Sobre amor, tartarugas e novas chances
21 Capítulo XXI
Notas iniciais
As coisas começaram, mais uma vez, sair fora de controle. Tudo começou quando o casal responsável por Harriet apareceu no quarto da garota. Ela ainda estava no colo de Maura, e tão logo ela viu a presença dos dois, agarrou o pescoço da loira e começou a chorar. Maura não sabia o que fazer. Eles pareciam boas pessoas. O homem — Arthur — era um pouco mais alto que a mulher — Sally, e os dois eram morenos como Jane e de pele clara como Maura. Eles ficaram inconfortáveis e sem saber ao certo o que fazer em relação à reação da garota. Por um curto período Maura tinha sentido raiva deles, por serem negligentes com Harriet, mas agora ela entendia que tinha julgado a situação de modo errado.
'Harriet, nós só queremos saber se você está bem.' A mulher disse, a voz bondosa e carinhosa surpreendendo Maura.
'Eu tô bem, eu tô bem. Não me leva.' Ela choramingou no pescoço da loira.
'Querida, eles não...' Maura respirou fundo. 'Eles não vão levar você.' Ela disse e evitou o olhar do casal. Não era só porque ela queria que Harriet ficasse com ela, que isso seria verdade. 'Eles só querem se certificar de que você está bem. Por que você não se vira e...' Maura tentou afastar a menina, mas as pernas laçaram sua cintura com força. 'Eu sinto muito.' Maura retornou o olhar para o casal.
'Tudo bem, nós não queremos estressá-la.' O homem disse. 'Só queríamos saber que ela estava salva e bem. Nós estávamos preocupados.' Ele abaixou a cabeça. 'Nós não somos irresponsáveis.' Ele disse em voz baixa.
'Várias crianças já passaram por nossa casa até que fossem adotadas e partissem. Nunca tivemos problemas em deixá-las brincando no quintal. Quer dizer, a vista da sala dá para ele, de modo que sempre estamos checando, mas...'
Jane se sentiu mal por eles. Era claro que eles se sentiam culpados pelo desaparecimento da menina, mas também estava claro como tinham sido afetados, e como se importavam com ela. 'Nós não estamos julgando.' Ela ofereceu. 'Nós achamos que o sequestro...' Ela olhou de soslaio para Harriet que ainda estava com a cabeça enterrada no pescoço de Maura e de novo para eles, 'vocês sabem da situação atual dela?'
'Nós sabemos.' Eles disseram em conjunto.
'Ainda estamos checando, mas aparentemente tudo está relacionado com o caso.'
'Quão grave isso é?' O homem perguntou.
'Grave. Não é o tipo de informação que posso fornecer, mas... Vocês teriam se machucado se tivessem entrado no caminho do sequestrador. A boa notícia é que temos ele atrás das grades, agora. Meus parceiros estão recolhendo as provas para usar contra ele e garantir que ele pague por isso.'
'Caramba... A princípio a gente pensou que ela tivesse, você sabe... Resolvido dar uma volta por aí.'
'Nós buscamos pelas ruas perto de casa, mas ninguém a tinha visto.' A mulher falou. 'Nós nunca imaginamos...' Ela olhou para Harriet de novo, preocupada.
Jane suspirou. Ela conhecia muito bem a aflição e medo que eles estavam sentido, se ela fosse honesta. Talvez conhecesse melhor, já que tinha se conectado com Harriet há mais tempo do que eles antes do desaparecimento. Agora, eles pareciam do mesmo jeito que ela parecera algumas horas atrás: aliviada por vê-la novamente. Uma pena, para eles, que Harriet não tinha se manifestado tão feliz em vê-los quanto à ela e Maura. Na verdade, o pensamento quase a fez sorrir. Harriet era a tartaruga delas, afinal de contas. De alguma forma ela se sentia em vantagem ali. Mas ainda assim...
