Sobreviva Ao Seu Destino
15 Primeiro ato de sobrevivência.
Notas iniciais
Naquela noite, o grupo do jovem Richard, de doze anos, não teve o que falar — ou não sabiam como reagir diante da historia dele; afinal, mal o conheciam para expressar-se de forma certa. A narração dele apenas deixou mais claro que não era exclusivo de ninguém ter historias ruins antes do banimento.
Mesmo cansados, alguns não conseguiram alcançar o sono desejado e despertavam facilmente enquanto a noite avançava. Sean, em um momento que ficou vigiando qualquer movimentação estranha na mata à volta dele, viu Judie arrastar a capa, que era dele e imensamente grande para ela, para se juntar a ele, próximo da luz da fogueira que ardia na madrugada. Assim que ela se sentou com a expressão sonolenta começou a desamarrar o calçado sujo de folhas e terra úmida.
—Você não deve fazer isso. — ele avisou e ela parou o olhando. —A não ser que prefira correr descalça em um lugar como esse, se for preciso.
Ela compreendeu e amarrou o laço novamente, ele apenas assentiu voltando a observar os outros e estendendo as mãos frias em direção ao fogo. Frederico era um dos que ele percebeu que não ficava muito tempo quieto ou dormindo, principalmente de noite, sempre que acordava dava uma olhada em volta para ter certeza de que o pessoal estava por perto. Ele e Piper, que dormia perto de Alice, eram os mais próximos do ruivo e da claridade da fogueira. E quando Sean ia verificar onde estavam Pietra, Aurora e Louis, sentiu uma mão morna no rosto e afastou-a rapidamente encarando Judie, sem entendê-la, e a menina sorriu.
—Você esta com frio. —Ela afirmou após sentir a mão dele. E Judie foi rápida para abrir a capa e cobri-lo, se abrigando logo do lado dele, antes de qualquer resposta contra.
Sean preferiu não comentar nada, nem mesmo quando a criança pendeu para o colo dele ao cair no sono. Minutos se passaram depois, até que ele viu Pietra surgir como um vulto de algum lugar das sombras, se aproximando da fogueira e o olhando ainda de pé.
—Sabe que você podem ter problemas com ela. —a morena disse calma e inexpressiva, com uma voz pouca ouvida quando estavam em grupo. — Mas também acho que você não teria motivos se não a tivesse, sendo ela um problema ou não... É como se sua esperança estivesse personificada, a sua razão em pessoa para que fique vivo e continue. Todos tem que ter um bom motivo em um lugar que não vê esperança.
—E você teve bastante tempo para analisar e pensar tudo isso. —ele respondeu com cautela e ela deu de ombros sem se importar com a opinião dele.
—Já está acordado há muito tempo. Eu vigio agora. — Pietra se sentou perto da fogueira, encerrando, assim, o assunto. E Sean não era do tipo de insistir e a conversa não lhe era boa, então se calou encarando a garota.
[///]
Diante da esfera feita de aros, Ross e os outros a observaram antes de fazer qualquer coisa, ou até que o suposto metal esfriasse. O equipamento era a ajuda prometida pela Colônia, e o grupo deles teve até boa sorte de serem agraciado com uma mira quase perfeitas dos canhões sobre a muralha — havia ajudado o rastro de fumaça e os cálculos dos matemáticos disponíveis para isso. Mas, aparentemente, aquilo podia ser também uma boa forma de partir para uma melhor.
Yuki foi o primeiro a se mover, dando a volta na esfera parcialmente enterrada, e do outro lado parou, deixando um silencio que logo foi cortado pelo som de seus chutes contra o metal, a seguir ouviram um som veloz e dois aros se abriram, tornando-se quase uma barra de ferro reta fincada no solo. Nisso Rose, Ross e Charlotte se aproximaram para ver o que ele estava fazendo, Yuki tinha se afastado para ver melhor o espaço que abriu entre os diversos aros e observava o interior sombrio da esfera. Assim que notou os outros puxou a tocha que estava com Ross e apontou para a abertura.
