Sobre amor, tartarugas e novas chances
20 Capítulo XX
'Eu sinto muito.' A médica ruiva disse suspirando e passando a mão na testa.
Jane sentiu os joelhos enfraquecerem diante das palavras, Maura mordeu os lábios, mas então...
'O hospital está lotado hoje. Acidente no porto envolvendo um navio grande e... Por que vocês não se sentam?' Ela gesticulou com a mão o banco, inconsciente do ataque de coração que quase dera a Maura e Jane.
As duas se sentaram novamente, assustadas demais para responder qualquer coisa. Elas tinham as mãos entrelaçadas e foi Maura quem saiu do transe primeiro.
'Harriet... Co-como ela está?' Ela apertou as duas mãos na de Jane porque elas estavam tremendo.
'Estável, agora. Eu sou a médica responsável por ela, Dra. Morris, a propósito.' Ela dizia enquanto se sentava à frente das duas.
'Detetive Jane Rizzoli e Dra. Maura Isles.' Jane finalmente conseguiu falar.
'Vocês são as mães dela, eu suponho?' Ela perguntou diretamente enquanto os olhos azuis vasculhavam as duas, concluindo que eram um casal pelo modo como seguravam as mãos.
'Não, nós... Somos apenas as responsáveis no momento.' Maura disse e engoliu seco temendo que a médica não estivesse mais disposta a compartilhar sobre o caso da garotinha depois da informação. O que era uma bobagem porque Jane era uma detetive e ela era de fato responsável por Harriet.
'Entendo.' Ela cruzou as mãos sobre as pernas e franziu o cenho. 'Vocês já ouviram falar de Rohypnol?'
Ambas balançaram a cabeça em sim. Era uma toxina que vez ou outra aparecia nos exames de Maura.
'Como vocês sabem, é uma droga proibida, mas infelizmente é uma das drogas mais usadas para... assaltos e estupros. Nós fizemos vários exames para encontrar o que estava desacelerando o organismo dela, e esse foi o resultado. Não sabemos se a droga foi ingerida ou aplicada por via endovenosa na menina, o que nessa altura não faz muita diferença. O mais importante é que conseguimos identificá-la a tempo.' A mulher mordeu o lábios inferior, pensativa e levantou os olhos azuis para as duas. 'É muito sorte dela ter chego aqui antes do pico de efeito. Um pouco mais tarde e... ela provavelmente estaria morta. Vocês trouxeram ela bem a tempo.'
'Quem administrou isso não tinha ideia do que estava fazendo.' Maura pontuou.
'Absolutamente nenhuma ideia. Uma dose dessas é perigosa para adultos, imagina para uma criança na idade dela.'
'Ela... Ela vai ficar bem?' Jane perguntou, a voz rouca denunciando o medo. Maura queria abraçá-la e beijar sua bochecha. Jane poucas vezes demonstrava temer alguma coisa, mas parece que Harriet era sua exceção.
A médica considerou a resposta. 'Detetive Rizzoli...'
'Apenas Jane.'
'Jane... Ela vai ficar bem. Entretanto devo advertir de que muito provavelmente ela não se lembrará de nada do que aconteceu.'
'Melhor.' Jane suspirou, e o comentário surpreendeu à ela mesma. Mas francamente, nessa altura ela pouco se importava com a investigação, ela queria apenas o melhor para Harriet.
'Olha... Nós administramos Flumazenil, um antídoto eficaz contra essa toxina. A dosagem é lenta, apenas 1mg por hora. Nós esperamos que ela acorde logo, é claro, mas caso não acorde nós continuaremos com o antídoto. Você entende?'
Jane balançou a cabeça em sim, mas estava incerta. 'Se não fizer efeito...?'
'Vai fazer, Jane. Vai fazer.' Maura garantiu e lhe apertou o braço num gesto de conforto e promessa.
Dra. Morris concordou com a cabeça e sorriu para as duas. 'Eu também consultei, é claro, o corpo da menina. Nenhum hematoma, nenhum osso quebrado, nenhum sinal de abuso ou de força física usado contra ela. Eu imagino que isso você já tinha concluído, Dra. Isles.'
'Maura, por favor. E sim, embora tenha sido um exame rápido.'
