Notas iniciais
Música 1: The Doors Banda 1: Break on Through (To the Other Side) Link 1: http://www.youtube.com/watch?v=cJQwnAhXnBk Música 2: Jace Everett Banda 2: Bad Things Link 2: http://www.youtube.com/watch?v=MDY42pFwq7c Aparições e Cidados: Henry Scott, Charlotte Scott, Robert (Bob) Mitchell.

[Dias Atuais – São Paulo, Quarto de Pietra]

♫Música♫

– Éramos inexperientes mas tínhamos contatos, passe livre para as melhores recepções, beleza e muito charme. Nosso sustento veio de pequenos flertes com moças, e nem tão moças assim, da alta sociedade inglesa; pequenos trambiques; uns poucos e pequenos roubos; muita conversa fiada; e, algumas sociedades lucrativas com idiotas endinheirados que enganávamos. Depois de algum tempo, estávamos cansados de tudo aquilo e com algumas autoridades em nosso encalço. Vimos que precisávamos terminar com tudo o quanto antes, contudo daríamos uma última e grande cartada. Novamente um plano elaborado e arquitetado pelo Diego.

– O Diego é bem criativo, hein!

– Sempre foi. Algumas semanas antes ele ficou sabendo que um senhor chamado Henry Scott havia morrido do coração. A ideia inicial era consolar a viúva e pegar parte da herança, porém descobrimos que ela, Charlotte Scott, já estava morta havia dois anos, consequencia da tuberculose. Entretanto, nossa sorte não nos abandonou, a filha adotiva dos Scott estava viva e solteira. Para melhorar, a garota viria do Ducado da Cornualha para Londres, iria cuidar dos preparativos do enterro e dos negócios da família que incluíam várias fábricas, laboratórios e uma imensa, e quase infinita, conta bancária.

– Pobre moça!

– Estava decidido. Seduziríamos a garota, daríamos um golpe, e, fugiríamos para a América com muito dinheiro para recomeçar uma vida boa. Claro que dali em diante nós iríamos controlar melhor nossos gastos, com Eduardo administrando com mãos-de-ferro o orçamento. O melhor de tudo era que o dinheiro que pegaríamos não faria nenhuma falta para a fortuna que a senhorita Johanna Redstar possuía.

– Oh! A moça era a Johanna?

– Para você ver como nossa história é longa… Bom, ela teria amor, carinho, felicidade e muitas alegrias por um tempo e, em troca, nos daria um ínfimo percentual de seu imenso tesouro. Um pequeno preço pelas aventuras mais excitantes que ela teria em sua vida. Seria fácil e simples já que se tratava de uma donzela burra, inocente e mimada como todas as outras riquinhas que conhecemos. Além de provavelmente ser solitária e carente… No fim das contas, acertamos apenas em achar que ela era solitária. Em todo o resto erramos, estávamos, realmente, muito enganados sobre tudo ao que se referia Johanna Redstar.

***

[1876 — Londres, Inglaterra]

Em um café no centro da cidade, Martino, Ansur e Antelmo estão com seu amigo Robert.

– Bob, ela vem ou não? – Pergunta, o impaciente, Antelmo.

– Calma, ela vem, eu garanto.

– Você não nos disse como conseguiu essa informação. – Questiona Ansur.

– O advogado dela é grande amigo do meu pai e quando ele fez uma visita em minha casa deixou escapar. Após algumas doses de uísque me contou que este café é o preferido dela e disse que ela vem todos os dias neste período do dia. Ele não sabia uma hora específica, ela pode chegar a qualquer momento. Paciência meus caros, a senhorita rica Redstar virá.

– Sorte nossa termos um amigo tão bem relacionado. – Comenta Antelmo enquanto se estica na cadeira e coloca os braços na nuca.

– Obrigado. Eu só tenho uma pergunta. Quem de vocês três irá roubar o coração de rubi da moça? – Os quatro riem audivelmente chamando a atenção de todas as pessoas do café.

– Eu fui o sorteado. – Diz Martino – Só espero que você não esteja brincando conosco Robert, para o bem de vocês três, — enfatiza as duas últimas palavras e aponta para cada um dos amigos — é melhor que ela seja mesmo tão bonita quanto me disse Sr. Robert Mitchell. – Os rapazes riem novamente.

– Com licença senhores, eu preciso ir ao banheiro.

– Bob! Se ela chegar? – Intervêm Ansur.

– Eu já volto, acalmem-se meninos! Tudo dará certo. Só prestem atenção caso alguma moça de preto apareça, ela ainda está em período de luto.

Os amigos começam uma conversa animada sobre assuntos da Football Association.

