Sobre os 19 anos depois
20 Problema resolvido!
Notas iniciais
POV Rony
—Boa noite. — Me despedi deles e fechei a porta.
Não que eu tivesse ciúmes do Harry, mas ainda me sentia estranho toda vez que ele e minha irmã se despediam e iam dormir juntos. Um lado eu sei que é meu ciúmes por ela e por outro tenho certeza que se deve ao fato de ter jurado para os meus pais que ela e Hermione dividiriam um quarto enquanto eu e Harry ficaríamos com o outro. Francamente, será mesmo que eles acreditaram nisso?
—Eles já foram? — Mione perguntou saindo do banheiro.
—Sim. Disseram que você demora demais pra tomar banho e mandaram um beijo. — Informei e me deitei na cama para observar seu ritual: secar o cabelo (com magia, é claro), escolher uma das minhas camisetas velhas que trouxe para eu dormir e na verdade ela que usa e vesti-la na minha frente, o que eu considero a parte mais legal porque ela tem que ficar só de calcinha.
Depois que ela se vestiu, nunca perdendo a oportunidade de me provocar um pouco, fui até o banheiro escovar os dentes e voltei para o quarto já encontrando-a na cama e com o computador no colo. Sinceramente eu acho que nunca entenderia como aquilo funciona, no entanto eu guardava minhas intrigas para mim, porque Hermione sempre brigava comigo quando eu inventava de querer desmontar tudo pra ver como funciona. O fato de desmontar em si não a irritava, mas eu querer fazer isso enquanto ela usava a engenhoca para procurar os pais sim.
—Ainda procurando Mi? — Perguntei carinhosamente me sentando ao seu lado e sorrindo internamente ao vê-la instintivamente se encostar em meu peito.
—Não de verdade, já me conformei em deixá-los ter suas férias sossegadas e revê-los só no natal. É mais por habito mesmo. — Comentou despretensiosamente, nem um pouco parecida com a Hermione briguenta do ano passado.
Eu sabia que ela ainda guardava uma pontinha mínima de esperança de encontrá-los, e era desconfortável pra mim vê-la disfarçar sua tristeza por meio das risadas escandalosas que ela e Gina trocavam e que obrigavam a mim e ao Harry a enfeitiçar o quarto para que ninguém ouvisse os ruídos. Então, no intento de animá-la um pouco tirei delicadamente o computador de cima das suas pernas e o coloquei no chão ao lado da cama, ela nem contestou, só suspirou conformada.
—Pare com isso, temos que aproveitar nossos últimos dias de férias juntos, e não nesse negócio ai. — Puxei suas pernas e a fiz se deitar na cama, joguei o edredom fino em cima de nós e me deitei ao seu lado, as pernas em cima das dela e apoiado nos cotovelos para vê-la sorrir pra mim como boba. Era uma face dela que eu não imaginava conhecer até um tempo atrás. — Você não vai contestar? — Perguntei divertido e já sabendo a resposta.
—Não, eu gosto quando você toma o controle da situação, é excitante. — Piscou me fazendo rir e riu também enquanto eu grudava minha boca na dela em um selinho demorado.
—Mas você é sempre tão mandona. — Retruco me fingindo confuso.
—Só quando você parece uma criança. — Responde como se fosse óbvio.
—Eu não pareço uma criança! — Fingi indignação.
—Ronald, você queria entrar no laguinho do shopping pra ver de onde sai a água do chafariz! — Exclamou rindo.
—Claro! Eu ainda acho que aquilo é magia, igual a setinha do mouse, aquele negócio me deixa confuso. — Me defendi imediatamente.
—Já te falei amor, não é magia! — Nós rimos. — Gina disfarça melhor a cara de incredulidade.
—Claro que disfarça, o Harry compra tudo que ela acha interessante, assim ela pode surtar dentro do quarto. — Retruquei torcendo os lábios. — Como se minha irmã não fosse mimada o bastante por todo mundo.
—Eu não acho a Gina mimada. — Minha namorada disse sinceramente.
—Porque você só convive com ela nas férias. — Fiz uma careta e ela riu. — De qualquer forma, nossos filhos têm que se acostumar com essas coisas de trouxa desde crianças pra não deixarem a mãe deles irritada.
Terminei essa frase óbvia — óbvia porque se só teria filhos se ela fosse a mãe — e escondi meu rosto em seu pescoço, ela estava cheirosa.
—Filhos? — Ela perguntou depois de uns segundos consideráveis e eu me levantei novamente para olhá-la.
—Claro amor, ou você só estava pensando em me usar e depois me descartar? — Perguntei em tom brincalhão, mas no fundo só um pouquinho magoado.
