Sobre amor, amizade e confiança
19 Conversas francas
Notas iniciais
Levi acordou em uma cama que não era sua. Levou alguns segundos para se lembrar de quem era. Hange já havia se levantado e ele podia ouvi-la em sua cozinha. Ele pegou sua calça do chão e se vestiu. Sonolento, caminhou até onde a outra estava.
“Já acordou?”, ela perguntou.
“Já”, ele respondeu com a voz rouca. “Eu tenho que me arrumar. Posso tomar banho aqui? Se eu passar em casa, vou me atrasar”.
“Claro, mas você não acha que a Petra ficará com ciúmes?”
Levi olhou para Hange. Ela sempre tentava tirar alguma reação dele. Fazê-lo rir, chorar, gritar... Levi apenas a olhou com firmeza. Decidiu pagar na mesma moeda. “Apenas se Moblit ficar com ciúmes também”.
“Moblit não é meu namorado”, Hange deu com os ombros.
“Nem Petra é minha namorada”.
“Mesmo?”, a expressão de Hange era de diversão. “Então porque você está aí todo irritadinho e com vergonha”.
“Eu não estou irritado e nem com vergonha”, ele suspirou, como se para provar que estava se sentido entediado.
“Eu te conheço, Levi Ackerman. Você se faz de durão, mas você é igual a todo mundo”.
“Eu nunca disse ser diferente”. Levi então se aproximou. “E então, posso tomar banho ou não?”
“Pode, claro. Não seria a primeira vez que você conhece meu chuveiro, eu suponho”, ela tinha um sorriso malicioso. “Mas o que você vestiria para ir ao trabalho?”
“Tenho uma muda de roupas no carro”, ele disse distraidamente, enquanto ia ao banheiro. “Passei na lavanderia ontem”.
Levi tomou um banho rápido, recusou o café-da-manhã oferecido por Hange e foi embora. Ao chegar no carro, trocou de roupa e conferiu as mensagens do seu celular. Nada de novo, e ele se pegou decepcionado. O que ele esperava ver, exatamente?
Naquele dia, ele teria a primeira aula com a turma 104. Eren, Mikasa e Armin não estavam comparecendo na escola e Hannes acreditava que eles tinham medo da rejeição dos amigos. “Os garotos nunca tiveram muitos amigos”, Hannes dissera, “além deles três. Acho que é a primeira vez que eles são realmente enturmados, acreditem ou não. Os três são muito unidos, mas agora já experimentaram o gosto de ter mais amigos... de serem felizes. Eles estão arrasados, coitados”.
Não foi a primeira vez que Levi viu nos três seu próprio passado. Farlan. Isabel. Por muito tempo, os três foram os únicos amigos que Levi teve. E também ambos os grupos tinham histórico de se meter em confusão. Infelizmente, Levi só descobriu que poderia confiar em outras pessoas depois que perdeu seus amigos. Não queria que Eren, Mikasa e Armin seguissem caminhos parecidos.
Convencera Erwin que poderia falar com a turma. Explicar a situação deles. Devia tanto ao trio quanto aos seus colegas e amigos. “O diretor Zackly acha que você pode cuidar do Djel Sannes e dos outros ratos, mas eu posso cuidar dos meus alunos”, ele explicara a Erwin. Zackly estava às vias de deixar o cargo como diretor e conseguir um emprego na secretaria de educação da cidade, de modo que era esperado que Erwin Smith assumisse seu posto. A teoria de Erwin era que a Associação de Pais e Ex-Alunos descobriu essa possibilidade e queria forçar a colocar um peão deles na direção. Atualmente, a Apex era uma organização corrupta que vinha perdendo força no colégio, justamente porque pais e ex-alunos mais novos não se misturavam com eles. Além disso, havia muito dinheiro no ramo da educação, mesmo em épocas de crise.
Levi dirigiu até sua escola, com raiva. Mais uma vez, os planos de pessoas das castas superiores esmagavam os que estavam abaixo. Alguém lá na Apex se importava com Eren e Mikasa? Levi duvidava que algum dos responsáveis pelo e-mail perderia um minuto de sono se arruinassem a vida daqueles dois.
Chegou cedo na sala, ansioso. Antes, cumprimentou seus companheiros no caminho e foi falar com Petra. Ela sorriu – ela sempre sorria para ele –, mas Levi sabia que ela estava magoada. Petra sempre ficava magoada quando suspeitava que Levi houvesse passado a noite com outra mulher. E Petra sabia que ele saía com Hange de vez em quando. Mas ela nunca reclamou e Levi sabia que era porque ela o amava. Pobre coitada. Levi não podia mais amar ninguém, não depois de perder Isabel do jeito que perdeu.
