Sobre os 19 anos depois
23 Sala Precisa
Notas iniciais
POV Harry
O retorno a Hogwarts foi bem diferente do que imaginei. Apesar de todas as perdas, o lugar não ostentava um ambiente pesado ou desconfortável, ao contrário, ele parecia estranhamente leve. Assim que chegamos ao salão principal, na noite do dia 1 de setembro, a primeira imagem que vimos foi a professora Minerva na cadeira central, indicando que era a mais nova diretora.
Assim que Rony, Hermione e eu entramos no salão fomos saudados por nossos colegas e alunos de outras casas. Eu apenas agradeci com um sorriso e ainda segurando a mão de Gina fui me sentar à mesa da Grifinória.
—Da pra parar de ser tão metido? — Ouvi Hermione perguntando para o namorado assim que dois se sentaram à nossa frente.
—Qual o problema? Somos estrelas agora. — Foi a resposta que ele deu e fez Mione revirar os olhos incrédula, enquanto Gina e eu ríamos.
Após o discurso de inicio do ano letivo — feito por uma voz feminina dessa vez — o chapéu seletor selecionou os novos alunos para suas respectivas casas e o banquete foi servido. Rony devorou tudo, como sempre, e Hermione o repreendeu, como sempre. Pelo menos para mim, isso indicava que esse ano seria o mais normal possível. E era exatamente o que eu esperava.
Após o jantar Rony e Mione saíram correndo em direção à entrada do salão para guiar os alunos do primeiro ano. Hermione era delicada nessa função, enquanto Ronald agarra a gola da camisa dos que se perdiam ou faziam alguma gracinha. Minha namorada e eu observamos rindo enquanto ele puxava uma garotinha perdida pelo braço e ela o olhava com cara de susto.
—Ele não leva muito jeito, não é? — Perguntou rindo e ainda olhando para o irmão.
—Nem um pouco. — Concordei rindo também e abraçando-a pela cintura. — Está feliz por ter voltado?
—Claro! Ainda mais agora que eu vou ficar super popular porque sou a namorada do menino que sobreviveu duas vezes. Não podia estar mais feliz.
Eu ri da sua frase e apoiei meu rosto em seu ombro.
—Também estou feliz. Hogwarts foi meu primeiro lar, eu precisava me despedir dele decentemente.
—Mas você sabe que terá um lar de verdade quando sair daqui, não sabe? — Falou em tom meigo acariciando meus cabelos.
—Sei. E não vejo a hora. — Dei um beijo em sua bochecha quando terminei de falar.
—Eu também não. — Concordou comigo e girou no banco, ficando de frente para mim. — Mas enquanto isso não acontece você me deve uma visita à Sala Precisa. — Finalizou com uma piscadinha e rindo pra mim.
—Eu nunca me esqueceria disso. — Ri também e grudei meus lábios no dela em um selinho demorado.
—Ora, ora Potter. Ainda não se cansou da namoradinha pobre? — A voz irritante do Malfoy apareceu de repente, acabando com nosso momento.
Gina virou-se desconfortável e fixou seu olhar na direção oposta de onde ele estava e eu continuei abraçando-a enquanto respondia.
—Eu achei que o lugar de sonserinos traidores e solitários era do outro lado do salão, Malfoy. — Ele ficou sem reação a princípio e eu aproveitei. — Então se nos dá licença.
Aproveitei enquanto estava perplexo e saí rapidamente do salão com Gina ao meu lado.
—Você sempre vai brigar com o Malfoy? — Me perguntou enquanto passávamos pelo buraco do retrato.
—Todas as vezes que ele pensar em insultar você, sim. — Respondi obviamente.
Ela apenas deu de ombros e entrou na sala comunal. Como os alunos do primeiro ano normalmente seguiam direto para seus dormitórios, havia poucos grupos de pessoas nos sofás disponíveis. Perto da lareira avistamos Ron e Mione sentados em um sofá de três lugares e caminhamos em direção a eles. Como havia apenas um lugar disponível eu me sentei e Gi sentou-se no meu colo.
—Tomara que a professora Minerva entre aqui e veja vocês assim. — Ron falou em tom de brincadeira nos fazendo rir.
