Solaris

2 Capítulo 2


Eu acordo cedo para ir pra aula e na maior parte do tempo vou a pé. Não sou muito de observar ao redor, ainda mais se eu estiver de fones de ouvido, mas posso dizer que estamos no outono por chover e fazer sol no mesmo dia. As folhas secas da minha cidade fica com uma pigmentação vermelha bem diferente nessa época, eu costumo usar um casaco por cima do uniforme e dou uns tragos observando o arroio antes de continuar o meu caminho.

Minha escola é exatamente como minha cidade: pequena, enferrujada e quebrada. Com jovens com almas de velhos e com aqueles promíscuos. Todos desinteressantes.

Mas havia uma novidade, um burburinho que ouvi assim que me sentei na carteira.

"Ele é bem o meu tipo."

"Nunca vi um ruivo crespo."

"Você acha que ele vai escolher qual clube?''

"Uma gracinha."

As meninas são escandalosas e resolvi procurar algo para ouvir no celular. Contudo, algo me impediu.

"Ele é da capital."

Subitamente, o calouro Miguel me pareceu interessante. Ele viera de um lugar que sempre sonhei morar e confesso que fiquei com vontade de conhecê-lo. Olhei para o outro lado da sala, onde ele se sentava e o encontrei observando a janela, fingindo que não ouvia os cochichos sobre sua pessoa. Me parecia ser tão legal e por essa razão tive a certeza que ele era diferente, afinal, ele era da capital. Eu o encarei tanto que ele sentiu o meu olhar — só pode ser isso —, porque ele virou o rosto para mim e me lançou um sorriso.

Obviamente desviei o olhar e fingi que não era comigo.

Sei que é ridículo ficar aguardando uma pessoa que salve minha vida estudantil incompreendida, porque sei que ela nunca virá — e é até ridículo pensar que alguém nasceu só pra me tirar dessa monotonia. Mas, por um segundo, quis que isso fosse possível e que Miguel fosse ela. Uma pessoa que morava num lugar em que se há lojas de discos e livrarias, uma universidade, vida noturna e que não fosse normal se encontrar com um cavalo pastando na rua que você mora.

Por que ele saiu de lá?