Você gosta de flores, amigo? Porque eu odeio flores, nunca vou entender a fixação do ser humano pelo cheiro delas, aparência ou seja lá o que faça as pessoas gostarem de flores. Mas cá entre nós, existiu uma época que flores eram tudo que eu conseguia pensar, mais precisamente entre os anos de 2008 a 2011, que foram os anos em que passei com Summer, ela é a razão por eu odiar flores hoje, e mais algumas outras coisas.

Começou em uma quarta-feira, por volta das oito e trinta e cinco da manhã (não é nenhuma novidade eu lembrar o dia, hora e provavelmente todos os detalhes, apesar de já terem se passado 5 anos desde então). Eram um daqueles dias em que você acordava sentindo que tudo daria errado, e realmente deu, meu chuveiro quebrou enquanto tentava lavar o cabelo, derrubei café quente na minha camisa branca nova, já faziam 6 meses que eu morava ali sozinho e ainda não dominava completamente a arte de lavar roupa, por isso coisas como mancha de café ou pasta de dente, me deixavam chateado. Para piorar, meu cachorro havia feito suas necessidades por todo o apartamento na noite anterior, ele ainda estava se adaptando ao novo ambiente, quando morávamos com meus pais ele sabia o lugar exato onde faze-las. Esse tipo de coisa me fazia questionar, se vir morar aqui ou melhor dizendo, essa ideia louca de se tornar adulto e assumir algumas responsabilidades, era algo bom de se fazer. Mas aquela não era uma hora boa para isso, não, eu estava atrasado para o meu médico e quando digo médico, me refiro ao Bob, meu psicólogo.


O seu consultório ficava em um prédio no centro da cidade, em uma das ruas mais movimentadas, em um dos prédios mais movimentados também, além de médicos psicólogos, ali funcionava mil e uma outras coisas, divididas em exatos 13 andares. Bob trabalhava no terceiro andar, e apesar da fila que já se formará em frente ao elevador, eu e meus fones de ouvido que tocavam música no máximo, éramos preguiçosos demais para subir as escadas e como bom sedentário que sou, resolvi esperar. Quando o elevador chegou, fui frustrado ao tentar me adentrar nele, aparentemente não havia sobrado espaço para o meu corpo magrelo e frágil ali dentro, e como tudo nessa vida trabalha ao meu favor, ele partiu sem mim, fiquei sozinho do lado de fora. Por sorte ou nem tanto, essa minha condição de solidão durou cerca de 2 minutos e 46 segundos, foi quando Summer -a menina mais cheirosa que já conheci na vida- passou pela porta de entrada, deu oi ao porteiro e se dirigiu até o lugar onde eu estava. Eu senti um negócio estranho, não sei definir que negócio estranho foi esse, mas era tipo uma palpitação no coração, sabe aquela coisa que você sente quando vê a pessoa que gosta? Então, era mais ou menos assim, só que eu ainda não gostava da Summer, pelo menos eu acho que não, pois era a primeira vez que eu a via. Ela vestia um vestido laranja com algumas flores, tinha o cabelo preso no alto com alguns fios caídos, o que a tornava extremamente atraente, sua pele era tão branca que senti pena por ela, já que o sol lá fora raiava forte e imaginei que havia alguma espécie de protetor solar naquela bolsa que ela carregava. O olhos eram azuis, as bochechas rosadas e o sorriso mais lindo que já existiu, não que ela já havia sorrido, mas eu imaginava que seria assim.

Permaneci calado durante um tempo, e rezei para que a porta do elevador abrisse, e abriu. Dei alguns passos e entrei imediatamente, observei Summer vir logo em seguida e quis que ela pressionasse algum andar abaixo do meu, para ver qual era seu destino naquele prédio e quem sabe ter a chance de encontra-la novamente, mas para a minha infelicidade, ela apertou o botão do oitavo andar. Eu já havia apertado o número 3 e agora era tarde demais para mudar minha decisão, isso faria com que eu tivesse apenas alguns minutos para tentar dizer alguma coisa, quem sabe um oi ou algo como "que sorriso lindo, qual seu telefone?", mas tudo que consegui fazer foi fitar o chão.


–When there's light? Whaat light!


E foi naquele momento, naquele incrível e maravilhoso momento em que ouvi a voz da Summer pela primeira vez, e não havia sido um oi ou bom dia, ela acabará de cantar um trecho da música que eu estava ouvindo, alta o suficiente para que ela ouça também, para ser sincero desde que ela adentrará por aquela porta, eu havia me esquecido de qualquer coisa, até mesmo que ainda tinha músicas tocando no meu ouvido. Eu sorri, eu tentei não parecer bobo, mas o meu sorriso já ia de orelha a orelha, aparentemente além de linda ela tinha um excelente gosto musical e sabia cantar perfeitamente, já eram qualidades suficientes para um idiota como eu me apaixonar. Se fossemos fazer um total de tempo em que eu a conhecia, dariam aproximadamente uns 5 minutos, e eu queria que eles fossem eternos. Eu virei o rosto, e do chão passei a fitar seus olhos.

–Gosta dessa música?

–Um clássico! There's a light, one light!

–Bom gosto..

–Você também, senhor..

–Tom, me chamo Tom.

–Sou a Summer, Tom.

–Você mora aqui?

Ela riu, e a sua risada era tão doce que pensei ter adquirido diabetes.

–Não.. acho que, esse prédio é somente comercial.

–Aaah..

E foi tudo que eu consegui dizer antes do elevador fazer o barulho de que havia chegado ao seu destino, era a minha deixa. Queria conseguir falar algo de inteligente, ou que pelo menos garantisse nosso contato, mas simplesmente botei meus pés para fora e vi a porta do elevador se fechar, ela sorriu por alguns segundos como se estivesse me dando tchau, ou dizendo "foi bom te conhecer", interpretei dessa forma. Foi assim, a partir dessa quarta-feira, que não consegui mais tirar o seu perfume de flores, seu vestido de flores ou o jeito que seu cabelo caia sobre o rosto, da mente. Acredito que aquele perfume que sentia fazia parte de seu odor natural, Summer cheirava como a primavera, brilhava como o sol, e todo esse papo pode parecer bem ridículo, mas ela parecia carregar todas as estações em si.