Soldier Seiya - A Era de Poseidon 02

1 O Ataque à Fundação pt.I: Os manuscritos de Shion


GRÉCIA. TRINTA ANOS ATRÁS.

Mitsumasa Kido sempre foi apaixonado pela história das civilizações, pelos mitos dos deuses e por arqueologia. O caso do continente perdido Mu, em especial, é um mistério no qual ele tem dedicado sua vida inteira, até o alto de seus então quarenta anos de idade. Não à toa, existe uma ramificação secreta da Fundação Graad, da qual ele é proprietário, que se dedica inteiramente a pesquisar sobre essa civilização perdida.

As intensas pesquisas indicaram que o continente Mu teria profundas ligações com Athena, a deusa da sabedoria, que fora destituída por Poseidon na era mitológica. Seguindo os rastros da investigação, Mitsumasa chegou à cidade de Poseidônia, capital da Grécia, em um antigo e abandonado templo que, há incontáveis séculos, antes do domínio do deus do mar, serviu como lugar de adoração à deusa, próximo ao monte conhecido como Star Hill.

O ambiente é de desolação. As pessoas que habitam as cercanias não ousam se aproximar dali, pois é dito ser um lugar amaldiçoado. Mitsumasa sente uma penosa melancolia tomar conta de si a cada passo dado nas ruínas daquele templo. De dentro da volumosa mochila que carrega em suas costas, ele tira o que parece ser um mapa, mas é a antiga planta do majestoso templo de outrora. Ele para por um instante, acende sua lanterna e entra sem olhar pra trás.

Seguindo pelos cômodos, o explorador chega até o que parece um dia ter sido um trono. O templo acaba ali e ele começa a se sentir frustrado. É quando surge, do teto do templo, uma grande coruja-das-torres, com sua plumagem de cor castanho-claro e seu rosto branco, que a tornam uma visão fantasmagórica. A ave pousa sobre o encosto do trono e passa a olhar Mitsumasa bem dentro de seus olhos.

Como que hipnotizado, ele se aproxima e tenta tocar a coruja. Mitsumasa sente que tocou o peito do animal, mas a superfície é fria. Qual não é o seu espanto quando a coruja se dissolve na frente de seus olhos e ele se vê, na verdade, tocando o que parecia ser um botão secreto no encosto do trono. Ele o comprime com mais força e um grande alçapão se abre atrás do assento deteriorado. Dentro dele, há uma escada que leva para o subsolo.

Mitsumasa Kido se enche de entusiasmo e em seu coração ele sente que está perto da maior descoberta de sua vida. Por um instante ele até esquece que acabou de ver uma assombração em forma de coruja.

Descendo a longa escadaria, ele finalmente chega a um amplo salão, iluminado por um único feixe de luz do sol que entra pelo elevado teto, com prateleiras e mais prateleiras de papiros e livros antigos. Maravilhado, Kido nem sabe por onde começar. Há documentos sobre registros de guerra, contos mitológicos, infindáveis biografias de grandes filósofos e personalidades da Grécia Antiga.

Mitsumasa interrompe suas buscas por um instante, pois sente que mais uma vez tem companhia. Ele olha para o alto e lá está a coruja fantasma, voando em círculos. Kido sabe muito bem da ligação simbólica entre a coruja e a deusa da sabedoria. Será que ela mostrará o que ele tanto procura? Como que respondendo à sua pergunta, a coruja pousa sobre um armário de madeira, cujas portas estão unidas por um tipo de selo como o nome “Αθηνά”, Athena em grego.

O arqueólogo toca o selo e ele se desfaz. O armário se abre e nele se encontram diversos documentos, incrivelmente bem preservados para o tempo que devem ter passado ali. É uma coleção de manuscritos que relatam exatamente a história do continente Mu, assinados por nomes que ele já conhece de suas aprofundadas investigações. São todos nomes muvianos. Vários dos textos, datados de duzentos anos atrás, são assinados por um homem chamado Shion.

Nesses manuscritos, há indícios da aparição de Tritão, que eliminou os ferreiros alquimistas e lançou um terrível maremoto que devastou todo o continente com ondas imensas. Há relatos sobre os Materiais Sagrados de Athena, que foram levados por Tritão. Mitsumasa acha curioso que Tritão seja referido muitas vezes nos textos como o “Deus Parasita”. Há ainda instruções para a forja das 88 armaduras dos Cavaleiros de Athena, que nunca foram criadas, o que acarretou na derrota de Athena. De Shion, temos uma série de ensinamentos sobre Athena, sobre a cosmo-energia e um compêndio de técnicas secretas que invocam o poder da constelação de Áries. E por último, a história da longeva Rebelião de Athena, que geração após geração vinha falhando em impedir a morte da deusa, mas que atravessou as eras tentando reaver o Reino de Athena.

