Notas iniciais
Música: Ain’t No Sunshine Banda: Bill Withers Link: https://www.youtube.com/watch?v=tIdIqbv7SPo

[1876 – Londres]

Mesmo com o atentado, os rapazes decidiram ir ao baile. Não queriam levantar as suspeitas de Johanna e, no baile, talvez pudessem achar uma nova vítima para o golpe.

Os rapazes acabam de chegar na residência dos Falkins, procuraram pela mansão mas nem sinal de Johanna.

– Será que ela não vem? — Pergunta Antelmo aos outros dois.

– Como vou saber? Ela sempre foi muito calada e um mistério para mim — Responde Ansur.

– Seria bom perguntarmos para a anfitriã se ela virá. — Sugere Martino. — E se não vir, também, qual o problema? Acho até que seria melhor, assim eu poderia me esquecer do plano por algum tempo.

Antelmo avista a dona da casa. Ansur fica tenso ao perceber o sorriso rasgado, meio de lado, marca registrada do irmão. O sorriso denuncia as intenções imorais de Antelmo. Ao notar a beleza da senhora Falkins, Ansur fica ainda mais preocupado.

– Martino, precisamos ficar de olho no Antelmo. Ele se interessou pela dona da casa! E eu juro ter visto “aquela” expressão dele!

Sem que Ansur descreva, Tino já sabe perfeitamente sobre qual expressão o gêmeo minutos mais velho se referiu. Também tem ideia das encrencas que o irresponsável, e divertido, Antelmo poderia entrar após dar um de seus sorrisos costumeiros. A melhor parte era depois de tudo. Depois que se livravam, muitas vezes por pouco, dos problemas eles riam muito e a sensação de alívio era ótima.

– Ficarei de olho!

Neste momento, um burburinho na entrada da casa começa a chamar a atenção de todos, inclusive de Martino e Ansur. Johanna acabara de chegar, a comoção se devia ao fato do adorno usado no pescoço da moça.

– Minha nossa! — Diz uma senhora qualquer para a amiga. — Eu nunca vi nada mais bonito! É um rubi de verdade naquele colar?! É enorme!

– Sim! Um colar de rubi e diamantes verdadeiros — A amiga responde. — É o colar mais caro já feito, por anos foi dado como perdido! Dizem que ela ganhou de um amante secreto, um homem casado. — Completa em tom de desprezo.

– Você ouviu isto, Martino?

– Claro! A Johanna tem um amante!?

– Não seu idiota! Está parecendo meu irmão! Que por sinal conseguiu nos despistar, ele já desapareceu! Eu me referi ao colar, mais especificamente ao valor, ao valor, do colar!

– E o que temos a ver com o valor do colar?

– Não precisamos dar o golpe nela! Podemos usar nossas habilidades vampíricas para roubar a joia e saldar nossa dívida com o François! Se tivermos sorte, a Johanna não desconfiará da gente e poderemos continuar sendo amigos dela por um pouco mais de tempo!

“Não sei se quero ser apenas amigo dela! E no momento não estou com cabeça para pensar na dívida com François! Estou preocupado com o fato da Johanna ter um amante!” — Pensa Tino consigo.

Parecendo pressentir a presença dos dois, Johanna se vira exatamente para o local onde os amigos estão.

– Ansur, você notou o olhar de decepção que a Johanna acabou de lançar em nossa direção?

– Não notei nada. Você deve ter imaginado! Sua consciência deve tê-lo confundido. Ele não poderia ter descoberto nosso plano, nem escutado nossa conversa. Não se esqueça que ela é humana! Você e o Antelmo parecem cegos perante ao fato dela não ser uma vampira, fico preocupado com isso.

***

Ansur e Tino, preocupados com o sumiço da senhora Falkins e de Antelmo, estavam a procura do terceiro mosqueteiro e de olhos abertos em lorde Falkins. Avistaram, devido a visão apurada dos vampiros, no segundo andar da mansão, a senhora Falkins saindo sorridente e cambaleante de um dos quartos. A mulher foi apressadamente para outro cômodo e, logo após, o gêmeo mais novo sai do mesmo quarto ajeitando a camisa e o cabelo.

Os rapazes sentiram um alívio, Antelmo não seria pego em flagrante. Entretanto o alívio se torna desespero quando, em vez de descer as escadas e voltar para a recepção, Antelmo bate em outra porta do segundo andar e, ninguém menos que a filha de lorde Falkins, a garota apresentada hoje no baile, abre a porta vestida apenas com as anáguas e puxa Antelmo, que está com seu sorriso nos lábios, para dentro do quarto.

Aflitos e perplexos, Ansur e Martino resolvem seguir lorde Falkins a fim de impedí-lo, caso necessário, de encontrar Antelmo desvirtuando sua filha logo após de ter feito a mesma coisa com sua esposa.