***

Martino já havia se esquecido do motivo de estar em um café para janotas e madames ricas. Ele não suportava esse tipo de lugar e, muito menos, o tipo de gente que o frequentava. Se antes possuía péssimas impressões da escolhida para o golpe, agora eram certezas.

“Aposto que é uma moça fútil, vazia e insuportável. Só espero que ao menos seja bonita. Caso contrário, não conseguirei sustentar a mentira por muito tempo. Por que justo EU tinha que ter sido o sorteado?! Antelmo se sairia muito melhor nisso”.

♫Música♫

O barulho da sineta que fica na porta do café chama a atenção de Tino. Ao levantar os olhos e ver a pessoa que acabara de entrar perdeu o ar, seu coração disparou, suas mãos suaram e o mundo a seu redor ficou mudo e borrado. A moça parecia flutuar e sequer olhava para os lados. Martino perdeu a noção de onde estava, esqueceu-se do plano, de sua maldição, de seus companheiros, do café, das pessoas e dele mesmo.

“Linda. Se ela quisesse, largaria tudo e todos, inclusive o golpe, e me casaria com ela.” – pensa ele – “Tem algo de indecifrável nesta donzela. Tão altiva e diferente de qualquer outra moça que eu já vi em minha vida. Pequena, não deve chegar a ter um metro e sessenta de altura; rosto fino e delicado; cabelos compridos, encaracolados e de um ruivo vibrante; nariz perfeitamente arrebitado; porta-se como uma senhora responsável e de alta classe, porém possui as delicadas feições de uma, linda, jovem garota.”

Martino torcia para que ela fosse a tal Johanna Redstar.

– Será que é aquela, Tino? – Antelmo, discretamente, aponta para a garota, vestido azul, tirando Martino do transe. – Se for, você se deu muito bem, estou ficando com inveja da sua maldita sorte.

– Impossível que seja. – responde Ansur. – Uma moça rica e bem educada, como a senhorita Redstar, nunca frequentaria locais públicos sem alguém para acompanhá-la e muito menos faria pouco caso do luto pela morte do próprio deixando de vestir o preto.

Martino continua a perseguí-la com os olhos. Enquanto ela conversa com a atendente como se fossem conhecidas, enquanto ela olha pelo local, provavelmente, a procura de um lugar que lhe agradasse, enquanto... Até que os olhos dela cruzam com os seus por milésimos de segundo. Neste momento o coração de Martino parou por dois compassos.

– São verde-escuros! – Deixa escapar.

– O que disse Tino? Está bêbado de café? – Brinca Antelmo.

O senhor Mazzaroti continua com sua espreita e vê que, ao chegar do banheiro, Bob passa perto da garota e a cumprimenta como se fossem conhecidos.

– Vejam! A moça de azul conhece Robert. Uma amiga, namorada ou, mais provável, uma ex-namorada? Agora estou com inveja DELE!

– Como sempre incrivelmente volúvel! – Diz Ansur a respeito do comentário do irmão.

Martino fica, sem saber o porquê, furioso com Robert e com uma vontade súbita de esmurrá-lo. Sem perceber, suas mãos agarram-se à beirada da mesa para descarregar a fúria repentina, em sua mente são formuladas várias formas nas quais ele poderia acabar com o bonito rosto e a vida de Mitchell. Seus pensamentos são interrompidos pela voz de Ansur.

– Bob está trazendo-a para cá. Antelmo, por favor, se controle e aja educadamente com a moça. Tente não nos envergonhar com seus péssimos modos.

Ansur olha preocupado para o amigo a seu lado e pergunta.

– Tino, você não me parece muito bem. Aconteceu alguma coisa? Está se sentindo mal?

“Sim, estou me sentindo mal, pois estou prestes a largar meus mais queridos amigos e o plano que salvaria nossas vidas para ficar com uma mulher que não conheço. E não, estou me sentindo muito mais que bem, porque acabei de me apaixonar e encontrei a mulher da minha vida!”

– Estou bem. Nervoso, mas bem.

– Olá meus caros colegas! Apresento-lhes minha amiga, a senhorita Johanna Redstar. Johanna, estes são Martino Mazzaroti, Ansur e Antelmo Roggenbach. Mais conhecidos como os três mosqueteiros. Espero que não se incomodem, pois a convidei para sentar-se com vocês. Lamento senhorita, tenho um compromisso e não poderei fazer-lhe companhia, mas garanto que eles são ótimos rapazes. Adeus a todos.

Choque. Essa é a palavra que descreve o que aconteceu na mente de Martino e o que estava estampado em seu rosto.

– Sente-se conosco! – Fala Ansur de maneira cordial.

– Seria um prazer! – Diz Antelmo com a voz em seu tom mais conquistador, com malícia no olhar e estampando seu costumeiro sorriso.

Enquanto isso, Martino ainda processa a ideia de que se apaixonou justamente por quem deveria conquistar.