Mitsumasa saiu de lá satisfeito e sentiu que o clima melancólico desaparecera completamente do templo. Para ele, a própria Athena o havia guiado até ali, na forma daquela coruja “assombrada”.

Durante os três anos seguintes, Mitsumasa se dedicou a descobrir se a tal rebelião ainda existia nos dias de hoje. Para isso, ele se utilizou de toda a rede de informações da Fundação Graad até conseguir localizar Arles, o então líder da Rebelião de Athena em Jamiel, onde conheceu os irmãos Aioros e Aioria, que tinham apenas nove e seis anos respectivamente na época; conheceu também Daidaros, jovem aristocrata herdeiro dos Albiore, com treze anos de idade, que mais tarde se tornaria Comandante Marina e informante da Rebelião; Camus, rapaz de quinze anos que manipulava o ar frio e também o pequeno Mu, que aparentava ter cerca de sete anos, mas devido a ser descendente dos longevos muvianos, poderia ser bem mais velho.

Mitsumasa mostra a eles os documentos que encontrou no templo de Athena, aos quais eles passaram a chamar de Manuscritos de Shion. Em seguida, conta-lhes sobre suas pesquisas e descobre que Shion foi um Capitão Marina aliado da rebelião no passado, que morreu tentando salvar Athena.

Arles passa a confiar em Mitsumasa e conta a ele toda a história da rebelião de Athena, que existe desde a época da primeira Guerra Santa e vem tentando livrar o mundo do domínio atlante, para devolvê-lo às mãos de Athena e da humanidade, como foi estabelecido por Zeus na era mitológica.

A partir de então, Arles e Mitsumasa estabeleceram um forte amizade. Simpatizando com a causa dos rebeldes, Mitsumasa Kido passou a financiá-los e, anos depois, após a morte de Arles, uniu-se a Aioros e ao novo aliado Saga no audacioso plano para salvar Athena e mudar para sempre os rumos da história.

— Uau! — ironiza Seiya, de frente para Mitsumasa Kido (agora com 70 anos de idade), acompanhado por Shun e Ikki — Se tudo isso é verdade eu não sei, mas que é uma história muito bem contada, ah, isso é!

TÓQUIO – JAPÃO, ÉPOCA ATUAL

Um grupo feminino de estudantes uniformizadas segue uma simpática moça, vestida em um terninho cinza elegante, até um amplo e iluminado saguão. O piso e as paredes são brancos, o que dá um visual “clean” e futurista ao ambiente. O teto é bastante alto, há grandes telões distribuídos por todas as paredes, exibindo propagandas sobre a Fundação Graad. A moça se coloca de frente para as meninas, joga para as costas os cabelos loiros que lhe caíam sobre os ombros e inicia seu discurso:

— Alunas da Academia Particular Ryusei, sejam bem vindas à Fundação Graad. Eu me chamo Mii, e vou conduzí-las nessa excursão pelo prédio da Fundação.

As jovens estudantes parecem bastante empolgadas enquanto a bela Mii as guia pelas instalações, falando um pouco a respeito daquela famosa organização:

— A Fundação Graad é uma instituição de origem japonesa, internacionalmente conhecida e influente em todo o planeta. Seu principal campo de atuação é o ramo de tecnologia e inovações, bem como pesquisas científicas nas áreas da genética, botânica e química.

Ela para de frente a um telão de plasma vertical, onde se exibe a imagem de Mitsumasa e continua sua exposição:

— O senhor Mitsumasa Kido é o fundador e atual Chefe Executivo da Fundação Graad, que mantêm estreitas relações comerciais com Atlântida, o grande império que rege este mundo.

— Olhem lá! — interrompe uma das meninas, repentinamente, apontando para uma escadaria — Aquela que vem descendo ali não é a Saori Kido?

— É ela mesma! — confirma uma das outras garotas — A famosa neta de Mitsumasa Kido!

Por um segundo Mii se sentiu aborrecida com a interrupção das meninas, mas logo que vê a graciosa jovem de longos cabelos púrpura que passava, ela esquece tudo e sorri.

Ao notar a reunião das jovens estudantes, Saori passa a se aproximar. Ela traja um conjunto sóbrio de blazer e saia cor de vinho, bem ajustados às formas de seu corpo esbelto, sobre uma blusa branca de tecido leve. Seus passos resolutos, seu olhar tranquilo, seus gestos comedidos, toda essa composição a faz emanar uma cintilante aura de sofisticação.

