Soldados de Chumbo
11 Capítulo 11 - São só cicatrizes.
Notas iniciais
Elizabeth Nüll não conseguia dormir. Os olhos cansados se debruçavam sobre um pesado livro de química avançada que ela estava tentando decorar para um concurso na Bélgica. Eram nove horas da noite, e a base militar de Indianápolis estava quase deserta. Apenas alguns soldados recolhidos em seus aposentos. Elizabeth estava em sua própria sala, assistente primária do General Winston Einsenbauer.
Com as luzes apagadas e iluminando seu caminho de leitura apenas um abajur no canto da mesa, ela começa a pender os olhos verdes. Ela estica os braços para frente e para os lados. Leva as mãos aos cabelos loiros, ajeita a tiara preta e resolve fazer um café... Quando ouve algo.
Ela não se assusta. Levanta da cadeira e sai da sala, tentando seguir aquele som contínuo. Pareciam sons de uma tortura à moda antiga. Socos e pontapés eram desferidos em algo que ela não conseguia identificar.
Os sons pareciam vir da academia, ela hesita um pouco, mas avança. Entra devagar pela grande porta de emergência que estava semi serrada. E avista um soldado treinando boxe sem luvas num grande saco de areia. Era Jim.
Ela se aproxima do garoto, que estava muitíssimo concentrado, fazendo rasgos no saco pesado, pequenos grãos se amontoavam perto dele.
— O que faz aqui? — Diz ela.
— MEU DEUS DO CÉU! — Roy quase cai no chão. — Você ficou louca? Quer me matar do coração?
— Minha nossa, me Desculpe. Não quis te assustar. — Ela parecia mesmo chateada pelo mau entendido. — Desculpe, Soldado Especial Roy.
— Srta. Nüll. Nós estudamos juntos, temos a mesma idade e já acabou o expediente. Vamos nos tratar por Elizabeth e James, tá? Ou Jim, se preferir.
Ela ri.
— Certo, Jim. E pode me chamar de Beth.
— Eu já ia chamar assim, na verdade. Acho mais fácil. Só estava esperando a sua autorização.
Agora ambos sorriem.
— Como você faz isso? E sem luvas?
— O soro aumentou a minha força. Treino sem luvas pra testar a verdadeira eficiência do meu soco. E você? O que faz aqui à essa hora?
— Eu estava estudando. Química Orgânica.
— Entendi. — James se afasta dela, e do saco. Caminhando em direção à uma mochila com o brasão do Indianapolis Colts. Ele tira as bandagens, as coloca nessa mochila.
Não que Beth prestasse atenção, mas não podia deixar de notar que por baixo da camisa de Roy, haviam muitas cicatrizes. Algumas até recentes e bem feias.
— O que houve com as suas costas?
— Como assim? As cicatrizes? São as marcas de batalha. Facadas, flechadas, morteiros, tiros, granadas e outros explosivos.
— Flechadas? Você foi atacado por índios?
— Não, pelo Legolas de O Senhor dos Anéis. Ele é bem hostil pra um Elfo de Valfenda.
— Legolas é do Reino da Floresta.
— Jura? Então me desculpe. Faz tempo que li o livro. Tipo, uns 10 anos.
Ela ri. — Eu leio O Senhor dos Anéis todo ano. Pelo menos uma vez. — Disse.
— Você é bem impressionante, Srta. Nüll. — James novamente vira de costas para ela.
— Roy!
— Sim?
— Suas costas!
— Que têm elas?
— Estão sangrando!
— Relaxa, uns pontos devem ter soltado. Vou tomar um banho gelado e amanhã eu peço pra Bárbara me costurar.
— Bárbara está de folga a semana toda, Jim.
— QUÊ? Que tipo de enfermeira é ela?
— Ela não tirava folga há 3 anos.
— Ah sim, verdade. Então tá, eu vou no pronto socorro. Não tem problema, nem está doendo — hmmggh — Tanto assim.
— Senta aqui nesse banco. — Ela virava de costas para ele em direção à um armário no ginásio. — Vou pegar um kit de primeiros socorros que tem aqui e vou eu mesma fazer isso. Tire sua camisa.
Escondendo a dor, ele retira a camiseta já suja de sangue e está com a ferida à mostra para a moça que se aproxima com um kit.
— Vou saturar, limpar e costurar. Vai doer.
— Eu já levei 8 tiros, moça. Eu sei que vai doer.
— 8?
— 3 no Afeganistão, 4 no Iraque, um no treinamento. Esse foi um acidente. Os outros 7 não.
— O que mais dói no que você faz?
— Nada é pior do que... — Ele pausa por um segundo. — Ter que tirar a vida de um ser humano. Um ser humano que você ACHA que quer te matar. Mas você não tem certeza disso. Você nunca tem. Não é como atirar num estuprador, ou num assassino cruel que mata por prazer. É atirar em alguém que recebe ordens de quem realmente nos odeia.