—Não é isso Ron. — Ela rolou os olhos da mesma maneira que fazia quando precisava me explicar pela quinta vez um feitiço novo. — É só que nunca falamos sobre isso e você aborda o assunto tão naturalmente.
—Mas é claro que é natural Mione. — Dessa vez eu rolei os olhos. — Ou você achou que eu quisesse ter meus filhos com a Lilá? Ai! — Ela me deu um tapa no ombro. — Era brincadeira.
—Então não brinque! — Ordenou de cara feia e eu ri, era difícil vê-la com ciúmes.
—Então pare de renegar nossos filhos! — Retruquei rindo. — A Rosinha vai ficar muito triste de saber que a mãe dela na verdade não queria ter filhos.
—Rony, nunca disse que não quero ter filhos. — Ela riu também. — E Rosinha? — Perguntou com cara de reprovação.
—Qual é? Eu gosto desse nome. — Me defendi ofendido. — E não me olhe com essa cara que parece mais a minha mãe!
—Vem aqui, bem bebê. — Falou rindo de mim e eu escondi novamente meu rosto em seu pescoço, rindo também.
O carinho daquelas mãozinhas pequenas nos meus cabelos estava realmente muito bom e aos poucos eu senti a inconsciência me levando, misturado ao cheiro dos seus cabelos recém lavados e a maciez da pele da sua coxa embaixo da minha mão.
—O que? — Ela perguntou de repente e do nada.
—O quê o que amor? — Respondi preguiçosamente sem levantar o rosto.
—Você me chamou, eu respondi o quê. — Ela explicou.
—Não chamei não. — Retruquei da mesma maneira.
—Claro que chamou Ron, eu ouvi direitinho você falar Hermione. — Disse carinhosa. — Você devia estar dormindo, desculpe. — Me deu um beijo rápido demais nos cabelos. — De novo!
—De novo o que, Mi? — Perguntei sem ter escutado nada novamente.
—Eu ouvi meu nome. Tem certeza que não me chamou? — Me empurrou delicadamente e eu tive que levantar para olhá-la.
—Não amor, não te chamei. Pelo menos não intencionalmente...
—Hermione! — Uma voz de mulher que eu nunca havia ouvido soou em algum lugar.
—Agora eu ouvi! — Confirmei com os olhos arregalados.
—É a voz da minha mãe. — Falou com a voz estrangulada.
—Mas como é que a voz da sua... — E então eu me lembrei de algo óbvio e me levantei da cama tão rápido que ela se assustou. — O desiluminador!
E agora eu também estava com um lampejo enorme de esperança dentro de mim. Abri a pequena cômoda em frente a cômoda e comecei a procurar como um louco pela minha herança de Dumbledore, assim que o encontrei entreguei a ela e ordenei:
—Abra.
—Rony, não quero apagar a luz. — Respondeu ainda assustada.
—Hermione cala a boca e abre isso. — Falei firme com ela pela primeira vez desde que começamos a namorar.
Ela me olhou chocada por um instante e tirou o objeto da minha mão, abrindo-o em seguida. Eu sorri extremamente aliviado quando a bolinha de luz branca saiu de lá de dentro e pairou um pouco à nossa frente para em seguida mergulhar direto para o coração da mulher mais linda do mundo pra mim, e que nesse momento estava com os olhos tão arregalados que tive medo de que ela os perdesse.
—O que é isso? — Me perguntou e eu saí daquela sensação de torpor que entro quando olho atentamente seu rosto lindo.
—Se troca Mi, eu te conto enquanto isso. — Respondi já vestindo a primeira coisa que vi na minha frente.
—Me trocar por que? — Perguntou confusa.
—Vai se trocando que eu te conto. — Pedi mais gentil, porém com a voz firme e ela se levantou da cama, pegando dentro de uma das gavetas uma daquelas calças jeans que eu sempre penso que nunca mais vai sair de dentro dela e começou a se vestir. — Lembra quando abandonei você e ao Harry na floresta e consegui voltar por causa do...
—Claro! — Ela me interrompeu com os olhos brilhando. — Como não pensei nisso? Foi assim, não foi? Você me ouviu te chamando e conseguiu nos encontrar!
Ela concluiu toda a história sem precisar da minha ajuda e eu aproveitei o tempo em que ela revirava suas roupas atrás de uma camiseta para escrever um bilhete para que Harry e Gina não surtassem com nosso sumiço.
—Tira o feitiço de proteção da porta, Ron. — Pediu enquanto passava uma camiseta roxa pela cabeça.
—Por que? — Perguntei sem entender o motivo, afinal Hermione era fanática por proteção.
—Porque se a deixarmos trancada só com a chave Harry e Gina conseguirão entrar, eles certamente ficarão preocupados. — Me explicou e só depois eu percebi que era óbvio.
