Soldados de Chumbo
10 Capítulo 10 - Encontros e Desencontros
No fim da tarde, James e John estavam na fazenda. John verificava as plantações e se as cercas ainda estavam de pé. James ajudava como podia. Ambos estavam preocupados após as constatações de James sobre sobre o ataque que sofreram na escola.
— O que o padre Maurice disse?
— Ainda não falei com ele sobre. Ele está em Notre Dame hoje. — Respondeu James.
— A Universidade em South Bench?
— Não, a catedral na França. Claro que é a universidade, porra.
— Ele não se teleporta? Pode ir pra França, ué.
— Touché. — James secava o suor da testa enquanto John trazia um trator nas costas, literalmente. — Pra onde está levando isso?
— Pro celeiro. Amanhã eu conserto. — Após voltar do celeiro, John oferecia ao amigo um copo de limonada. — Preciso me arrumar. Vou jantar com a Sarah e com os pais dela hoje.
— Ah, é verdade. Sorte sua ser à prova de balas. Quer que eu vá?
— Não precisa ir tão já. Vamos fazer um som ali na varanda. — John e James se sentam em cadeiras de balanço, James empunha o violão do pai de John. Este está com seu Porter Heveros em mãos.
— O que quer tocar?
— Vamos de Diving Duck Blues? Versão ao vivo com o Keb Mo?
— Pode começar.
Os amigos começavam seu dueto no fim de tarde, alimentando o pôr-do-sol com aquela bela e triste canção. Por um ou dois minutos, James e John se lembram de suas infâncias e de sua longa amizade. Por esses dois minutos eles se esquecem que estão sendo caçados, esquecem de tudo de ruim no mundo e focam somente em manter suas vozes afinadas e seus dedos no lugar para conseguir terminar a canção que embeleza o belo final de tarde.
À noite, John sobrevoa Indianápolis, alto o bastante para não ser visto. A brisa agradável da noite preenche seus pulmões de um ar gelado e penetrante. John então avista o restaurante aonde deve se encontrar com Sarah. Ele aterrissa devagar e sem pressa, caminha virando a esquina para a frente do restaurante aonde Sarah e sua família já estão esperando.
— John! — Diz ela, animada. Ele se aproxima dela e da família, respirando fundo para não fazer nenhuma besteira. — Você chegou bem à tempo. — Ela arrisca dar-lhe um beijo, mas ele desvia e a cumprimenta com um beijo carinhoso no rosto.
— Espero que não se importe, mas não quero que seu pai me mate tão cedo. — Eles riem. — Boa noite a todos. Eu me chamo---
— John, que prazer em conhecê-lo finalmente. — Disse a mãe de Sarah. — Afinal, queríamos logo saber o nome do moço de quem nossa Sarah fala sem parar por quase uma semana.
— Mãe! — A menina repreende a mãe com um olhar furioso e envergonhado, mas que logo se transforma em uma reação doce ao reparar que John está sorrindo pra ela.
— Quase uma semana? — Pergunta ele.
— John, esses são os irmãos mais novos da Sarah. Andrew e Kyle. — Os meninos não tinham mais que 12 anos cada um. O mais novo, Kyle, se aproxima de John.
— Se você magoar minha irmã, eu vou te caçar, vou te encontrar, e vou te matar.
— KYLE! — Alerta a mãe. — De onde saiu isso? John, meu querido, me perdoe.
— Eu vi isso no filme Busca Implacável.
— Meu Deus. John, me perdoe — Pede mais uma vez a mãe de Sarah.
— Imagine, Sra. Dunstable. Seu filho é um dos meus. — John se ajoelha para falar com Kyle. — Amigão, pode deixar que eu nunca, jamais, — John fita a moça — irei magoar sua irmã. — Ele se levanta, e do estacionamento surge o pai de Sarah.
— Vocês não vão acreditar no quão cheio está esse restaurante, quase 10 minutos pra achar um manobrista livre. — O homem não era muito alto, mas era robusto. Se vestia bem e estava um pouco acima do peso. Os cabelos quase começavam a cair no topo da cabeça. Ele usava pesadas jóias em ambas as mãos e não escondia o cordão de ouro no pescoço. — Você deve ser o John. — O homem estende a mão para cumprimentar o jovem rapaz.
— Sim senhor, sou eu. Muito prazer — John aperta a mão do pai de Sarah.
— Belo aperto de mão, garoto. Gosto disso. Meu nome é Ian. Você já conheceu minha esposa Freany e meus filhos mais novos.
— Sim, senhor. É um prazer.
South Bend, Indiana. Mesma hora.
Em um carro preto sem placa, Dr Macabeus e o Padre Maurice dirigem até uma grande casa abandonada nos arredores da cidade.
— Ainda ouve os gritos?
— Sim, siga reto, depois vire à direita. — Respondia o Padre, com um cigarro em uma das mãos, o terço em outra, e concentrado.
— Greevys, nos ouve? — O Anjo sobrevoava o carro em forma de corvo, respondendo os dois em um aterrorizante grito. — Isso deve ser um "Sim".
— Está bem acima da colina. Rápido, Doutor.
— Já avistei, Padre. Se segure.
O carro quase derrapa ao virar com força no topo da colina e arrebenta um velho portão. Arthur para o carro na frente da casa.
A mansão de Theordore Flinch era um artefato da qual nenhum prefeito de Chicago quis se importar. Era grande, mas estava destroçada. Por ser no alto de uma colina, era rodeada de desfiladeiros. A fachada inteira destruída pelas fortes chuvas e tornados que atacavam a cidade de acordo com a estação. A porta de madeira estava velha e podre, mal se mantinha presa às paredes. As janelas quebradas davam aos ventos sons sinistros, junto com a entrada e saída de criaturas voadoras. Greevys entrou por uma delas nos segundo andar. Lá dentro, voltou à forma humanoide.