***

Samuel Falkins passa furioso por Johanna. A moça já estava alerta quanto ao que ocorria no andar de cima, e sabia da necessidade de interceder pelo amigo inconsequente. Laçou Samuel para uma conversa sobre a intenção de se associar aos negócios do lorde. Nada era mais eficaz, para chamar a atenção de nobres gananciosos, caso de Falkins, do que a possibilidade de uma sociedade com uma mulher rica, jovem, solitária e provavelmente tola.

Ansur se aproveitou da ajuda de Johanna para ir até o quarto da garota, Brienne Falkins, e tirar Antelmo dali, pela janela, depois de hipnotizarem a garota com seus poderes. Quando Samuel voltou a si, feliz pela conversa que teve com Johanna, subiu rapidamente para averiguar o quarto de Brienne, Antelmo já havia saído de lá.

***

Ainda no baile, os mosqueteiros se sentam na varanda da mansão. O lugar está deserto e os três podem conversar sem que sejam ouvidos.

– Eu tive uma ideia para pagarmos nossa dívida com o François. Será fácil com nossas habilidades. O que acham? — Diz Ansur.

– Por que a gente não mata o François? Ele quase assassinou o Martino, merecemos uma vingança! — Reclama Antelmo.

– Se o François fosse apenas um agiota qualquer, concordaria com a sua solução. Contudo, além de agiota e bandido influente ele é um maldito vampiro também! E ele conhece muitos vampiros, dizem que possui contato até com o rei. Como, nós, iríamos matar alguém como o François, Antelmo?!

– Foi apenas uma sugestão, Ansur. Não precisava se exaltar.

– Uma péssima sugestão, diga-se de passagem. — Opina Tino. — Eu concordo com o plano do Ansur. Com o golpe, seriamos facilmente desmascarados e precisaríamos fugir do país. Com o roubo da joia, nunca seríamos descobertos e poderíamos continuar próximos de Johanna.

– Eu também aceito. — Responde Antelmo.

***

– Até que enfim estamos livres daquele maldito francês! Este roubo foi primoroso! — Antelmo se gaba pois tudo foi esquematizado por ele. — Ninguém vai desconfiar da gente! E que sorte a nossa ele mesmo ter comprado a joia, além disso sobrou muita grana!

– Eu achei estranho não ter nada noticiado no jornal. — Comenta Ansur.

– Talvez a Johanna não queira a mídia atrapalhando no caso. — Tino sugere.

– Ou ela queira esconder a origem do colar e não pode registrar o roubo. — Complementa Ansur.

– Ansur, você sempre desconfiando da Johanna. — Diz Antelmo. — E, por falar nela… Por que será que ela marcou de falar conosco aqui em nossa casa?

– Como saberemos?

♫Música♫

Vinte minutos depois alguém bate à porta. Desta vez, Antelmo, o único com coragem para tal, é quem vai atender. Ele atende e vê Johanna com um olhar frio e olhos avermelhados.

– Algo lhe aconteceu? Esteve chorando?! — Diz Antelmo muito preocupado.

Os outros dois ficam alarmados com o estado de Johanna, ambos com seus corações apertados, sabiam que aqueles olhos vermelhos da moça eram devido à horas de choro. Uma chuva de interrogações partem dos rapazes.

– Fiquem quietos, por favor! — Exclama Johanna alterada. — Eu vou falar e não quero ouvir nenhuma palavra de nenhum de vocês! Nem ao menos uma desculpa!

Eles se calam imediatamente e caem sentados no sofá mais próximo.

– Eu sei que foram vocês! Não sei como fizeram, mas tenho certeza que foram vocês que fizeram! Aquele colar foi um presente de alguém muito querido por mim! Valia muito mais que apenas dinheiro! Eu tinha um carinho especial por aquela joia! E vocês, que diziam meus amigos, roubaram-no!

– Jhô… — Apela Antelmo.

– Não me chame assim! E nem ousem negar! Eu não anunciarei o roubo, por isso não se preocupem, não irão para a cadeia.

Johanna começa a chorar copiosamente.

– Espero que o dinheiro que conseguiram seja proveitoso. Eu sei que sou apenas uma piada para vocês, um cofrinho de onde vocês acham que podem tirar algumas moedinhas, mas peço, por favor, me respeitem apenas esta vez e nunca mais se aproximem de mim! Se depender de mim, vocês nunca mais irão me ver.

Johanna sai da casa ainda em prantos. Os rapazes, com olhos marejados, ficam paralisados de tão envergonhados e enojados que ficaram deles mesmos, pelo que fizeram com Johanna, pela decepção nos olhos da moça e pelo estado em que a deixaram.

Notas finais
Imagens: Johanna: http://fashion.me/historias-joaninha/snips/410764.635354181600000000 Colar: docs.google.com/drawings/d/1elDEj_UzHNHYYBD62zPAydcZOXVsRC6w31sOeYGMOyc