'Harriet, você deixa eu te segurar um pouquinho?' A detetive perguntou e viu a menina balançar levemente a cabeça em sim. Ela pegou a menina dos braços de Maura e segurou-a por baixo das pernas, apoiando as pequenas costas em seu peito. A menina tentou se virar para esconder o rosto, mas Jane não deixou. 'Ok, tartaruga. Você tem visita, seja legal e diga oi.' Ela se sentou na cama e apoiou a menina em seu colo.
'Oi.' Ela disse em contra vontade, encarando o chão.
'Como você se sente, Harriet?' Sally perguntou, agora um pouco mais feliz em poder ver a menina.
'Cansada.' Ela disse honesta e literalmente. Toda a empolgação tinha sido gasta com Jane e Maura, e agora ela realmente queria dormir. Exceto que ela não podia, porque a possibilidade de acordar sem as duas ali a assustava.
'Bem você teve uma grande aventura. É por isso.' O homem disse.
'Tive?' Ela ergueu a cabeça, perguntando para Jane. Ela não se lembrava de nada, é claro.
'É, bom... Digamos que você passou um tempinho aqui, lutando contra uns carinhas maus dentro de você.' Jane cutucou a barriga dela e a menina riu.
'Então essa é a moça que tem uma tartaruga?' A mulher perguntou de novo.
'Maura.' E a menina finalmente ergueu a cabeça e apontou o dedo para a loira.
Maura quase morreu de orgulho, ela teria usado a expressão se ela não soubesse que isso é impossível. Harriet tinha falado dela e de Bass para outras pessoas. Ela sentiu o peito inflar de uma maneira deliciosa e corrigiu sua postura.
'É um cágado.' A menina disse de novo.
Certo. Maura estava sorrindo agora. O próximo passo seria ensinar Harriet a dizer Geochelone Sulcata e ela encheria a menina de beijos cada vez que ela dissesse.
'Acho que você gosta mesmo de tartaruga. E se a gente comprar uma para você?' O homem ofereceu.
Maura sentiu uma pontada de ciúmes. Era golpe baixo querer comprar a menina com isso.
'Não, obrigada.' A menina disse. Todas as cabeças se voltaram para ela. 'Minha Maura tem o Bass, e logo nós vamos para casa. Não vamos, Maur?' Ela olhou para a loira e para Jane em confirmação, enquanto apertava o braço de Jane em sua cintura. O recado era bem claro: ninguém a tiraria da mulher.
As duas mulheres se olharam ao mesmo tempo que o casal o fez.
O momento de constrangimento estava de volta.
...
Uma batida na porta e todos olharam para a Dra. Morris.
'Eu ahn...' De onde tinha vindo tanta gente? 'Espero não estar atrapalhando, mas... Primeiro, o número máximo de visitas por quarto é dois. Segundo, fui informada enquanto estava vindo aqui, de que duas pessoas aguardam por vocês na recepção. Evans e... Christine? Eu suponho.'
'Não!' Harriet gritou furiosa ao ouvir o nome da assistente social.
'E terceiro... Eu preciso saber quem ficará responsável por assinar os papéis de alta.' Ela disse antes que a comoção tomasse conta do quarto.
'Harriet, tudo bem. Ninguém vai te levar...' Maura tentou acalmá-la e a menina viu a oportunidade para se agarrar nela de novo.
'Maura eu não quero ir com ela! Não deixa. Eu sou tua tartaruga, eu não vou!'
Okay, agora era a hora. Maura tinha se virado para Jane e os olhos estavam abertos em preocupação. A mensagem de Hope cruzou mais uma vez sua cabeça, e ela sentia o próprio corpo tremendo. Ela não queria passar por aquilo de novo. Ela não queria que tirassem a menina de seus braços. Ela apertou Harriet contra seu peito, como se pudesse escondê-la lá dentro.
'Nós esperamos lá fora.' Disse o homem enquanto colocava a mão nas costas da mulher e saíam do quarto.