Percebeu que estava pensando muito em Isabel e Furlan ultimamente. Na realidade, desde que Eren, Mikasa e Armin entraram para Trost. De fato, eles tinham até certa semelhança com Levi e seus antigos amigos. Mikasa era perdidamente apaixonada por Eren, que vivia em conflito por vê-la como uma irmã e também por sentir algo a mais. O mesmo acontecera com Isabel. Ela era apaixonada por Levi, mas ele a via como sua irmã mais nova... até que deixou de vê-la como uma garotinha e a viu como uma mulher. Por sorte de Eren, ele caiu em si muito antes de Levi.
O professor também sabia que exercia certo tipo de inspiração em seus alunos. Ele era conhecido como carrasco e não costumava a dar moleza aos alunos – daí o apelido Leviatã –, mas mesmo assim era um professor querido pelos alunos. Levi gostava de pensar porque ele era justo e competente. Hange gostava de brincar que era apenas porque as meninas se sentiam atraídas e os meninos queriam copiá-lo. Às vezes, Levi odiava essas brincadeiras da Hange.
O sinal chamando os alunos para o primeiro horário bateu, finalmente. Levi terminava de comer um sanduíche de presunto que comprou na cantina da escola. Percebeu que estava quase nervoso. Não era algo muito comum. Nem na primeira vez que entrou em sala de aula ele sentiu nervosismo. Erwin dizia que viu excelentes professores que congelaram quando estavam começando. Pela primeira vez em sua vida, Levi achava que os compreendia.
A turma entrou em silêncio. Ultimamente, eles estavam sempre em silêncio. Era fácil se esquecer de que eles também foram afetados pela situação de Eren e Mikasa. Subitamente, alguém apareceu e disse que seus amigos não eram pessoas confiáveis. Levi agora precisava convencê-los de que eles eram. Respirou fundo antes de começar.
“Não vamos começar a aula de hoje falando de Literatura”, ele disse. Inconscientemente ou não, ele se inspirava em Erwin e Dot. Os dois tinham o dom da palavra. “Vocês não vão precisar de caderno para o que eu vou falar. Porque eu quero falar do elefante na sala: Eren e Mikasa. Eu acho que vocês merecem uma explicação sobre o que realmente aconteceu no passado desses dois. E no de Armin também. Vejam bem, algumas das coisas que eu vou contar aqui não são conhecidas por quase ninguém. Eu acredito que os três não vão se sentir nada felizes por eu expô-los assim, mas alguém precisa esclarecer aquele e-mail covarde”.
Levi viu que a turma parecia coletivamente prender a respiração. Nunca um professor teve tanta atenção de seus alunos como Levi naquele momento. Olhou nos rostos de alguns deles. O senhor Kirstein estava boquiaberto. O senhor Springer tinha os olhos arregalados. A senhorita Leonhart o olhava fixamente.
“Os senhores Yeager e Arlert e a senhorita Ackerman... Bem, eu vou me referir a eles pelo primeiro nome, se não se importam. Mas só para contar essa história”, Levi falou. Alguns alunos deram uma risadinha nervosa. Levi se surpreendeu, afinal não disse aquilo como uma piada. “Bem, os três eram vizinhos da época de infância. Aparentemente, os pais se conheciam de longa data também. E eles sempre foram extremamente próximos um do outro, como vocês certamente já perceberam. Acho que desde que eles nasceram. Quantas pessoas tem uma amizade assim?”
Levi olhou pela janela, pensando em Farlan. Isabel ele veio a conhecer depois, mas Farlan... quando Levi vivia naquele inferno com seu tio, Farlan foi o único garoto de sua idade que não tinha medo dele. Voltou sua atenção aos alunos.
“E a vida deles foi boa, por um tempo. Porém, Armin ficou órfão muito cedo. Seus pais morreram num trágico acidente. Ele ficou morando com seu avô, mas era a primeira vez que um dos três conhecia a tragédia. O que veio depois foi pior. Quando eles tinham nove anos, um grupo de bandidos matou os pais de Mikasa e a fez de refém. Esses caras não eram assaltantes comuns. Eles eram traficantes de pessoas. O que eles queriam fazer com Mikasa... Acho que me dá um embrulho no estômago só de pensar”.