Morris concordou com a cabeça e se voltou para Jane. 'Detet... Jane', ela se corrigiu quando Jane franziu o cenho para ela, 'não sei até que ponto posso ajudar na sua investigação em relação à isso, mas te ajudarei no que eu puder. É só me dizer o que precisa.'
Jane olhou para Maura e ponderou a questão. 'Nesse momento nós... Será que nós podemos vê-la?'
A médica abriu um sorriso para ela, como se já tivesse previsto o pedido. 'Certamente. Ela estava sendo movida para o quarto quando vim para cá. Por que vocês não me acompanham?' Ela se levantou e esticou o braço numa direção enquanto esperava pelas duas.
As três caminharam lado a lado pelos corredores do hospital. Antes de alcançarem o quarto, no entanto, a médica se virou para elas e disse numa voz suave. 'Ela está no oxigênio porque, como eu já disse, essa droga desacelera o organismo. Não se assustem com os tubos, certo? É apenas para auxiliar na respiração.' Ela ofereceu aquilo que dizia para qualquer familiar prestes a encarar um ente querido numa cama de hospital. Mesmo sabendo que Maura também era uma médica, e que provavelmente estava tão acostumada com aquilo quanto ela, ela sabia que a visão de médico-paciente mudava completamente quando o médico se tornava família. Elas andaram mais um passo e a mulher abriu a porta do quarto 108, indicando com a mão para que as duas entrassem.
'Oh, Deus.' Maura murmurou e levou a mão na boca para suprimir a voz tremida quando estudou a criança deitada na cama. Ela parecia pequena demais para estar ali, mas ao mesmo tempo a loira se sentia aliviada — tão aliviada — por isso. Ela ficaria bem. Ela acordaria logo.
Jane apenas tinha suspirado — também em alívio, e passado a mão na cintura da loira. Ela queria terrivelmente segurar Harriet em seu colo porque mesmo coberta com o cobertor azul do hospital, ela parecia fria. Talvez ela pudesse fazer isso mais tarde quando a menina estivesse livre de todos aqueles tubos.
Dra. Morris limpou a garganta, 'Eu vou... vou deixá-las sozinhas.' Ela segurou a maçaneta da porta e olhou de novo para as mulheres. Elas pareciam comovidas demais com a menina para seu gosto, pareciam preocupadas muito além do que o caso exigia. O jeito como a loira segurava a mão da garotinha e acariciava sua testa com ternura, obviamente segurando as lágrimas. O jeito como a detetive parecia inconfortável demais em vê-la ali na cama, o modo como ela tinha levantado o cobertor até o queixo para se certificar de que ela estava aquecida... Isso era muito mais do que se importar em resolver um caso.
'Eu... Normalmente diria que vocês tem apenas uns minutos, mas... Bem, Dra Isles, porque você não se utiliza do seu título para ficar aqui quanto tempo desejar?' Ela abriu um sorriso em cumplicidade para a loira.
Maura acenou com a cabeça. 'Muito obrigada.'
'Não por isso. Eu mesma não gostaria que ela acordasse sozinha aqui.' Ela sorriu e se virou para sair. Antes disso...
'Doutora?' Jane a chamou, a voz rouca preenchendo o quarto.
'Sim?'
'Muito obrigada por salvar a tartaruga. Quer dizer, Harriet.' Ela balançou a cabeça para se corrigir e ouviu Maura rir baixinho atrás de si.
'Apenas fiz meu trabalho, detetive.' E depois de oferecer um sorriso ela partiu.
Então era isso, elas estavam confortáveis ali, na presença uma da outra. Maura jogou os braços em volta do pescoço de Jane e a abraçou, permitindo que algumas lágrimas caíssem finalmente. Jane a segurou pela cintura e sorriu às sensações: sorriu porque tinha Maura tão perto de si que sentia seu calor, sorriu porque apesar das baixas probabilidades elas tinham resgatado Harriet, sorriu porque a médica lhe dissera que ela iria acordar e Jane mal podia esperar para ver seus olhos azuis mais uma vez e aquela voz inocente e, Deus, Jane tinha certeza de que Harriet abriria um sorriso ao vê-la de novo. E agora, droga, seus próprios olhos estavam molhados.
'Nós conseguimos, Maura.' Ela falou enquanto corria as mãos nas costas da mulher. 'Hoje a noite eu vou dormir muito mais tranquila.'