Enquanto eu murmurava o contra feitiço de proteção do nosso quarto ela calçou uma sapatilha qualquer e com um aceno de varinha organizou suas roupas e as minhas. Agarrou a alça da bolsinha preta onde levava praticamente tudo que precisamos (incluindo a barraca de quando ficamos fora) e me olhou decidida.
—Pronto?
—Sim. — Respondi e estendi a mão pra ela.
Ela hesitou um pouco antes de segurá-la e me olhou totalmente perdida (isso era raro!) e foi o suficiente para que eu soubesse que ela precisava demais de mim nesse momento.
—O que eu tenho que fazer agora? — Me perguntou com a expressão ainda confusa e assustada e eu a abracei carinhosamente, repousando sua cabeça em meu peito e lhe pousando um beijo demorado ali.
O jeito que ela me abraçou fez com que eu me sentisse o máximo, porque eu sabia que ela não sabia o que fazer e estava confiando em mim dessa vez.
—Você sabe o que fazer e dentro de você sabe aonde ir. A sensação é estranha não é? — Levantei seu queixo para que ela me olhasse. — Você sempre sabe o que precisa fazer, e dessa vez vai saber do mesmo jeito. — Ela fez uma expressão de duvida. — Ei, e sem essa cara de duvida. Eu não vou mais te amar se você deixar de ser convencida, decidida e mandona.
Ela riu um pouquinho mais animada e eu me senti o máximo de novo. Depois disso deixamos a sorte nos levar, segurei sua mão e a ultima coisa que vi foram seus olhos fechados numa linda expressão de concentração.
Quando a famosa sensação de passar por dentro de uma mangueira cessou eu me deparei com um campo enorme, todo forrado por uma grama não tão bem cortada e algumas pedras maiores que serviriam perfeitamente como banco. A cor da paisagem era totalmente indefinida, visto que deveriam ser mais ou menos 4 horas da manhã.
À primeira vista não havia nada em volta além do céu estrelado, a imensidão de pasto e uma estradinha de terra que fazia uma pequena curva à nossa esquerda.
—Pra onde amor? — Perguntei tão logo ela se equilibrou ao meu lado.
— Pra lá! — E pela expressão de “eu sei e não me questione” eu percebi que toda a sua insegurança já havia passado.
Ela apertou mais a minha mão e nos guiou exatamente na direção da curva à nossa esquerda e enquanto caminhávamos e silencio eu achei melhor quebrar um pouco essa tensão.
—E você achando que era eu. Francamente Mione, minha voz parece a da sua mãe? — Perguntei fingindo indignação e ela riu baixinho. — Porque se parecer eu imagino como deve ser traumatizante pra você quando eu falo seu nome nos nossos momentos de intimidade.
Ao contrário da timidez e do soco no ombro que eu esperava, ela gargalhou abertamente e se jogou no meu pescoço.
—Fique tranqüilo, não parece. Pode continuar falando meu nome quando estivermos transando, eu acho sexy. — Finalizou e me deu um selinho que me deixou meio aceso e meio constrangido.
—Desde quando você é tão direta? — Perguntei coçando a cabeça.
—Você mesmo diz que eu deveria me soltar mais e ser mais sem vergonha, estou levando a sério. — Riu baixinho e eu a acompanhei.
O tempo todo que conversávamos ela manteve passos decididos, como se caminhasse por aquelas ruazinhas escuras todos os dias, ou todas as noites como era o caso. Até a curva para onde estávamos indo caminhamos mais ou menos quinze minutos e ao contorná-la nos deparamos com a pequena cerca de madeira de uma casinha graciosa onde se lia em uma pequena placa de madeira talhada: Pousada Recanto do Sol.
—Recanto do Sol? — Comentei. — Que nome trouxa.
Ela riu lindamente ao meu lado antes de parar e respirar profundamente.
—Você sentiu que eu e Harry estávamos próximos? — Me perguntou serenamente.
—Senti. Você não sente?
—Sinto, é por aqui. — Disse já tirando a varinha, discretamente, de dentro da roupa e apontando para o cadeado que trancava a entrada da pousada. — Alohomora! — murmurou.
—Você vai mesmo arrombar uma propriedade particular? — Perguntei incrédulo.
—Depois de arrombar o Gringotes eu não me importo com mais nada particular. — Respondeu divertida e empurrou o portão para que eu entrasse também.
Assim que entramos ela o trancou e continuou sua caminhada decidida entre as inúmeras casinhas extremamente iguais que haviam ali. Mesmo a noite eu conseguia reparar como tudo era bem arrumado e aconchegante: os inúmeros chalés de madeira situados um ao lado do outro continham uma porta, duas janelinhas e uma chaminé que eu imaginei tratar-se de uma lareira para o inverno. Em cada portinha havia um numero, e ela se deteve ao lado do 48.