—O que tem aí? — O mais velho e moreno perguntou, tirando parte da franja dos olhos, mas não adiantava, pois ninguém sabia a resposta. Então ele deu uma empurrada no ombro de Charli, que estava na frente dele: — Vai lá.
A menor virou-se para ele:
—Porque eu? Vai você!
—Um: — disse com o tom arrogante — eu não quero me abaixar e dois: a abertura é quase do seu tamanho, da para você passar de pé. Agora vai logo.
Yuki sorriu daquilo. Ao contrario da menina, que encarou ferozmente Ross, que mantinha no olhar um orgulho sem fundamento. Ela apenas se ajoelhou no chão diante da abertura e vasculhou a escuridão interna esticando o braço. Uns segundos depois puxou um pano preto e fino, que era pesado, e ela arrastou o objeto até a luz das tochas com Yuki e Rose. Ross se abaixou curioso ao ouvir o som de metal, mas ao tocar no zíper Charlotte lhe deu um tapa forte e ágil na mão, dizendo:
—Três: não vai querer sem machucar. Pode esperar!
Ela abriu o pacote depois que ele se afastou, e logo as lâminas refletiram a luz laranja das tochas. Duas espadas, um cinto com uma coleção de quinze facas de lançamento, duas adagas com bainha, uma machado de haste longa, dois machadinhos menores e uma cimitarra com um lado na lâmina lisa e afiada e o lado curvado cheio de dentes como uma serra. Todas as armas feitas de puro metal.
—Os mais jovens escolhem primeiro! —Rose falou se juntando a menina menor para escolher uma das armas.
Entretanto, Charlotte não era tão fã de armas e apenas puxou o cinto de facas para si, para ter algo, enquanto os dois garotos levantam, cada um, uma espada.
—Não podemos levar tudo. É muito peso. — ela informou os outros e Rose foi a única que concordou.
—Não vamos levar tudo. Vamos levar o que conseguir. —Ross respondeu ainda testando o peso do machado maior.
Rose acabou ficando com a cimitarra, Yuki a espada e um machado pequeno, Ross com uma espada, machado longo e uma adaga e todo o resto, e Charlotte com as facas.
Depois ela voltou a verificar a esfera, encontrando uma mochila com suplementos enlatados, um recipiente maior para guardar agua e uma segunda mochila de armas, mas esta tinha um arco e flechas e duas bestas pequenas também com munições.
Nessa noite, de volta á fogueira, Rose refletiu se não deviam deixar alguma coisa na esfera, para o caso de alguém encontra-la e precisar de alguma das coisas, e falou isso para Charlotte, que em primeiro momento ficou em silencio e depois concordou. Certamente podia haver outros precisando de uma arma e que viram a esfera com esperança de poderem encontrar o auxílio. Rose e Charli separaram algumas das coisas, duas latas de carboidratos, as adagas e um machadinho. Ross percebeu e perguntou o que elas estavam fazendo ao separar aquilo em uma das bolsas pretas.
—Para ajudar os outros que encontrarem a esfera de auxilio colônia mais tarde. É muita coisa para todos nós. — Rose respondeu fechando a mochila.
—Não, os outros que se virem como podem! Isso é nosso!
—Cadê sua compaixão garoto?- Rose o encarou com os olhos azuis.
–—Pense meu velho. – Charlotte falou levemente sarcástica. — Se fosse você procurando pela esfera que viu cair, ia agradecer se ainda tivesse alguma coisa para usar quando a encontrasse.
Ross pensou, com a expressão que daria um bom argumento negando-a, mas só conseguiu dizer:
—Nós podemos precisar de toda essa comida.
—E outros também. —Rose argumentou com um sorriso audacioso, sabendo que estavam ganhando a discussão. —Nós temos mais que o suficiente para algumas semanas, não vamos morrer de fome; enquanto outros podem, se não encontrarem nada aqui.
