Soho Dolls
45 Capítulo 44 - I can\'t believe that it\'s over
Notas iniciais
Oh céus como doía, não conseguia explicar como estava doendo. Eu estava arrasada, em milhares de cacos, eu sentia uma tristeza, um vazio inexplicável, não estava sabendo lidar com a perda de meu bebê. Se da primeira vez tinha doído daquela forma, a segunda estava cinco vezes pior, se soubesse o que tinha feito para merecer isso, eu voltaria no tempo e concertaria qualquer erro só para não precisar passar por tamanha dor, se houvesse algo que eu pudesse fazer para ter meu bebê seguro em minha barriga de novo, eu faria sem pensar duas vezes... Eu só queria meus dois bebês em meus braços, era pedir demais?
Os dias passaram e a dor continuava ali, intacta. Tudo tinha mudado, eu não tinha mais animo, só conseguia pensar no grande inferno que a minha havia se tornado em tão pouco tempo e no enorme buraco que agora era meu peito. Eu tentava me reerguer, tentava encontrar forças dentro de mim para não pensar em meu ventre vazio, mas era impossível, a tristeza por perdê-lo viera da mesma forma que meus pensamentos sobre o bebê durante meu curto período de gestação, involuntariamente, e quando eu percebia, meu rosto já estava encharcado por minhas lágrimas e meus pensamentos cheios de saudades de meu pequeno pontinho. Já havia perdido as contas de quantas vezes Damon me encontrara chorando, sentada em sua cama enquanto segurava as scans de minha ecografia com a roupinha que ele dera ao nosso bebê. Era mais forte que eu, por enquanto tudo aquilo era recente demais e doía insuportavelmente, sabia que iria conseguir superar, só precisava de tempo e obvio de Damon para me ajudar com isso.
Damon... Ah Damon... Nossa relação era outro fator que contribuía com meu estado de espirito, cada dia que passava eu tinha mais do que certeza que a única coisa que nos manteve juntos depois do incidente com Annabelle era nosso bebê, até porque, se não fosse pelo meu filho, eu não iria ter continuado a morar com ele mesmo que estivéssemos vivendo em harmonia juntos. Ele ainda era uma caixinha de surpresas para mim, continuava ser uma incógnita que eu não conseguia decifrar... Ao voltarmos do hospital, ele tinha sido aquele Damon gentil por qual eu me apaixonara e naquele dia eu pensei que fossemos voltar a dar certo, a viver como um casal de verdade, mas os dias foram passando e aquela maldita distancia entre nós voltara e ele voltara a ser frio como antes.
“Eu tinha recém chegado do hospital e estava debaixo do chuveiro tomando banho, a água quente escorria pelo meu corpo e eu tentava tirar os resquícios da minha pseudo-enfermidade e de minha noite no hospital, Damon havia insistido para que eu tomasse um longo banho porque assim, talvez, eu iria me sentir um pouco melhor, mas infelizmente, não foi isso que aconteceu. Meu corpo ainda estava tenso, um tanto dolorido e eu deveria ficar de repouso por três dias e resguardo por mais ou menos dez, minha médica havia me deixado um atestado explicando o acontecido para que eu levasse a Cristina e ficasse pelo menos uma semana afastada do trabalho defendendo que eu não tinha condições físicas e psíquicas de trabalhar... O que seria uma lastima para mim porque ficar em casa era o que eu menos estava precisando naquele momento.
A água quente escorria pelo meu corpo encolhido e eu deixava que minhas lágrimas se confundissem e se misturassem com a água do chuveiro que escorria pelos meus cabelos até minha face. Eu estava com a testa encostada a parede enquanto minhas costas e meus ombros eram o alvo do chuveiro e eu tentava reunir forças para prosseguir com meu banho...
Suspirei fundo e levei minhas mãos aos meus cabelos para tirar o excesso de shampoo e assim que levantei meus braços, duas mãos grandes agarraram minha cintura e puxaram meu corpo para si, me fazendo virar de frente e encontrar Damon, apenas de boxer, me olhando pacificamente.
- Me deixe cuidar de você como você fez comigo... – sem conseguir encontrar minha voz, eu apenas assenti com a cabeça e ele pegou a esponja de banho junto com o sabonete liquido.
Damon me deu banho lentamente, passou a esponja ensaboada por todo o meu corpo com delicadeza e sem nenhum atrevimento, era apenas ele me dando banho, cuidando de mim. Deixei que ele passasse condicionador em meus cabelos e fizesse um carinho gostoso em minhas costas enquanto tirava a espuma de meu corpo e o creme de meus cabelos. Damon me tratava como uma boneca, como se eu fosse algo delicado, ele estava sendo gentil e fazia exatamente o que eu mais precisava naquele momento. Era bom ver que mesmo que não estivéssemos em perfeita harmonia, eu ainda poderia contar com ele para superar mais essa perda porque ele era o único que conseguiria me ajudar naquele momento, seu apoio era essencial para mim.