Maura balançou a cabeça em sim, sua cabeça apoiada no peito de Jane. Ela não confiava na própria voz. A conversa com Hope tinha de fato feito ela se sentir melhor, mais confiante e esperançosa em acabar encontrar Harriet, mas ela não imaginou que fosse acontecer tão rápido. A mudança de estado de emoções tinha sido intensa desde aquele momento, e agora Maura estava tão cansada que tudo o que ela conseguia sentir era gratidão e felicidade. Talvez ela devesse focar nesses dois sentimentos, sentar e observar enquanto Harriet dormia para não perder a menina de vista outra vez. Ela estava a salvo, ela ficaria bem e isso era tudo o que Maura precisava no momento.
'Obrigada por não ter desistido.' Ela pressionou os lábios no pescoço de Jane e virou o rosto para olhar a menina, nunca soltando a detetive.
'Maura, eu disse que não tinha desistido.' Jane colocou um beijo em sua cabeça.
'Eu sei. Nós chegamos a tempo.' Ela murmurou.
Jane sentiu uma pontada no coração porque ela sabia o que as palavras tinham significado. Ela mesma estava pensando nelas enquanto esperava notícias da garotinha. E se fosse tarde demais? Felizmente, dessa vez não tinha sido. Vocês trouxeram ela bem a tempo, a médica tinha dito. Talvez agora fosse o momento de admitir essa vitória, de finalmente se conformar com a perda do bebê e compreender que não tinha sido culpa de ninguém. Elas tinham feito tudo que estava ao alcance antes, elas tinham tentado de qualquer forma. A perda não tinha nada a ver com negligência, falta de cuidados e amor. A questão de Harriet era sobre o tempo, elas tinham vencido essa; a questão do bebê dizia completamente à respeito de genética — algo que fugia do controle delas. Agora que estava tão claro, Jane se perguntou como demorou tanto tempo para entender, realmente entender, isso.
Quando Maura finalmente ergueu a cabeça e sorriu para Jane, ela soube que a loira tinha compreendido a mesma coisa que ela. Provavelmente antes. Ela sorriu também e beijou os lábios da mulher. Agora era o momento — ela esperava — de tudo voltar aos eixos.
A medida que os batimentos cardíacos de Harriet vinham se tornando normais, Maura e Jane se sentiam mais confiantes com a recuperação da criança. Fazia meia hora que Jane tinha deixado o quarto. Ela tinha que voltar à delegacia para se informar sobre o homem que tinha sido levado para interrogatório. É claro, essa não era a única coisa que planejava fazer antes de retornar ao hospital. A médica estava sozinha no quarto, apenas com a companhia da figura pequena da garotinha adormecida, imergida em seus próprios pensamentos. Já havia passado das seis horas e Maura sabia que não demoraria muito para Harriet acordar — pelo menos era o que se esperava.
Cansada de ficar tanto tempo sentada, a médica se levantou e finalmente cedeu à caixinha de suco que Jane tinha comprado para ela antes de deixar o lugar. Francamente, Jane ainda precisava trabalhar no costume de ler as informações nutricionais dessas coisas. A quantidade de sódio ali era inaceitável! Mesmo assim, a loira estava começando a ficar com fome. Aquilo teria que servir por enquanto. Ela sugou o conteúdo que, teve que admitir, era gostoso. Um veneno — de acordo com ela — saboroso e em pequena quantidade. Decepcionada, ela lançou a caixinha no lixo e pegou o celular do bolso. Os pensamentos estavam voltados para Hope e ela tomara coragem para lhe mandar uma mensagem.
Ela só não sabia o que escrever. Talvez um agradecimento? Não, ela já tinha feito isso. Quem sabe apenas algumas palavras dizendo que tinham encontrado a garota? Ou então... Ou então o que, Maura? Apenas digite algo! Os dedos vacilaram em cima da tela lisa. Por que ela estava hesitando tanto? Tudo o que precisava e queria dizer era que elas finalmente tinham Harriet de volta e que ela estava certa. O problema é que Maura sempre acabava colocando as coisas de modo impessoal, e ela não queria que a mensagem soasse distante demais. Ela resolveu adiar a mensagem por enquanto e devolveu o celular ao bolso. Cruzou os braços em torno do peito e olhou para fora da janela. O céu ainda estava nublado, mas agora as nuvens estavam rasgadas e os últimos raios de sol cortavam entre elas, deixando um tom de vermelho, azul marinho e violeta tingindo um pôr-do-sol aquarelado. Sua atenção foi tirada da paisagem quando ela ouviu Harriet choramingar. Ela se virou rapidamente e assistiu enquanto a menina puxava o tubo de oxigênio e franzia o rosto numa expressão de dor.