Mii a cumprimenta inclinando-se um pouco para frente. Saori Kido retribui o cumprimento e sorri para as meninas. Mii faz a apresentação:

— Meninas, eu lhes apresento a nossa CEO, a senhorita Saori Kido.

As estudantes ficam fascinadas por estar na presença de uma pessoa tão ilustre. Afinal, Saori Kido tem status de celebridade:

— Vejam como é graciosa!

— Ela é CEO com apenas dezoito anos!

— Ela é ainda mais linda pessoalmente!

Saori repara nos uniformes escolares das meninas e diz:

— A Academia Ryusei, onde vocês estudam, é parte da Fundação Graad. Nosso objetivo é dar uma educação de alto nível a meninas de grande potencial. Quer dizer que hoje é o dia das melhores alunas conhecerem nossas instalações? Espero que gostem e aprendam bastante.

Nesse instante, um homem calvo vestido em um terno preto se aproxima atarantado, quase escorregando no lustroso piso. Ele é alto e aparenta ter um porte atlético. Sua falta de sobrancelhas é uma característica bem marcante.

— Senhorita, por onde andava? — pergunta ele — Eu a procurei por toda parte.

— Tatsumi! — diz Saori — Eu estava recebendo as estudantes da Academia. Elas não são adoráveis?

— Sem dúvida, senhorita, mas o seu avô, o senhor Kido a está aguardando.

— Minha nossa! Como pude me esquecer? Então eles chegaram?

Saori pede licença às meninas e segue às pressas junto a Tatsumi, seu assessor particular.

SALÃO DO GRANDE MESTRE – FORTALEZA DE ATLÂNTIDA

O Comandante Marina Acetes de Tirreno se apresenta ao Grande Mestre Tritão, juntamente com a Soldada Marina, June de Estrela do Mar. Ambos estão ajoelhados, trajando suas Escamas, apresentando notícias não muito agradáveis:

— O que disse? — questiona Tritão — Três dos quatro soldados enviados à Amazônia estão desaparecidos?

— Exatamente, Grande Mestre. — confirma Acetes. — June de Estrela do Mar, esta soldada que me acompanha, foi a única que retornou.

— O que tem a dizer, Estrela do Mar? — pergunta Tritão.

June levanta-se e é possível notar algumas rachaduras em sua armadura.

— Nós chegamos ontem à região amazônica, o mesmo dia em que foram mandadas as expedições à Ilha da Rainha da Morte. Eu fui nomeada líder da missão e estavam comigo Nami de Gaivota, Ludwig de Peixe-Espada e Spika de Escolopendra. Tínhamos a missão de neutralizar as atividades terroristas de Geist de Equidna, a ex-Comandante Marina que estava exilada em uma ilha-prisão atlante no Caribe e fugiu junto com três comparsas.

“Ludwig guiou nosso barco atlante pelo Rio Amazonas. Era um dia claro e a viagem até então seguia tranquila. Chegando a determinado ponto do rio, porém, notamos que o céu escureceu e uma neblina incomum naquela região subiu de repente. Não conseguíamos ver nada ao nosso redor.”

— Fiquem atentos — adverti — Sinto uma cosmo-energia muito poderosa vindo do rio.

— Olhem lá! — observou Nami, apontando para as águas — O rio está borbulhando!

Nesse momento, uma serpente de proporções colossais, como eu jamais havia visto, emerge das águas do Amazonas e sua sombra cobre toda a embarcação.

— Deve ser a lendária Anaconda — lembrou Ludwig — Preparem-se!

— Cuidado! — gritou Spika — Ela vai virar nosso barco!

Nós quatro pulamos n’água, enquanto a descomunal serpente estraçalhava nossa embarcação com ataques violentos de sua cauda.

Cheguei à margem e percebi que lá estavam apenas Nami e Spika.

— Cadê o Ludwig? — perguntei, preocupada.

— Ah não! — lamentou Nami— June, a anaconda o pegou!

Ludwig havia sido enroscado pela serpente e não conseguia se soltar. Tratei de organizar um contra-ataque.

— Spika, use sua Ferropéia da Escolopendra para prender a cobra. Eu ajudarei com meu Laço de Stella Maris. Nami, assim que tivermos o monstro preso, você utiliza seu Voo Rasante da Gaivota e liberta o Ludwig. Ok? Agora!

O plano deu certo, derrotamos a serpente gigante e libertamos o Ludwig, mas tudo acabou quando eles apareceram. Eram três homens. Eles usavam trajes que lembravam armaduras, mas eram flexíveis e justas no corpo e eles eram como fantasmas. Nossos golpes nunca os acertavam.

