Solaris - A Morte
4 Vida Libertina
Notas iniciais
[1872 — Itália]
– Não se esqueça de que os que andam a noite são mais numerosos e vão poder lhe ajudar da mesma forma, talvez até, possam lhe apresentar alguém igual a você. E, que Deus me perdoe pelo que irei aconselhar-te agora, procure-os em cabarés, eles são grandes frequentadores desse tipo de lugar. Não se preocupe em como vai identificá-los você saberá quando encontrar-se com um, esta é uma das suas habilidades. Ah! Aproveite para conhecer a cidade, ouvi dizer que é belíssima! Boa viagem, muita sorte e felicidade meu filho!
***
[1872 – Paris, França]
Martino desce do trem com sua, única e surrada, mala de viagem.
– Tanta gente! – Pensa consigo admirado e amedrontado. Coça a cabeça ao lembrar-se de que não tem para onde ir, está a sua própria sorte. Olha ao redor e ouve pessoas conversando nas mais variadas línguas e percebe que entende todas elas.
– Como pode? É porque sou vampiro? O padre não disse nada a respeito disso, mas é a única explicação.
Ao sair da estação percebe a grandiosidade do lugar, tão diferente do vilarejo em que vivia na Itália.
– Vou andar por aí até anoitecer, o padre disse que é melhor eu procurar pelos que andam pela noite, os vampiros iguais a mim são muito mais raros e difíceis de serem encontrados. Enquanto isso, eu vou conhecendo a cidade e procurando um lugar para ficar.
Martino segue o conselho do padre e resolve andar pela cidade, fica encantado com sua beleza e diversidade. Durante a caminhada encontra um bar que tem uma placa dizendo: “Precisamos de balconistas para trabalhar durante a noite, no cabaré!”.
– É isso, esse trabalho é para mim. Vou poder conseguir algum dinheiro, quem sabe um lugar para ficar e ainda poderei procurar pelos vampiros!
Decide entrar no local.
– Todos estão me encarando, parece que sabem o que eu sou. Não, acho que é só impressão. – Pensa amedrontado.
Visualiza um homem grisalho e quase careca, com uma barriga enorme e, evidentemente, com poucas noções de higiene.
– Senhor, eu vi a placa lá fora e gostaria de trabalhar aqui. Não tenho prática, mas sou forte e desde muito bambino trabalhei na plantação com meu pai.
O senhor começa a gargalhar.
– Este lugar pode ser quase confundido com uma plantação! – Diz irônico e recomeça a rir.
Tino, certo que não conseguiria o emprego, decide não ficar mais nenhum segundo ali sendo alvo de chacota de um velho nojento. Mas, percebe que o senhor pega um avental parecido com o que está vestindo e joga-o na cara do rapaz.
– Agora vá atender aqueles dois gêmeos ali, rápido! Eles veem quase todos os dias e começam a beber antes do pôr-do-sol. São muito lucrativos, portanto, sirva-os bem e não os chateie. Além disso, eles são muito queridos por todas as nossas garotas, se você os espantar elas te matam!
***
– Prazer, meu nome é Ansur Roggenbach e este é meu irmão mais novo, e gêmeo, Antelmo.
– Olá! Chamo-me Martino Mazzaroti, mas podem me chamar de Tino. Eu não quero ser intrometido ou algo assim mas pude sentir, vocês também são vampiros, não é mesmo?
– Sim, somos. E como você podemos andar durante o dia. — Responde Ansur.
Antelmo esboça um sorriso que Tino nunca tinha visto, meio rasgado cheio de intenções maliciosas. E completa a resposta do irmão.
– Embora a gente preferira andar pelas noites, sabe como é, as mulheres da noite são bem melhores. As melhores! Está me entendendo?!
– Acho... Acho que não. Se não for incomodar... Eu estou precisando de ajuda. Isso de ser um vampiro... É tudo muito diferente eu não conheço mais ninguém assim. Vocês...
– Garoto! Deixe de enrolação e vá trabalhar! – Grita o dono do cabaré interrompendo a conversa de Martino.
– Ei amigo, como você consegue viver assim? – indaga Antelmo enquanto segura um copo de bebida na mão direita e um seio, de uma das dançarinas que está sentada em seu colo, na esquerda – Eu morreria se precisasse trabalhar em um local como este.
– Você morreria se precisasse trabalhar! Em qualquer trabalho! – Diz o gêmeo mais velho, enquanto laçava outra das dançarinas pela cintura e sentava-a em seu colo.
– Faremos o seguinte Tino, meu irmão irá concordar comigo, você pede demissão agora e vai viver com a gente. Vamos te adotar, você será nosso irmãozinho. – Gargalha. – Seria bom ter ajuda para cuidar do meu irmão mais novo e imprudente. Assim, também poderemos te ensinar o pouco que sabemos. Que tal? Aceita?
– Claro! Se seu irmão estiver de acordo com isso. – Martino se vira para Antelmo em busca da resposta, mas vê o rapaz com o rosto perdido entre os seios fartos de outra das dançarinas.
