Solaris - A Morte
3 Os Namorados
Notas iniciais
[Dias atuais — São Paulo]
O casal apaixonado está deitado, dormindo na cama de dossel com seus lençóis brancos desarrumados. No cômodo, de paredes amarelas pálidas, onde a luz da manhã invade através da janela e das cortinas bege. Os poucos móveis que preenchem o ambiente são todos marrons muito escuros.
Pelo quarto não há fotografias, nem muitos objetos de decoração. Na parede à esquerda da cama, onde fica a porta de entrada, encontra-se um daqueles quadros vendidos em feiras hippies artesanais que representam uma paisagem bucólica qualquer.
O local poderia se passar por um daqueles stands das lojas de móveis devido a total impessoalidade. Aliás, o apartamento todo possuía essa característica, totalmente impessoal, sem vestígios do passado, dos familiares e amigos da residente da casa. Parece um imóvel em exposição para venda. Com toda a certeza não representa a personalidade marcante, extrovertida e sensual da proprietária.
O apartamento é de pertence da senhorita Pietra Pólemos, uma grega de vinte e seis anos, que há dois anos se mudou para o Brasil dizendo estar a fim de respirar novos ares, mudar de vida e fugir do excesso de proteção que seus pais cismavam em lhe dar. Seu pai, um comerciante grego, conheceu sua mãe, uma historiadora nascida nos Estados Unidos, quando esta foi para Atenas fazer um estudo sobre as civilizações mediterrâneas antigas. Os Pólemos vivem hoje em Atenas.
Pis, como gosta de ser chamada, possui uma floricultura bem situada e movimentada no centro da cidade de São Paulo. Ela sempre fora uma criança bonita, forte, paparicada e se tornou uma linda mulher. Dona de longos cabelos castanho-claros e ondulados; olhos castanho-escuros; um metro e setenta e cinco de altura; lábios carnudos; grandes sobrancelhas arqueadas e bem feitas; e possui o típico nariz grego, longo, reto e imponente.
Pietra acorda espreguiçando-se e, ao abrir os olhos, vê Martino a olhá-la com ternura e admiração. Sorri em retribuição.
Tino poderia ser um galã de Hollywood com seus um e oitenta de altura; cabelos castanhos levemente cacheados; olhos verde-claros, que no momento, com a luz do sol que ultrapassa as cortinas da janela, estão quase transparentes; um corpo escultural e definido; queixo quadrado e lábios perfeitamente desenhados e atraentes.
Após alguns minutos nessa contemplação muda ela resolve recomeçar o interrogatório da noite anterior.
– Amor? – Diz antes de dar-lhe leves múltiplos beijos pelo pescoço.
– Hum? – Lentamente Martino se senta e olha para a namorada com um sorriso no rosto. Pensando em como pode ser tão sortudo por ter encontrado a mulher que está à sua frente, tão compreensiva, incrivelmente linda e maravilhosa.
– Agora que eu sei, e aceitei o que você é… Você poderia me contar sua história? Eu gostaria muito de saber da sua longa vida. – Diz ela enfatizando a palavra longa e rolando, brincalhona, pela cama.
Martino não tira o sorriso idiota dos lábios, senta-se na cama e puxa a moça de modo que a mesma fique encostada em seu tronco e com a cabeça em seu peito desnudo. Começa a acariciar delicadamente os longos cabelos de sua namorada. Pietra, então, fecha os olhos aproveitando o carinho do rapaz e ouve com atenção a história que ele começa a contar.
– Bom... Como você já sabe, nós, os vampiros, estamos divididos em duas categorias: Noturnos e Solaris. Ninguém sabe realmente o porquê de a luz do sol ser fatal aos Noturnos e não afetar os Solaris. Existem muitas especulações sobre o assunto, até a Jonna tem uma teoria maluca a respeito.
Ao pronunciar o apelido de Johanna, Tino sorri de modo singelo e carinhoso, em milésimos de segundo o sorriso morre dando espaço a uma evidente dor que aparece em seus olhos. Ele se esforça para recompor-se antes que Pietra perceba algo.
– Até hoje nenhuma explicação concreta apareceu. Não sabemos nada sobre o surgimento de nossas raças. Alguns de nós vivem para tentar descobrir, eu não penso muito sobre isso.
– E sua família biológia? Você manteve contato com eles?
– Não, foi melhor desse jeito. Seria muito doloroso para todos nós, e eu também tive medo de que minha condição colocasse a vida deles em risco.
Diz Martino com sincero pesar.
– Depois da transformação todo o antes é esquecido e deixado para trás. Digo mais, se você perguntar para um vampiro, que você não tenha intimidade, sobre a vida dele quando humano você estará faltando com educação. Nossos antigos parentes e amigos ficam no passado junto com a nossa humanidade.