— Estou dentro. Venham. — Disse ele, se comunicando mentalmente com os dois.
— Vamos, Doutor. — Disse o Padre, amarrando o terço nas mãos como se fosse uma faixa de boxeador.
Arthur arrebenta o que restara da porta com os pés, ela cai facilmente. Eles adentram à sinistra escuridão da casa, que parecia infinita.
— Um pouco de luz faria bem. — Tem como iluminar o caminho com seu isqueiro ou coisa do tipo, Padre?
— Tenho algo Melhor. "Crux Sacra Serat Mihi Lux". — A cruz no terço de Padre Maurice se acende, como o fervor de várias tochas. Eles visualizam toda a sala. A mansão era quase duas vezes maior por dentro. Ao canto, eles vêem alguns corpos. — Doutor, examine-os.
Arthur caminha até os corpos deitados, apenas 3. — Dois estão mortos. — Diz ele. — Mas espere aí. — Arthur usa os dedos para tentar abrir as pálpebras do terceiro que ainda possui vida. Ele consegue olhar diretamente no fundo de seus olhos. — Esse vai viver pelas próximas 24 horas. Mas não sei quanto depois disso. O que está havendo aqui?
— Esses jovens foram arrastados aqui por vontade própria. Foram enganados por um demoníaco disfarçado. — Ouve-se um barulho. — E acho que ele não gostou da nossa visita.
Greevys surge do segundo andar, e corre até eles.
— Achou algo?
— Algumas crianças neste andar. É como eu temia. Os demoníacos estão ficando fortes demais. Estão apagando até mesmo as almas imortais que falecem.
— Como assim? — Perguntava Arthur.
— Ele quer dizer que as almas que deixam os corpos estão longe do alcance de sabedoria até do próprio anjo da morte. — Respondeu o Padre. — A última vez que isso aconteceu foi na--
— Peste Negra. Foram tantas, tantas mortes, que nem mesmo era possível contá-las. As pessoas morriam e os anjos as vezes nem sabiam como nem quando. — Disse o Anjo da Morte.
— Espera, isso é possível? Nem mesmo Deus sabe?
— Só Ele pode saber. Nós não. Estamos abaixo dele na hierarquia. — Respondeu Greevys.
Da escuridão, surge uma criatura. Grande, maior que Greevys. Quase 2 metros e meio de altura.
— {Vocês não deveria estar aqui} — Disse a criatura.
— Isso é...?
— Latim antigo. — Disse o Padre.
— {Sua hora está acabando, demônio. Te descobrimos. Você perdeu} — Respondeu Greevys.
— {Mas eu sou apenas Um. Existem milhões de nós. Espalhados!}
— {Ordeno que se renda demônio!} — Gritava o Padre — VADE RETRO SATANA! — O Padre pega um frasco de água benta e atira contra a criatura, que começa a se desfazer em vários demônios.
Os 3 se vêem cercados pelos demoníacos. E ouve-se uma voz: {ATAQUEM}. — Um pequeno grupo de 20 demoníacos começa a correr em direção aos 3.
— CORRAM! — Gritou o Padre. — Vamos levar essa luta lá pra fora. — Todos correm para fora, onde a lua já sumia de vez. A única luz ainda era do terço do Padre Maurice. Eles se posicionam perto do desfiladeiro e aguardam a chegada dos monstros. — AGORA LUTEM.
Padre Maurice se multiplica em 5 outros clones idênticos. Cada um começa a lutar contra os demoníacos. "O Senhor é meu Pastor...", acertava um. "Nada me faltará...", desviava de outro e destroçava mais um.
Greevys era o mais forte dos três. Destruía os demoníacos sem muito esforço. Arthur não tinha muito o que fazer a não ser usar sua pistola .40 para abater as criaturas.
Ao fim da batalha. Não haviam corpos. Os espíritos malignos haviam se dissipado, à caminho do Inferno.
— Doutor?
— Sim, Padre? — Arthur estava ofegante.
— Busque o menino vivo lá dentro. Vou benzê-lo e então o levamos ao hospital.
— Greevys?
— Padre?
— Avise James e John. "Menti a James. Disse que estaria em Notre Dame para uma palestra. Não queria preocupá-lo. Devo me confessar." — O Padre analisava sua consciência. — Diga que temos que nos encontrar em Indianápolis.
INDIANÁPOLIS
— Bom, foi um enorme prazer conhecê-los — Dizia John, envergonhado e corando um pouco, depois de passar horas pálido de medo do pai de Sarah.
— O prazer foi nosso, querido. — Disse a mãe de Sarah.
— Sim. Você é um bom rapaz. Trabalhador, honesto. Melhor do que a maioria dos imbecis que já tentaram algo com nossa Sarah.
— Eu nunca dei bola pra nenhum deles. — Protestou a menina.
— Isso porque te ensinamos bem, minha filha. — Retrucou a mãe.
O manobrista chegava com o carro do Sr. Dunstable. — Bem. Nossa carruagem chegou. Vamos indo; John, mais uma vez. Prazer em conhecê-lo. — Ele aperta a mão do menino.
Quando eles entram no carro, Sarah ainda fica pra fora pra se despedir de John.
— Que bom que eles gostaram de mim.
— É bom que gostem mesmo. — Ela ri. — Não quero namoro proibido, não.
— Namoro?
Ela dá um beijo suave nos lábios dele.
— Até amanhã.
— Até. — John sentia como se a música Romeo and Juliet do Dire Straits começasse a tocar dentro de sua cabeça. O carro se vai. John caminha lentamente até um beco. Sorri largamente. Olha pra cima...
E decola ao céu. Noite adentro.
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