—É aqui. — Apontou discretamente e olhou em volta para ver se ninguém nos observava.
Eu olhei atentamente para o seu rosto, mesmo no escuro, à espera de que a paranóia de antes voltasse, mas ela estava estranhamente — e anormalmente — calma.
—E você pretende arrombar a porta e entrar lá a força para lançar um feitiço neles? — Perguntei divertido, na esperança que esse tom escondesse meu medo de que ela realmente fizesse isso.
—Não. — Respondeu rindo. — Vamos esperar até que eles acordem, então eu desfaço o feitiço de memória.
Enquanto falava começou a procurar alguma coisa dentro da bolsinha e puxou de lá a capa da invisibilidade que eu conhecia muito bem.
—Você não pediu isso emprestado, não é? — Acusei enquanto a pegava de suas mãos e cobria a nós dois.
—Não. O Harry nunca se preocupou muito com a segurança mesmo, então um Accio Capa fez com que ela viesse até mim sozinha. — Se acomodou entre as minhas pernas depois que me sentei no chão. — Depois eu devolvo, acho que ele nem vai sentir falta.
—E como eu não vi você fazendo isso? — Perguntei tentando me lembrar do momento em que ouvi algo parecido com um feitiço convocatório.
—Você estava desfazendo o feitiço da porta, e eu normalmente não pronuncio meus feitiços em voz alta. — Esclareceu normalmente, como se a coisa mais fácil do mundo fosse fazer feitiços sem pronunciá-los.
—Claro, porque a coisa mais fácil do mundo é fazer feitiços sem pronunciar uma palavrinha sequer. — Falei irônico e ela sorriu.
Depois disso o assunto morreu naturalmente e ela descansou a cabeça no meu peito, respirando tranquilamente embora eu notasse que seus olhos estavam sempre alerta a qualquer movimento que pudesse acontecer, embora não tenha acontecido nada desde que chegamos. Eu estava encostado em uma árvore, com ela totalmente apoiada em mim e passando levemente a ponta do meu nariz na pele macia da sua bochecha quando os primeiros raios de sol, vindos sei lá de onde, começaram a incidir sobre nós e a casinha (que agora eu reparei ser azul claro) à nossa frente.
Ela deu uma olhada rápida para o lado, mas fora isso nem se mexeu. Continuei meu carinho, mantendo nossos dedos entrelaçados, e em parte isso me ajudava a espantar o sono estarrecedor que eu estava sentindo, mas que em hipótese alguma revelaria. Eu provavelmente devo ter cochilado sentindo o cheiro bom dos seus cabelos limpos (que orgulhosamente eu estava presente quando foram lavados) porque me sobressaltei quando ela deu um pulo e chamou meu nome um pouco alto demais.
—Ron! — Abri os olhos a tempo de vê-la arregalar os olhos e apontar para o chalé à nossa frente. — Acenderam a luz.
Eu até então não havia visto nada, mas depois dessa explicação óbvia reparei que uma das pequenas janelas havia se iluminado. Merlin, meus sogros acordam cedo! Que horas devem ser?
—Estranho, eles não acordam tão cedo assim. — Ela comentou como que respondendo aos meus pensamentos, no entanto as habilidades que Hermione tinha de entender o que eu queria não me assustavam mais.
—O que vai fazer? Vamos entrar? — Perguntei mudando o rumo da conversa.
—Não, eu não quero assustá-los. Vamos esperar que eles saiam. — Falou começando a entrelaçar os próprios dedos, sinal claro de inicio de nervosismo.
Eles estavam demorando um pouco mais que o normal, e num acesso de consciência de que eu provavelmente não conseguiria distraí-la, independente do que eu faça, fiquei quieto, apenas dando apoio moral.
—Pega as orelhas extensíveis. — Falou de repente e eu nem entendi direito o que ela quis dizer.
—Pegar o que amor?
—As orelhas extensíveis, na bolsa. Anda! — Ordenou como sempre.
—Você vai ouvir a conversa dos outros? Mamãe sempre disse que isso é feio. — Comentei enquanto tirava um fio cor de carne de dentro da bolsinha.
—São meus pais, eu posso ouvir a conversa deles. — Esclareceu, embora isso não soasse como um esclarecimento para mim.
Ela se levantou e andou até a porta da casinha, eu a acompanhei de perto para que a capa continuasse cobrindo nós dois. Fazendo meu perfeito papel de cavalheiro eu me abaixei e plantei o objeto por baixo da porta, assim que me levantei Mione posicionou a outra extremidade entre nós dois para que ambos ouvíssemos.
—...Querida, vamos nos atrasar! — Uma voz de homem, estranhamente familiar, soou do outro lado.