Ao terminar de me banhar, Damon segurou meu rosto com delicadeza, beijou carinhosamente minha testa e me puxou para os seus braços onde me aninhou em seu peito me abraçando de forma protetora. Sem conseguir me controlar, eu escondo o rosto em seu peitoral nu e passo meus braços em volta de seu tronco o puxando mais para mim e começo a chorar novamente.
- Vai passar, anjo, vai passar... – ele acariciou meus cabelos molhados e eu apenas assenti com a cabeça.
Não sei por quanto tempo ficamos debaixo do chuveiro abraçados, mas quando saímos, nossas mãos já estavam enrugadas. Damon me secou da mesma forma calma que me deu banho e me ajudou a me vestir com paciência. Não me importava em estar parecendo uma invalida, uma criança incapacitada, eu só precisava de um pouco de carinho, de atenção naquele momento. Damon me conduziu até a cama e me cobriu assim que me deitei, ele pegou no criado mudo um remédio que minha médica havia me passado para que eu conseguisse dormir e sem questionar, eu tomei o comprimido.
- Damon... – segurei sua mão e ele virou a cabeça para me olhar – Fique comigo até eu pegar no sono?
- Claro! – ele sorriu brevemente e se deitou ao meu lado na cama me puxando para si e aninhando meu corpo em seus braços.”
Depois daquele dia, muita coisa mudou... Eu não tinha animo para muita coisa e provavelmente isso estivesse aborrecendo Damon ou então toda essa mudança era devido ao estresse do trabalho...
“Já passava da oito da noite e Damon ainda não havia chego do hospital, ele normalmente chegava às sete horas, o mais tardar sete e meia, mas naquele dia, era quase nove da noite e nem sinal de Damon. Emily estava em seu quarto, como sempre, e eu descansava no sofá da sala depois de ter retornado ao trabalho naquela tarde, esperando, preocupada, a chegada de Damon. Estava prestes a pegar meu celular para checar se tudo estava bem quando ele entrou na sala, carregando um semblante cansado e irritado.
- Hey, que bom que chegou, estava preocupada!
- Tive uns problemas grandes no hospital que me prenderam lá, desculpe... – ele respondeu dando de ombros, era perceptível pela sua voz que ele estava estressado e pelo jeito, o problema tinha sido muito sério.
- Quer conversar? – cheguei perto dele sutilmente tentando me mostrar prestativa – Me conte o que aconteceu...
- Um infeliz da minha equipe deu dipirona para um paciente meu, sendo-se que o paciente é alérgico a dipirona, ele quase matou meu paciente e eu quase arrumo a maior encrenca do mundo para mim.
- Mas ele sabia que o paciente era alérgico?
- Claro que sabia, estava escrito no prontuário dele, o infeliz fez isso para me ferrar!
- Calma, Damon, procure ficar calmo... Me con... – eu cheguei perto dele com o intuito de massagear seus ombros para reconforta-lo, mas ele se afastou abruptamente e revirou os olhos passando as mãos nos cabelos nervosamente.
- Calma? Ficar calmo? Esse idiota quase acabou com a minha vida, quase acabou com a minha carreira, Elena, você faz ideia do que iria acontecer comigo se esse paciente tivesse morrido?! Eu iria perder meu CRM, iria perder o direito de exercer a medicina e para completar seria preso, imagine, preso! Emily já não tem mãe e imagine que lindo se o pai dela tivesse sido preso! – Damon disse furioso e jogou sua maleta no chão da sala me fazendo dar um pulo assustado para trás.
- Damon, calma, você está descontrolado, não aconteceu nada!
- Mas ia acontecer, Elena! Se eu tivesse demorado um pouquinho mais o paciente estaria morto!
- Viu só?! Você é um ótimo médico, Damon, nada iria acontecer. Acredito que seu colega tenha sido punido por tamanha irresponsabilidade...
- Não, esse é o pior, isso que me deixa ainda mais nervoso. O imbecil conseguiu provar “inocência”, eu não aguento mais esse lixo humano trabalhando no mesmo hospital que eu, Elena! – Damon sibilou entredentes e seguiu para a sala de jantar, parando sentado em seu bar improvisado. Ele se sentou no banco em frente ao grande balcão e pegou uma grande dose de uísque e uma garrafa de vodca.
- Damon, o que você vai fazer... – perguntei hesitante.