Nami foi jogada na outra margem do rio por um só golpe. Spika tentou atingir um deles, mas sua ferropéia atravessou o corpo do inimigo e atingiu o já enfraquecido Ludwig. Os dois foram jogados na correnteza e sumiram. Fiquei sozinha contra os três quando ela apareceu. Geist. Ela me atacou utilizando enormes garras que saíam de seus dedos. Tentei acertá-la, mas foi em vão.

— Como conseguiu sair de lá com vida, menina? — pergunta Tritão.

— Me desculpe, Grande Mestre, mas nem mesmo eu sei. Eu me lembro de ter visto uma quantidade imensa de vitórias-régias aparecerem nas águas do rio e pensei ter escutado uma voz feminina cantando em alguma língua nativa, algo indígena, acho. E depois, houve um clarão que dissipou a neblina e afastou o bando de Geist. Eu devo ter desmaiado em seguida.

Acetes também se levanta e se pronuncia:

— June foi encontrada desmaiada na margem do rio por moradores de uma cidade ribeirinha ali perto. Talvez tenha sido levada pelo rio. Quando soube, eu mandei que a buscassem imediatamente.

— Entendo — diz Tritão, juntando apenas as pontas dos cinco dedos das mãos e aproximando do rosto, em tom pensativo — Acetes!

— Sim, senhor Tritão!

— Organize outra operação na Amazônia. Quero que aniquile Geist e seus comparsas de uma vez por todas.

Acetes e June se retiram do salão. Acetes se sente aliviado ao sair, pois estava louco para abrir outra garrafa de rum e parar de falar daquele jeito formal. June, porém, está bastante intrigada com tudo o que aconteceu e deseja saber o paradeiro de seus colegas.

— Comandante Acetes...

— Sim, menina?

— Por favor, permita que eu volte à Amazônia. Inclua-me na nova expedição, eu preciso saber o que aconteceu.

— Ah, benzinho, eu jamais recusaria um pedido de uma moça tão bonita. Vamos juntar mais alguns marujos e partiremos amanhã. Ao raiar do sol, o Navio Tirreno irá pra Amazônia!!!!

つづく

Notas finais
O Ataque à Fundação: O capítulo ficou muito extenso, então dividi em duas partes: “Os Manuscritos de Shion” e “O Plano Maligno de Shina”

Poseidônia: segundo a origem mitológica da cidade de Athenas, capital da Grécia, aquela região era disputada por Athena e Poseidon e, como Athena venceu, a cidade foi batizada com o nome que tem hoje. Porém, se Poseidon tivesse vencido, ela se chamaria Poseidônia, o que é o caso aqui nesse mundo alternativo. Errata: no capítulo “Seiya de Centauro Marinho”, eu havia escrito que Athena nasceu em Star Hill, na cidade de Athenas. Mas eu já corrigi e coloquei Poseidônia.

Daidaros / Albiore: Daidaros (ou Dédalo) é o nome do mestre de Shun no mangá, enquanto Albiore é no anime. Aqui, optei por utilizar a aparência do Albiore, pois acho mais elegante, mas defini que Daidaros é o primeiro nome e Albiore é o sobrenome dele.

Academia Particular Ryusei: É a escola da Fundação Graad que aparece no mangá spin-off Saintia Sho. Inclusive a Mii de Golfinho fez um “cameo” aí.

Acetes de Tirreno: Acetes na mitologia grega foi o comandante de um navio pirata chamado Tirreno. Logo eu apresentarei a armadura dele montada na forma de um navio.

June de Estrela do Mar: É June de Camaleão no universo normal. Só que a aradura dela aqui não representa aquele animal marinho em forma de estrela, e sim Stella Maris, ou Ishtar, deusa babilônica da guerra e do amor, que se dizia ser a protetora dos navegantes. Acetes deu sorte em levá-la junto, hein?

Nami (波): significa “onda” em japonês e achei um nome bonito para a Soldada de Gaivota, além de ser uma personagem de One Piece, um anime que também tem muito mar, assim como essa história.

Spika de Escolopendra: Spika é aquele personagem que aparece apenas no anime de CDZ, que treinou na Ilha de Andrômeda. Aqui ele se tornou um Soldado Marina e treinou na Ilha de Amphitrite. Escolopendra é um monstro marinho em forma de centopéia. Spika tem uma arma chamada “Ferropéia” que, no caso dele, é uma corrente que tem uma forma parecida com uma centopéia. Ferropéia é sinônimo de corrente e rima com centopéia!!

Ludwig: Esse nome aparece em uma lápide de um cavaleiro de prata morto, em uma cena do mangá de CDZ. Significa “Guerreiro Glorioso” e já apareceu um Ludwig em Saint Seiya ?”mega, sendo o nome do deus Marte.