Sobre os 19 anos depois
6 Beco Diagonal - I
Notas iniciais
POV Harry
Quando chegamos em casa, entramos como se nada tivesse acontecido e nos sentamos para comer junto com os outros. Gina era muito criativa, de fato, e ela contou tão bem nosso dia que eu quase acreditei que havia ido ao parque, feito piquenique em um lago, passeado pela roda gigante, mas não tínhamos subido porque eu fiquei com medo (e nessa hora todo mundo riu de mim, inclusive ela). O único momento em que a coisa quase não deu certo foi quando a Sra. Weasley me perguntou por que eu não falava nada, mas Gina interveio dizendo: "mamãe, deixa eu falar, eu gosto de falar!", então todos riram dela e voltaram a prestar atenção em sua narração.
Conversamos durante bastante tempo, e quando o foco do assunto estava a uma distância segura do nosso fictício dia no parque eu comecei a falar também. Conversamos sobre quadribol, sobre as notícias recentes publicadas pelo Profeta Diário, um pouco sobre música bruxa e trouxa, mas a conversa acabou se voltando para a Austrália.
—Quando vocês viajam meninos? — Indagou a Sra. Weasley, aparentemente normal, sem qualquer outra intenção.
Hermione foi quem respondeu:
—Daqui a 15 dias mais ou menos, temos que comprar nosso material da escola e irmos logo, assim voltamos a tempo para o ano letivo, só estamos esperando que a Gina faça 17 anos. — Falou calma.
—Hnn... E já decidiram onde vão ficar enquanto estiverem por la? — Perguntou novamente.
—Ainda estamos nos decidindo se é melhor ficarmos acampados em um local afastado, com alguns feitiços em volta ou se devemos nos hospedar como trouxas em algum hotel da cidade. — Rony se pronunciou dessa vez.
—E vocês já decidiram como farão para cuidar de Gina? — Ela perguntou e agora sim tivemos certeza de que era isso que ela queria perguntar desde o começo.
—Ora mamãe, eu não sou uma criança que precisa de três babás. — Gina disse indignada. — Harry, Rony e Hermione tinham a minha idade quando saíram daqui pra enfrentar Você — Sabe — Quem.
—Era diferente Gina...
—A diferença era que Hermione era caçada por ter nascido trouxa, Rony por ser um traidor do sangue e Harry por ser O Menino que Sobreviveu e agora não há nada que ameace nossa segurança. — Ela rebateu séria e emendou. — Essa é a única diferença que eu vejo.
—Não fale assim comigo, mocinha. — A Sra. Weasley começava a se exaltar, como no dia em que queriam me contar sobre a Ordem.
—Então não me trate como uma criança indefesa! Na próxima semana já terei 17 anos e vocês não podem me tratar como um bebê para o resto da vida. — Nessa hora Gina parecia mais triste do que brava.
Eu, Ron e Hermione assistíamos a tudo calados, não tínhamos como nos intrometer naquele assunto, por mais que eu e Hermione achássemos que Gina tinha razão. Rony decidiu falar:
—Mamãe, eu também não queria que a Gina fosse, no começo, mas também não vejo que mal há se ela nos acompanhar. — Ele disse um tanto inseguro, não era do seu feitio enfrentar os pais. — Mesmo que houvesse qualquer perigo, ela não é mais criança, e não vai ter nada demais, provavelmente só um pouco de escândalo da Hermione quando ela ficar nervosa demais, mas ela sempre faz isso.
—Mas Ron, ela é...
—Ela já é uma mulher, mamãe, não podemos mais negar isso para nós mesmos. — Rony concluiu.
Todos ficamos em silêncio. Eu estava admirado com o que Ron havia feito e o orgulho de Hermione era quase palpável. Gina mantinha-se impassível, como sempre ficava em uma situação mais tensa (e isso me irritava profundamente, nunca se sabia o que ela estava pensando), e a Sra. Weasley finalmente suspirou derrotada.
—Ok, se não há outra maneira, mas eu realmente gostaria que vocês não a deixassem sozinha, ela nunca viajou sem mim e Arthur.
—Não ficarei sozinha, mamãe, não tem porque querer me afastar deles. — Ela disse firme, como quem encerra o assunto.
Aos poucos fomos nos dispersando, a Sra. Weasley voltou aos seus afazeres, e nós quatro fomos para os jardins aproveitar o fim de tarde e ver o pôr do sol. Quando estávamos saindo, me virei para Gina:
—Vamos bebê. — E recebi um olhar mortal em troca.
O resto do dia se passou sem mais novidades, ficamos nos jardins até a hora do jantar conversando. Hermione se negava a planejar a viagem, e como não queríamos adiantar os escândalos, falamos um pouco sobre o que faríamos no dia seguinte quando fôssemos ao Beco Diagonal. Em algum momento eu teria que me afastar deles para comprar o presente de Gina, e Hermione deveria me ajudar com isso, mas não era necessário pedir, ela era naturalmente esperta para perceber sozinha.
Jantamos o pudim de rins feito por Monstro, e sem a ajuda da Sra. Weasley, que ficou sentada no sofá reclamando que a cozinha era dela. Na hora do jantar o Sr. Weasley e Jorge já tinha voltado do ministério e assim que meu sogro me viu olhou-me de uma maneira muito inquisidora, lancei-lhe uma piscadela discreta e ele sorriu radiante, entendendo que aquilo queria dizer "microondas". Assim que nos levantamos da mesa, Jorge foi para seu quarto trabalhar na nova gemialidade Weasley que estava desenvolvendo, A Sra. Weasley expulsou Monstro da cozinha para começar a arrumar tudo, o elfo por sua vez foi se deitar, o Sr. Weasley saiu quase correndo para o quartinho de bagunças, eu e Rony fomos jogar xadrez de bruxo e Gina e Hermine saíram quase correndo pelas escadas, segundos depois escutamos a porta do quarto em que as duas estavam se fechar.
