Solaris

3 Capítulo 3


Havia chovido e a quadra da escola ficou suja, com o chão escorregadio de pegadas de tênis, porque ela ficava no meio da rota de um prédio para o outro e muitos alunos passaram nela pra chegar do outro lado. O professor de educação física pediu para que tomássemos cuidado, mas eu fiquei no banco por ter chegado atrasado. Era uma regra do professor que gostava de agir feito um ditador e, além de não poder participar da aula, nós tínhamos que pagar 30 flexões se fôssemos o último aluno a chegar.

Por mais que fosse difícil para mim pagar 30 flexões e já ter muitas faltas acumuladas, eu era ainda o que mais chegava atrasado. Isso porque enfrentava um dilema no vestiário masculino da escola, não me sentia bem em me trocar com os outros garotos e costumava "passear" até ter certeza que já não havia mais ninguém no vestiário.

Sentado no banco, vi Miguel fazer o gol e a turma toda comemorou o abraçando ou bagunçando seus cabelos ruivos. Nesse momento notei que ele estava mais enturmado na turma do que eu mesmo que entrei no início do ano. Aliás, tive a impressão que eu era o único que não havia falado com ele ainda.

E nem sei se falaria...

Miguel levou um tombo por conta do estado da quadra e precisou se sentar ao meu lado no banco.

— Nicolas, para de ficar olhando e vai buscar gelo!

O tom autoritário do professor fez com que minhas pernas corressem automaticamente a caminho da cozinha e voltei com um copo de plástico em que havia dois cubos de gelo dentro dele. Miguel me agradeceu e o deixou repousado sobre a ferida no cotovelo.

Ele reversava os olhos castanhos do cotovelo para os meninos jogando, havia um sorriso em seus lábios que não me parecia ser sincero.

Aquele era o momento ideal para puxar uma conversa.

— O que gosta de ouvir? — Perguntei.

Miguel piscou os olhos e passou a me encarar. — Oh, você está falando comigo?

— Sim... — Olhei ao redor para me certificar se não havia mais ninguém como eu acreditava desde aquele segundo.

Ele riu do meu jeito. — Só somos nós dois.

— Então... por que perguntou se era com você?

— É porque eu pensei que você só ia ficar observando.

— O-observando vo-você?! — Fiquei com vergonha por ele ter notado, mas claro que iria negar. — Você acha que é quem?! Só porque veio da capital, acha que é o centro do mundo? — Sem perceber, acabei revelando que ele me era interessante por ser da capital.

E, bem, só bastasse ser da capital pra ser o meu centro do mundo favorito de observar.

— Eu escuto muita coisa. — Respondeu e depois de 3 segundos, entendi que se tratava da pergunta no início da conversa.

— É? Você conhece The Velvet Underground?

Miguel parou de observar os meninos e me deu um daqueles sorrisos falsos. — Sim.

Mas diante de tal resposta, seu sorriso não me incomodou mais. — S-sério?! Você gosta do primeiro álbum da banda?

— O com a Nico?

— Isso!

— Só gosto de Sunday Morning.

Minha decepção veio pesada. Por mais que conhecesse, ele era outro que não conseguiu passar da primeira faixa. Fiquei quieto.

Na sala de aula, ele veio até a minha carteira falar comigo.

— Por acaso você acha The Velvet Underground and Nico o seu álbum favorito de 67?

Fiquei surpreso que ele sabia do ano de 67, um grande ano para discos no mundo da música.

— É o meu favorito de todos.

— É? Sinto muito se eu te ofendi aquela hora no banco. — Ele alisava a cabeça e eu pensava que não estava ofendido, apenas não o achava mais interessante.

— Não ofendeu, você só vai perder um observador que te acha o centro do mundo.

Ele gargalhou e confesso que o achei bonitinho, depois tossiu.

— Esse é de 66, mas Pet Sounds é o meu favorito.

— "Pet Sounds"? Aquele álbum felizinho?

Ele riu de novo. — Esse mesmo... mas já deu uma olhada nas letras? São bem melancólicas.

Eu nunca ouvi Pet Sounds do Beach Boys direito, sabia que era um grande álbum, mas o "embrulho na barriga" ainda estava lá quando eu o colocava pra tocar, principalmente na faixa "Wouldn't It Be Nice". Aliás, essa era a primeira faixa do disco. Foi então que eu pensei que estava pior do que ele, Miguel pelo menos gostava de Sunday Morning, já eu...

O sinal tocou e nós andamos juntos até chegarmos em casa.