'Por favorzinho.' A menina dizia enquanto se segurava na loira, os dedos enroscando no seu cabelo de forma tão familiar que Maura simplesmente não podia deixar uma parte de si ser levada embora. Outra vez.
'Jane...' Ela começou e balançou a cabeça. Elas precisavam conversar. A sós, ela e Jane. Ela suspirou e segurou a cintura de Harriet. 'Querida, você me espera um pouquinho? Eu vou ali fora, só por um minuto falar com Jane. Você vai me ver pela janela de vidro. Prometo que volto logo.' Ela apontou para as persianas da janela que ficava de frente ao corredor aberta.
'Promete?' Ela se afastou e encarou Maura.
'Prometo. Volto para você.' Ela beijou a bochecha da menina e a colocou em pé na cama. 'Só um minuto.' Maura disse para Dra. Morris que concordou com a cabeça calmamente.
Harriet ficou observando enquanto as duas se afastavam e Maura fechava a porta atrás de si. Ela se colocou na frente do vidro e encarou Harriet por um minuto. Como tinha prometido, ela ficaria a vista.
Ainda nervosa, ela cruzou os braços na frente do peito e mordeu o lábio inferior antes de falar.
'Eu me encontrei com Hope hoje.' Ela começou e Jane franziu o cenho.
'Eu sei, você já me disse...?' A morena não sabia ao certo aonde a conversa iria parar.
'Nós... conversamos sobre algumas coisas e...' Ela mordeu o lábio, novamente, e olhou nos olhos de Jane. 'A conversa me fez pensar em algumas coisas.'
'Maura?' Ela parecia incerta.
'Jane... Nós... Nós perdemos um bebê. E por um tempo eu achei que — que era minha culpa.'
'Nós já conversamos sobre isso, Maur.' Jane a cortou. Não havia motivos para ela continuar se sentindo culpada.
'Eu sei, não é só isso. Eu entendi que não era minha culpa, mas não consegui evitar de pensar que talvez isso não fosse destinado a mim.' Ela podia jurar que Jane iria interrompê-la novamente depois de ter ouvido 'destinado', mas nada aconteceu, então ela continuou. 'E Hope me falou... Me falou de coisas inesperadas e boas que acontecem e como eu tinha que reconhecer isso durante a vida, e você não tem idéia de como me fez bem falar com ela...' Maura suspirou. 'Honestamente, eu já tinha deixado de acreditar que encontraríamos Harriet de novo. E agora ela está bem aqui. Tudo o que Hope falou faz perfeito sentido, agora mais do que antes.'
'Maur, o que você tá sugerindo?' Jane perguntou, embora ela já soubesse a resposta.
'Jane, ela é nossa nova chance.' Maura apontou o dedo para a janela, onde Harriet ainda estava com os olhos fixos nela. 'Eu não quero desperdiçar.'
A detetive sorriu para ela. 'Você sabe que nós vamos comprar uma baita briga.'
Nós. Maura nem precisava perguntar se Jane estava disposta a fazer o mesmo que ela. Ela sorriu abertamente e colocou os braços em volta da cintura da mulher.
'Ainda bem que nós já somos acostumadas à isso.' Ela plantou um beijo nos lábios da morena.
Jane estreitou os olhos em pensamento, aproveitando a situação para tirar proveito em seu favor. 'Aquela roupa de stormtrooper que queria comprar cairia muito bem como uma armadura agora.'
Maura riu e lhe deu um tapa no ombro. 'Nem pense nisso! Entretanto... Ouvi dizer que se você comprar a da mulher maravilha... Você ganha alguns presentes extras.' Maura piscou e sorriu para ela.
Com uma oferta melhor, Jane abandonou a idéia anterior. 'Feito.' Ela roubou um beijo de Maura. 'Agora... Deixa eu ir para o primeiro round.'
'Jane... Você acha que vai ser... Muito difícil?' Maura segurou seu braço para impedir que ela se afastasse.