– Claro que meu irmão concordará Martino, a não ser que você o interrompa agora, isso seria uma falta grave. Em nosso código de conduta existem poucas regras, uma delas é não nos interromper em situações como esta. Eu gostei da ideia, seremos como os três mosqueteiros. Então, o que está esperando para demitir-se? Hoje vamos lhe mostrar a “nossa” Paris!
– Acho que a Paris deles é cheia de dançarinas. – Pensa Martino.
***
[Dias Atuais – São Paulo, Quarto de Pietra]
– Eles são incríveis, sempre me trataram como o irmão mais novo deles. Somos como os três, inseparáveis, mosqueteiros mesmo.
– E a família deles?
– A família Roggenbach era uma das mais ricas em toda a Alemanha. Os gêmeos não me contaram muito sobre a história deles, quando os conheci já estavam com vinte e quatro anos e no fim da fase de maturação. Apenas sei que, no dia seguinte ao aniversário de vinte e dois anos deles, o pai decidiu que era a hora e os obrigou a partirem.
– Deve ter sido muito ruim... Quero dizer, você pôde escolher partir e já foi difícil. Imagine ser expulso...
– Os mandaram embora pois temiam pela reputação da família. Ninguém, além dos pais e do irmão mais velho dos gêmeos sabia, nem mesmo os empregados ou a irmãzinha caçula deles conheciam a nova e verdadeira natureza dos dois. O receio era que, após a transformação ter sido completada, a família fosse desgraçada e mal vista; que os filhos fossem de algum modo maltratados; e que os negócios fossem afetados, acarretando na pobreza da família.
– Nossa! Pensaram mais no dinheiro que nos próprio filhos! Deve ser por isso que eles não falam muito da família.
– Pois é! Depois, Ansur e Antelmo Roggenbach, como eu, foram em busca da própria sorte. Com apenas uma pequena diferença entre a partida deles e a minha, se é que posso dizer pequena… A imensa quantia em dinheiro que eles receberam dos pais.
– E depois que vocês se conheceram?
– Eles me mostraram e ensinaram tudo o que sabiam. Eu aprendi a ser tão despreocupado e boêmio quanto os dois. Nunca fui nenhum santo, admito, mas vim de uma família humilde do campo e era bastante inocente para a minha idade. A minha inocência foi a primeira coisa que aqueles dois excêntricos, rebeldes e impulsivos irmãos fizeram questão de acabar, e conseguiram isso em pouquíssimo tempo.
Tino demonstra uma expressão de carinho ao se lembrar do passado.
– Depois de dois anos bem vividos e aproveitados em Paris, com os gêmeos há um ano completamente transformados em vampiros, já estávamos entediados com nossas vidas na França. Foi aí que resolvemos nos aventurar pelo mundo e escolhemos a Inglaterra, Londres, para ser nossa próxima parada. Também aproveitamos muito, festas, bebidas, bailes, liberdade e... Enfim, fizemos muita coisa.
Martino tenta disfarçar, mas é inútil, Pietra repara seu constrangimento.
– E as mulheres? – Indaga a moça.
– Bem... — responde Tino com ares de conquistador – Éramos muito famosos e bem quistos pelas mais lindas e variadas mulheres francesas e londrinas. Só não fique com ciúmes. Para mim e Eduardo essa época inconsequente ficou toda para trás.
Ambos riem.
– Aposto que vocês aproveitaram até o que não deveriam!
– Pode ter certeza! Logo percebemos que dinheiro não dura para sempre e mesmo quando se tem muito dinheiro, pode-se ficar sem nada em pouco tempo. Vários gastos, algumas aplicações erradas somados a nenhuma receita, conclusão? Jazíamos totalmente falidos. Nosso problema era que não sabíamos como arranjar mais, pelo menos não o suficiente para mantermos nosso estilo de vida. Os Roggenbach nunca tinham trabalhado na vida, eram bem nascidos, e eu sabia apenas sobre plantação de uvas e batatas.
***
[1875 — Londres]
Ansur atordoado com os cabelos revirados de tanto que passava as mãos por entre os fios. Ele estava com os olhos vermelhos e amedrontados fixados em uma folha de papel. Os outros dois também contemplavam a folha, cheia de números rabiscados, atônitos e abalados como se ali estivesse o cadáver de um amigo querido.
Antelmo anda silenciosamente até a enorme janela da sala, olha pensativo através da mesma e diz:
– Acho que tive duas ideias. Vocês não vão gostar muito de nenhuma das duas, mas não temos muitas outras escolhas.
– Diga logo irmão! Precisamos agir o quanto antes, estaremos sem nenhum dinheiro em menos de uma semana.
– Bom, podemos pedir mais dinheiro para nossos pais.
– Nem pensar!!! – Grita um Ansur destemperado e raivoso. — Prefiro mendigar nas ruas de Londres!!!
– Eu já sabia que você diria algo deste tipo. Então... Só nos resta a alternativa de número dois. Antes de tudo, já adianto que não é algo moral ou legalmente aceito. Para resumir... Iremos roubar.
– O quê?! Claro que não! Gente, eu já desonrei demais o nome da minha família. Roubar! Vamos trabalhar em algum cabaré, conhecemos tantos.
– Caro amigo Martino! Eu morreria se tivesse que trabalhar, morreria, entendeu?! E não vamos necessariamente roubar... Vou explicar melhor minha ideia.
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