—Não vejo a hora de começarem as aulas. — Hermione comentou casualmente alisando os cabelos ruivos do namorado.
—Eu também não. — Respondi enquanto abraçava Gina e apoiava a cabeça em seu peito. — Quero ver como Hermione vai reagir quando tiver uma concorrente para o posto de melhor aluna da sala.
—Vou reagir normalmente, ta! — Respondeu imediatamente e nos fez rir.
Continuamos conversando banalidades até bem tarde. Como o dia seguinte era domingo ninguém estava preocupado em dormir cedo, assim quando fomos nos deitar, já bem depois da meia noite, a sala comunal ainda não estava vazia.
Acordei para o café da manhã e Ron ainda estava roncando na cama ao lado da minha. Coloquei uma roupa que Gina gostava e desci para esperá-la na sala comunal, era uma característica dela acordar cedo e já havíamos combinado de esperar um ao outro para as refeições. Minutos ela desceu as escadas do dormitório feminino usando um vestido que havíamos comprado durante a viagem, e que ia até a metade de suas coxas. Ela estava linda com ele e eu senti o monstro ciumento dentro de mim dar alguns sinais de que estava acordado.
Embora houvesse um espaço vago ao meu lado ela sentou-se no meu colo e me abraçou apertado.
—Bom dia amor. Dormiu bem? — Me perguntou após me dar um selinho.
—Bom dia linda. Dormi bem sim, e você? — Perguntei retribuindo o beijo e pousando minha mão em sua coxa à mostra.
—Eu dormia melhor na Austrália. — Comentou rindo e eu a acompanhei.
—Vamos? Estou com fome. — Convidei e ela assentiu, se levantando e saindo da sala comigo ao seu lado.
Tomamos café demoradamente enquanto conversávamos sobre qualquer coisa. Quando estávamos nos preparando para levantar Ron e Mione chegaram e optamos por fazer-lhes companhia. Ron sempre se demorava no café da manhã, por isso aproximadamente uma hora depois conseguimos nos levantar e passeamos sem pressa nenhuma pelos jardins de Hogwarts, nas redondezas do lago.
Já havíamos combinado de visitar o Hagrid em nosso primeiro visita aqui, e todos concordamos imediatamente que a melhor hora de fazer isso era bem antes do almoço, para que fossemos embora sem correr o risco de sermos convidado. Por isso pouco depois do fim do café da manhã estávamos os quatro batendo na porta de sua cabana.
—Oh! Vocês realmente vieram! — Ele comentou surpreso e feliz quando abriu a porta para que pudéssemos passar.
—Claro que sim, Hagrid! Estávamos todos com saudades de você. — Hermione adiantou-se e cumprimentou-o com um abraço.
Depois dela todos nós fizemos o mesmo e nos sentamos ao redor da mesa em sua cozinha. Canino rapidamente veio reivindicar seu carinho a cada um de nós.
A manhã em companhia de Hagrid foi extremamente agradável e ele nos informou que continuaria dando aulas de Trato das Criaturas Mágicas e também que a reconstrução do castelo havia levado mais tempo do que o esperado, mas que nos final tudo havia ficado como era antes e que os professores estavam felizes com essa nova fase que estava começando, sem ameaças de todos os lados.
Difícil mesmo foi arrumar uma desculpa para não ficarmos para o almoço. Por fim eu disse que havia marcado de reunir o timo de quadribol no salão principal para já marcarmos o primeiro treino, já que eu fazia questão de ganhar a taça em meu ultimo ano aqui. Pareceu bem convincente, já que ele não questionou e inclusive me desejou sorte.
A melhor noticia chegou mesmo quando já estávamos de saída.
—Eu esperava contar durante o almoço, mas como vocês não poderão ficar eu conto logo. — Hagrid começou e nós reparamos que ele já sorria de uma orelha a outra por baixo de toda aquela barba. Ficamos em silencio e ele prosseguiu. — a professora Minerva agora é diretora da escola, então abriu uma vaga para diretor da Grifinória e...
—Não me diga que você é nosso novo diretor? — Hermione o interrompeu com um sorrisão.
—Bom, eu gostaria de ter falado. Mas é isso sim Mione. — Ele completou sorrindo e parecendo extremamente feliz.
