Solaris - A Morte
8 Reunião
Notas iniciais
[Dias atuais — São Paulo]
Quando Johanna saiu do quarto, ainda ofegante pelo acontecido, deixando Tino em modo estátua, deu de cara com Diego. Dick estampava uma expressão sacana e um sorriso nos lábios.
Johanna percebe que o sorriso era forçado e escondia muitas tristezas, tristezas que Diego guardava à sete chaves, tristezas que ele confidenciara totalmente apenas para Johanna. O pior, uma destas tristezas era a própria Johanna. Para não cutucar ainda mais velhas feridas, que nunca se fecharam, resolve fingir que não notou, fingir que foi enganada pela máscara de descontração usada por Diego.
– Me parece que às vezes vocês esquecem que a audição dos vampiros é mais apurada que o normal. Eu, e com certeza Duck e Mona também, ouvi tudo que aconteceu dentro do seu quarto. Estava bem quente lá dentro, quer dizer, até você ter uma crise de consciência.
– Eu acho que você poderia ser mais educado e, assim como Mona e Duck, simular não ter escutado nada.
– Mas aí não seria eu. Faz parte do meu show não fingir!
– E está me esperando aqui apenas para dizer que ouviu tudo?
– Não, estou aqui para contar que ouvi tudo e dizer que se você precisar diminuir sua libido, aquela que subiu no quarto, pode me chamar para dar um jeito. Sou bom nisso e sempre estarei à sua disposição! — Fala o rapaz em tom sacana.
– Você é um amor! — Diz cínica. — Além do mais, eu estou de partida e você sabe porque eu contei para o Martino no quarto. Você ouviu, ou sua audição é seletiva e ouve apenas sacanagem?
– Culpado! — Diego levanta as duas mãos para cima. — Tenho audição seletiva! Tenho uma mente seletiva, só penso em sacanagem! Agora, falando sério, — Dick corrige a postura, fica sério e quase rígido. — Você sabe muito bem que eu faria qualquer coisa para te ver feliz! Inclusive abrir mão de minha própria felicidade. Minha maior alegria seria ter você a meu lado, como minha única companheira.
– Eu sei disso, sei que sempre poderei contar com você. Sei sobre seu amor e fico honrada. Me dói absurdamente não poder retribuir seus sentimentos, mas eu não posso me enganar e muito menos te enganar, dissimulando sentir algo que não sinto. Você merece muito mais, é um homem incrível!
***
Martino estava na cozinha coordenando os preparativos finais da refeição. Mônica estava ajeitando a decoração da sala de jantar e Eduardo, que deveria ajudar, estava apenas olhando a esposa fazer todo o trabalho sozinha. Diego estava no quarto com sua acompanhante da vez.
A campainha toca, Johanna, a única na sala, sabe quem está atrás da porta e chega a ficar na dúvida sobre atender. Quando abre a porta vê Pietra, uma mulher deslumbrante e bem mais alta que Johanna.
– Olá! Pietra, estou certa?
– Sim, sou eu!
– Pode entrar, fique a vontade! Prazer, meu nome é…
– Johanna! Eu sei. Parece que conheço vocês todos há anos, o Tino fala muito sobre vocês.
Martino, que da cozinha pode ouvir a chegada da namorada, chega à sala.
– Pietra! Chegou cedo.
Tino beija a namorada, Johanna faz careta e sai do ambiente rápida e sorrateiramente. Vai até o terraço, respirar um pouco de ar. Martino pôde perceber quando Johanna saiu da sala, mas Pietra, ao terminar o beijo, se assusta com a ausência de Jonna.
– Vamos para a sala de jantar! Vou lhe apresentar os outros!
***
Enquanto todos com exceção de Johanna estavam conversando, até mesmo Diego e sua acompanhante humana, mais uma vez a campainha toca. O clima fica tenso, os vampiros da sala sabem quem acabou de chegar, sabem da antiga animosidade entre Martino e William.
Eduardo se levanta para atender a porta e Mônica, para impedir situações constrangedoras, arranja uma desculpa para tirar Pietra e Laura, atual ficante de Dick, da sala. As três mulheres vão até o quarto de Mona para conferirem as novas bolsas de marca recém adquiridas por Mônica.
– Oi William! Como está? — Pergunta Duck cortês.