'Harriet, não.' Ela tentou advertir, mas já era tarde demais. Tubo de oxigênio: jogado ao lado. Ainda chorosa, a menina tentava tirar a agulha com o antídoto do braço. Maura se adiantou até ela e tentou evitar. 'Harriet, você deveria...'
'Tá me picando!' A menina exclamou estendendo o braço para Maura, num pedido de ajuda. 'Tá me picando!' Ela repetiu e os olhos azuis encontraram os de Maura.
A loira segurou o ar por um instante. Aqueles olhos, Maura tinha pensado que nunca mais os veria. Cuidadosamente, ela segurou o braço da menina e verificou. Por causa da movimentação a agulha tinha escapado do lugar e era esse o motivo da dor. Maura retirou-a com cuidado e interrompeu o fluxo da administração. Aliviada, a garota esfregou o braço com a mão enquanto Maura se voltava para ela de novo.
A loira não teve tempo para pensar. Juntando toda a força que tinha a garotinha se ajoelhou na cama e tentou se levantar, as pernas falharam ao sustentar seu peso, mas isso não foi o suficiente para impedir que se jogasse no colo da mulher. 'Maur!' Ela exclamou e apertou os braços em ao redor do pescoço dela.
O coração da médica disparou. Primeiro porque se assustou com o pulo da menina e a possibilidade de ela escapar para o chão, e segundo porque quando finalmente ela segurou-a no colo, como já tinha feito algumas vezes, sentiu uma imensa necessidade de chorar. Parecia tão familiar, tão costumeiro. Harriet se encaixava tão bem em seu colo que ela não conseguia imaginar um futuro onde não pudesse tê-la ali. Mas ela não permitiria lágrimas. Agora seriam só sorrisos.
'Oh, Harriet. Eu senti tanto a tua falta.' Ela deslizou as mãos nas costas da menina e sentiu os braços pequenos se apertarem em volta do pescoço.
'Maura.' Ela disse de novo, e quando a loira tentou afastá-la para ver seu rosto, Harriet se recusou a soltá-la. 'Não! Eles vão me levar de novo?'
'Não, querida. Ninguém vai te levar.' Ela assegurou, mas a menina ainda mantinha os braços pressionados firmemente ali. Maura sentou-se na poltrona e aconchegou a menina no colo. 'Harriet...' Ela passou a língua nos lábios. 'Qual... qual é a última coisa que você se lembra, antes de dormir?'
Harriet ergueu a cabeça para ela, as sobrancelhas erguidas em arco. 'Um homem? Eu acho...' Ela franziu o cenho em pensamento. 'Eu tava no balanço e ele falou comigo.'
'Entendo.' Maura disse e sorriu para ela. Jane tinha o sujeito em custódia, é claro que ninguém precisaria da confirmação da menina para saber que ele era o sequestrador, todos tinham visto. Ainda assim, a possibilidade de ter mais alguém envolvido nisso incomodava Maura. 'Você acha que se você ver esse homem de novo, você o reconheceria?'
'É claro. Eu posso ver o Bass também?'
Maura sorriu para ela. É claro que ela não esqueceria do cágado. 'Pode, querida. Sempre que quiser.' A médica pressionou os lábios na testa dela num beijo demorado. Ela provavelmente deveria chamar a Dra Morris para checá-la, mas não é como se ela mesma não pudesse diagnosticar a menina. Ela acordar tinha sido a prova final de que ela estava bem. Talvez um pouco cansada por causa da quantidade de toxina no corpo, mas definitivamente bem.
'Eu posso ver a Jane também?'
Maura sorriu abertamente. 'Por que não avisamos ela de que você já acordou? Assim ela volta logo para cá.'
'Ela estava aqui?' Ela perguntou surpresa.
'O tempo todo enquanto você dormia.'
'Oh.' Harriet pensou por um instante e depois olhou curiosa para Maura.
'Aonde nós estamos?'
Maura riu. 'No hospital, Harriet.'
Ela arregalou os olhos. 'Eu tô doente?'