—Não vamos nos atrasar, até porque vamos fazer trilha sozinhos, então não temos horário. E eu nem precisava acordar tão cedo assim. — Uma voz de mulher, também familiar, e com uma entonação muito Hermione Granger soou também.
Ouvi o som de uma cadeira sendo arrastada, alguns passos abafados, um barulho muito parecido com alguém tamborilando os dedos sobre uma superfície de madeira e depois de alguns segundos em silêncio uma pergunta que fez minha namorada arregalar os olhos:
—Quem é Hermione? — O Sr. Granger (ou Wilkins) perguntou.
—Não sei. — Minha desconhecida sogra respondeu. — Por que?
—Você falou esse nome enquanto dormia, umas três vezes eu acho...
—Eu disse esse nome, tem certeza? Ou você anda sonhando com essa tal de Hermione? — Perguntou novamente no tom Hermione Granger.
—Não sabia que mamãe era ciumenta — Minha namorada comentou rindo.
—Você disse esse nome, tenho certeza absoluta. — Meu sogro respondeu divertido. — Já está pronta?
—Sim, pode ir abrindo a porta, só vou pegar sua carteira, que você nunca pega.
Essa ultima frase se seguiu ao som da porta sendo destrancada, Hermione travando à minha frente e eu arrastando-a para o lado bem a tempo de ver o Sr. Granger (ou Wilkins) sair de lá de dentro com uma expressão tão mais jovem do que eu me lembrava de ver na estação de King Cross. Minutos depois (durante os quais ele olhou o relógio três vezes e revirou os olhos impacientemente) a Sra. Granger (ou Wilkins) sai também, a mesma expressão despreocupada.
—Meu Deus, mulher. Só vamos caminhar — Meu sogro comenta entre divertido e irritado.
—Exatamente. — Minha sogra responde. — E eu não sei pra que isso!
Os dois riem um para o outro e se juntam em um selinho carinhoso, que minha namorada olha com uma expressão total de nostalgia.
—Mione, desfaça agora. — Encorajo-a em um sussurro.
—Não consigo, Ron. — Ela choramingou.
—Consegue sim. — Mantive minha voz firme enquanto infiltrava minhas mãos por dentro de sua camiseta e a retirava logo em seguida trazendo sua varinha e colocando-a em sua mão. — Essa é a hora, eles estão próximos e não há ninguém por perto.
—Não posso fazer isso. Veja como eles estão felizes sem mim, nem fazem idéia de quem sou, não sei mais se voltar é uma boa coisa agora. — Murmurou com tristeza.
—Claro que não se lembram de você! Você apagou a memória deles, lembra? — Revirei os olhos enquanto dizia. — Faça isso agora Hermione, ou eu mesmo faço e você sabe como eu posso ser ruim em feitiços quando estou nervoso! — Ameacei sabendo que o efeito seria imediato, porque mesmo não admitindo ela me achava um horror em feitiços.
—Tá bom, eu faço. — Respondeu rápido demais e logo em seguida tentou se retratar. — Quer dizer, eu retirei a memória e quem melhor do que eu para fazê-la voltar, não é mesmo?
—Sim, Mi. Ninguém melhor do que você, agora ande logo. — A encorajei com um beijo na bochecha e antes que ela tivesse tempo de reagir puxei a capa da invisibilidade de cima dela e lhe dei um empurrão leve, para que ela avançasse mais em direção a eles.
Enquanto mantínhamos essa conversa os dois se afastaram alguns metros do chalé onde eu ainda estava encostado, e depois de descoberta pela capa Hermione olhou perdida para os lados umas duas vezes, respirou fundo e andou decidida em direção a eles, que estavam distraídos demais enquanto o Sr. Granger (por enquanto ainda Wilkins) tentava convencer a Hermione Mor (teimosa) de que caminhar era legal. Ainda coberto pela capa eu acompanhei minha namorada de perto, para o caso improvável de algo dar errado.
Ainda com as mãos tremendo um pouco ela apontou a varinha para o casal à sua frente e com a expressão um tanto amedrontada, mas sem murmurar uma palavra sequer, desfez o tal feitiço de memória complexo no qual ela é tão boa. Eu soube disso imediatamente por causa da nevoa branca, quase invisível, que saiu da ponta de sua varinha e pareceu envolver os dois, e ali no meu seguro anonimato causa pelo objeto emprestado do meu melhor amigo eu me permiti olhar pra ela com toda a admiração do mundo. Primeiro por ser capaz fazer feitiços tão complexos, em horas tão complexas, e mesmo assim não precisar dizer nada, e depois porque ela era tão linda.