'Eu não sei, Maur... Eu espero que não. Eu vou fazer tudo ao meu alcance. Eu prometo, ok?' Seus olhos se fixaram nos de Maura que estavam mais verde do que o normal.
A morena sempre estava disposta a fazer tudo por ela. E era mais do que isso. Jane queria as mesmas coisas que ela, por isso a relação dava tão certo. Uma lutava pela outra, sempre, e geralmente o resultado era muito recompensador. Dentro de seu coração Maura sabia que sairia dali hoje com Harriet em seu colo, sorrindo e brilhando seus olhos azuis para elas. A dúvida existia de um tamanho suficiente para incomodar, mas Jane acabaria com ela logo, logo. Ela sabia argumentar, elas tinham motivos para ficar com a garotinha pelo menos por mais uns dias. Um sujeito em custódia era motivo suficiente, e Jane podia revirar alguns a mais. Maura sorriu para ela, deslizou sua mão braço abaixo até encontrar os dedos de Jane. Cruzou os dedos com os seus e apertou levemente antes de soltar-se dela. 'Eu amo você.' E eu confio em você, seu coração gritava.
'E eu amo você, também. Agora eu preciso ir.'
Ela acenou com a cabeça e se voltou para a porta. Harriet estava esperando por ela.
...
'Foi uma falta gravíssima, mas eu entendo que vocês são bom cuidadores. Nunca tive nenhum tipo de problema em relação às outras crianças que passaram por vocês, e imagino também que dessa vez, não tenha sido necessariamente falta de cuidado.' Christine dizia para o casal que ficara responsável por Harriet.
Evans estava de braços cruzados e Jane tinha acabado de chegar. Algumas coisas deveriam ser resolvidas essa noite.
Jane esfregou as mãos e adicionou à conversa. 'Como eu já disse para eles mais cedo... Eles poderiam ter se machucado caso... Caso cruzassem o caminho do sequestrador.'
'Mas vocês já apreenderam o homem, correto detetives?' A assistente social se virou para Evans e Jane.
Evans balançou a cabeça em negativo. 'Nós temos em custódia o homem que estava com ela no aeroporto. Nós ainda não sabemos se de fato foi ele quem a sequestrou, mas temos o suficiente para mantê-lo preso, por enquanto.'
'Por enquanto?' Arthur se sobressaltou. 'Ele sequestrou uma criança! Estava planejando levá-la...' A sentença morreu no meio da frase. Ninguém tinha dito para onde ele iria levar a menina.
'Exatamente.' Jane interveio. 'Ele planejava levar Harriet, mas não sabemos se foi ele que a tirou da casa de vocês. Ele se recusa a colaborar. Além disso... Ainda temos o caso da mãe dela aberto. Há uma grande chance disso estar conectado.'
'De qualquer forma, Harriet vem com a gente?' Sally tinha perguntado, parecendo incerta.
Jane respirou fundo e fez a tentativa. 'Não acho que seja uma boa ideia... Quer dizer, eles podem mandar outra pessoa atrás dela.'
'Isso se sua hipótese de ter mais alguém metido nisso estiver correta.' Christine rebateu.
'Eu sou uma detetive, Christine. E se eu ainda estou viva é porque tenho bons instintos.' Jane devolveu e Evans comprou a briga:
'Concordo com Rizzoli. Se houver qualquer possibilidade de perigo... Não é muito sábio devolvê-la à casa de onde já foi sequestrada uma vez. Seria como se oferecesse uma segunda chance.'
'Eles estariam em alerta dessa vez.' Christine disse.
'E em perigo dobrado.' Jane estava ficando irritada pelo simples fato da mulher não compreender o quão sério isso era. 'Nós podemos ficar com ela. Eu e Maura, eu quero dizer. Nós já fizemos isso antes.' E ela esperou que a mulher comprasse a ideia.
