Solaris - A Morte
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Notas iniciais
[Dias Atuais – São Paulo]
Na sala de estar, bem iluminada, de uma cobertura situada em um bairro nobre da cidade, Mônica está tomando seu café da manhã enquanto lê o jornal do dia. A aparente calma da moça é uma de suas várias habilidades natas. No momento, Mona está apreensiva e preocupada por dois motivos. O primeiro, o fato de Johanna não estar em casa. O segundo, o sentimento de que algo muito grande está prestes a acontecer.
Dick aparece ainda sonolento, vestindo apenas uma calça de moletom, sem camisa. Com os cabelos, na altura dos ombros, desgrenhados e um sorriso rasgado no rosto fica evidente o que aconteceu, no quarto dele, durante a noite.
Diego, que com exceção do comprimento do cabelo, é idêntico ao irmão. Ambos com cabeleira castanha, cheia e lisa; olhos azuis emoldurados por grandes e espessos cílios; sobrancelhas grandes e retas; lábios carnudos que até Jolie ficaria com inveja; e o porte físico comum dos vampiros, músculos firmes e esbeltos.
– Bom dia querida cunhadinha! — Diz Diego.
“Não sei como, mas ele sempre consegue deixar as pessoas ao seu redor mais relaxadas. Este é o dom mais eficiente do Diego, mais até que a sedução.”
– Bom dia Diego! A sua noite foi boa? – Pergunta Mona.
– Todas as minhas noites são, Mônica! – O constante e típico sorriso cafajeste dele se intensifica. — Cada uma é boa de um jeito diferente, se é que você me entende! A de hoje foi boa do tipo… Loira. Mudando de assunto, onde estão os moradores desta casa?
– O Tino está na casa da Pietra, — Diz Mona fazendo uma careta ao pronunciar o nome da nova, e humana, namorada do amigo. – ele não sai mais de lá! Seu irmão deve estar terminando de se aprontar para o trabalho. É com a Jonna que estou preocupada.
Mônica confere, pela centésima vez, o relógio em seu pulso e a porta de entrada do apartamento, como se isso fizesse com que a chegada de sua amiga fosse adiantada.
– Ela não dormiu em casa Diego, e até agora não chegou! Já estamos atrasadas para irmos ao laboratório e a Jonna é sempre tão pontual, com sua educação e origem inglesas. O atraso me diz que algo está errado. Estou com um pressentimento ruim sobre isso. Você não acha melhor avisarmos os garotos?
Nesse momento, antes mesmo de Diego pensar em uma resposta, Johanna chega. Ela aparece com um semblante preocupado e cansado, confirmando os presságios de Mônica que logo se pronuncia.
– Por estas roupas posso ver que você está fora de casa desde ontem. Onde você esteve? Algo de muito grave aconteceu não é mesmo? Você pode falar a respeito?
– Não consegui saber de muita coisa Mona, também não tenho certeza de nada, porém acredito que sim, problemas à vista. Talvez uma crise acontecendo.
Johanna entrega um documento a Diego enquanto vai em direção a seu quarto e diz:
– Leiam isso enquanto me apronto para o trabalho, para o qual aliás, estou atrasada. Depois enquanto tomo o café explico o pouco que sei sobre o assunto.
Diego ri ao ler as primeiras linhas impressas no papel entregue por Johanna. Elas diziam: “Eles Existem? Sim, os monstros mais sedutores da literatura e do cinema, existem.”.
Entretanto, conforme avança na leitura, seu comumente sorriso desaparece de seus traços e a preocupação toma conta não apenas de seus pensamentos, mas também dos de Mônica que fica perplexa com o que lê.
Eduardo aparece, nota as expressões atônitas e absorvidas de sua esposa e de Dick. Sem nenhuma palavra, Dick entrega ao irmão o documento chocante que recebeu de Jonna. A reação de Duck não foi diferente das dos outros dois.
***
– Pelas expressões de vocês, posso considerar que todos já leram. O Martino está na casa da namorada?
Os três apenas acenam positivamente com a cabeça. Ainda afetados pelo conteúdo do documento não encontraram as palavras para serem vocalizadas.
– Eduardo, assim que encontrá-lo na empresa coloque-o a par da situação. Agora...
Diego, já recuperado de sua momentânea paralisia verbal, interrompe Johanna.
– Quem é K.H.B?! Onde e como isso foi encontrado?! Quantos humanos tiveram acesso a estas informações?! O que vamos fazer a respeito?!
– Nossa! Se acalme Dick, vou explicar o que descobri. O que eu sei é que por enquanto o pior foi controlado. Nada chegou ao conhecimento dos humanos, os Eyesnigth impediram que isto fosse publicado. Deem-me um momento, preciso mesmo de um café.
Johanna, ao retornar da cozinha, sorve seu café para ordenar os pensamentos e senta-se, confortavelmente, no sofá da sala.
– Bom... Ontem, enquanto ainda estava no laboratório eu, assim como todos os Blood Heads, recebi um e-mail da Sede que avisava sobre a pretensão da matéria, era para um jornal de Chicago e que felizmente foi interceptada antes de ser enviada para publicação. No e-mail continha a matéria em questão, esta que entreguei a vocês, e o aviso de que todas as medidas cabíveis foram e serão tomadas para a segurança de nossa sociedade. Não informava mais nada.