Quando a névoa branca enfim cessou eu olhava os dois tão atentamente quanto a filha deles ao meu lado, mas certamente não tão nervoso. Hermione não parava de morder o lábio inferior, o que pra ela era uma expressão de nervosismo e pra mim era uma cena sexy. Meus sogros fizeram uma breve expressão de dúvida enquanto olhavam em volta, abriram a boca algumas vezes e depois desistiram de dizer o que quer que seja, quando finalmente resolveram falar, ainda sem notar Hermione parada atrás deles, acredito que ninguém tenha entendido muita coisa.
—Mas... — a Sra. Granger disse.
—Como... Que lugar? — o Sr. Granger murmurou enquanto coçava os cabelos.
—Austrália? Por que? — Minha sogra continuou e de repente, com os olhos arregalados um olhou para o outro e disse, em alto e bom som, com a voz carregada de preocupação e culpa. — Hermione!
E eu reparei, por menor que tenha sido, o sorrisinho de alivio dela antes de dizer:
—Oi papai, mamãe. — A insegurança na sua voz fazia lembrar uma criança que fez algo errado.
Os dois viraram para ela imediatamente, a expressão de surpresa dando lugar ao sorriso enorme no rosto de cada um dos três, e eu me senti sobrando quando eles se abraçaram. Bom, pelo menos eu não estava sendo visto!
—Mione! — O pai dela disse apenas isso enquanto a abraçava.
—Filha, por que não nos lembrávamos de você? — A mãe dela fez praticamente um discurso. — E que história é essa de estar nos chamando de Monica e Wendel Wilkins? Por que não veio conosco pra Austrália? Você está tão magrinha bebe...
Eu reparei como um bobo o jeito como ela ria e tentava controlar duas lágrimas teimosas que rolavam por suas bochechas.
—Eu estava com tantas saudades de vocês. — Confessou abraçando-os novamente.
—Estamos aqui, bebe. — Meu sogro afagou suas costas como se falasse com uma criança e eu ri um pouco mais alto.
—Que barulho foi esse? — Sra. Granger perguntou assustada.
—Foi o Ron. Acho melhor entrarmos mamãe. — Ela pediu e foi prontamente atendida, o que me fez pensar que eles nunca negaram nada a ela.
No caminho de volta ao chalé Hermione andou entre eles, sendo abraçada por ambos. Nem pensei em me intrometer, era o momento deles e eu fiquei feliz em poder acompanhar de perto. A porta foi novamente destrancada e minha namorada a manteve aberta um pouquinho mais de tempo para que eu pudesse passar.
Por dentro a casinha parecia mais confortável e aconchegante que qualquer casa grande que eu já tenha visto, e me lembrava um pouco a sala comunal da Grifinória, em Hogwarts. Uma lareirinha de pedra ao canto direito deixava o ambiente elegante, e as duas poltronas vermelhar em volta dela o tornavam familiar. Um tapete felpudo no chão, uma pequena mesinha de centro, uma pia um pouco à esquerda da lareira e à minha esquerda uma porta que eu imaginei dar acesso ao quarto.
—Ron, pode tirar a capa. — Mione interrompeu minha análise e só de pensar em encará-los eu me senti corando absurdamente.
Puxei a capa de cima de mim e à medida que eu ia surgindo à frente deles o olhar de espanto dos dois seria cômico se eu não estivesse tão nervoso.
—Mas como? — Minha sogra murmurou e em segundos sua expressão se transformou, mostrando que ela já havia entendido tudo (isso também me lembrou Hermione). — A capa da invisibilidade, não é? — Perguntou para a filha, que confirmou com um aceno de cabeça. — Mas não era do Harry?
—Pegamos emprestada. — Mione esclareceu e veio para o meu lado, segurando minha mão e me deixando mais constrangido ainda. — Papai, mamãe, esse é o Rony.
O Sr. Granger me cumprimentou com um aceno de cabeça discreto e seus olhos dispararam para nossas mãos unidas, Mione no entanto não a soltou. A Sra. Granger sorriu cúmplice para a minha namorada, que corou absurdamente, antes de dizer:
—Hnn, Rony. É um prazo finalmente conhecê-lo.
—O prazer é meu, senhora. — Respondi sentindo minhas bochechas quentes.
Passado o momento constrangedor das apresentações, onde Mione propositalmente não citou nosso namoro, fomos convidados a nos sentar em uma mesa que havia na cozinha e a tomar café da manhã com eles.
A primeira coisa que a Sra. Granger quis saber quando nos sentamos foi o motivo de ter tido a memória arrancada por uma bruxinha metida a besta (palavras dela!). Enquanto Hermione contava com muito poucos detalhes nossa viagem, pulando propositalmente os piores momentos, eu via minha sogra fazer expressões de horror, desespero, raiva e alívio, simultaneamente. Quando Hermione terminou sua narração ficamos mais ou menos vinte minutos ouvindo um sermão de como isso foi perigoso e depois um tempo considerável escutando ela dizer como estava orgulhosa de nós três (do Harry também).