'Rizzoli, eu entendo que vocês são capazes de cuidar da menina, acontece que todas essas mudanças deixam uma impressão de instabilidade para ela, e pode afetar...'
Jane parou de ouvir na palavra instabilidade. Talvez ela pudesse usar isso em seu favor. 'Eu posso... Posso falar com você a sós? Durante um minuto?' Ela perguntou enquanto esfregava as mãos.
A assistente balançou a cabeça em sim e as duas se afastaram do restante do grupo. Jane de repente se sentiu nervosa e intimidada por ela. Ela não podia perder a chance, não podia dizer nada errado. Ela limpou a garganta e lambeu os lábios. 'Harriet não vai ficar com eles para sempre, vai? Quer dizer... Eles não a adotaram. Eles são foster parents.'
'Correto.' Ela disse sem ensaios.
'Isso... Bem, quando alguma família a adotasse ela... Seria um outro momento instável para ela, outra mudança.'
'Aonde você quer chegar, detetive?' A mulher colocou a mão na cintura, impaciente.
'Eu e Maura. Nós queremos levá-la para casa.'
A assistente suspirou demoradamente e coçou a testa. 'Rizzoli, eu entendo que você ache necessário por causa do caso, entretanto é necessário que ela fique sob a responsabilidade de adultos que estejam registrados...'
'Nós queremos adotá-la.' Jane disse de uma vez. 'Nós queremos ficar com ela.' Ficar com ela? Ela não é um cachorro, sua idiota! 'Nós queremos... Nós queremos que ela seja nossa filha.'
Christine de repente mudou sua postura. Jane não sabia se aquilo era bom ou ruim. Ela tinha colocado as coisas de forma correta? Ela tinha dito algum absurdo?
'Rizzoli... Você e sua mulher com certeza suas duas pessoas poderosas. Ainda assim, você sabe quão burocrático uma adoção pode ser?'
'Eu sei.' Jane afirmou.
'Você deve saber também, eu imagino, que não acontece de uma hora para outra.'
'Não acontece, mas essa é uma situação completamente diferente. Qual é, ela nem tá no sistema ainda, Christine!'
'Ela não passou pelo sistema, detetive, mas ela esta devidamente registrada lá.'
'O que? Eu devo esperar que ela passe por um orfanato, então?' Jane não conseguiu segurar o sarcasmo.
'Penso que não, considerando que eles querem oferecer abrigo para ela.' E Christine apontou para o casal à espera delas.
'E nós também! E mais do que isso, Christine.' Jane jogou as mãos para cima, ciente de que estava perto demais de perder aquela briga. Ela tinha prometido para Maura que levaria a menina para casa, mas Christine parecia irredutível, apegada as regras de registro de crianças e adultos no sistema. É claro, era algo necessário, mas Jane não via por qual razão a mulher não pudesse abrir uma exceção.
Ela viu pelo canto dos olhos que Evans estava se aproximando novamente delas, e o coração se acelerou ao realizar de quão próximo essa conversa estava para ser encerrada. 'Qual é, Christine. Nós podemos cuidar muito bem dela. Ela precisa ficar sob a proteção de alguém, e eu sou uma detetive. Qual é!' Jane pressionou.
A mulher não dizia nada, e Jane se perguntou se ela estava simplesmente sendo ignorada ou se a assistente estava considerando algo. Ela gelou quando Evans parou ao seu lado e Christine franziu as sobrancelhas. O tempo estava esgotado? Ela deveria pedir para que Evans se afastasse para que continuassem a conversa a sós? Christine era mesmo tão inflexível assim? Ela tinha falhado com Maura?
...