- Não te parece obvio? – revirou os olhos ironicamente e levou o copo com a bebida escura até a boca e a bebeu rapidamente, como se aquilo fosse água, sem esperar muito tempo, ele completou o copo novamente e refez o processo.
- Damon, você não deveria beber desse jeito, porque você não conversa comigo, só conversa... Quem sabe posso te ajudar, servir um ombro amigo...
- Me deixe, ok? Me deixe beber, eu não quero conversar, só quero beber, tem como me deixar? – ele disse rispidamente bebendo o restante da bebida. Sinceramente, quem era aquele homem? O que tinha acontecido com o meu Damon, com o meu moreno para ele estar tão transtornado daquele jeito?
- Bom, vou te deixar beber em paz, mas também vou te deixar em paz quando você estiver vomitando seu pulmão no banheiro e estiver com aquela ressaca amanhã de manhã... – eu suspirei fundo usando o sarcasmo para esconder que ele havia me magoado com suas palavras frias – Boa noite, Damon!”
Eu não fazia ideia de quem era esse homem, mas pelo jeito era um dos novos médicos da equipe porque Damon nunca havia me contado sobre ele antes e meu moreno nunca esteve tão transtornado como estava nas ultimas semanas, mas a questão era que esse homem estava mexendo e muito com Damon. Queria que ele me contasse o que estava acontecendo, queria ser seu porto seguro, seu ponto de apoio assim como ele era para mim, mas quanto mais eu insistia em tentar ser útil, mais ele se afastava de mim. Algo muito sério estava acontecendo no hospital e o que me fizera chegar a essa conclusão foi o fato de enquanto Damon mal falava comigo, Emily cedeu, mesmo que tivesse sido por poucos minutos, e mostrou solidariedade e um pouco de compaixão...
“Aquela era a segunda vez que eu fazia isso desde quando voltara para casa do hospital; eu chorava baixinho sentindo o cheiro de novo da roupinha que Damon havia dado ao nosso bebê, a roupinha que nunca iria ter o cheirinho de meu filho, que eu não tive o prazer de vê-lo vestido com ela... Não conseguia me convencer de que aquela roupinha nunca seria usada, de que eu nunca teria meu bebê em meus braços, de que mais uma vez meu ventre estava vazio...
Porque isso tinha que ter acontecido? Eu sabia que iria conseguir segurá-lo, só precisava de mais duas semanas para sair do período de risco e poder curtir minha gravidez um pouco mais tranquila, tudo estava indo tão bem, ele parecia estar tão saudável em meu ventre no primeiro ultrassom e até minha médica estava confiante com essa gestação, porque isso tinha que ter acontecido?
Caroline e Marcos já haviam ido me visitar, me levaram flores, chocolates, me fizeram companhia, mas nada conseguia suprimir o que eu estava sentindo. Meus amigos e minha médica tentavam me consolar, diziam que eu poderia ter outro filho, que eu só precisava esperar alguns meses para poder tentar engravidar de novo, mas não sabia se teria forças para passar por outra gravidez mal sucedida já que, segundo a minha médica, as chances de um terceiro aborto acontecer eram grandes. Talvez a maternidade não fosse algo para mim, talvez eu não houvesse nascido para ser mãe...
- Elena... – uma vozinha conhecida e inesperada me chamou, fazendo-me suspirar fundo e secar meu rosto banhado de lágrimas para olhar a dona da voz.
- Hey, Emily...
- Meu pai está te chamando para jantar...
- Eu nã... – eu não estava com fome, na verdade fazia dias que não comia direito, apetite era algo que havia ido junto com bebê.
- Ele me disse que você iria falar que não quer comer, mas você conhece Damon Salvatore e ele me orientou a não sair desse quarto enquanto eu não conseguisse te tirar daqui para comer... – um sorriso tímido contornou seus lábios e ela caminhou lentamente até a cama, se aproximando de mim.
- Tudo bem, vou aliviar essa para você... – suspirei fundo mais uma vez e ajeitei meus cabelos, me preparando para me levantar da cama.
- Elena... – Emily me chamou de novo, só que um tanto hesitante dessa vez. Levantei minha cabeça para olhá-la e a encontrei me encarando com um olhar de pêsames, de compaixão, com um olhar que eu nunca havia a visto nela antes, nem mesmo quando estávamos nos dando bem – Eu sinto muito, de verdade...
- Obrigada, Emily, eu também sinto muito... – tentei esboçar um sorriso para ela enquanto sentia uma lágrima formar-se no canto de meu olho e escorrer quente por a minha face – Emily, eu sinto muito por ter te decepcionado, por não ter sido a pessoa que você pensou que eu fosse e por ter te dado inúmeros motivos para não confiar em mim... Eu queria que tudo fosse diferente, queria muito ser sua amiga, mas entendo que você não queira manter uma amizade comigo... Eu sinto muito, de verdade...
