Solaris - A Morte
7 Arrumando as Malas
Notas iniciais
[1904 — São Paulo]
Johanna está pegando algumas roupas, dobrando-as e colocando na mala. Sem fazer ruído Martino entra no quarto do casal. Ele se enfurece, bufa e passa a mão pelo rosto antes de se pronunciar.
– Eu não acredito que você vai mesmo?! Nós já discutimos isso, não foi?! — Diz elevando a voz.
– Nós discutimos sim, só não resolvemos o impasse. Eu já disse que vou! O Timmy é um amigo querido de longa data! É meu amigo antes mesmo de eu te conhecer! Eu devo muito a ele, foi ele que ajudou os Scott na minha adoção. Assim como nossa briga de ontem, esta não mudará nada!
– E você o chama pelo apelido?! Eu não admito toda esta sua intimidade com o rei noturno deles! Não quero estar vinculado com aqueles sangue sugas malditos, não quero que façamos parte dos nobres clãs! Não somos como eles, não somos monstros assassinos!
– Rei deles?! Não somos como eles?! Você é patético Martino! Nós somos exatamente como eles! O Timmy é nosso rei também! Podemos andar de dia, mas ainda somos malditas criaturas da noite! Ainda precisamos roubar o sangue de inocentes para vivermos! Somos diferentes dos Noturnos em quê?! Eu também não morro de amores por nossa condição, porém aceitei o que sou! Porque sou o que sou e não posso mudar o destino que foi imposto a mim!
– Eu te amo! Não quero que vá para ver o Valentim Guzmán. Nunca poderei competir com um rei tão poderoso quanto ele!
– O ciúmes, que acha sentir por mim, não é o principal motivo para não me deixar ir! Na verdade, você não quer que nos juntemos a eles porque lhe comprovaria a dura realidade, VOCÊ É UM VAMPIRO!
Johanna, que não tinha deixado de arrumar as malas enquanto brigava, para o que esta fazendo, tenta se acalmar, senta-se na cama e fala suavemente:
– Precisamos deles e eles precisam de nós. Minhas pesquisas serão mais facilmente aceitas em nossa sociedade se eu for uma Blood Head. E minhas pesquisas podem nos tornar menos selvagens, elas podem impedir que vidas humanas sejam sugadas! Com elas, poderemos deixar de ser uma raça de assassinos!
– Eu não te reconheço mais Johanna. Você também odiava os poderosos hipócritas e egocêntricos, agora quer se juntar a eles! Se você ir e aceitar entrar para os clãs, eu e você não existiremos mais!
A moça não acredita no que ouve.
– Você é um covarde. Se nunca aceitou o que é, como vai me aceitar, ou, nos aceitar? Também sou uma vampira, o ser que você tanto despreza. Você é um iludido, acha que pode mudar o que se tornou apenas por não se juntar aos clãs?! Eu não posso conviver com alguém assim. Eu é que não quero mais continuar neste relacionamento.
– Não! Johanna! Eu não quero isso! Eu…
A Redstar interrompe Martino.
– Chega Tino! Será melhor assim… Você odeia vampiros, odeia ser vampiro… Por isso você repudia os clãs e, em um futuro próximo, vai acabar me trocando por uma humana apenas para se sentir menos aberração! Prefiro terminar o quanto antes para não me sentir pior depois!
E com isso Johanna fecha a última mala, pega sua valise e sai do quarto deixando Martino sem palavras.
Quando o cocheiro entrou no quarto, para pegar as demais malas da senhorita Redstar, Martino continuava na mesma posição de quando a moça saiu de lá. Ainda sem reação não podia acreditar que tudo havia acabado.
Só poderia ser um pesadelo. Amava aquela mulher e estragou tudo. Nunca se sentiu tão miserável, nem quando soube que não era humano. Odiava vampiros, afinal, foi um vampiro que machucou sua mãe e o transformou em um monstro.
“Contudo, se eu não fosse um vampiro, nunca teria conhecido a mulher da minha eternidade.”
– Vou continuar aqui esperando-a! Quando ela voltar desta droga de viagem estará mais calma. Farei de tudo para que ela mude de ideia! — Diz para o nada.