'Não mais. Você está perfeitamente bem agora.' Maura sorriu gentilmente enquanto a menina processava a informação.
De repente, ela se ajeitou no colo de Maura, sentando de lado. 'Vamos tirar a foto, então.'
'A foto?' Maura perguntou, confusa.
'Igual ao outro dia que você mandou para ela?'
'Oh...' Como ela ainda se lembrava disso? Tinha sido apenas um pequeno detalhe num dia cheio de acontecimentos. 'Tudo bem, vamos mandar uma foto.'
A médica pegou o celular e esticou o braço, e antes de capturar a imagem Harriet colou seu rosto com o dela, o gesto repentino fazendo as duas rirem. Lá estava. Não poderia ser uma foto mais bonita — apenas, talvez, se o plano de fundo fosse um parque ou algo do tipo. Maura digitou uma mensagem — Harriet acordou e está perguntando de você — enviou e colocou o celular de lado.
'Bem... Você quer me contar como é a casa que você estava?' Maura perguntou, sentindo uma pontada de ciúmes.
'Eles não tem nenhuma tartaruga!' A menina exclamou como se fosse a coisa mais absurda do mundo.
'Bem, mas e quanto a você? Você é uma tartaruga, não é?'
Ela baixou o tom da voz e disse séria: 'Mas eu sou a tua tartaruga, Maur. E da Jane.'
Maura sorriu com lágrimas nos olhos. 'Certamente, Harriet. E de ninguém mais.' E eu não faço idéia de como vou deixar você ir dessa vez.
'Eu sinto muito, não queria ter tomado nenhuma decisão, é o seu caso e eu não deveria, quer dizer eu deveria ter te chamado imediatamente...' Maura falava e gesticulava com as mãos enquanto pedia desculpas.
'Dra. Isles, não é um problema. Não vi como uma intromissão, não tinha sentido nenhum fazê-la esperar enquanto estivesse incomodada.' A médica acariciou as costas de Harriet que olhava de Maura para ela e vice-versa. 'E imagino que vocês precisavam de um tempo a sós.'
Maura sorriu para ela. 'Obrigada.' Ela acariciou a mão de Harriet com o polegar inconscientemente. 'Você acha que ela pode receber alta ainda hoje?'
A ruiva deu de ombros, levantou uma sobrancelha para a garotinha enquanto um sorriso cruzava o rosto. 'Você se sente bem para voltar para a casa, Harriet?'
'Muito!' Ela exclamou e juntou os joelhos ao peito.
'Exatamente quão bem?' A médica insistiu, entrando na brincadeira.
'Maravilhosamente bem.' E ela juntou o polegar com o indicador, deixando os três outros dedos esticados — o sinal universal de 'ok'.
Maura riu. Aonde ela tinha aprendido isso?
'Não vejo razão para mantê-la aqui.' A médica ruiva ofereceu para Maura. A menina lambeu os lábios e virou o rosto para a loira.
'Eu vou para sua ca... Jane!' A menina exclamou de repente e se levantou na cama enquanto as duas médicas viravam a cabeça para ela.
Jane congelou. Ela não esperava que a Dra. Morris estivesse ali. Ela se sentia ridícula segurando três balões flutuantes — um em formato de cabeça de gato, o segundo redondo mas todo desenhado, e o terceiro inteiro rosa com a frase 'fique bem' escrita — uma tartaruga marinha de pelúcia do tamanho de Harriet, praticamente, duas sacolas de compras e uma caixa de chocolate na outra mão. Maura estreitou os olhos para o último item.
'Hey.' Ela abriu um sorriso depois do choque ter passado. 'Eu trouxe algumas coisas que pensei que você fosse gostar.' Ela se aproximou, colocou a tartaruga em cima da cama e esticou o braço para Harriet que rapidamente entrou em seu abraço.
'Eu tava com saudades.' A menina disse ignorando todas as coisas e quando ela não soltou de Jane, a morena se viu obrigada a segurá-la no colo.
'Eu também, tartaruguinha.' E era tão bom segurá-la em seus braços. Jane acariciou suas costas carinhosamente, como se certificando de que ela estava realmente ali.
'Ei, você sabia que minha mãe me deu o nome de uma tartaruga?' Ela pareceu se lembrar de repente e perguntou para a médica enquanto virava a cabeça para encará-la.
'Não brinca!' A outra exclamou, parecendo interessada.