- Eu também, Elena, eu também sinto muito... – Emily fez o mesmo que eu, suspirou fundo e esboçou um sorriso em seus lábios e ao perceber que eu realmente iria jantar e que havia comprido com sua tarefa, ela se retira do quarto sutilmente, me deixando seguir sozinha até a sala de jantar.”
Eu, sinceramente, não sabia o que fazer, minha razão falava para eu desistir, para eu ir embora e continuar com meus planos iniciais de sair da casa de Damon e manter uma relação a “distancia” com ele, mas meu coração idiota me dizia que tudo iria dar certo, que era só questão de tempo até tudo voltar ao “normal”. O problema era; quanto tempo seria necessário para isso? Uma semana? Meses? Não sabia se iria conseguir suportar todas essas discussões por muito tempo e levando isso em consideração, havia decidido que nesse final de semana iria ter uma conversa séria e decisiva com Damon...
O elevador parou no andar de Damon e eu suspirei fundo, entrando na sala. Por incrível que pareça, não estava tão cansada depois daquele dia de trabalho e podia afirmar que tinha disposição de sobra naquele dia, pena que não poderia usa-la para o que mais queria naquele momento... Voltar para o trabalho tinha sido algo bom nos últimos dias, lidar com clientes, conversar com Cristina e organizar a loja tinha conseguido me distrair e desviar os pensamentos sobre meu bebê de minha mente, talvez o trabalho fosse minha válvula de escape para tudo o que estava acontecendo e acreditava que se não fosse por ele, eu já teria enlouquecido.
Passei pela sala e por um milagre encontrei Damon sentado no sofá, mexendo no celular. Ele me parecia um pouco mais relaxado e tranquilo então iria aproveitar aquele momento que, aparentemente, estávamos sozinhos e adiantar aquela conversa séria que precisávamos ter.
- Hey, chegou cedo... – disse me aproximando dele.
- Pois é, Alaric me liberou hoje – ele sorriu brevemente para mim e guardou o celular – Vamos ter um baile da saúde essa noite em que todos os médicos da cidade vão, é um baile anual e bem chique, estava pensando em irmos, o que acha? – Damon perguntou animado e eu franzi o cenho.
- Damon, não sei se é uma boa ideia, eu não estou no clima de festa...
- Por favor Lena, vai ser legal, precisamos nos distrair, faz tanto tempo que não saímos juntos... – seu lábio inferior se curvou formando um beicinho manhoso e eu cerrei os olhos o fuzilando com o olhar devido a essa chantagem baixa.
- Isso é baixo Salvatore e nós precisamos conversar sério... – suspirei fundo tentando me controlar para não ceder.
- Nós conversamos amanha, ok? Mas por favor, vamos comigo a esse baile... –ele continuou a me olhar daquela forma pidona e eu suspirei fundo, me dando por vencida – Obrigado, anjo! – Damon sorriu abertamente e beijou meus lábios – Como eu sabia que você iria ceder, tomei a liberdade de comprar um vestido para você usar essa noite... – um sorriso malandro apareceu em seus lábios e ele pegou ao lado do sofá uma sacola grande que provavelmente estava o vestido.
- Damon, não precisava...
- Eu insisto que use, por favor!
- Ok... – assenti sorrindo – Que horas é o baile?
- As oito...
- Vou me arrumar, ok?
- Vou junto! – ele me entregou a sacola e nós seguimos para o seu quarto para começarmos a nos arrumar.
O vestido que Damon havia comprado era absolutamente perfeito e parecia ter sido feito sob medida para mim, ele era vermelho e bem colado ao corpo, era do modelo que chamavam de sereia por contornar cada curva de meu corpo e valorizava minha cintura e meu decote, do jeito que Damon gostava. Talvez esse baile tivesse sido mesmo uma boa ideia, Damon estava bem humorado e mais leve naquela noite então eu iria aproveitar essa deixa para me divertir um pouco com ele antes que aquela frieza voltasse.
Eu me arrumei lentamente, procurei ficar perfeita para ele e fazer jus ao vestido lindo que havia ganhado. Deixei meus cabelos lisos jogados para o lado, fiz uma maquiagem forte que marcava bem meu olhar e então estava pronta. Damon usava um terno com uma gravata borboleta e estava incrivelmente lindo, como se isso fosse novidade.
