Solaris - A Morte
12 Revelações
Notas iniciais
[1876 – Londres]
No jardim mais distante da mansão, os quatro já estavam em silêncio por alguns minutos. A noite estava fria, assim como o olhar de Johanna. Nenhum deles se sentou nos bancos do jardim e ninguém queria ser o primeiro a iniciar a briga que certamente viria.
Como sempre, Antelmo se predispõe a quebrar o silêncio.
– Aqueles bastardos te transformaram em vampira?! Ou você foi burra o suficiente para pedir por isso?!
A explosão de raiva de Antelmo representava o sentimento de Martino, ambos indignados com a atual condição da moça.
– Nenhuma das opções. — Responde Johanna sem elevar seu tom de voz. — Antes de qualquer coisa, quero deixar bem claro para vocês que não sou obrigada a dar satisfações da minha vida. Só irei contar porque sinto que preciso, para por um fim nesta etapa da minha vida.
– Como assim nenhuma das opções? — Indaga Ansur muito sério.
– Nenhum deles me transformou e eu não pedi por isso. Eu nasci como vocês, sou uma Solaris de nascença também.
Os rapazes estavam chocados e não fizeram questão de esconder. Como ela disse aquilo sem qualquer emoção? Como se estivesse dizendo que preferia o café forte com açúcar e canela.
Além disso, não poderia ser verdade, vampiros podem pressentir quando outra pessoa é vampira também. Eles passaram muito tempo com ela, teriam descoberto.
– É impossível… — Diz Antelmo em um sussurro atônito.
– Porque vampiros podem se identificar entre si? Verdade, mas vocês são muito novos para saberem que vampiros antigos podem camuflar a própria condição.
Tino e Antelmo pareciam não entender porém Ansur, que sempre teve certa desconfiança de Johanna, fez as óbvias associações e as expôs:
– Você é uma vampira antiga, uma Solaris, e amiga íntima do rei. Eu sempre tive a impressão de que você escondia algo. Você é bem antiga e poderosa, não é?
Ansur e Johanna eram os únicos confortáveis ali. O gêmeo mais valho até havia se sentado, a tensão já não estava mais nele.
– Sou bem mais antiga que vocês, sim. E não fui a única a esconder e mentir, não é mesmo?
– Uma VAMPIRA?! Você sempre foi uma VAMPIRA?! Sabe... Eu estou com algumas dúvidas… Está claro que usou seus poderes para nos enganar. Por quê? E mentiu para os Scott também? Tem prazer em mentir para as pessoas que a cercam? — Diz Martino magoado.
– O quê? Como ousa me julgar? Você também mentiu, vocês me enganaram, me usaram para salvá-los dos erros de um passado irresponsável! Eu nunca menti para meus pais, os Scott. Eles sabiam, sempre souberam.
Johanna se vira e vai embora. Quando os três amigos se recuperam das revelações e retornam para dentro da mansão, a moça já havia ido embora; o rei também não estava mais presente.
***
Na mansão em que estava hospedada, casa de seus pais adotivos, Johanna estava sentada na poltrona de seu escritório, na mesma posição há horas, pensando em nada, triste e com o copo de conhaque meio cheio na mão. Ainda estava com a roupa do baile.
Selith, a jovem empregada da casa, aparece na porta do local.
– Senhorita, tem um senhor querendo falar com a senhora. Está tarde, quer mesmo atendê-lo? Ele não quis dizer o nome.
– Pode deixar ele entrar, eu sei quem é.
Antes mesmo de a visita adentrar o escritório Johanna pergunta:
– Veio sozinho? Não quero, e não vou, perder meu tempo me defendendo. Se for para me acusar, pode ir embora.
– Não vim fazer acusações, Jhô! Só queria conversar, eu gosto muito de você. Estava pensando que agora, que nós conhecemos os piores segredos um do outro, poderemos ter uma conversa sincera, sem mentiras… Não sei, começar do início. Sua companhia é vital para mim.
– Eu estou partindo, vou embarcar amanhã para o Império do Brasil, não temos tempo para recomeços.
– Eu não concordo. Por isso… Prazer em conhecê-la, senhorita. Meu nome é Antelmo Roggenbach e estou a seu total dispor. — Antelmo pega, delicadamente, a mão da moça e a beija.
Johanna ri com sinceridade.
