Sobrevivência do mais forte.

4 Capítulo 4 - Inevitável.


E lá estava ele, do outro lado do campo e meio segundo depois, aqui estava ele. Me recebendo com um dos socos mais doidos que eu já havia recebido na vida. O punho coberto por uma luva de couro de cão infernal, que eu conhecia muito bem, acertou em cheio o lado esquerdo do meu rosto, me tirando do chão e me fazendo voar, no mínimo 2 metros.
–ISSO, É PRA APRENDER A AVISAR E NÃO SIMPLESMENTE APARECER SORRINDO, ACHANDO QUE TA ARRASANDO. — Ele gritou com tom irônico na voz.
Me levantei e massageei meu maxilar, percebi todos olhando e a maioria dando risada. Olhei para o conselheiro e mostrei o meu dedo do meio.
–E o foda-se? Já achou? – Comecei com um meio sorriso e ele terminou explodindo em gargalhadas.

Eduardo Viana, o Conselheiro do 13° chalé, o Conselheiro de Hades. Entramos na mesma época no acampamento, porém, ele tinha 15 anos e eu 12. Na época o conselheiro de Hades, era Nico Di Angelo, tinha 17 anos e era realmente assustador. Du, com seus 15 anos, era encorpado, só que tinha muitos quilos a mais, era baixinho, afrodescendente e tinha os dentes todos tortos e alguns pelinhos cresciam ao redor do seu queixo. Esses anos todos que passaram, Nico Di Angelo simplesmente sumiu. Largando tudo, inclusive nosso chalé. O chalé de Hades, sempre se resumiu em 13 membros, era o máximo e nessa época, éramos em 5 com o sumiço de Di Angelo. Du então tomou as rédeas por ser o mais velho e mudou seu jeito de viver. Hoje em dia, Du já devia ter 20 anos e mudará muito. Ele emagreceu, cortou o cabelo em um estilo militar, agora tinha em média 1,80cm, tendo um físico forte e encorpado, seus poucos pelos se tornaram em uma barba meio grossa e preta, os dentes haviam sido arrumados por causa do aparelho que ele usou dos 15 aos 17 anos e vestia a roupa do conselho de Hades, o que significava que daqui a pouco haveria reunião com os conselheiros. Estava vestindo um sobretudo preto, um coturno militar preto, luvas de couro de cão infernal escuras, uma calça de sarja preta, o capuz do sobretudo escondia metade de seu rosto e ele usava uma máscara, uma máscara de caveira. E em seu pulso esquerdo, havia a mesma pulseira que jazia no meu pulso direito, era algo nosso, uma ligação nossa. Ao lado de sua cintura, podia-se ver uma bainha que estava escrito ‘’ Cabine 13’’ em Grego, porém como membro do chalé, minha bainha é revestida em platina, enquanto a dele é revestida em ouro. E embainhada, estava a lendária espada do C13, ‘’ Ultimum Meridiem’’, significa em latim, ‘’ Último Brilho’’. A espada de 90 cm de puro ferro estígio com entalhes brancos e o símbolo da chave dos portões do Submundo ao longo de sua lâmina, 15 cm de cabo revestido em ouro e rubis do Mundo Inferior, com uma pedra negra com o formato de um losango que foi retirada do fundo do Rio Estige, permite o usuário dobrar as sombras conforme sua vontade, viajar por elas sem gastar energia vital e resumindo tudo, aumentar 10 vezes o poder de um filho de Hades, foi um presente do próprio papai Hades para Nico Di Angelo no final da grande guerra, ficou entendido que a espada passaria de conselheiro a conselheiro. Em suas costas havia o mesmo símbolo de sua lâmina em branco, escrito embaixo do mesmo ‘’ Chalé 13 – Hades’’ em grego, nos ombros haviam detalhes pretos metálicos.
Em volta de nós havia um círculo enorme de campistas novatos, tentando entender o que estava acontecendo ali, porém a maioria dos veteranos gritava ‘’ Relaxa galera, é assim mesmo, sempre foi.’’, tirando a atenção de nós e relaxando os novatos confusos com tudo aquilo. No segundo seguinte fui recebido por um dos abraços mais calorosos da minha vida, um abraço que dizia tudo sem ter necessidade de emitir qualquer som, um abraço que matava a saudade e resumia todos os sentimentos em um simples ato.