“Essa nova informação complica tudo ainda mais. Se ela descobrir quais são nossas intenções para com a fortuna dela? Eu não teria chances. Por enquanto vou deixar como está, seguir o plano e ver o que acontece no final.”

– Somos gêmeos. – Diz Antelmo apontando para si e para o irmão.

– Eu percebi... Antelmo. – Responde Johanna neutra.

“Até a arrogância e a frieza dela são encantadoras. Não, o que é isso? Estou ficando louco, sempre odiei gente arrogante. O que essa mulher está fazendo comigo? Ela está me corrompendo em tão pouco tempo. Será que estou tão apaixonado assim?”

Ansur nota um olhar vindo de seu irmão que o deixa apreensivo. O olhar que significa que Antelmo irá fazer, dizer ou mostrar algo de inconveniente.

– Diga-me “Jhô”. Posso te chamar de “Jhô”, não é? Então, como uma moça rica e bem educada, como a senhorita deve ser, anda por aí sem alguém para acompanhá-la? E mais, pelo que sei você é a filha adotiva do digníssimo Henry Scott. Não deveria estar de luto? – Antelmo usa-se das palavras ditas anteriormente pelo irmão.

– Desculpe meu irmão senhorita Redstar. Ele é muito impulsivo e inconsequente a ponto de perder toda a educação que recebeu, não é por mal, acredite. Sinta-se a vontade em ignorá-lo e não responder-lhe.

– Tudo bem Ansur, — Johanna sorri – gosto disso. Impulsividade não significa sinceridade, mas chega muito perto. E, sinto certa carência disso nas pessoas a meu redor. Aposto que os senhores também se perguntaram sobre isso.

– Agora... Sr. Antelmo... Chame-me de Johanna, por favor, detesto ser chamada de “Jhô”. – Pede a senhorita com verdadeiro bom humor.

– Como queira, Johanna.

– Se você sabe quem eu sou, sabe que sou órfã de pai, mãe e que não tenho irmãos. Logo, não tenho ninguém que me faça companhia, ninguém que esteja vivo pelo menos! – Johanna deixa os mosqueteiros desconfortáveis com a brincadeira. Afinal, os três são vampiros e tecnicamente não estavam vivos.

– Quanto à cor do meu vestido... – Johanna, de repente, entristece e fica a ponto de chorar -... Isso é de quando minha mãe estava doente. Nem sei o motivo de estar contando a vocês... Já sabíamos que ela estava prestes a morrer quando fez um último pedido. Ela queria que, ao invés do tradicional preto, vestíssemos roupas de sua cor preferida, o verde, em seu enterro. Meu pai disse que as pessoas não veriam com bons olhos, mas, como não queria negar-lhe o pedido, propôs que no dia do enterro usaríamos o preto, entretanto, no período do luto vestiríamos algo na cor verde e ela aceitou. Mamãe sempre teve fixação por essa cor e nós cumprimos o acordo. Eu decidi fazer disto uma tradição da família Scott. Meu pai adora azul... Quer dizer... Adorava.

Todos, inclusive Antelmo, ficaram sem ter o que dizer. O silencio estava constrangedor até que Martino, que estava mudo e perdido em seus recentes dilemas e problemas, se pronuncia.

– Seus olhos são de uma cor intrigante de verde. Foi por isso que eles te adotaram? Sua mãe viu seus incríveis olhos e se apaixonou por você?

– Quase isso. Os Scott não tinham filhos, Charlotte estava ficando cada vez mais triste e, assim, decidiram procurar uma criança para adoção. Eles comentaram com os amigos mais próximos sobre a intenção, até que um amigo de Henry resolveu ajudá-los com a procura e, então, me encontraram. Quando mamãe me viu, realmente, se encantou pela cor dos meus olhos. Ah!... E... Obrigada pelo “incríveis olhos” Martino! Agora acho que é minha vez de saber mais sobre vocês!

***

– Eu preciso ir senhores. Foi um prazer conhecê-los, há tempos que não me sentia tão bem. Espero encontrar-lhes mais vezes, vocês são ótimas companhias. Gostaria que vocês fossem ao enterro de meu pai. Eu me sentiria mais segura, não conheço muita gente aqui e estou cercada de pessoas hipócritas, com péssimas intenções e cheias de cobiça. Se resolverem ir, falem com Robert ele sabe o horário e o local.

– Nós iremos! E até mais! — Responde Ansur.

"Vocês não poderiam ter chegado em melhor hora. Eu nunca estive mais triste. Esperei vocês por muito tempo." — pensa Johanna enquanto vai embora.

Notas finais
Imagem Johanna: http://www.pinterest.com/pin/44050902575580053/ Feliz Páscoa!! E muitos chocolates!!