A Sra. Granger parecia exultante e não desviou os olhos do rosto de Hermione um segundo enquanto conversavam. O Sr. Granger apenas observava sorrindo mais discreto e eu me mantive calado, na verdade me sentindo um pouco intruso nesse momento deles. Apesar de ter passado a noite em claro junto comigo Hermione estava totalmente desperta, eufórica e feliz, o contrário de mim que só compartilhada da sua felicidade.
—Papai, vocês não estavam de saída? — Ela perguntou e em seguida tomou um pequeno gole do seu chá.
—Estávamos, mas não tem mais importância. Íamos apenas caminhar pelas montanhas aqui perto, preferimos ficar com você. — Ele respondeu solicito e sorrindo.
—Com certeza preferimos. — A Sra. Granger concordou imediatamente.
—Na verdade, eu ia perguntar se podia ir junto. Morro de saudade desses nossos passeios juntos. — Mione confessou um pouquinho vermelha.
—Oh meu bebe. — minha sogra murmurou com os olhos extremamente brilhantes. — Não nos tire mais de perto de você, nem que seja por essa bobagem de nos proteger. Você fez tudo ao contrário, nós é que devemos protegê-la sempre. — Concluiu limpando uma lágrima teimosa enquanto Mione fez o mesmo e o Sr. Granger olhou para os lados disfarçadamente. — Claro que vamos caminhar com você, não é John?
John? Não sabia que esse era o nome do pai dela.
—Claro que sim. — Ele respondeu já se levantando. — Essas roupas estão confortáveis Mi?
—Sim papai, obrigada. — Se virou pra mim estonteante de felicidade. — Vamos am... Ron?
Eu reparei que ela ia me chamar de amor, e os pais dela também. Agora, em conseqüência, os dois mantinham os olhos cravados em mim: A Sra. Granger com alegria, o Sr. Granger com espanto. Eu sei o que ela esperava de mim, e o fato de tentar concertar me chamando de Ron significava que ela estava me dando tempo e mentalmente eu agradeci por isso enquanto sorri sem graça para os dois e ela ficou escarlate, me lembrando nosso primeiro beijo.
Eu não tinha duvidas nenhuma de que deveria fazer isso, até porque mamãe me mataria se eu não fizesse. No entanto, eu não estava certo quanto ao momento ser ou não adequado. Então, nos segundos que se passaram eu juntei toda minha concentração e pensei rápido: eles já sacaram, não são bobos, e eu não posso correr o risco de estragar um dos dias mais felizes do amor da minha vida por medo infundado de uma coisa que acabaria acontecendo. Após concluir respirei fundo, tomei coragem e tentei soar o mais firme possível:
—Bom, Sr. Granger, Sra. Granger, será que poderíamos conversar um pouco antes de irem? — Comecei tirando forças sabe-se lá de onde para olhar para os dois enquanto falava.
—Sobre o que? — Ele perguntou.
—Claro que sim, querido. — Ela concordou sorridente demais.
Olhei rapidamente para Hermione e ela era um misto total de vergonha e felicidade, e quando seus pais se sentaram ela sentou-se também, dessa vez segurando minhas mãos sobre a mesa, local para onde o Sr. John Granger lançou um olhar de quase pânico. O que eu teria achado cômico se uma das mãos não fosse minha.
—Bom, na verdade eu não sei por onde começar já que eu nem os conhecia direito até hoje de manhã. Mas eu também não acho cedo demais já que eu conheço Hermione há sete anos. — Pigarreei e tentei reatar o rumo inicial da conversa, esse não é um bom momento para discursos e eu nem sou muito bom nisso. — Acho que os senhores já perceberam e eu já tenho um “sim” dela — apontei para uma Hermione exultante — que na verdade me surpreendeu porque eu achei que ela fosse passar a vida inteira só brigando comigo — nesse momento os três riram um pouco — mas eu acho certo pedir também o consentimento de vocês para namorá-la.
Terminei de falar sentindo minhas orelhas muito quentes e eu sabia que estava vermelho. Mione me olhava com um carinho desmedido que me fez ter muita vontade de sentá-la no colo e dar um daqueles abraços bem fortes que faz ela me dar um tapa depois. A Sra. Granger nos olhava quase ou tão feliz quanto a filha e o marido olhou da filha para mim, para enfim dizer:
—Você gosta dela Ronald? — Não havia acusação na sua voz, só duvida e preocupação.
—Eu a amo, senhor. — Respondi corando um pouco mais.
—Bom, se ela já te deu um sim, como você mesmo disse, eu não tenho por que dizer não. — Respondeu enfim. — Grace? — Perguntou para a mulher.