Nós seguimos até o tal baile com alguns minutos de atraso, mas para nossa sorte, nada de importante havia acontecido e as pessoas estavam apenas conversando e bebendo. A festa acontecia em um salão de festas do hotel mais luxuoso de Nova Iorque e ao chegar lá entendi o motivo de estarmos vestidos daquela forma. Provavelmente, metade da alta sociedade da cidade se encontrava naquela festa e por alguns segundos me senti um tanto deslocada naquele evento, aquele era um mundo que eu definitivamente desconhecia, mesmo que já tivesse sido acompanhante de alguns homens importantes em festas, nenhuma delas se igualava aquela e para ser sincera, achava aquilo uma grande futilidade. Não via motivo para algo tão grandioso quando se tratava de um simples encontro de médicos...
Ao perceber que eu estava um tanto quanto tensa, Damon me abraçou pela cintura sorrindo ternamente para mim e então me levou até seus amigos mais próximos que bebiam e conversavam alegremente encostados a um balcão. Ele me apresentou um por um, mas rapidamente esqueci o nome deles a não ser por Alaric, que eu conhecia há certo tempo pois ele costumava a frequentar Soho Dolls, para minha tranquilidade, nós nunca tivemos um contato mais intimo e ele nem sequer havia chegado a ser meu cliente, mas Meredith sempre falava dele por ele ser um cliente frequente dela então foi fácil de me familiarizar. Ric pareceu não se importar com o fato de me conhecer do bordel e nem Damon, mas o problema começou quando avistei de longe um homem alto, de ombros largos que ria estrondosamente com um copo de uísque na mão.
Eu o reconheceria de longe, a quilômetros de distancia... Era ele, Mason Lockwood, um dos meus clientes “especiais” digamos assim. Não sei ao certo quanto tempo ele frequentou o bordel, mas com certeza foi mais de um ano. Não acreditava que ele estava ali e sequer imaginei que ele fosse estar naquela festa apesar de saber sua profissão, ele havia sumido, ido para fora da cidade, pelo que eu me lembre, e depois que engravidei pela primeira vez, nunca mais o vi então eu acabei esquecendo-me um pouco de sua existência, apesar de tudo.
Meu olhar prendeu nele e como se tivesse lido meus pensamentos, ele me olhou e ficou tão surpreso quanto eu. Seu rosto empalideceu e sua expressão se fechou, obvio que ele me reconhecera. Minha cabeça começou a rodar e meus pulmões pareciam não aceitar mais oxigênio, eu sentia que poderia desmaiar a qualquer momento.
- Elena, está tudo bem? – Damon me perguntou um pouco preocupado e eu apenas assenti suspirando fundo.
- Eu preciso ir ao banheiro, com licença... – sorri em um falso animo e então segui para o banheiro enquanto minhas pernas fraquejavam.
Céus, eu precisava ir embora daquele lugar, Mason não era do tipo de pessoa compreensível e calma, ele tinha uma personalidade diferente, explosiva, impulsiva e eu não sabia ao certo porque isso me preocupada muito. Encarei meu reflexo no espelho e suspirei fundo uma, duas, três vezes, molhei minhas mãos tremulas, mas nada conseguia me acalmar. “Vamos lá Elena, não seja fraca, não seja covarde, nada vai acontecer” eu repetia isso para mentalmente tentando me convencer, mas meu mantra não era nada convincente. Molhei novamente minhas mãos pela ultima vez e suspirei fundo usando os vestígios de coragem que me restavam para sair daquele banheiro.
Ao abrir a porta para voltar para Damon, uma mão grande e forte me segurou pelo pulso e me puxou até um lado reservado do local.
- Nina... – aquela voz que eu conhecia bem disse “meu nome” presunçosamente enquanto um sorriso sedutor contornava seus lábios. Mason...
- Desculpe, acho que você me confundiu... – disse rapidamente tentando me soltar. Ele não sabia meu nome de verdade então poderia usar a desculpe de que ele havia me confundido com outra pessoa.
- Tenho certeza absoluta que não...
- Desculpe Senhor, eu não sei de quem você está falando, mas eu não sou Nina, agora se me dá licença... – puxei novamente meu braço para mim mas ele o segurou com mais força ainda – O Senhor está me machucando, me solte!
- Sinceramente Nina, vai me dizer que não se lembra de mim? Nós passamos ótimos tempos juntos... – respondeu maliciosamente fazendo meu estomago revirar.
- Me solte, eu não me chamo Nina, o Senhor está me confundindo! – disse rispidamente puxando meu braço novamente.
- Solta ela, Mason! – a voz aveludada do homem que eu conhecia disse rispidamente atrás de nós e Mason me soltou no mesmo instante para olhar ironicamente para Damon. Era só o que me faltava, Damon conhecia Mason?!