***
[Dias atuais — São Paulo]
Johanna está pegando algumas roupas, dobrando-as e colocando na mala. Sem fazer ruído Martino entra no quarto da moça. Fica parado, apenas contemplando-a.
– Vejo algo de familiar nesta cena.
Johanna se assusta e se vira para vê-lo.
– O que veio fazer aqui? Deveria estar terminando os preparativos do seu jantar.
– Não sei o que faço aqui. Talvez, te ver partindo rumo à Londres me traga péssimas lembranças.
Johanna volta a arrumar a mala.
– É melhor voltar para lá, sua namorada humana deve estar lhe esperando. — Diz Jonna com certa amargura na voz.
– Você sabe que ela ainda não chegou. Qual é Johanna! Foi você que terminou com tudo! Sabe como me senti quando você voltou dizendo estar NOIVA daquele William Eyesnigth, vulgo imbecil?!
– Evidente que sei! Eu também sofri muito! Desistir de nós e mentir para você sobre um relacionamento com o Will foi terrível e acabou comigo! Mas deveria ser feito!
– Não deveria! Você encontrou motivos idiotas!
– IDIOTAS?! Ser aquilo que o amor de sua vida mais odeia é idiota para você?! Reparou que desde quando nos separamos você nunca se relacionou com uma vampira? Sempre foram humanas… Até novas amizades, sempre com humanos! Você nos odeia Martino!
– Eu nunca deixaria de te amar por você ser uma vampira!
– Será?!
Neste momento, Martino avança e dá um beijo fulminante em Johanna que corresponde imediatamente, na mesma intensidade.
Ainda aos beijos, as mãos de Tino percorrem o corpo de Jonna, tateiam, espremem e marcam cada parte daquele corpo feminino, que conheceu há muito tempo. Johanna se entrega, pula no colo e circula a cintura do amado com as pernas, ele, por sua vez, segura-a pelas coxas.
Sem descolarem os lábios, Martino senta Jonna na cômoda mais próxima para manter o apoio. As mãos, novamente livres, entram pela camiseta a procura dos seios e os encontram. Primeiro os acariciam, depois os apertam; Johanna ofega e geme enquanto o rapaz beija, lambe e morde o pescoço da moça.
Eles se afastam apenas o suficiente para Jonna retirar a camiseta de Martino, e enquanto Tino desabotoa a camisa vestida pela mulher expondo a pele pálida e sedosa dela. Martino aperta ainda mais a cintura de Johanna, beija a parte do seio da moça que não estava coberto pela lingerie preta meia taça. Johanna adora, sempre adorou, a sensação de passar suas mãos pelos macios cabelos de Tino; bagunça cabelo do rapaz enquanto morde levemente na orelha dele.
Todo o corpo de Tino pulsa por Johanna. Cada célula de Johanna chama pelo contato com Martino. Ambos com este desejo e necessidade durante décadas, mais de cem anos ansiando pelo que estava acontecendo ali.
Tino procura pelo feixe do soutien e Johanna encontra o discernimento.
– Para com isso Tino! Agora! Você está comprometido, quase noivo e diz aos quatro ventos que a ama!
Martino de modo brusco solta Johanna, que se não fosse vampira teria caído no chão. Ele passa a mão várias vezes pelo rosto.
– Merda! Você está certa. Eu amo a Pietra!
– Será?!
– Claro que sim! Não nego que ainda sinto algo forte por você… Porém eu amo a Pietra de verdade!
– Conviver com um deles não vai te tornar menos vampiro. Sabia? E eu sou uma idiota por amar tanto alguém tão fraco como você. Mesmo depois de todos estes anos não entendeu... Nós somos monstros Martino! Somos criaturas das sombras e não há cura para isso! Eu já lhe disse e direi novamente… Não é porque podemos andar durante o dia que deixamos de ser da escuridão.
Johanna se recompõe, ajeita suas roupas, fecha os botões de sua camisa e, como há muitos anos, pega sua bolsa, sai do quarto deixando Martino paralisado sem palavras.
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