Levi pausou para observar as reações de seus alunos. A senhorita Blouse escondia as lágrimas que tinha nos olhos, enquanto a senhorita Lenz já lacrimejava abertamente. O senhor Braun parecia extremamente perturbado. A sala estava em silêncio ensurdecedor. Levi quase conseguia ouvir seu próprio coração batendo. Ele prolongou a pausa, deixando que a força de suas palavras fosse digeridas pelos seus ouvintes.
“Eren viu que alguma coisa estava errada pela janela de sua casa e foi até a casa da amiga checar. Ao se aproximar, viu os corpos dos pais de sua melhor amiga e percebeu que algo estava terrivelmente errado. O garoto, porém, não entrou em pânico. Ele só queria salvar sua amiga. Ele entrou na casa de fininho, procurando-a. Ele a viu sendo amordaçada por dois homens e ela estava com o rosto machucado. Ele então foi até a cozinha e pegou uma faca. Ele deve ter feito algum barulho, porque um dos homens foi até lá. Eren o surpreendeu e o atacou. Vou poupá-los dos detalhes sangrentos, mas por pura sorte ele conseguiu subjugar o homem. Depois, correu até a sala para atacar o segundo homem. Como ele conseguiu, ninguém sabe direito. Eren disse que apenas correu, desesperado. Ele sabia que só conseguiria sair daquela casa com Mikasa se o homem fosse subjugado também. Foi por instinto e sorte. Então, quando ele conseguiu soltar sua amiga, ela perguntou sobre o terceiro homem”.
Levi mais uma vez pausou, deixando que a história fosse absorvida pelos alunos. Lembrou-se de quando Hannes lhe contou aquilo tudo. Levi já viu muita coisa grotesca e perturbadora na vida, mas até ele se sentiu um pouco intimidado pelo que ouvira. Ao perguntar se Erwin sentiu o mesmo, apenas ouviu como resposta: “não, eu senti pena dos dois”.
“E então”, Levi prosseguiu, “um terceiro homem agarra Eren pelo pescoço e começa a estrangulá-lo. Então foi a vez de Mikasa salvar o amigo. Ela pegou a faca que caiu no chão e... bem, ela conseguiu derrubá-lo também. De certo modo, três pequenos milagres aconteceram naquele dia. Eren e Mikasa sobreviveram assim. Eles não são monstros, como aquele e-mail covarde disse. Eles são as vítimas. Eles são quem ficaram traumatizados. Foi Mikasa quem perdeu os pais. Foi Eren quem se arriscou para salvá-la”.
Levi se surpreendeu ao ver que um dos alunos levantara a mão. Era Marco Bott. Levi fez sinal com a cabeça para que ele falasse. “Como eles... conseguiram ficar... depois... hã, como Eren e Mikasa ficaram depois?”
“Traumatizados, senhor Bott. Tiveram que fazer acompanhamento psiquiátrico, mas logo foram liberados. O Serviço de Proteção as Crianças assumiu o caso e os acompanhou bem de perto”, Levi explicou. Foi Jean Kirstein quem levantou a mão em seguida.
“Então eles fizeram tudo em defesa própria?”
“Sim. O e-mail convenientemente se esqueceu de incluir isso e as partes do documento policial que eles passaram foram modificadas, mas naturalmente isso aconteceu em defesa própria. Duas crianças de nove anos jamais atacariam três adultos se não fosse por isso. Eu fico pensando quantas vezes algo parecido aconteceu, sem que a criança tenha reagido. Ou até tenha reagido, mas sido em vão”.
A turma ficou em silêncio por alguns segundos, até que Marlowe levantou o braço. “E o que aconteceu com a Mikasa depois? Sem os pais?”
“Ela passou a morar com os Yeager. Deixem-me contar o resto da história, ok? Então a pequena Mikasa foi morar com os pais de Eren e eles conseguiram levar uma vida relativamente normal. Depois, o avô de Armin ficou terrivelmente doente e foi a vez do garoto ir se mudar com os Yeager. O avô dele ainda está vivo, mas está em condição muito frágil. Soube que ele sequer reconhece o próprio neto algumas vezes”.
Levi observou os rostos de seus alunos mais uma vez. Todos pareciam implorar para que ele acabasse com aquela história horrível. Quanto mais dor e sofrimento na vida de três crianças seriam o suficiente. Levi se perguntava o mesmo. Se existe um Deus, por que Ele permite tais coisas? Lembrou-se de si mesmo, um pouco mais jovem, fazendo essa pergunta ao ministro Nick. Mesmo ele não soube responder.