Grace? Minha sogra se chama Grace, que nome bonito!
—Não me oponho de forma alguma. Aliás, eu adoro seus pais e tudo que vocês fizeram por Hermione esse tempo que estivemos fora, contra nossa vontade, só me faz ficar mais feliz com essa noticia, Ronald. — Concluiu sorrindo bondosamente para mim.
Depois disso eu fiquei encabulado demais para dizer qualquer coisa e Hermione também, então meu sogro veio em nosso socorro:
—Então, ainda querem caminhar? — Perguntou animado e se levantando.
—Claro! — Mione respondeu imediatamente enquanto ela e a mãe levantavam de um pulo.
Eu me mantive sentado, honestamente sem nenhuma vontade de ir também. Em partes porque estava morrendo de sono, em partes porque esse era um momento deles, o momento onde contariam tudo que aconteceu nesse tempo todo, e eu me sentiria um intruso.
—Não vem amor? — Mione me convidou quando eu me mantive sentado.
—O que foi, querido? — Sra. Granger me perguntou.
—Acho que vou ficar, se não se importarem. Esse é um momento de vocês, não quero atrapalhar. — Falei parte da verdade.
Hermione não disse nada, ela sabia que não era só isso e eu também sabia que ela queria privacidade para contar a mãe sobre nós dois (isso em deixava feliz pra caramba).
—Não seja tolo, não irá nos atrapalhar em nada. — Minha sogra insistiu.
—Mamãe, Ron tem razão. Faz muito tempo que não saímos juntos e ele terá inúmeras oportunidades para nos acompanhar. — Piscou pra mim cúmplice. — Só vou me despedir e já vamos.
Ao ouvir isso a Sra. Granger se retirou imediatamente arrastando o marido pelas mãos e nos deixando a sós.
—Está cansado, não é? — Perguntou parando no meio das minhas pernas e eu a abracei pelos quadris, que eram onde meus braços alcançavam já que eu estava sentado numa cadeira relativamente baixa.
—Bastante. — Confessei fechando os olhos para seu carinho nos meus cabelos. — Se importa se eu não for?
—Não. Na verdade vai ser legal conversar um pouco a sós com meus pais.
—Falar sobre mim, não é? — Perguntei convencido e ela ficou vermelha, mas riu comigo.
—Mesmo que eu não fale, assim que eu passar por aquela porta eles vão me encher de perguntas. — Fez uma careta de desgosto e eu dei um beijinho suave um pouquinho abaixo dos seus seios, que era exatamente onde meu rosto alcançava.
—Será que eu poderia dormir um pouco? — Perguntei com a cabeça encostada nela.
—Claro amor, eu mando um patrono quando estivermos voltando. — Virou meu rosto pra cima e me deu um beijo suave na boca. — Obrigada por estar aqui, por me ajudar.
—Você merece. — Respondi simplesmente.
—Preciso ir ou eles vêm me arrastar. — Me deu outro beijo. — Se precisar de alguma coisa pode procurar, papai e mamãe não se importariam. Se cuida. Te amo.
—Também te amo. Se cuide também. — Ela me deu mais um beijo e foi saindo, quando estava na porta eu a chamei e ela se virou para mim. — Mi, seus pais são maravilhosos, de verdade.
Ela sorriu, me mandou um beijo e saiu fechando a porta atrás de si.
Eu fiquei na janela da cozinha observando-os caminhas em direção ao portão que limita a propriedade da pousada. A essa hora vários chalés em volta já estavam com as luzes acesas e algumas pessoas inclusive caminhavam pelas ruas. Hermione foi paparicada o caminho todo: andando no meio dos pais, segurando a mão de ambos e ora sendo abraçada por um e por outro, se bem a conheço ela estava adorando isso. E eu estava feliz por ela.
Quando os três sumiram do meu campo de visão me virei e entrei timidamente no quarto da pequena casinha, assim como o resto do lugar ele era simples, mas aconchegante, e para minha total felicidade além da cama de casal havia um sofazinho de dois lugares ali, onde me aconcheguei para dormir e apesar do meu tamanho fiquei confortável. A idéia de dormir na cama dos meus sogros não me parecia muito certa, e acho que mamãe não aprovaria também, já que eu nunca pude dormir nem na cama dela.
Antes de dormir ainda me lembrei de Harry e Gina, ele deve estar ficando louco com tantas idas ao shopping, porque faz tudo que minha irmã quer e ultimamente ela só quer isso. Que eu saiba, e o que mais ela anda querendo não faço questão nem de imaginar.
Fechei os olhos para dormir e ainda pensando na cara de felicidade de Hermione deixei a inconsciência me levar: se ela estava feliz eu também estava, era sempre assim.
Fale com o autor