—Então isso quer dizer que podemos namorar a vontade na sala comunal a partir de agora? — Ron comentou risonho e todos rimos enquanto Hermione ficava extremamente vermelha.
—Só não abusem garotos. — Hagrid respondeu rindo também.
Depois de o felicitarmos voltamos ao castelo para o almoço, que já estava sendo servido. Nessa hora vários alunos pararam para conversar conosco ou simplesmente falar um oi. Os do primeiro ano apenas sorriram, já que estavam muito nervosos para falar alguma coisa. Alguns integrantes do time de quadribol me procuraram para saber quando começariam os testes e eu aproveitei para marcá-los para quarta feira a noite, depois das aulas.
—Você vai fazer o teste, não vai? — Perguntei para Gina enquanto comíamos a sobremesa.
—Achei que como sua namorada eu já tinha a vaga garantida. — Comentou rindo. — Vou fazer sim.
—Você vai passar. — Garanti a ela. — Vamos ter que escolher alguns jogadores novos. Os que eram da minha turma se formaram no ano passado, mesmo com toda aquela confusão.
—Eu te ajudo, se quiser. — Ela ofereceu.
—Por favor, porque eu nunca consigo fazê-los ficar quietos. — Assumi e ela riu ao meu lado.
—Harry, já terminamos de comer e vamos à biblioteca. Se vocês quiserem ir também podemos esperá-los. Quero começar a ler alguns livros que estão na lista de opcionais desse ano. — Hermione convidou e eu reparei a cara de pânico que Ron exibia ao seu lado.
—Obrigado Mione, mas podem ir vocês. Vou aproveitar a tarde para repassar algumas táticas de treino e a Gi vai me ajudar. — Inventei a primeira desculpa que me veio a cabeça. — Depois as discutimos com você, Ron.
—Ok, então já estamos indo. — Falou já se levantando e arrastando o namorado com ela. — Vamos Rony.
Observamos os dois saírem e terminamos de comer nossas sobremesas. Assim que Gina terminou de comer eu a arrastei dali exatamente como Mione havia feito minutos antes.
—Vem, temos muitas coisas a fazer. — Falei enquanto saíamos do salão.
Pelo caminho encontramos Draco — sem os amigos dos anos anteriores — e ele fez questão de não ficar quieto.
—Gostei da roupa Weasley. — Falou em tom de provocação.
Antes que eu elaborasse toda a minha resposta ouvi Gina responder ao meu lado:
—Vá se foder, Draco.
E continuamos andando como se não houvéssemos sido interrompidos.
—Sério que você quer discutir táticas de quadribol? — Gina perguntou desanimada. — Eu havia imaginado algo mais romântico para o nosso primeiro dia aqui, tipo um passeio no lago.
Eu ri antes de responder.
—Sério, quero falar de esportes hoje. — Respondi e ela reclamou baixinho.
Quando chegamos à escadaria que levava ao salão comunal da Grifinória eu passei reto em direção ao meu verdadeiro destino.
—Harry, acho que você errou o caminho. — Ela falou confusa quando eu a puxei da direção que estava indo.
—Não errei não, é exatamente esse o caminho. — Esclareci e virei à direita em um corredor comprido.
Ela não questionou nem disse nada, apenas quando subimos as escadas em direção ao sétimo andar ela percebeu onde estávamos indo e abriu um sorriso enorme, que eu retribui já com todas as minhas segundas intenções evidentes. Era claro, pelo menos para mim, quando sua expressão mudava de menina tímida — como normalmente era na frente de todo mundo — para mulher safada — como normalmente era quando estávamos sozinhos.
—Você é rápido em cumprir suas promessas. — Comentou divertida e com os olhos brilhando de malícia.
—É que estou com muita saudade de você. E morrendo de curiosidade de saber o que você tentou esconder com esse vestido minúsculo. — Respondi no mesmo tom que ela, e aproveite para expressar minha opinião sobre o comprimento da sua roupa.
Ela só riu, como sempre fazia quando eu demonstrava ciúmes. E eu sabia que era a maneira que ela tinha de dizer que nem ligava para minha opinião nesse aspecto. De fato isso não me incomodava muito, era só aquele ciúmes normal de quando amamos muito uma pessoa.