–Ta tudo bem, carinha? – Ele perguntou com a voz carinhosa.
–Estaria melhor se eu não tivesse sido recebido com um soco que me tirou do chão. – Respondi em um tom irônico.
–Que isso, é para seu bem, ver se consigo tirar essa sua cara de indiferença e metido. – Disse rindo.
Nos soltamos e fiquei olhando para os olhos escuros e seguros. Eu e Du tivemos uma história complicada, cheia de altos e baixos, porém nunca saindo um do lado do outro. Éramos irmãos de combate, sempre juntos. Esse elo começou quando eu cheguei no acampamento, Chris, o sátiro que me trouxe, logo teve de voltar para outra missão e tinha um pouco de medo de mim, eu era o 2° filho de Hades que havia surgido pós a Grande Guerra. Du era o primeiro e estava mais perdido do que eu quando cheguei, Nico mal ficava no acampamento, pois estava sempre fazendo algo lá fora. O garoto gordinho ficava sempre escondido no chalé e nunca saia, recebia comida de Quíron no chalé mesmo e raramente era visto. Ele havia vindo do Norte da África e chegou alguns meses depois da derrota de Cronos. Quando cheguei e disse que era filho de Hades como ele, começamos a ficar juntos e eu fui aos poucos tirando ele da escuridão do chalé, fomos nos tornando próximos e ele começou a treinar comigo, me chamava de ‘’ Lelo’’ porque dizia que haviam muitos Léo’s no mundo e eu não era igual a nenhum deles. Depois de alguns meses de treinamento, fomos mandados para New Jersey em busca de um sátiro que havia sumido com um semideus. Du usava uma machadinha e um escudo circular, eu usava um arco e duas adagas, eram armas simples e tínhamos apenas uma semana, se não seriamos dados como desaparecidos e enviariam outro grupo para essa missão. Foi fácil chegar até New Jersey, era perto de New York e fomos de ônibus e táxi até o destino, não conseguíamos nos transportar nas sombras com facilidade e nem cobrir uma longa distância sem acabar desmaiando, procuramos as duas no local que o sátiro havia dito antes de sumir por uma mensagem de íris, era um galpão abandonado que havia escrito na fachada ‘’ Empório de Anões de Jardim da Tia Eme’’ , e tinham algumas estátuas de concreto, outras quebradas e teias de aranhas em torno de algumas. O ambiente me fazia lembrar algo, talvez alguma história que o ‘’ grande Percy Jackson’’ contava, mas nunca fui de ficar escutando elas, não tinha paciência. Du logo falou o que era tudo aquilo. ‘’ Cara, acho que viemos parar na casa da Medusa, antes de Percy Jackson derrota-la.’’ Ele zuniu, fazendo eu ter um arrepio. Um segundo depois uma flecha passou fazendo um corte na minha bochecha, eu tive tempo de gritar para ele se abaixar e erguer o escudo. Flechas cortavam o ar, não mirando em nós mas simplesmente atirando em qualquer direção, porém ainda sim eram extremamente perigosas, eu fiquei atrás de Du enquanto ele erguia o escudo e eu tentava ver de onde vinham. Elas vinham de todas as direções e então eu tive uma ideia, as flechas tinham uma espécie de padrão, elas eram atiradas de todas as direções, porém em padrão anti-horário, o que quer que estivesse atirando corria em círculos mirando e atirando para o meio, isso explicaria a velocidade e a falta de mira. Esperei o padrão se repetir e Du parecendo entender o plano mentalmente, ergueu um pouco o escudo me dando espaço para atirar, segundos antes de outra flecha ser atirada da próxima direção, tirei uma flecha e a encaixei no arco, puxei a mesma e disparei, um gemido de dor e algo caindo