Ele deixou o assunto morrer, perturbado por não conseguir bons argumentos, deixando que o lado “bonzinho” dele dissesse que era a coisa certa a fazer. Apesar dos conceitos de que para sobreviver tinha que aproveitar completamente as oportunidades pesarem, pois deixar comida e armas para trás, não era aproveitar a oportunidade por completo.
[///]
Cheryl estava próxima de um dos seres humanoides, que segurava e vigiava o cavalo mutante. Envolta de sua cintura, na altura do cotovelo, uma corda artesanal a prendia apertadamente em duas voltas, as mãos e pés também presos com cordas mais finas, garantindo nenhuma chance de escapar ou pegar a faca escondida.
Logo duas das cinco criaturas bípedes que vagavam por ali, esses mais baixos do que o primeiro que Cheryl viu, se aproximaram de Henry, Suzie e Rubens ainda presos na rede em uma área escurecida pela noite. Um deles apenas parou segurando seu martelo e assistiu o outro ir mexer na rede.
Se não fosse perturbador não saber o que eles queriam, seria engraçado ver Henry ser posto de pé e ser segurado por apenas uma das mãos grandes, ossudas e pálidas da criatura depositada sobre seu ombro esquerdo, e por mais que o rapaz tentasse se livrar daqueles dedos fincados em sua pele para que não fugisse, a criatura continuava agindo como se desconhecesse suas tentativas de fuga ao puxar a rede que Suzie arrastava para longe deles. Então aquele que carregava o martelo resolveu ajudar, segurando os braços de Henry e o amarrando no mesmo esquema de Cheryl. Sem a mão pesando sobre seus ombros, Henry exclamou alguns apelidos chulos para os inimigos e depois ficou quieto, observando que Cheryl estava bem e Tae estava sendo carregado no ombro do mais alto do grupo de cinco humanoides, o que dava uma alivio por saber que não era o único. E ele também foi posto sobre o ombro daquele que o amarrou — a pancada no abdômen sobre o ombro frio, firme e desconfortável, tirando o ar rapidamente.
Suzanne foi a próxima retirada do meio da rede. E enquanto a loira de quinze anos era posta de pé, ouviu comentários entre os dois seres e um gesto indicando a sua pouca altura, mas não demorou em ser envolvida em cordas.
Por fim o Humanoide puxou a rede quase vazia e não ouve reação nela, então puxou Rubens do meio das tramas de cordas de cipós como conseguiu. Segurando-o por um calcanhar o levantou do chão, estendendo o braço até onde podia no alto. O corpo inerte esta empalado com uma das flechas bem no peito, o sangue vermelho escorria e pingava enquanto os ser o avaliava como se fosse uma pedaço de carne de açougue.
Então o mais alto do grupo soltou uma fala chamando a atenção dos outros, e aparentemente aquele era o líder, pois foi obedecido. Cheryl posta no ombro de um que não levava nada, Suzie foi pega por aquele que carregava também o corpo de Rubens, Tae estava com o líder dos cinco, Henry com aquele que tinha um martelo em mão e o quinto arrastava o cavalo capturado, que apesar de resistir, dando passos para trás, era arrastado para o meio da floresta.
...
O lugar em que chegaram momentos depois era diante de um paredão rochoso, cheio de musgo e hera, que subia mais de vinte metros acima e na base havia a entrada comprida de uma caverna, com um bom perímetro a frente de área limpa e iluminada por tochas de luz gasosa e branca, que batia pouco acima da cintura dos humanoides. Tudo estava vazio e silencioso, apenas os passos e som do animal capturado eram ouvidos.
—Que lugar vazio. Já vi casa de gente velha mais cheia que esse lugar — comentou Henry, enquanto eram carregados além da entrada da caverna.