Ao dizer isso, Martino transparece na voz e no olhar toda a amargura que sente por ter se tornado o que é. Pietra percebe, beija o amado carinhosamente e incentiva-o a continuar a história.
– Como você se transformou?
– Mesmo depois de tanto tempo, me lembrar de tudo ainda dói. Mas, tudo bem...
– Minha mãe, Maria Mazzaroti, estava grávida de mim e já estava de sete meses quando foi atacada. Meu pai, Giuseppe Mazzaroti ficou aterrorizado quando a encontrou inconsciente e caída no quintal de casa, tinha marcas de presas de animal no pescoço. Quando ela acordou não se lembrava de nada do que tinha acontecido. Em um momento estava regando as flores em nosso pequeno jardim e, no outro, estava sendo acordada e sentido uma estranha excitação. Eles não sabiam nada a respeito de vampiros e foram atrás do único, em toda a pequena aldeia, que talvez tivesse a resposta para o ocorrido.
– Deve ter sido aterrorizante para os dois, ainda mais naquela época.
– E foi! O Padre Giovanni era o único da aldeia que tinha visto o mundo, ele sabia de muitas coisas e não apenas das coisas de Deus. Ele me ajudou muito com meu processo de transformação. Assim que meu pai contou sobre o acontecido e sobre a marca no pescoço de minha mãe, que já havia desaparecido como mágica, o padre teve certeza e sabia o que tinha acontecido. Todas as características de um ataque de vampírico estavam ali. Ele explicou tudo o que sabia para os meus pais, constatou que minha mãe não iria se transformar e que havia uma pequena chance, quase nula, de eu com o tempo me tornar um tipo diferente de vampiro; um tipo que poderia andar sob a luz do sol e que passaria por um longo processo até me transformar por completo.
– Um Solaris.
– Exato, um Solaris. Como era quase impossível de eu ter sido afetado, as chances eram remotas, meus pais decidiram pôr uma pedra sobre o assunto, esquecer o ocorrido e não me contar nada. Então, quando eu tinha quinze anos...
[1870 — Itália]
– O que está acontecendo comigo?
Pensava consigo, deitado no colchão. Ajoelhou-se na cama para olhar pela janela a paisagem de sua amada e linda terra.
– O que é essa fome estranha? Eu já comi, estou com fome de outra coisa. E essa ansiedade? Por que meu sangue parece que está a borbulhar? Mesmo com todo esse desconforto estou me sentindo melhor que nunca, mais forte! Será que estou deixando de ser um bambino e estou me tornando um homem? Ou estou com alguma doença? Acho que papai poderá me ajudar, é melhor ir falar com ele.
***
– Jesus, Madona e José! Prego! O que está dizendo filho?! Precisamos ir ter com o padre Giovanni! Chame sua mãe e se apronte para irmos à capela! Já!
– Mas, pai, o que está acontecendo? É grave? Eu vou morrer? – Questiona Martino preocupado e quase chorando.
Giuseppe abraça o filho como se estivesse protegendo o garoto.
– Tino, se acalme e vá imediatamente chamar sua mãe. Tudo vai ficar bem, você entenderá.
***
– Então é isso criança. Você entendeu o que eu disse? Como está se sentindo? – Diz o padre de forma gentil e carinhosa.
Martino, com a mãe aos prantos e o pai de cabeça baixa, acena em sinal de concordância.
– Acho que entendi, mas eu não sei. Estou com muito medo. A gente pode conversar a sós padre?
– Claro meu filho, vamos ao confessionário. Talvez você se sinta mais a vontade se conversarmos lá.
[Dias atuais — São Paulo]
– Assim que minha conversa com o padre terminou percebi que ali não era meu lugar. Para a segurança de todos, eu precisava ir embora e encontrar outros iguais a mim, obter respostas e saber como sobreviver da melhor maneira possível. Padre Giovanni sabia que uma grande quantidade de vampiros estava instalada em Paris. Então, quando fiz dezessete anos e minha transformação estava em fase de maturação, fui de encontro ao meu destino.
– O sobrenome de seus pais era Mazzaroti? Por que o seu é Del Giornno? Você foi adotado por eles?
– Não. Eu vou explicar… Após sermos transformados, normalmente, mudamos de nome. Nosso lema é: Nova "vida", novos rótulos. Também é uma tradição que os membros das sete famílias adquiram o sobrenome das mesmas.
– Estas sete famílias, pelo que você me explicou são como a nobreza, deve ser legal... E qual é seu verdadeiro nome?
– Eu permaneci com meu nome de nascença, Martino, somente troquei de sobrenome, pois assim me afastaria e protegeria a minha família sem perder algo de minha origem.