silenciou os zunidos das flechas e levantamos para ver o que era. Saindo do labirinto de estatuas e chegando ao que estava atirando em nós, vimos uma espécia de trilha que circulava o labirinto de estatuas, deveria ser assim que ele corria com facilidade, olhamos para o chão e vimos um corpo deitado no chão. Era humano e vestia uma camisa branca que tinha uma mancha vermelha na região do abdômen aonde a flecha o furou, usava calça moletom azul escura e botas. Deveria ter em média 17 ou 18 anos, negro, alto, cabelo raspado, ao seu lado no chão havia um arco de madeira reforçada, com flechas de madeira e com ponta de pedras afiadas. Seu rosto era tomado por uma expressão sofrida e dura, antes de a luz sumir de seus olhos ele disse uma frase: ‘’ Um dia, vocês vão perceber, o mundo de agora não vai mais ter espaço para todos os semideuses e vamos ter de lutar um com os outros pela sobrevivência. Guarde essas palavras.’’ E soltou um último suspiro aliviado que silenciou o garoto. Eu estava atordoado, já havia matado alguns monstros, mas eles sempre viravam pó e era o que deveria ser feito, deveriam morrer. Agora matar algo humano e ver o sangue escorrendo pelo chão, criando uma poça envolta do corpo imóvel, era realmente atormentador, mas não me senti mal, a morte era uma amiga afinal de contas. Depois da cena, Du não havia mostrado sentimentos de dó ou pena pelo morto e só disse ‘’ Por que porra, esse louco estava tentando nos matar?’’ Intrigado com o acontecido, peguei o pelo braço e puxei para verificarmos o local em busca dos perdidos ou de qualquer pista, entramos em uma porta que tinha uma mesa redonda no meio e no canto escuro da pequena sala, havia outra porta. Quando entramos nessa porta, eu não acreditei no que via, Du deixou a machadinha e o escudo cair e eu cai de joelhos no chão. Na parede que ficava logo em frente estava escrito com sangue ‘’ Um mundo aonde só os mais fortes podem viver.’’ e no chão, dois corpos, um com pequenos chifres e pernas de bode e o outro com um colete e shorts jeans ensanguentados e sem vida. Podia dizer isso só pelo cheiro de sangue e carne podre que emanava dos corpos, mas consegui dizer por não sentir a vida nos dois, apenas sentir a morte e a escuridão em volta dos mesmo. 10 minutos depois do choque eu comecei a chorar e Du me consolou, mesmo estando em choque também. Alguns minutos depois, pegamos folhas secas nas proximidades do galpão abandonado, fomos até a avenida que tínhamos descido do ônibus e entramos no posto de gasolina mais próximo, Du parecia ser mais velho e disse que o carro havia morrido e compramos gasolina. Colocamos fogo no galpão e nos preparamos para voltar ao acampamento, no caminho encontramos um vendedor de pulseiras que ficava próximo de um morro que era possível ver o pinheiro de Thalia e eu comprei duas pulseiras para nós. Elas tinham as cores do Reggae (Verde, amarelo e vermelho) em fileiras horizontais e amarrei uma no meu pulso direito, a outra amarrei o pulso esquerdo dele e lá, naquele dia quente com poucas nuvens no céu, firmamos a nossa alma um com o outro. Desde então aconteceram muitas coisas, muitas provas de amizade, muitas lutas um com o outro por conta de orgulho ou de qualquer besteira. Quando eu fiz 16 anos comecei a fumar por conta do stress da morte da minha mãe, ele começou também dizendo uma frase que não me deixaria tão cedo: ‘’ Se você morrer mais cedo, o que vou ficar fazendo aqui?’’. Quando eu fui embora sem avisar, ele foi atrás de mim e quase tombou o taxi que eu e a Ju estávamos, depois de eu nós discutirmos e eu dizer que iria voltar ele relaxou e me deixou ir. E aqui estava eu agora.