— Mas muitos deles realmente nos odeiam. Né?
— Sim, mas é como eu disse. Você não tem certeza sempre. Você só puxa o gatilho.
— E quantos você já... Sabe? Matou? Lá fora? — A moça perguntava pisando em ovos, não queria ofender ou magoar. Estava curiosa. Ela não tinha muito contato com os soldados, suas histórias, seus medos e seus fantasmas.
— Eu não... Eu não sei. — Os lábios de Jim pareciam tremer. — Não sei. Me lembro de todas as vezes que voltei pra casa sem ter dado um único disparo. Foram duas vezes. De resto, sempre deixamos algo pelo caminho. Nosso trabalho amaldiçoado. Eu não sei, Beth. Muitos.
— Porque escolheu essa vida?
— Com 14 anos eu fui preso numa penitenciária de contenção de menores infratores. Estava perdido, sozinho. Confuso. Me envolvia em brigas, vi garotos da minha idade morrendo. Me deram uma chance aqui. Aqui eu tenho a chance de ser alguém melhor, um protetor, um cuidador. Fazer algo útil. A guerra não é inútil, Beth. Ela é feia, perversa. Mas não é inútil. Muitos podem discordar, e eu entendo, e respeito quem acha assim, mas a vida atrás de um fuzil é diferente da vida de quem nunca sequer segurou uma faca pra cortar um pedaço de pão.
— Sinto muito por tudo isso, Jimmy.
— Não sinta. Estou lutando pelo meu país.
Elizabeth sentia a frieza no tom de voz de Jim, mas também sentia o sofrimento que ele sentia.
— Quantas missões você já fez?
— Fora dos Estados Unidos? Umas 30. Qual o motivo de querer saber tudo isso?
— Quero distrair sua cabeça pra não pensar na dor.
— Tá certo. Mas pode ser sobre outra coisa que não seja guerra?
— Claro. Desculpe. — Ela começa a costurá-lo.
— Devagar aí.
— Foi mal, valentão. — Com um pano, ela estanca o sangue. — Então, o seu amigo. John...
— Nem vem, moça. Aquele lá está comprometido. E com a sua amiga, ainda por cima.
— O quê? Não. Não. Eu só queria saber se ele tem mesmo um banjo mágico. E que ele consegue voar?
— Cacete. Quem te contou isso?
— A Sarah.
— Meu pai do céu. Daqui a pouco a cara do Hev vai estar nos jornais. Caipira local salva pessoas levantando carros com uma mão só.
— Bom, cada um com as suas. A Sarah gosta do tipo caipira... Que levanta carros com uma mão só. E você? Jim, qual seu tipo de mulher?
— Mais velhas. AI!
— Você mereceu. Estou falando sério.
— Eu não tenho um tipo de mulher, Beth. O soro tirou de mim a capacidade de ter emoções fortes. As únicas coisas que eu sinto de vez em quando são: frio, sono e fome. Mas só de vez em quando.
— Você não precisa se apaixonar por uma menina pra sentir atração por ela, ué.
— Se eu vou estar com uma pessoa... Vou estar com essa pessoa. Se, por algum milagre, eu descobrir que posso me apaixonar. Posso amar... Nunca irei desistir até ter a honra e a alegria de morrer nos braços dela, com 90 anos, de preferência.
Um silêncio quase constrangedor se aporeda do ginásio.
— E. Acabei. — James se levanta.
— Muito obrigado, Elizabeth Nüll, a menina que estuda química avançada numa base militar deserta de noite.
— Foi um prazer em te ajudar, Soldado Especial James Archibald Roy. Super soldado, herói americano e destruidor de sacos de pancada.
— A primeira e última partes estão até corretas. Mas estou longe de ser um herói.
— Você um dia será o herói de alguém. Seja de uma população inteira... Seja de uma só pessoa.
Os dois se encaram por alguns segundos.
— Eu preciso ir indo, Beth. Vou patrulhar agora, e... — James pega seu celular. "Mensagem Padre Mauricea!" — E eu preciso sair já. Obrigado pela bandagem.
James deixa a menina no ginásio, com sua mochila nas costas e o celular na mão.
"Atende, Atende, atende, atende... DROGA."
— Não grite, James. — Padre Maurice estava lá do lado de fora do ginásio.
— Como chegou aq--? Ah, verdade. Qual a emergência?
— O ataque dos demoníacos. Acontecerá em 48 horas. Temos que nos preparar.
— Meu Deus.
— Pegue suas coisas, me encontre na Orfanato da Opus Dei.
— Sim, Padre. James corre na frente. Beth estava olhando pela janela da porta, Padre Maurice notou sua presença. Foi um choque para ela ver que o Padre dava-lhe um simpático sorriso. Ele fez o sinal da cruz, e desapareceu.
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