– Por que Del Giornno? Significa “do dia”, estou certa?
– Está! Existem duas tradições referentes ao sobrenome dos sete clãs. Primeira, todos os membros devem aderí-lo. E segunda, os sobrenomes devem fazer alusão à nossa condição de vampiros e ao setor comandado pela família.
– Não entendi.
– Por exemplo, uma das famílias é a Darkranch, “Rancho Sombrio”, são originários dos Estados Unidos. Eles são responsáveis pelo setor agropecuário e por isso o “Rancho” a parte “Sombrio” é por serem vampiros.
– Entendi. Entretanto não responde o seu sobrenome.
– A Johanna é uma Blood Head e, por consequência, nós lá de casa somos considerados da nobreza, por algum motivo que desconheço a Jonna nunca quis escolher um nome de acordo com as tradições e também nunca nos cobrou a respeito. Quando a conheci ela já se chamava Johanna Redstar.
– Aí você escolheu um sobrenome que representa sua condição de vampiro Solaris?
– Além de linda é inteligente! Tenho muita sorte! Todos nós, com exceção da Jonna, escolhemos um nome a partir deste critério.
– Seus amigos, como se chamavam? Você sabe?
– Sei, os conheci quando ainda usavam seus nomes de nascença.
– Os gêmeos escolheram mudar o sobrenome de Roggenbach para Morgen, que significa manhã em alemão. Ansur, o gêmeo mais velho e mais centrado, passou a se chamar Eduardo, Duck para os íntimos. Antelmo, o gêmeo mais despretensioso, atende por Diego, Dick.
Pietra ri.
– Pelo apelido… Este Diego deve ser uma figura! E a Mônica?
– A Mônica apareceu muito depois de termos vindo ao Brasil. Antes dela o Ansur era bem menos sério, por isso acreditamos que o Dick vai melhorar depois que encontrar a mulher certa. A esperança é a última que morre!
Ambos riem. E Martino continua.
– A Mônica se chamava Yumiko Takeo Shinjukawa, hoje ela é Mônica Takeo Taiyokawa Morgen. Mônica por ser mais brasileiro, continuou com o Takeo para manter as raízes, Taiyokawa quer dizer rio do sol e Morgen por ser casada com o Duck.
[Dias Atuais — Londres]
– Meu Rei, tinhas razão! Os caçadores não dão sinal de vida pois estão arquitetando algo grande.
– Por favor John, estamos sozinhos! Pare com as malditas reverências! E o que descobriu?
– Não muito Valentim...
John Smith, comandante dos Blood Heads, um Solaris e muito amigo do rei. Sempre sisudo e desconfiado é leal, grande, forte e feroz como um Rottweiler. Deposita uma pasta na mesa do escritório pessoal de Valentim antes de contar o resumo do relatório.
– Tenho certeza que eles não estão planejando um ataque violento. Primeiro, porque perderiam e sabem disso. Segundo, porque descobri que estão muito envolvidos em pesquisas históricas e escavações. Muitas idas às bibliotecas do mundo todo.
– No relatório constam os nomes e localidades destas bibliotecas?
– Sim, e das escavações também. Não sei se são todas. Coletei o máximo de informação que pude.
– Alguma coisa na Espanha?
– A maior parte é na Espanha e Escócia. Como sabe? Tem algo em mente?
– Apenas suposições… Antes preciso falar com a Johanna.
John muda para uma expressão preocupada e Valentim nota.
– O que foi meu amigo?
– Quando estava investigando os caçadores vi um humano visitar Aaron Archer. Não dei muita importância no início, mas por instinto me aproximei. Pude sentir que o humano estava sob influência de um vampiro Valentim! Não pude identificar o vampiro que exercia a influência, não se tratava de um Supplite. Isso é grave, um humano influenciado por um vampiro indo encontrar o chefe dos caçadores...
– Você quer dizer que…
– Seja o que for que os caçadores estejam tramando contra os vampiros, tem um, ou vários, de nós ajudando-os.
– Você desconfia da Johanna?!
– Na verdade desconfio de todos, principalmente dos mais influentes. Apenas tenha cuidado para quem vai contar sobre o que está no relatório.
– Estamos sendo atacados por todos os lados. Pelos humanos, com aquela maldita matéria de jornal; pelos caçadores; e como se não bastasse por nós mesmos. Eu tomarei as devidas providências, afinal, não vivi todo este tempo sem aprender uns poucos truques. Em breve você saberá! Iniciarei meu plano após todos os Blood Heads chegarem aqui em Londres.
– Principalmente sua amada Johanna. Não acha que seu amor por ela pode cegá-lo a ponto de não perceber que ela é a traidora? Por causa dela você já teve uma grande perda.
– Não sei meu amigo...
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