“Infelizmente, eu não acabei. O pai de Eren trabalhava no hospital e alguns de vocês podem ter ouvido a notícia de um tiroteio que ocorreu no ano passado no hospital Sina. O pai de Eren trabalhava lá. A mãe de Eren o visitava na hora que aconteceu. Os dois faleceram imediatamente. Eren se viu órfão, assim como os amigos. Considerando que Armin e Mikasa foram praticamente adotados pelos Yeager, é como se eles ficassem órfãos pela segunda vez. E, desde então, eles passaram a morar com o professor Hannes, que certamente muitos de vocês conhecem. Hannes os conhece desde que eles nasceram”.
Levi esperou até que alguém falasse primeiro para saber qual a reação.
“Eu achava que eles eram vizinhos...”, disse Bertolt. Ele parecia completamente torpe, como se tivesse levado uma pancada muito forte na cabeça.
“Coitados”, Reiner lamentou. “Eu jamais sabia que eles passaram... pelo que passaram”.
“Nenhum dos três é do estilo de se fazer de coitados, eu acho. Eren é o tipo de rapaz que vê o amigo em problema e vai ajudá-lo, como fez com Mikasa. Claro, isso quase o fez morrer... Mas é quem ele é. Vocês nunca viram nenhum deles choramingando sobre quanto a vida é injusta, não é? E se alguém pode reclamar sobre isso, são os três”.
“O que vai acontecer com eles, professor?”, Ymir perguntou. Ela colocava a mão no ombro de Krista, que chorava ao seu lado.
“Eles vão continuar no colégio, claro. Amanhã, explicaremos a situação aos pais de vocês. Imagino que vocês imaginaram que a reunião era sobre eles. Mas eu gostaria de pedir um favor a vocês. Um favor, eu não estou dando uma ordem. Gostaria que vocês dissessem aos pais de vocês como eles são. Não apenas o que eu contei aqui, mas como eles eram antes de vocês saberem o que sabem agora. E, quando os três voltarem, que vocês estejam dispostos a falar com eles. Claro que as coisas não serão como antes, mas talvez isso seja uma boa coisa. Agora vocês sabem o que eles passaram”. Levi então respirou e olhou pela janela. Com o olhar perdido no horizonte, prosseguiu. “Vocês não sabe, mas os professores tem um apelido para a turma 104. ‘Turma do Barulho’ ou ‘Turma da Bagunça’, embora eu admita que vocês não sejam muito bagunceiros. Pelo contrário, são bem aplicados. Mas vocês são muito unidos, qualquer um vê isso. E muitos de vocês estudaram juntos nas outras séries, mas só ficaram realmente amigos agora. Talvez seja apenas um teste para a amizade de vocês”.
Depois da aula, Levi conversou com Erwin sobre sua fala durante o almoço. Petra estava lá, assim como Oluo, Eld e Gunther. Moblit e Hange também. Apenas Moblit não era professor deles, mas mesmo assim parecia interessado no assunto. E Levi tentou não notar que o foco na conversa com a turma 104 evitaria um clima estranho numa mesa que ele dividia com Petra, Hange e Moblit.
“E vocês acham que eles estão dispostos a aceitar Eren, Mikasa e Armin?”, perguntou Gunther.
“Sim. Eles estavam realmente receosos, mas acho que perceberam que os três continuam sendo os amigos deles”.
“Eles virão amanhã?”, perguntou Oluo.
“Isso depende deles, não de Levi”, Erwin respondeu. “Eu vou dizer para que Hannes seja mais enérgico em convencê-los a aparecer no colégio, mas sei que ele esta de mãos atadas por não ser o pai deles de verdade”.
“É só ele falar que Levi conversou com a turma hoje”, Moblit sugeriu.
“Talvez não seja necessário”.
“Como assim, Erwin?”
“Moblit, você é velho como eu. Todos vocês são. Hoje as crianças se comunicam pelo celular em tempo real. Eu acho que a possibilidade de que Eren e Mikasa sejam contatados por seus amigos é grande. Talvez, isso os deixe mais confiantes”. Erwin então coçou o queixo. “Espero que esses garotos não se prejudiquem por tudo isso. Eles não merecem isso”.
“Ninguém merece isso”, concordou Petra. “Ninguém”.
Levi sabia que merecimento não entrava na questão. Infelizmente.
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