—Tem alguma preferência? — Perguntei quando chegamos em frente à tapeçaria que mostrava Barnabás sendo atacado por trasgos.
—Não. Surpreenda-me. — Ela pediu parando no meio corredor esperando que eu passasse em frente a parede e fizesse meu pedido.
Eu achava incrível o jeito que ela conseguia me excitar apenas com aquele olhar malicioso que me lançava quando queria e sem nem muito pensar eu já sabia o que pediria. Eu queria exatamente aquilo que pedi quando dei a ideia a ela: um lugar para levar a namorada mais gostosa do mundo. Sem dúvidas, ela era a pessoa mais gostosa do mundo. Após passar três vezes em frente a parede e pensando claramente o que eu queria, uma porta se materializou ali.
—Primeiro as damas. — Falei enquanto esperava Gina entrar na frente.
Ela deu um passo para dentro da sala e parou com a boca aberta olhando em volta. Para conseguir fechar a porta atrás de nós foi preciso empurrá-la um pouquinho para frente, o que eu fiz com prazer, aproveitando a situação para abraçá-la.
—O que exatamente você pediu? — Ela me perguntou ainda olhando ao redor boquiaberta.
—Um lugar para levar a namorada mais gostosa do mundo. — Respondi também admirando o que havia em volta de nós. — Não me decepcionou.
Ao nosso redor se estendia o que parecia muito com uma casa. As paredes brancas, nada muito carregado e sem divisão de cômodos, apenas um sofá bege enorme e de aparência muito confortável a um canto e a sua frente o que parecia uma mesa de centro com flores em cima, o que dava um clima romântico ao lugar. Imagino que esse lado tenha contemplado a parte de levar a namorada.
Á nossa direta o clima era outro e tenho certeza que esse lado se referia ao 'mais gostosa do mundo'. Era exatamente como um quarto: a cama enorme, lençóis também brancos e ao lado, no criado mudo, as mesmas flores. O que mais me chamou atenção foi o conforto que havia ali e o clima tenso, que te convidava a relaxar. Imagino que Gina tenha sentido o mesmo que eu, porque quando parei ao seu lado e a olhei ela mantinha o olhar interessado e mordia os lábios casualmente, de um jeito que me deixava doido.
E isso foi o que faltou para puxá-la contra meu corpo e beijar descaradamente aquela boca gostosa. Com ela grudada a mim e minhas mãos apertando seu bumbum eu a guiei de costas até o sofá, já que nunca havíamos tido privacidade suficiente para fazer isso em lugar algum. Quando senti que suas pernas haviam encostado no assento, inclinei-me para segurar nosso impacto e não machucá-la, e tão logo me deitei sobre ela suas mãos foram para os meus cabelos e as minhas para baixo da sua saia.
—Você está sem calcinha?- Perguntei alarmado.
—Não! — Respondeu rindo. — Mas é bem pequena. — Esclareceu provocadora.
Não foi preciso mais nenhuma explicação de suas roupas interiores, já que o vestido curtíssimo que ela usava foi arremessado para um canto qualquer, segundos depois disso. Aproveitando que teríamos o dia todo apenas para nós dois, não tivemos pressa nenhuma em acabar com o nosso momento.
Eu matei toda a saudade que estava sentindo do seu gosto, do seu corpo, das sensações que ela me causava e também do quão bom era estar dentro dela. E fizemos questão de aproveitar cada cantinho do lugar onde estávamos.
Tenho a leve impressão de que nunca mais eu olharia para um sofá com os mesmos olhos. Nem para uma mesa de centro.
—Harry, já está quase anoitecendo. — Ela falou enquanto caminhávamos novamente pelo sétimo andar em direção à Sala Comunal.
—Ron e Mione devem estar doidos atrás de nós. — Comentei rindo e ela me acompanhou.
—Já é quase hora do jantar, precisamos nos apressar.
—Ou então Rony come tudo. — Completei rindo.
O primeiro fim de semana em Hogwarts correu tranquilamente, assim como o primeiro mês. Setembro passou em meio a trabalhos escolares — muitos trabalhos escolares! — e passeios em Hogsmead nos fins de semana.