– Bem, obrigado Eduardo. E você? E sua bela esposa oriental?
– Estamos bem! Sinta-se a vontade, a Jonna estava no terraço e já deve ter notado sua presença. Quer beber algo? Sente-se.
– Eu não quero nada, agradeço.
– Foi preciso uma crise para você aparecer em terras tupiniquins! Não é mesmo Will? — Brinca Dick.
– É verdade Diego! Acho o Brasil muito quente! E tudo aqui atrasa, minha educação inglesa fica incorformada com atrasos.
– Sua frescura inglesa, quer dizer! — Mais uma piada de Diego.
William ri. Ninguém consegue ficar nervoso com as brincadeiras, muitas vezes inconvenientes, de Diego.
– Sinto o cheiro de duas humanas. Talvez eu queira beber algo sim, algo fresco, algo vindo de veias! — Diz Will em um tom humorado.
– Nem pense nisso seu filho da puta! — Retruca Martino nervoso.
– Foi apenas uma brincadeira inocente, Tino. Você sempre muito rude comigo, não sei o motivo. Espera, talvez seja pelo fato de eu ter tomado sua namorada de você.
– Seu maldito mentiroso. Eu sei que foi tudo mentira, você não ficou noivo da Johanna!
– Realmente não fiquei noivo, entretanto não quer dizer que outras coisas não aconteceram...
Martino avança em direção à William com intenções nada amigáveis. Eduardo impede o amigo de começar uma briga física. Johanna aparece neste exato momento.
– Homens! Vocês agem como adolescentes irresponsáveis mesmo tendo mais de cem anos!
– Johanna, suas malas estão prontas? Quer que eu as carregue?
– Estou pronta para ir! Pegue esta bolsa, vou buscar minha mala que está no quarto. Já volto e, por favor, não briguem. Estamos com duas humanas em casa.
***
[Dias Atuais — Londres]
Johanna no momento está entrando na mansão, que mais parece um castelo, de Valentim. Quando chega ao local, pontualmente às vinte e duas horas, todos os outros Blood Head’s já estão presentes. Todos em vestimentas sofisticadas, uma exigência em reuniões do rei com os líderes dos clãs: David Eyesnigth, Colette Lunnoir, Solomon Juweelnacht, Adam Darkranch, Hanz Stahlnacht e Keiko Shōrayoru.
David Eyesnigth se aproxima para cumprimentar a moça.
– Johanna! Apesar das circunstâncias, sempre é um prazer vê-la. Não vem mais com tanta frequência para o velho mundo.
– É verdade David. Fico muito ocupado com minhas pesquisas e acabo perdendo toda minha vida social! Todos estão presentes, espero não ter chegado atrasada!
– Claro que não! Você, como sempre, chegou pontualmente como uma boa inglesa. Nem antes, nem depois. No horário!
A reunião para esclarecer os acontecidos referente a matéria do jornal interceptada foi rápida e pouco esclarecedora. Um dos oficiais Eyesnigth está infiltrado na NSA¹, ele conseguiu descobrir o texto e a conta de e-mail porém não foi possível identificar o dono da conta. As buscas continuavam através de vampiros infiltrados na CIA, Interpol e FBI. Mais cedo ou mais tarde, garantiu o rei, iremos saber que é K.H.B.
Terminada a reunião, anotadas as reclamações e sugestões dos Blood Heads, e a confraternização dos mesmos, Johanna fora chamada para uma audiência individual com Valentim.
***
– Estou pensando em colocar uns de meus Blood Guards para investigar a fonte desta matéria do jornal. O que acha?
– Valentim, os Eyesnigth já não estão nisso? Eu penso ser muito perigoso você reduzir sua guarda pessoal. Você chegou a pensar que esta matéria pode ser uma armadilha dos caçadores? Não fique vulnerável por conta disso.
– Vulnerável minha querida? Eles não podem me matar, ninguém pode, sou antigo demais para ser morto.
– Não podem te matar, mas talvez possam fazer outras coisas, coisas piores. Por favor! Não os subestime é perigoso subestimar os inimigos. E você mesmo estava preocupado com os caçadores. Se lembra de quando me disse estar preocupado com a falta de ação deles? Achando que o Archer estava planejando um ataque feroz.
– Eu sei. Me recordo.
– E então, Valentim? Descobriu algo sobre o plano dos caçadores?
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