– Você é um homem incrível, Antelmo! Nunca vou lhe esquecer e acho que nunca conseguiria ficar magoada com você.
– Sorte a minha!
Sem qualquer cerimônia, o rapaz se senta em uma das poltronas da saleta. Johanna levanta a sobrancelha com a petulância dele, por saber que nada o faria ir embora, desistiu e serviu a ele um scotch.
– O que quer saber, Tel?
– O que você quiser contar, Jhô! Só quero te conhecer melhor. Por exemplo… Como você se transformou?
– Não.
– Como conheceu o rei?
– Não.
– Caramba?! Você vai querer contar alguma coisa, Johanna?
Ela ri novamente.
– Eu já conhecia o rei há um tempinho, já estava transformada. Os Scott se tornaram amigos de Valentim mesmo sabendo que ela era um vampiro. Eles não tinham filhos, eu nunca tive uma família de verdade, a Carlota estava com a saúde frágil e não poderia cuidar de uma criança…
– Então o Valentim uniu você e os Scott.
– Isso. Eu estava com medo, sempre estive sozinha na vida. Antes de eu ir para a casa dos Scott, o Timmy me deu um colar, o mesmo que vocês roubaram. Disse que aquela joia era da avó dele, a pessoa mais forte que ele conhecera, e iria me dar força e coragem.
– Eu sinto tanto, Johanna! Vou dar um jeito e recuperarei o colar para você! Só me dê algum tempo!
– Não precisa mais. Como acha que eu descobri que foram vocês os ladrões? O François sabia de quem era a joia e contou para o Valentim.
– Mais que bastardo! Eu odeio o François! Maldita hora que pedimos dinheiro emprestado para aquele desgraçado!
– E ele é o único desgraçado?
– Bem… Nos perdoe Jhô, nós fomos desgraçados por necessidade; o maldito François é desgraçado por profissão. Por que não nos disse que é uma Solaris?
– Eu tinha boas impressões sobre vocês, queria conhecê-los antes de me revelar. Depois que meu pai Henry morreu, eu me vi novamente sozinha no mundo, não é um sentimento agradável. Eu pensei em formar um clã, uma nova família, unida e feliz. Bobagens, eu sei…
– Nós éramos os candidatos? Mais que grande merda nós fizemos! Se soubéssemos, nunca trairíamos sua confiança. Foi estupidez e medo de morrer! O François mandou um dos capangas dele para nossa casa e atirou no Tino, por pouco não acertou o coração, quase o matou! Não tínhamos muito tempo e seu colar… Apareceu.
– Eu não sabia. Mas porque não me pediu o dinheiro, porque preferiram me roubar?
– O que mais temíamos, depois de morrer, era que você descobrisse que éramos monstros. Se você soubesse da dívida, poderia querer saber mais sobre para quem devíamos. Não queríamos te colocar sob os olhos do François.
– Mesmo assim, não deveriam ter feito. Machucou. Pensei que poderia confiar em vocês.
– Eu te amo Johanna, e desconfio que o Martino também. Acredite, doeu muito mais em nós.
– Eles devem me odiar agora.
– Que nada. Ansur sempre notou algo de estranho em você, não deve ter sido um choque para ele. E o Martino… Como disse, ele te ama, só está confuso. Pode nos perdoar? Pode voltar a confiar na gente? Eu ficaria muito feliz se formássemos um clã. Império do Brasil, novo mundo, nova vida, para nós quatro.
– Não sei…
– Qual é, Johanna. Tente nos entender, não tivemos muitas orientações sobre como ser vampiro, como ser adulto. Martino é um caipira e foi embora de casa sem nenhuma experiência. Eu e meu irmão, sempre fomos riquinhos mimados, sem qualquer responsabilidade. Fizemos muitas escolhas erradas porque não tínhamos quem nos orientasse.
– A gente pode tentar. Eu posso tentar. Você acha que eles aceitariam? Vivermos juntos, como uma família em outro lugar?
– Acredito que sim. Tenho quase certeza que sim.
– Bom. Outra coisa, seria bom que vocês mudassem de nome, ou sobrenome, ou ambos. É comum vampiros transformados fazerem isso. Eu mesma fiz.
– E qual seu nome verdadeiro?
– Não.
Desta vez, Antelmo é quem ri.
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