado e no limiar entre a consciência e um desmaio, mas, ainda assim, Luke.

Percy repetiu para si mesmo. Nós estamos vivos. Nós vamos ficar bem.

— O que significa isso? — Clarisse andou até estar de frente com o garoto loiro esquelético, vestido de pijamas.

Percy respirou. Nós estamos bem.

— Eu é quem pergunto! — Octavian guinchou. — O que você estava pensando quando trouxe para cá alguém...

Nós vamos ficar vivos

— Que já foi mordido?!

Alguém gritou. A maioria ficou assustada demais para dizer qualquer coisa. Os olhos de Annabeth encontraram os dele. Percy reconheceu um turbilhão de emoções naquele único momento. Horror. Pânico.

Desespero.

Luke abaixou a cabeça quando um dos rapazes o chutou.

Tic-toc, tic-toc.

O mediador finalizou a segunda rodada apertando uma campainha em sua mesa. A equipe de debate da escola deles vibrou, sabendo muito bem que tinham uma boa vantagem. Annabeth olhou para a direção deles com os olhos cheios de esperança, e Thalia gritou um encorajamento. Ela estava tão feliz, que nem Percy conseguiu evitar um sorriso.

Tic-toc. Tic-toc.

O tempo deles havia acabado.

Era hora de voltar à realidade.

Notas finais
O que vocês acham que é pior - uma horda de mortos-vivos, ou uma multidão de pessoas que acham que acabaram de ficar em segurança descobrindo que tem alguém mordido entre eles? Hmmm... Eu vou tentar postar o próximo até pelo menos semana que vem, sério ♥ Enfim, espero que tenham gostado, comentários são sempre apreciados! E feliz Mês de Orgulho do LGBT para qualquer um de vocês que faça parte dessa comunidade incrível ♥ vocês são demais!