- Wow Salvatore, seu nível abaixou ein, de uma psicóloga para uma prostituta, quem diria! – riu debochado e a respiração de Damon acelerou – Nina, me ligue, você ainda tem meu telefone, podemos relembrar os bons tempos, costumávamos a nos divertir juntos... – ele piscou para mim e então passou por nós dois com aquele sorriso cretino nos lábios.
Tudo rodava ao redor de mim, o chão não estava fixo e um pico de adrenalina percorreu meu corpo. Damon estava com a postura rígida ao meu lado e podia ver de relance seu maxilar tensionado. Aquilo não era bom.
- Eu preciso de ar... – disse para o homem ao meu lado e segui em passos largos até a saída do hotel. Tinha consciência de que Damon me seguia, mas não tinha coragem de dizer para ele ficar ou de olhar para ele, eu sentia seu olhar queimar em minhas costas e escutava seus passos firmes durante todo o caminho.
Nós passamos pelo saguão e eu sai do hotel indo até a calçada, no lado mais vazio da rua.
- Elena, pelo amor de Deus, me diga que Mason não era seu cliente... – Damon sibilou furioso me olhando sério. Eu não sabia o que responder, até porque a resposta já estava escrita em minhas expressões, sabia que tinha que falar a verdade sobre Mason, mas temia pela reação de Damon, algo me dizia que ele não iria saber lidar com esse fato – Vamos Elena, me diga, Mason Lockwood era ou não era seu cliente... – ele repetiu rispidamente e eu não consegui conter as lágrimas – Era só o que me faltava... – Damon passou a mão pelos cabelos nervosamente, jogou a cabeça para trás e bufou alto.
- Damon... – disse baixinho chamando sua atenção.
- Você não faz ideia do ódio que eu estou sentindo nesse momento. Se há uma pessoa que eu mais odeio no mundo, essa pessoa é Mason e eu acabei de descobrir que ele era seu cliente!
- Damon, por favor, me escute... Faz muito tempo, mais de um ano, eu não sabia que ia e conhecer, não é a minha culpa, nem sequer sabia que vocês se conheciam... – eu me expliquei baixinho em meio a lágrimas.
- Não me importa quanto tempo faz, pode ter sido há cinco anos, mas você transou com ele, esse é o ponto! – Damon falava alto e furiosamente, ele andava de um lado para o outro devido ao nervosismo enquanto eu estava encolhida e encostada ao muro, chorando baixinho.
- Eu sinto muito...
- Só me responda mais uma coisa... Você gostava? – sua pergunta foi como outra facada cravada com meu peito. Mason, além de ser meu cliente fixo, ele estava incluso naquela minha pequena lista de homens que eu costumava a gostar de transar e isso só piorava minha situação. Eu não sabia mentir para Damon e mesmo se mentisse, ele iria acabar descobrindo a verdade cedo ou tarde e seria três vezes pior para mim. Sem saber o que falar e como falar aquilo para ele, eu desvio meu olhar e abaixo levemente a cabeça enquanto as lágrimas escorriam com mais intensidade – Ótimo... – disse com sarcasmo.
- Eu não acredito que você está bravo por isso Damon, já passou pela sua cabeça que talvez Mason não seja o único cara que você conhece que já foi meu cliente? Eu pensei que você soubesse disso, pense que você estivesse ciente do que eu fazia para ganhar dinheiro. Você mesmo me disse na cozinha de sua casa que iria passar por cima de tudo isso para fazer com que “nós” déssemos certo, não se lembra disso?
- É claro que eu me lembro, mas isso foi antes de descobrir que você dormia com Mason Lockwood. Elena, esse cara fez minha vida um inferno na faculdade, por causa dele eu quase perdi minha esposa, por causa dele eu quase fui preso essa semana e agora eu acabo de descobrir que eu e ele já dormimos com a mesma mulher. Você não está entendendo o ódio que estou sentindo no momento, Elena. Eu não sei se vou saber lidar com isso, além de você ter transado com meu irmão, você foi para cama com meu maior inimigo!
- Eu pensei que já tivéssemos superado a historia com o Stefan...
- Pois é, eu também pensava o mesmo, mas agora vejo que não dá para superar.
- Damon, isso é passado, por favor, vamos esquecer, nada disso faz sentido mais.
- Não dá Elena, não dá.