Demonstrando seu nervosismo e preocupação Johanna se levanta do sofá, conforme explica tudo aos amigos gesticula muito.
– Como eu precisava e merecia saber mais, afinal, meu nome foi citado nesta porcaria de texto! Resolvi ir até a casa do Phillip, porque se alguém sabe de alguma coisa, esse alguém é um Eyesnight. Porém, quando cheguei lá, pasmem, fui recebida pelo Will.
– William Eyesnight no Brasil?! Realmente estamos vivenciando uma crise. – Diz Diego já recuperando de seu habitual bom humor.
– Cala a maldita boca Diego! O que ele disse Johanna? – Fala Eduardo ainda apreensivo.
– O Will disse que a situação é delicada, mas pediu para não ficarmos desesperados. Ele veio para São Paulo justamente para me contatar, direta e pessoalmente, já que sou a pessoa com maior perigo de exposição. Ele estava prestes a vir aqui para falar comigo para me buscar. Fui convocada para uma reunião com o Rei Valentim e os outros representantes das famílias. Discutiremos sobre o assunto e lá informarão tudo o que precisamos, e queremos, saber.
– Ele não lhe disse mais nada?
– Não Mona. Ele não está autorizado, o Rei proibiu. Ainda hoje, de noite, embarcaremos rumo à Londres. Assim que souber de mais detalhes repasso para vocês. Agora, vamos ao trabalho Mona! Tenho muito que fazer e adiantar no laboratório antes de embarcar, eu não sei por quanto tempo ficarei em Londres. Mona, você como química-chefe ficará a cargo das minhas responsabilidades enquanto eu estiver de viagem. Certo?
As duas saem apressadamente para evitar mais atrasos. Eduardo, que tão logo também sairá para o trabalho, somente agora percebe os trajes do irmão.
– Agora me diz Diego, o que ainda faz vestido desse jeito? Não vai trabalhar?
– Sou o diretor de Marketing e Publicidade da Corporação Redstar, eu acho que posso me dar ao luxo de fazer meu próprio horário sem precisar dar qualquer justificativa. Além disso, tenho que despachar uma garota, que eu não faço ideia de como se chama, da minha cama.
– Acho que eu, como Diretor Geral da Corporação Redstar, devo começar a punir os funcionários ruins e relapsos que ocupam os altos cargos da Corporação.
– A começar por uma certa química-chefe, que por sinal é sua esposa, que chegará no trabalho atrasada hoje. Tenha um bom trabalho, mano! Porque hoje eu vou tirar uma folga.
***
Em seu carro, Johanna vai com Mônica para o laboratório. No caminho as duas vão conversando, organizando e tomando decisões a respeito dos projetos que deverão ser feitos no tempo em que Jonna estará fora do país.
– Você, com certeza, vai perder o jantar que o Tino dará para apresentar a tal da Pietra.
– Pelo menos esta história do jornal serviu para alguma coisa. Não é mesmo? Eu já não estava com a mínima intenção de comparecer nesse jantar, agora tenho uma ótima razão para declinar o convite e não vou precisar inventar uma desculpa.
– Eu sinto...
– Nem pense em terminar esta frase Mônica! Sabe o motivo de eu não querer ir ao jantar? Não tem nada a ver com o fato do Martino estar com outra mulher. O problema é o fato de todos ficarem com pena de mim por isso, o seu “sinto muito”, por exemplo, é o problema. Também ficaríamos todos desconfortáveis comigo presente no jantar.
– Bem... Talvez não o Dick.- Diz Mônica séria.
– Realmente, o Diego nunca ficaria desconfortável, por nada! Eu ficaria incomodada com os olhares pesarosos de vocês; vocês ficariam incomodados por não saberem se deveriam ficar felizes por ele ou tristes por mim; o Martino ficaria incomodado por tudo; e a moça, por perceber o incômodo de todos.
***
Martino que já está no escritório, mobiliado e decorado com peças em madeira, em seus afazeres como diretor jurídico da Corporação Redstar, é surpreendido por sua secretária.
– Senhor Del Giornno! O senhor Morgen acabou de chamá-lo para uma reunião.
– Obrigado Tânia. Diga a ele que estarei lá em cinco minutos.
***
– Por qual motivo fui convocado para uma reunião individual e de última hora? Vocês não estão pensando em boicotar o jantar em que vou apresentar, oficialmente, a Pietra? Ou estão?
Martino se senta na confortável poltrona do amplo, e todo metal, escritório de Eduardo.
– Não é isso. Todos nós, com exceção da Johanna, estamos confirmados.
Martino, pensativo, se levanta da poltrona, vai até uma das enormes janelas da sala e diz quase em um sussurro:
– Eu já imaginava que ela não iria.
Duck vai de encontro ao amigo e, como um gesto de companheirismo, coloca a mão no ombro dele.
– A Jonna tem um ótimo motivo para não ir Tino, não tem nada a ver com o passado de vocês dois. Na verdade, é por essa razão que te chamei aqui, ela me pediu para te deixar a par da situação. Grandes problemas à vista meu caro… Problemas que podem respingar em nós!
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