Depois do olhar firme baixar ele disse:

–Como está o pessoal? – Perguntei para dar início da conversa.
–Todos que você conhece foram mandados em missões por diversas partes do mundo, tem algo acontecendo, algo sobre a nossa primeira missão. – Um calafrio tomou conta do meu corpo quando ele terminou a frase.

–Nossa primeira missão? Aquilo aconteceu de novo? – Perguntei espantado, relembrando das cenas daquele dia.
–Você perdeu muita coisa, Lelo. Aconteceram mais 2 casos parecidos, um com uma campista de 16 anos que saiu para verificar as Casas-de-abrigo. – Ele disse com um rosto endurecido e cansado com os fatos que estavam ocorrendo.
–Pelos deuses cara... me encontra no anfiteatro no final da reunião? Lutar um pouco, como os velhos tempos. – Tentei mudar o assunto, era realmente algo terrível esses assassinatos de semideuses. Dei um leve sorriso, ele retribuiu e quando eu pisquei, em seu lugar, só havia vestígios de alguém que sumiu nas sombras.

Olhei para o lado procurando Dan, mas ele já devia ter ido se arrumar para a reunião. Ju estava conversando com os sentinelas, fofocando e falando dos novatos. Deixei ela lá em cima conversando e reparei que haviam alguns olhares curiosos e novos me investigando, simplesmente os ignorei e segui em direção ao meu chalé. Passei pelo lago aonde as atividades aquáticas aconteciam, eu conseguia ver vários casais nas canoas tendo um pouco de privacidade, algumas ninfas aquáticas ficavam nas beiradas fofocando, fiquei olhando por alguns segundos um garoto que estava se declarando de pé para sua amada, ter a pequena canoa virada por outros dois campistas, que deviam ser amigos do casal. Chegando na estrutura de madeira escura com portas estilo velho oeste, uma caveira em cima das mesmas com mais o menos 2 metros e um rubi no meio de sua testa, uma janela em cada lado das portas e duas colunas de madeiras gravadas com símbolos dos mortos e de joias, olhei para o chalé por um tempo e atravessei as portas. Lá dentro tinha capacidade para 13 pessoas, dois banheiros enormes, uma cama de casal e outras 11 de solteiro, na minha cama, estava meu escudo de ferro estígio que pintado no meio jazia a marca da chave dos Portões. Estava também minha armadura de combate, na parede preso em uma prateleira meu arco escuro, feito de ébano e com a corda forjada pelos próprios escravos do submundo e minha aljava estava ao lado, presa pela corda na prateleira com 24 flechas de ébano dentro. Eu estava relaxado demais e pensando nos bons-momentos pra estar prestando atenção ao meu redor, mesmo assim o mínimo barulho de ferro cortando o ar foi o bastante para eu me ligar a realidade e desviar com um salto para a esquerda de um corte escuro que passou poucos centímetros das minhas costas. Me virei com a espada já em mãos, porém olhei para o rosto e perdi todas as minhas forças no mesmo instante. Um rosto cheio de raiva e rancor me olhava, o cabelo escuro como o meu só que maior e desgrenhado, a pele um pouco mais clara que a minha, parecia ter 14 anos, mas tinha em média 1,74 cm e corpulento. Estava segurando uma foice de 1,60 de cabo e 70 cm de lâmina escura e curvada, vestia uma camisa preta e uma calça jeans cinza. Tinha olhos um pouco mais claros que os meus e tinha o mesmo olhar, porém caiam lágrimas dos mesmo.
–Você... de novo você volta como se nada tivesse acontecido, de novo você me larga sozinho e volta já preparando novas desculpas. Eu realmente valho alguma coisa pra você? – Disse o garoto mais novo soluçando.
Eu havia perdido meu chão, não esperava encontrar ele tão cedo. Não conseguia dizer nada, apenas tinha vontade de me esconder. Meu maior medo não era algo que podia ser visto ou material, meu maior medo era decepcionar alguém que eu amo, e eu acabará de fazer isso, por tanto tempo tentei evitar o inevitável.

Era Nicholas Veronezi. Meu irmão mais novo.