Jane parou em frente a porta e levou a mão na maçaneta. Antes de abri-la, entretanto, estudou Maura e Harriet pelo vidro. A médica segurava a menina em seu colo, a cabeça apoiada em seu ombro enquanto deslizava os dedos no cabelo escuro. Ela falava alguma coisa que Jane, obviamente, não conseguia ouvir, e Harriet piscava os olhos pesadamente para ela, como se estivesse tentando resistir ao sono a qualquer custo. A menina disse alguma coisa e Maura riu, apertando ela em seus braços e beijando-lhe a testa. Essa era uma cena que Jane poderia se acostumar, algo que ela gostaria de presenciar sempre que chegasse em casa do trabalho, ou algo que ela mesma poderia fazer. Mesmo quando se tratasse dos momentos de mau humor de Harriet, ela ainda gostaria de lidar com a garota, afinal ela sabia melhor do que ninguém como acabar com aquela irritação. A garotinha podia ser adorável, ainda que fosse amarga. E Maura parecia tão satisfeita ali, como se estivesse finalmente no lugar certo.
Jane se perguntou como seria dizer a elas que, mais uma vez, elas teriam que se separar. Ela imaginou seu coração se partindo em pedaços ao segurar a menina nos braços sabendo que quando a soltasse seria para sempre. E Maura... ela preferia nem pensar nisso. Era perturbador, desolador, e ela não conseguia criar cenário pior.
É claro, ela não precisava imaginar. Ela já sabia como seria.
Nesse momento Harriet encontrou com seu olhar através do vidro, e Jane sorriu para ela. A menina tirou o cabelo do rosto, olhou para Maura e de novo para o vidro, e quando Maura encontrou seus olhos, Jane sabia que não podia mais salvar um minuto para si mesma daquela cena. Ela tinha notícias para dar e dois pares de olhos esperavam ansiosamente pelas palavras.
E dessa vez seria diferente.
Ela dispensou os pensamentos e entrou no quarto fechando a porta atrás de si. Maura se levantou com a criança no colo e Jane viu o apelo nos olhos da mulher. Ela conhecia as reações de Maura tão bem que ela sabia que o coração tinha acelerado significativamente, e que a respiração havia se tornado mais pesada, apenas em olhar o modo como o peito subia e descia. Era melhor ela dizer logo, antes que Maura tivesse um ataque de ansiedade ou coisa do tipo.
'Ei tartaruga...' Ela olhou para Harriet que arqueou as sobrancelhas em curiosidade para ela. 'Você tá com muito sono? Porque, você sabe, o Bass me disse que ainda quer brincar com você hoje a noite.' E ela sorriu. Sorriu com tanta vontade que as bochechas chegaram a doer. Ela viu quando Maura soltou um suspiro de alívio e os olhos se encheram de lágrimas.
'Oh, Jane!' Ela disse antes de se jogar nos braços da mulher, e a detetive segurou a loira e a menina em seus braços. Maura estava tremendo tanto que Jane ponderou se seria sábio soltá-la agora ou não.
'Nós estamos indo para casa.' Ela beijou a bochecha de Maura. 'Nós três.' Ela acariciou as costas da loira e riu. 'Mas Maur, você precisa para de tremer tanto, porque se você desmaiar tenho certeza de que a gente vai ter que adiar a partida para amanhã.'
Maura riu e plantou um beijo no pescoço da morena. Ela sabia que Jane conseguiria, ela sempre conseguia. Ela entregou Harriet nos braços da mulher para se estabilizar e respirar melhor. Harriet voltaria para casa com elas. Harriet voltaria a pintar desenhos de tartarugas e peixes e iria colar todos na geladeira. E Maura seria uma sereia, como da outra vez, e Jane um peixe vermelho. Harriet que procuraria por elas no meio da noite se tivesse um pesadelo; Maura não iria se importar em acordar na madrugada para tranquilizá-la. E Bass seria alimentado na parte da manhã pela garotinha. Provavelmente ela teria que comprar morangos em dobro, considerando que Harriet comia a fruta mais do que o próprio cágado. Ela não sabia qual era o acordo que Jane tinha feito, mas fosse qual fosse, seria o suficiente por agora. Era o primeiro passo para o resto da caminhada. Elas começariam a papelada da adoção o mais rápido possível, Maura não deixaria nenhuma brecha, aquela criança seria delas e ela gastaria todo e qualquer recurso que fosse preciso. Harriet estava indo para casa. Junto com elas, finalmente. Agora era seguro dizer. Ela respirou fundo e sentiu a tensão abandonando seu corpo, pouco a pouco. As mãos esfregaram os olhos para dispensar as lágrimas que não haviam caído. Ela não conseguia parar de repetir em sua mente, Estamos levando Harriet para casa, porque todo aquele dia tinha sido imprevisível e cheio de nuances. Assim como os últimos dias, mas pelo visto agora elas estavam recuperando um pouco do controle sobre as coisas.