Quase como acontecia na Austrália, Gina e eu estávamos mais grudados do que nunca — e eu estava mais apaixonado do que nunca. Claro, no castelo não podíamos, de forma alguma, dormir juntos, mas isso não nos impedia de fazer todas as outras coisas na companhia um do outro. Inclusive estudar, como Hermione vinha insistindo incansavelmente para que fizéssemos.
—Harry, eu já disse, os NIEMs não são tão fáceis igual aos NOMs. — Ela repetiu pela milionésima vez enquanto eu ia em direção ao campo de quadribol, em uma manhã nublada de meados de outubro.
—E quem disse que os NOMs foram fáceis, Hermione? — Respondi abrindo a porta da frente e já saindo em direção ao campo, com ela em meu encalço.
—Mais um motivo pra você estudar, Harry Potter! — Ela se irritou e alterou a voz.
—Mione. — Eu parei e me virei para fitá-la. — Esse treino vai durar no máximo umas três horas, eu prometo. Depois podemos estudar. Não posso abandonar a equipe e nem quero, só preciso ganhar mais um campeonato pra me sentir realizado. — Ela me encarava impassível. — Agora, por favor, me deixe ir porque já estão todos me aguardando.
—Você é tão teimoso quanto Ron e Gina. — Ela bufou e virou-se para voltar para a escola.
—Por que não assiste ao treino, Mione? — Gritei a pergunta.
—Só porque o livro Feitiços Avançados e Meios de Praticá-los sem Oferecer Riscos tem mais de mil e duzentas páginas e eu pretendo terminá-lo antes do próximo fim de semana. Caso contrário eu iria. — Respondeu sarcástica e se virou novamente, batendo os pés ao caminhar.
O treino desse dia não foi fácil, exatamente como todos os treinos feitos antes desse. A escalação dos jogadores foi feita ainda na primeira semana de aula, e alguns deles continuaram no time, como Ron e Gina, por exemplo, os outros quatro eram todos novos. Inicialmente houve alguns comentários desagradáveis a respeito da minha namorada fazer parte da equipe, mas eles cessaram imediatamente após o primeiro jogo — no final de outubro — onde ela marcou vinte e dois, dos vinte e nove gols da partida.
Quando novembro chegou as coisas ficaram um pouquinho mais difíceis de contornar. As pessoas ao redor de nós — principalmente as pessoas do sexo feminino — começaram a perceber que Gina não era um caso qualquer e sem importância. Ao contrário da onda de paz, respeito e tranquilidade que eu esperava que esse conhecimento trouxesse elas pareceram formar verdadeiros complôs para nos separar.
Vez ou outra Hermione nos contava que flagrou algumas garotas no banheiro discutindo táticas de fazer o gato do Harry (palavras de terceiras, não da Mione) largar a sem graça da Weasley (outra vez não eram palavras da Hermione). Gina apenas ria, e vez ou outra dizia coisas como “mande-as nascer com os cabelos vermelhos na próxima vida”, mas eu tinha certeza que aquilo a magoava.
A situação começou a ficar pior quando Mione correu até mim um dia, ofegante, para me dizer que não bebesse nada que eu não mantivesse em minhas mãos durante todo o tempo, porque ultimamente essa escola tinha mais poções do amor do que penas. E foi nesse momento, mais do que nunca, que eu me lembrei do professor Moody e sua famosa frase “vigilância constante!” e comecei a beber coisas apenas da minha própria garrafa.
Para Rony a situação era extremamente engraçada, até o dia que uma garota loira do quarto ano resolveu se jogar nos braços dele e declarar-se, em meio a toda a sala comunal, dizendo que o amava e que ela estava disposta a fazê-lo esquecer daquela “monitora mandona” — palavras dela! — para serem felizes juntos. O problema foi Hermione ter entrado quando ela ainda estava agarrada no pescoço dele e depois de ter dito essas frases.
O ato rendeu uma Hermione prestes a soltar fogo pelas narinas e um Rony mais vermelho do que pimentão empurrando a garota e indo atrás da namorada. Gi e eu assistimos divertidos quando os dois voltaram, horas depois, e aparentemente meu amigo não havia tido nenhum sucesso em sua tentativa de explicar-se.