—Eles podem não serem muitos. —respondeu Cheryl prestando atenção no novo ambiente e em possíveis rotas de fugas.
—Mesmo assim, eles já são o dobro de nós. —Engraçou-se o rapaz, rindo do que disse ao se referir da altura no assunto de quantidade.
E um crack sob os pés dos carregadores o fez acabar com o sorriso:
—Aquilo... era o crânio de alguém?!
—Acho que sim.
—Eles vão nos comer?!
Depois disso, Henry foi jogado para o chão, caindo sobre pontas de ossos e sentindo a dor dos pequenos cortes se espalharem. Aquele que o soltou puxou uma corda que sumia para a escuridão na copa de uma das arvores extremamente altas daquele ambiente macabro: com restos de ossos espalhados, sangue seco sobre a terra batida e couros estirados, tudo cercado por ferramentas de dissecação. Logo um tipo de gaiola de galhos e cordas surgiu descendo até a altura do peito do que estava com Tae, este abriu uma portinhola e jogou o rapaz desmaiado lá dentro, depois foi a vez de Cheryl e por fim Henry. A prisão dos três tinha espaço suficiente, mas não podia encostar-se às paredes laterais ou no teto, pois os galhos destes lados eram perigosamente espinhosos.
Suzie os olhou assustada, pois foi levada para um troco do outro lado deles onde a deixaram prensa. Logo ao lado dela havia um cercado de grossos galhos e alto, onde os humanoides soltaram a criatura quadrupede capturada; e lá dentro já havia mais dois ou três outros animais assustados. Depois disso os seres que o caçaram foram para a entrada da caverna e sumiram no seu interior.
Após um minuto Cheryl colocou-se em movimento:
—Henry, me ajuda a pegar a faca. —E ela engatinhou até perto dele.
As amarras estavam muito bem presas para ela conseguir pegar a lamina, Tae ainda estava desacordado durante aquela madrugada e só restava uma pessoa ali.
—Onde está?
—Na parte de trás da minha calça.
O rapaz sorriu erguendo as sobrancelhas e com um sorriso incontido no canto da boca, mas ela estava séria.
—Não quero que esse tipo de aproximação perturbe o nosso relacionamento. Sabe, não quero te apressar para nad-
—Cala a boca e anda logo! —falou ela séria.
—Nossa. Não dá nem para fingir um clima?
—Não. No momento quero é me livrar dessas cordas e sair daqui antes que resolvam fazer um lanche.
O rapaz obedeceu, pois, para ele, talvez fosse prioridade se livrar das cordas que pinicavam. E foi uma situação estranha para Tae acordar confuso e assistir, mas depois que viu a faca compreendeu melhor o que estava acontecendo. Henry libertou Cheryl e então os dois notaram que ele tinha recobrado consciência e a garota explicou o que houve e onde estavam rapidamente.
Eles estavam soltos, mas ainda presos na gaiola que ficava dois metros acima do chão e sem nenhuma coisa além de uma faca. Tae e Cheryl tentaram cortar a corda que trancava a portinhola, mas os espinhos agrediram suas mãos e a corda tinha um tipo de cera que a deixava resistente ao fio da faca, assim como todas as outras que amarrava as juntas da cela. Depois de tentarem tudo o que podiam, Tae começou a combinar um plano para quando abrissem a cela novamente, e foi nesse momento da alta madrugada que ouviram um som de galho se partindo vindo dos arbustos bem avantajados da floresta atrás da arvore no qual a gaiola estava presa.
—Ótimo. Ou viramos refeição assada dos humanoides amanhã ou somos destroçados por alguma criatura malandra agora. —Henry comentou afetado pelo cansaço do dia de caminhada e a noite se estendendo sem que ele conseguisse dormir.
E nas sombras, sendo sorrateiro entre os galhos do arbusto, um par de olhos amarelos e leitosos refletiu a luz branca de uma das tochas de gás do espaço agorento de tapete de ossos e manchas de sangue secas.

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