Harriet, a pequena garotinha de olhos azuis na qual ela tinha esbarrado na delegacia dias atrás. A criança que tinha feito dela seu porto seguro, e de Jane sua protetora — e travesseiro. A menina que amava tartarugas, mas que pelo visto amava mais Jane e ela porque não queria ir para qualquer casa que tivesse uma tartaruga — só a casa das duas lhe serviria.
Harriet, que parecia tão indiferente à notícia, como se já soubesse que esse seria o desfecho do dia de qualquer jeito. Ela piscou os olhos para Jane, inconsciente das tensões e medos que a situação tinha trazido para as duas mulheres, e mordeu o lábio inferior em pensamento, franzindo levemente o nariz.
'A gente já pode ir, então?'
'Podemos, tartaruga. Só temos que trocar você antes, e assinar um papéis.' Jane respondeu.
Com isso a menina indicou a cama com um dedo e Jane a colocou lá. Ela mesma pegou o novo pijama e desdobrou, desabotoando a frente para se vestir. 'Eu também tô com saudades da Joe.' Ela ofereceu enquanto Jane tirava a camisola do hospital da menina.
'Aposto que ela também tá com saudades de você.' Jane sentiu a mão de Maura apertar levemente sua cintura.
'Vou assinar os papéis da alta. Nos encontramos na recepção?' Maura podia esperar por elas, mas ela queria sair dali o mais rápido possível. Quanto mais rápido chegassem em casa, mais real a sensação de ter a garotinha pareceria e ela definitivamente poderia se beneficiar de algo mais palpável.
'Claro.' Jane respondeu e deu um beijo em sua bochecha.
Maura se inclinou e abraçou Harriet uma última vez antes de deixar o quarto. Ela se virou para Jane, sorriu e segurou a cintura da morena com as mãos. 'Obrigada.' Ela disse com sinceridade. O modo como Jane se empenhava a deixá-la feliz, estava disposta a fazer tudo ao seu alcance e um pouco mais quando se tratava do relacionamento delas, confortava Maura e a assegurava.
'Qual é, Maur... Você sabe que pode me pedir...'
'Essa é a questão.' Ela cortou a morena. Essa sempre tinha sido a questão. 'Eu nunca tive que, de fato, te pedir nada. Você é a felicidade que me faltava e que agora me transborda.' Ela sorriu e beijou os lábios da mulher.
Jane sentiu as bochechas corarem e abaixou o olhar. Como ela poderia responder a isso? 'Eu...' Ela suspirou.
'Você me encontra lá fora.' Maura disse depois de plantar um novo beijo em seus lábios e partir.
A morena ainda sorria de um jeito bobo quando se virou para a criança de novamente. Harriet ergueu os braços para ela — agora era a vez das mangas — indiferente à troca de carinho entre as duas. Quando Jane fechou o último botão, ela ergueu os olhos azuis para a morena e perguntou, 'O que transbordar significa, Jane?'
A morena riu para a menina, segurando-a no colo enquanto tratava de alcançar suas coisas — sacola, balões e Dorothea, a tartaruga de pelúcia — para saírem dali, e lhe explicou em poucas palavras o significado da palavra enquanto caminhava em direção à recepção para se encontrar com a mulher.
Hora de ir para casa.
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