—Harry, diga a ela o que aconteceu. — Ele pediu, quase implorando, depois que a namorada o ignorou completamente e disse a mim e a Gina que estava indo dormir. — Ela não quer me escutar, mas vai ouvir você.
Foi nesse dia que eu entendi uma coisa que Tio Valter sempre repetia: negociar é uma arte que faz bem às relações.
—Eu falo...
—Obrigado, cara!
—Se — continuei e ele me olhou desconfiado — você parar com essas manias de rir e achar engraçado todas as vezes que essas loucas tentam me drogar, ou fazer sei lá o que comigo. Isso é chato, cara, e sua irmã fica magoada.
—Feito, eu nunca mais rio de você. — Concordou imediatamente.
—E tem mais! — Seu olhar ficou imediatamente suspeito outra vez. — Você vai me encobrir, me apoiar e me ajudar quando voltarmos para casa e eu quiser sair com a sua irmã, não importa a hora.
—Seu idiota, ela é minha irmã! Não posso ser conivente com essas coisas. — Ele esclareceu como se fosse óbvio.
—Mas bem que você vai sair com Hermione quando bem quiser, não é? — Rebati e dei minha cartada final. — Se ela ainda for sua namorada.
—Ta bom Harry, eu encubro vocês dois. Agora por favor, vá lá falar com ela!
—Amanhã Ron, eu não consigo subir no dormitório das garotas, lembra? — Respondi rindo da sua cara incrédula. — Vamos dormir também, amanhã eu falo com ela.
Explicar a situação para Hermione no dia seguinte foi fácil, difícil foi convencê-la a desculpá-lo. Mas, felizmente, uma semana depois, e após muita insistência, eles voltaram ao normal e Gina e eu não precisamos mais nos dividir para fazer companhia a ambos — Gina e Hermione na biblioteca enquanto ela falava incansavelmente que Ronald Weasley nunca iria crescer, Ron e eu no campo de quadribol enquanto ele repetia que ela parecia mais um aspirante a ditador.
Curiosamente Gina e Hermione não foram importunadas por nenhum engraçadinho, e certamente não era por falta de admiradores. Eu tenho a teoria de que a cara de brava com a qual Hermione retribuía os olhares libidinosos e a fama de Gina pela azaração de bicho papão os repeliam com muito sucesso. Para minha felicidade, e do Rony também.
Ao fim das quatro primeiras rodadas do campeonato de quadribol, no inicio de dezembro, a Grifinória havia ganhado todos os jogos que disputou. Para minha carreira de capitão isso era ótimo, mas para a competitividade entre Malfoy e eu era péssimo.
—Ora Potter, então quer que sua namoradinha está treinando bem o time pra você, hãn. Porque eu duvido que você tenha talento pra vencer sequer uma partida de snaps explosivos.
E para minha popularidade entre as garotas também não era nada bom.
—Ele é um gato, Evvy, e joga quadribol como ninguém. Vê? Até hoje não perdemos nenhum jogo. Mal posso esperar para me agarrar a ele e àqueles seus cabelos bagunçados. — Exclamou uma garota na sala comunal, segundo o que Hermione havia me contado.
—Fale baixo, Rachel, a namorada dele está logo atrás de você. — A amiga respondeu sem graça.
—Namorada? Aquela garota é sem graça, isso sim! — A outra expressou, sem nem um pingo de consentimento.
Depois desse episódio Gina perguntou educadamente a Hermione se podia quebrar a cara de uma colega de casa. A resposta que obteve foi a seguinte: como amiga eu até te ajudaria, mas como monitora sou obrigada a impedi-la.
Hermione e suas malditas regras inquebráveis!
Depois desse fatídico acontecimento, no qual eu estava ausente mas fui informado no dia seguinte, eu me esforcei para mostrar à minha namorada que não importa o que digam, eu não iria trocá-la por qualquer garota estúpida que se ache totalmente interessante.
E foi nessa tentativa incansável de ser romântico e cavalheiro que eu acabei um fim de semana em detenção. Mais precisamente o ultimo fim de semana antes das férias de Natal.