Eu ainda perdia de Rony, mas não era mais tão vergonhoso quanto antes.
Jogamos algumas partidas de xadrez, a Sra. Weasley já tinha ido se deitar, o Sr. Weasley provavelmente ficaria muito mais tempo com seu novo objeto, eu e Rony estávamos sozinhos na sala e as meninas ainda estavam trancadas conversando. Eu sabia muito bem o assunto em pauta, mas evitei pensar demais nisso, eu achava muito vergonhoso.
—Eu estava me perguntando. — Rony falou de repente me fazendo dar um pulo. — Se você por acaso sabe o assunto de que elas tanto falam.
E eu gaguejei, claro!
—Eu.. hmm... é.. — Por Merlin, era muito difícil! — Deveria saber?
E ele riu. Francamente, Rony estava ficando bipolar (e olha que eu nem sei se bruxos sofrem de bipolaridade).
—Harry, só a mamãe acreditou naquele papo de dia no parque. — Ele esclareceu sua linha de raciocínio.
—Ah é? — Perguntei muito constrangido.
—É! Você não viu os olhares que eu e Hermione trocamos durante todo aquele falatório de Gina? Ela é mesmo muito convincente quando quer. — Ele falou divertido e de repente pareceu se lembrar de algo importante. — Ah, mas não precisa me contar detalhes, como normalmente Gina está fazendo com Hermione agora.
Dessa vez eu ri, Rony era hilário.
—Nem que eu quisesse eu conseguiria descrever, então melhor deixar por conta da criatividade da Gi e esperar que ela termine de contar sabe-se la quais barbaridades para Hermione. — Eu finalizei e nós rimos.
Nesse momento eu levei outro cheque-mate.
—Já sabe o que vai dar de presente pra ela? — Ele perguntou mudando totalmente de assunto.
—Não faço a menor idéia, ela é muito surpreendente, sempre que acho que ela vai gostar de alguma coisa eu ganho aquele olhar de desaprovação. — Falei confuso. — Mulheres são muito complicadas.
Rony gargalhou baixinho pra não chamar atenção.
—Não, cara, sua mulher é complicada. Pra Hermione é só comprar um livro. — Ele disse em tom de sabedoria.
—Ah então bom saber que os próximos presentes da Hermione, em todas as datas comemorativas, por não sei quantos anos, serão livros. Ela vai ficar emocionada com tanta criatividade. — Falei sarcástico.
—É.. eu não tinha pensado nisso. — Ele falou confuso e agora sim era o Ron de sempre.
—Eu gostaria de dar a ela uma coisa marcante. — Falei pensativo. — Algo que fosse especial, pra lembrar o primeiro presente, entende? Mas tudo que eu penso me parece pouco perto do que ela merece.
—Que horror, Harry, você anda lendo aqueles livros de romance que a Hermione tem? Nunca te vi tão sentimental. — Ele disse com cara de nojo. — Que Merlin me livre de ficar assim.
—Aah sim, como se você não estivesse. — Disse e pigarreei, adotando uma imitação da voz de Rony. — "E deixar a Hermione? Eu não duraria um dia sem ela". — Finalizei e apesar de um pouco tímido ele riu também.
—Dê roupas. — Ele sugeriu.
—Não, Gina não me parece tão superficial a ponto de achar isso marcante.
—Uma vassoura — Sugeriu novamente.
—Muito masculino.
—Jóias. — Ele propôs.
—Muito feminino.
—Uma festa surpresa. — Outra sugestão.
—Muito fútil.
—Uma aliança. — Tentou novamente
—Muito trouxa, ela não iria gostar tanto.
—Flores. — Ele tentou.
—Muito frágeis, vão morrer rápido.
—Então, cara, boa sorte! -Ele disse desistindo.
—Vou precisar mesmo. — Falei me encostando no sofá e Ron bocejou. — Vamos nos deitar? Amanhã quero ter uma idéia do que comprar e preciso pensar nisso ainda.
—Vamos, você pensa e eu durmo, to cansadão. — Ele falou já se levantando e saindo em direção às escadas.
Subimos devagar, Rony provavelmente pensando em novas sugestões pra me dar e não chegando a nenhuma conclusão e eu imaginando o que Gina estaria dizendo a Hermione, talvez eu pergunte a ela amanhã. Entramos no quarto de Rony, fechamos a porta e colocamos nossos pijamas. Ron se deitou em sua cama e eu na cama auxiliar ao lado.
—Boa noite, Harry.
—Boa noite, cunhado. — Falei e rimos juntos.
Mais dez minutos e Rony já ressonava, mais alguns minutos e os roncos começariam. Me virei de lado e comecei a pensar no presente perfeito para Gina, aliás, a repensar. No fundo eu já sabia o que queria comprar pra ela, só não sabia se seria tão marcante pra ela quanto foi pra mim quando ganhei o mesmo presente, alguns anos atrás. No fim não consegui pensar muito, meu dia foi bastante agitado e eu também estava com sono. Gina havia me convidado para ir ao quarto dela, mas hoje não era o dia ideal. Estávamos cansados, amanhã sairíamos cedo e ela provavelmente ainda estava conversando com Hermione. Essa noite seria delas, mas daqui um tempo todas elas serão nossas.
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