'É verdade. Não é, Maura?' Ela esperou pela confirmação de Maura. 'E ela tem 175 anos!'
'Uau! É mesmo?'
'É! Bastante, né?' Ela parou e pensou por um minuto, depois se virou para Maura. 'É bastante, não é, Maura?' Ela não parecia ter tanta certeza agora.
As três riram e ela olhou para cada uma delas sem entender o porquê.
'É bastante sim, Harriet.' Maura confirmou novamente.
'Isso é muito legal, Harriet.' A médica sorriu a apertou a mão da pequena.
'E a Maura tem uma tartaruga também, que na verdade é um cágado, mas a Jane' — ela bateu a mão no ombro da morena, como se tivesse dizendo é dessa aqui que estou falando– 'disse que é pra eu dizer tartaruga pra irritar a Maura.'
A loira revirou os olhos, é claro que Jane gostava de ensinar coisas erradas para a menina.
'Hey!' Ela advertiu. 'Harriet, você se lembra disso tudo e não se lembra que eu disse que era segredo?'
'Desculpa?' A garota tentou.
'Argh... Tanto faz.' Jane deu de ombros e riu, beijando em seguida sua bochecha. 'E então, você quer saber o que eu te trouxe ou não?'
'Quero!' E ela estava toda empolgada porque Jane estava ali com ela.
'Eu preciso visitar outros quartos. Volto mais tarde com os papéis da alta.' Dra. Morris disse e se despediu com um sorriso amigável. As três acenaram com a cabeça e voltaram à atenção para os presentes.
'Primeiro, uma tartaruga de pelúcia para você.' Jane colocou a menina em cima do bicho e ela riu.
'É fofo!' Ela pulou sentada em cima do animal.
'Sim, é. Agora... Sacola número um: um novo pijama do Squirtle.' Ela mostrou a vestimenta para Harriet que sorriu — Deus, ela estava adorável naquela mini camisola do hospital, sentada em cima do bicho de pelúcia como se tivesse surfando mar afora — e esticou a mão para pegá-la. 'Sacola número dois: Okay... Essa foi demorada de achar, mas valeu totalmente a pena.' Ela tirou a camiseta branca de mangas vermelha e desdobrou para Harriet ver.
'Awn, Jane.' Maura exclamou quando entendeu que era uma mini versão de sua blusa que Harriet tinha dormido no outro dia. Quando Jane encontrou seus olhos ela viu ternura ali e sorriu timidamente com o gesto.
'Oh!' Harriet tinha arfado. 'Essa é minha? Para combinar com a tua?'
'Isso mesmo.' Ela sorriu e entregou a camiseta para a menina que pareceu sem jeito.
'Jane?'
'Hum?' Ela ergueu as sobrancelhas.
'Será que eu posso ficar com a tua também?' Ela pediu timidamente.
'B-bem... Pode.' Jane estava confusa. 'Por que, Harriet?'
'Porque cheira você.' Ela disse naturalmente, e Jane escutou da mais doce forma. 'E porque eu quero ser que nem você quando eu crescer.' Jane abriu bem os olhos, quase não acreditando no que tinha ouvido. Essa garotinha, ela sabia como comprar as pessoas, de um jeito meigo e singular que nenhuma outra criança sabia.
'Oh, Harriet...' Ela ficou sem palavras. Segurou a cintura da menina e puxou-a para seus braços de novo, num abraçado novo, renovado de carinho e desejando que, ao contrário do que a menina disse, ela continuasse pequena e doce para sempre. 'Harriet, acho que é muito mais legal ser uma tartaruga.' Ela disse e beijou o rosto da menina. Havia muito tempo para isso, mas Jane não queria que ela corresse o mesmo tipo de perigo e passasse pelas mesmas coisas que ela tinha passado um dia. Deus, você tá parecendo sua mãe, Jane!
A menina ergueu os olhos azuis para ela e sorriu. 'É só você comprar um pijama pra você também!'
Claro, a inocência das crianças. Jane riu e sentou-se na cama, apoiando Harriet em seu colo. 'É uma ótima idéia. Agora... O último presente. Chocolate!' Ela deslizou a caixa para o colo da menina.
A garotinha segurou e abriu imediatamente, tirando um bombom de dentro e em seguida pediu para Jane abrir a embalagem.