- Isso sempre vai ficar entre nós, não é? Meu passado, o que eu fui... Sabe, Damon, não tem nada que eu possa fazer para concertar isso, não tem nada que eu possa fazer que vá mudar o fato de eu ter sido uma prostituta e mesmo se tivesse, eu não sei se faria... – Damon virou o rosto para mim um tanto assustado, pude perceber que seus olhos estavam marejados e ele parecia star se controlando o máximo para não chorar – Sabe, a prostituição foi algo péssimo, terrível em minha vida, confesso, mas ela me fez forte, Damon, ela me ensinou a crescer, a enfrentar meus problemas, a me superar, ela me abriu os olhos e me mostrou que o mundo e nem a vida são perfeitos, que existe uma realidade árdua fora do aconchego dos nossos pais, e não tem nada nesse mundo que eu possa fazer que vá mudar o fato de eu ser uma ex garota de programa e se você estivesse realmente disposto a fazer dar certo entre nós, você iria passar por cima disso e tentaria superar esse fato.
- Para mim chega Elena, eu não consigo fazer mais isso, é demais para mim, seu passado é um fardo pesado demais para eu conseguir superar feliz e contente, sorrindo e agindo como se estivesse sabendo lidar com o fato de você ter dormido com meia Nova Iorque. Não dá, simplesmente não dá, o Mason foi o auge de tudo! – suas palavras causavam a mesma dor de como se pequenas navalhas estivessem entrando em minha pele lentamente, porque ele estava fazendo isso comigo?
- Damon, eu acabei de perder nosso bebê, não posso te perder também, não agora...
- Elena eu nem sei se esse bebê era mesmo meu, veja a quantidade de homens que você transou depois de mim – eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo, ele não podia ter dito aquilo. Como eu fui tão idiota a ponto de acreditar que ele aceitaria o bebê? Como eu tinha conseguido ser tão inocente e ingênua em pensar que tudo em minha vida se acertaria e que eu finalmente poderia ser feliz ao lado do homem que eu amava?
- O que você disse? Quer dizer que passou esse tempo todo me enganando que estava tudo bem e que você estava aceitando meu bebê enquanto, na verdade, ainda tinha duvidas de que ele fosse seu filho? Como pode Damon? Eu confiei em ti e pensei que confiasse em mim! Porque não me disse a verdade? Eu iria entender...
- Eu não falei porque não queria te magoar!
- Ah sim, quanta bondade a sua! – disse ironicamente – Sinto em te informar Damon, mas você já me magoou, e muito! Nunca passou pela sua mente que eu fosse descobrir que você estava com duvidas e que seria muito mais doloroso para mim? – ele balançou a cabeça negativamente – Pois é... E está doendo muito saber disso agora – céus, tudo fazia sentido agora, o motivo de Damon não falar comigo sobre minha gravidez e sobre o bebê, a forma que ele havia mudado após descobrir que eu estava grávida e como ele lidou com a perda do bebê – Não vai me dizer que você ficou aliviado por eu ter perdido meu filho...
- Claro que não Elena, claro que não, eu não sou um monstro. É obvio que eu fiquei triste e não falei nada sobre minha duvida porque já estava começando a me acostumar com a hipótese da criança não ser realmente minha.
Não sabia explicar como estava me sentindo naquele momento, meu peito estava angustiado, apertado, dolorido demais, nem uma apunhalada teria causado tanta dor quanto o que acontecera causou. Eu estava decepcionada, Damon havia acabado de conseguir quebrar meu coração em mais pedaços mínimos e o que eu mais desejava naquele momento era que tudo aquilo fosse um sonho. Não podia ser o perdendo, não podia perdê-lo também, eu precisava de Damon mais do que qualquer coisa naquele instante e ficar sem ele seria como perder meu chão, praticamente.
- Olhe só para nós, estamos brigando de novo, é só isso que sabemos fazer; brigar e transar, já percebeu isso, Elena? – Damon disse com um tanto de amargura e sarcasmo – Não dá mais, Elena – se era isso que ele queria então era isso que ele iria ter. Nunca pensei que fosse chegar aquele ponto, aquela dependência que eu sentia por Damon, nunca pensei que fosse amar um homem como eu o amava, mas infelizmente aconteceu e eu teria que superar, eu ia superar. Se ele achava que eu fosse me arrastar pelo perdão dele, ele estava muito enganado, mesmo que minha vida dependesse disso.
- Tudo bem Damon, é isso que você quer? Então é isso que você vai ter porque eu não vou ficar aqui implorando perdão para você, me arrastando por ti, posso ter sido prostituta mas isso não me faz menos orgulhosa. Eu quero que você suma da minha vida e eu vou sumir da sua, nem ouse em pensar em me procurar novamente porque eu não vou te perdoar Damon, ok? Siga sua vida, vá ser feliz, dê o mundo para sua filha, se encha com seus vazios, mas me esqueça... Porque é exatamente isso que eu vou fazer... Eu cansei de sofrer por você, cansei de sofrer por alguém que na primeira oportunidade que tem pisa em mim, na verdade, eu cansei de sofrer, chega de lágrimas e um dia eu vou te mostrar que essa ex prostituta, a mulher que dormiu com meia Nova Iorque, conseguiu vencer sozinha...