—O que ela tem que eu não tenho, posso saber Potter? — A tal da Rachel me perguntou depois que eu recusei, educadamente, seu convite para ir a Hogsmead no fim de semana porque ia com a minha namorada.
—O cabelo ruivo é o detalhe mais visível, a Inteligência e a beleza são os mais marcantes e ela é agradável também, o que eu acho ótimo. — Respondi coçando a cabeça. — Eu posso continuar listando coisas que ela tem e você não, mas nós dois nos cansaríamos aqui.
Ron, que estava ao meu lado o tempo todo, começou a gargalhar descontroladamente depois que eu respondi à pergunta da garota e motivada por isso, ela saiu de perto de nós aos prantos. Meia hora depois Hagrid, o diretor da Grifinória, veio me buscar da aula de Poções para avisar que eu iria cumprir detenção com ele por humilhar uma colega na frente dos outros.
Eu, particularmente, achei a decisão exagerada, mas entendi que Hagrid precisava manter as aparências. Além disso, detenção com ele significava sentar atrás de sua cabana e separar tronquilhos.
—Sabe, Harry, eu tive que me segurar para não rir quando aquela garota, Rachel, veio me contar, toda chorosa, o que você tinha respondido a ela. — Ele disse com uma risada rouca. — Eu não esperava outra atitude do filho de Tiago Potter, ele se metia em vários problemas por causa de Lilian.
Eu sorri como bobo, como sempre sorria quando ouvia qualquer informação, por menor que fosse, sobre meus pais. E a tarde de detenção passou enquanto eu conversava sobre meus pais e separava aqueles bichinhos estranhos.
No fim da tarde, quando Gina, Ron e Mione chegaram minha namorada estava com uma bela cara de brava enquanto os outros dois riam baixinho e de mãos dadas.
— Aquelas idiotas que vieram me perguntar se meu passeio estava sendo divertido, só porque eu estava com Ron e Mione e os dois não pararam um segundo de se agarrar. — Bufou descruzando os braços e me dando um selinho. — A propósito, te trouxe isso.
Abri o embrulho que ela trazia e encontrei um bolinho de abóbora graciosamente decorado.
—Obrigado amor. Mas só por isso você está brava?
—Não. Estou brava porque Hermione não me deixou azará-la! — Respondeu emburrada.
Eu ri e aproveitei que estávamos sozinhos para convidá-la para um passeio na Sala Precisa, assim quem sabe ela não se acalmaria! Gina nunca negaria um convite desses, então quando abri a porta, logo depois de pedir um lugar para acalmar minha namorada, novamente não nos decepcionamos.
A ultima semana antes das férias passou voando, quase literalmente! Na quinta-feira, enquanto tomávamos café da manhã, Hermione recebeu uma carta dos pais dizendo que chegariam da Austrália no sábado pela manhã e que domingo estariam n’A Toca para esperá-la e irem para casa depois de passarem o dia juntos. Depois dessa noticia ela não se cabia de felicidade e Ron se esforçava ao máximo para esconder a decepção de saber eu não passariam as férias juntos.
Na sexta feira a noite, sob ordens expressas de Hermione Granger, eu arrumei o meu malão, o tranquei, e guardei na mochila apenas o que ia levar para as férias, nada de exageros. Passamos o sábado juntos, visitamos Hagrid pela tarde e nos policiamos para dormir cedo, porque queríamos chegar em casa para o café da manhã.
Usaríamos Pó de Flu para a viagem de volta, então eu preferi realmente não comer nada antes de entrar na lareira. Hermione foi a primeira, porque estava morrendo de ansiedades para ver os pais e Ron foi em seguida.
—Quer ir primeiro? — Gina me perguntou preocupada. — Eu sei que você não gosta muito disso.
—Não, pode ir você, obrigado. — Agradecei sorrindo pra ela. — Só me espere lá na sua casa, eu nunca desembarco com tanta elegância como você.
Ela riu antes de entrar e sumir nas chamas esverdeadas. Respirei fundo, pisei nas cinzas que estavam ali e com determinação falei “A Toca!” antes de jogar o punhado de pó no chão. Me senti girar em várias direções, passei por algumas lareiras desconhecidas e uma infinidade de tempo depois meus pés tocaram novamente o chão. Eu estava em casa.
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