'Segura aqui no papel, você não vai querer comer nenhuma bactéria.' Ela disse se lembrando da vez que Maura lhe contou do número de bactérias existentes em hospitais. Ela olhou para a loira que tinha ficado quieta, e agora estava só observando sorrindo. Jane ofereceu um sorriso de volta e voltou a atenção para a menina que mastigava o doce. Ela deslizou os dedos entre o cabelo escuro e ondulado nas pontas.
A médica pegou novamente o celular e abriu uma mensagem. Ela sabia exatamente o que mandar para Hope agora. Ela aproveitou o momento que Jane estava distraída com a menina e tirou uma outra foto. Jane tinha os braços em volta da garotinha num gesto de proteção e o cabelo escuro da mulher se misturava com o cabelo escuro da pequena — que tinha a cabeça encostada em seu peito. Na foto ela segurava o doce e olhava atentamente para ele, e Maura podia jurar que precisaria de uma poesia para descrever o semblante. Ela sorriu satisfeita, anexou a foto junto com a foto anterior dela e da garotinha e escreveu em seguida Você tinha razão. Aqui está o meu milagre. E não era só por causa de Harriet. Jane também tinha sido o seu milagre há algum tempo agora. Era algo que ela reconhecia seu valor todo dia — o jeito como Jane se importava com ela, cuidava dela, a amava, a surpreendia com detalhes pequenos e ainda assim tão significantes. O jeito como seu corpo a aquecia e lhe protegia, o modo como ela lhe amparava. Maura nunca tinha tido isso, até conhecê-la. Jane, seu primeiro milagre. E Harriet... Sua tartaruga. E de Jane. Como ela não poderia deixar se afetar por essa menina? Como ela podia ser imune a um porque cheira você e eu quero ser como você? Tê-la por perto valeria qualquer coisa. Vasos quebrados, tapetes manchados e noites sem dormir. Tudo seria compensado com abraços e beijos, teorias incoerentes e impossíveis, entretanto belas e dignas de serem ouvidas. E desenhos na geladeira. Com ela, Maura contaria seu segundo milagre. Agora vendo Jane e a menina interagir, ela podia jurar que era um combo. Era tudo o que ela queria. Jane. Uma criança. Uma família. Maura nunca esteve tão certa.
Você tinha razão. Aqui está o meu milagre.
Ela enviou a mensagem e voltou os olhos para as duas. Jane agora comia um chocolate também — é claro, alguns costumes nunca mudavam — e perguntava para Harriet qual nome ela daria para a tartaruga nova dela.
'O que você acha, Maur?' A menina perguntou e ela sorrindo, inclinou o corpo para frente.
'Que tal... Clementine?'
Harriet franziu o cenho. 'Que tipo de nome é esse?'
'Hey! É meu nome do meio!' Jane se defendeu.
'Ops.'
Maura riu divertida com a cara indignada de Jane e a expressão de Harriet que dizia 'estou em apuros, me ajude!'.
'É um nome bonito, Jane.' Harriet disse, pouco convencida.
'O que você acha de Dorothea, Harriet?' Jane provocou.
'Eu... ahn...' Ela olhou para Maura que tinha levantado uma sobrancelha. Esperta demais, ela interpretou corretamente. 'Soa perfeito.' Ela ergueu a cabeça e sorriu para Jane, enquanto a morena revirava os olhos.
O celular de Maura vibrou e ela leu a mensagem de Hope.
Espero que você seja sábia o suficiente para manter esse sorriso no seu rosto.
Harriet engoliu o último pedaço de chocolate e entregou o papel para Jane que amassou e colocou em cima da cama. Aparentemente satisfeita com a estadia no colo da morena, ela esticou os braços para Maura que a segurou e a aconchegou no seu próprio colo. Ela suspirou — um tanto cansada depois de tanta empolgação — e encolheu as pernas, apoiando os pés na poltrona.
'Maura, Jane?'
'Sim, Harriet?' Maura disse em voz baixa.
'Hum, tartaruga?' A voz de Jane soou rouca.
'Eu vou voltar para casa com vocês?'
Maura engoliu seco e olhou para Jane. O mesmo olhar questionador estava vindo da morena. O que seria agora? O que Jane achava do pedido? O que ela deveria dizer?
Espero que você seja sábia o suficiente para manter esse sorriso no seu rosto.
As palavras soaram dentro da cabeça de novo.
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