Eu sabia que iria me arrepender de ter dito aquilo a ele, sabia que no dia seguinte eu iria me afogar em lágrimas por essa briga e iria acordar arrependida por tudo o que havia dito, mas eu não iria voltar atrás. Estava cansada de me submeter a tudo, mesmo que fosse para o meu próprio bem. Tinha consciência de que iria ser muito difícil superar Damon, praticamente impossível, mas eu iria conseguir, custe o que custasse. Ele suspirou fundo, olhou sério para mim e então disse por fim;
- Sim, é isso que eu quero!
Eu apenas assenti, me virei de costas para ele e sem falar mais nada, sai andando em direção contraria sentindo minhas pernas fraquejarem e meus olhos serem inundados por lágrimas. Eu não tinha forças, não ia conseguir, estava doendo demais. Suas palavras, suas grosserias, indiferenças, tudo... Nossos momentos juntos, a primeira vez que nos vimos, a primeira vez que transamos, quando eu realmente me entreguei de corpo e alma para ele, nossas promessas na cozinha de sua casa, a minha felicidade por eu ter descoberto que estava esperando um bebê dele, ele cuidando de mim, os momentos que ele me mimava... Por quê? Porque tinha que acabar? Não conseguia acreditar que tudo aquilo estava acabado... Eu só queria correr para os seus braços, me aconchegar em seu peito, deixar que o calor de seu corpo me acolhesse e ficar naquela posição até que tudo estivesse bem novamente...
Isso não podia estar acontecendo...
Virei-me de frente novamente e Damon caminhava no outro sentido, com as mãos na cabeça, esperei uns instantes na esperança de que ele fizesse o mesmo que eu, mas ele não fez e com um suspiro magoado, eu retomo meu caminho até a rua principal. Para minha sorte, havia levado uma bolsa carteira com dinheiro e documentos para alguma eventualidade, e consegui pegar um táxi até a casa da pessoa que eu mais precisava naquele momento e que sabia que não iria me dar as costas.
Indiquei o endereço de Marcos para o taxista e rapidamente ele me levou até o apartamento de meu amigo. Não iria recorrer a Caroline como de costume, não dessa vez, ela e Klaus deveriam estar juntos naquela hora e eu não queria acabar com o momento então fui para a casa de Marcos, que me fazia tão bem quanto Caroline.
Durante o caminho até a casa de Marquinhos, eu chorei descontroladamente, soluçando baixinho no banco traseiro do carro. Não pude deixar de notar que o taxista olhava para mim de relance pelo retrovisor e ele parecia um tanto assustado, mas não era para menos, afinal, tinha uma mulher com um vestido de gala em seu carro, chorando aos prantos por volta da uma da madrugada de uma sexta-feira. Esforcei-me ao máximo para parar de chorar ou ao menos me controlar um pouco, mas as lagrimas e soluços eram involuntários e pareciam ter vida própria. Em minha mente tudo passava como um filme, desde o inicio até o fim, desde quando eu dançara para ele a primeira vez, que nossos olhares se encontraram na boate até o árduo adeus...
“Adeus” não podia ter sido um adeus, um “até logo”, talvez, mas um adeus era forte demais, decisivo demais... Eu estava me contradizendo, mesmo que eu havia dito a ele que iria esquecê-lo e que não iria perdoá-lo, eu não queria esquecê-lo ou perdoá-lo... Era uma confusão de sentimentos e um embolado de sensações que formavam um enorme nó em minha garganta e em um buraco dolorido em meu peito que eram desfeitos em lágrimas que banhavam meu rosto e borravam minha maquiagem...
Agradeci mentalmente quando o carro parou em frente ao prédio de Marcos e após ter pago a corrida ao motorista, desci rapidamente seguindo até o saguão do mesmo. Como o porteiro já me conhecia e viu meu estado, me deixou entrar sem que precisasse ser anunciada e com isso fui o mais rápido possível até o andar e a porta da casa de meu amigo. Toquei a campainha uma vez e esperei ele vir atender. Marcos abriu a porta e se assustou ao me ver aquela hora e naquelas condições na porta de sua casa.
- Elena, o que houve mulher?
- Eu preciso muito de ti, Marquinhos... – disse baixinho em meio a soluços e joguei meus braços ao redor de meu amigo, o abraçando com força e sendo aninhada contra seu peitoral largo com carinho e acolhedoramente.
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