Sobre amor, amizade e confiança
18 Repercussões
Notas iniciais
O dia seguinte passou como um raio e as memórias dele ficaram quase como borrões para Mikasa, Eren e Armin. Eles eram apenas adolescentes, Mikasa concluiu. Crianças, até. Jovens demais para lidar com uma coisa dessas.
Mikasa e Eren foram lentamente a sala de Hannes enquanto Armin foi procurar a professora Petra. Ao chegarem à sala, ainda de mãos dadas, entreolharam-se mais uma vez. No olhar, uma mar de emoções. Medo. Tristeza. Mas também amor. Eren então bateu na porta.
“Pode entrar!”, gritou Hannes lá de dentro. Foi Mikasa quem abriu a porta, mas eles não entraram. Apenas ficaram olhando o seu... Tio? Responsável? Era até difícil precisar a relação dos dois com Hannes. Atualmente, ele era a coisa mais próxima de família que eles tinham além de um do outro. “Por que vocês não estão em aula?”, ele perguntou. Os alunos da turma os olhavam com curiosidade.
“Professor Hannes”, Eren disse com a voz artificialmente tranquila, “a gente precisa falar com você. Agora”.
Hannes olhou para sua turma, que ainda estava observando os dois visitantes atentamente. Mikasa se perguntou se eles sabiam. Se eles receberam o e-mail e se eles sabiam que os dois monstros mencionados no texto estavam na porta da sala.
“Muito bem”, Hannes colocou seu livro em cima de sua mesa. Virou-se para sua turma: “então façam os exercícios e fiquem em silêncio, eu já volto”. Saiu da sala e fechou a porta. Virou-se para Eren e Mikasa, estudando as feições dos dois. “Qual o problema?”
“A Associação de Pais e Ex-Alunos mandou um e-mail para todos os pais e alunos”, Mikasa explicou. “E contou que eu e Eren... que nós...”, ela não conseguiu terminar.
“Eles chamaram nós dois de monstros. Eles disseram nosso nome e chamaram a gente de monstros”, Eren quase cuspiu as palavras, o ódio era evidente em seu tom.
“Não, não, não, não”, Hannes disse. Ele imediatamente abraçou os dois, algo que os pegou de surpresa. Mikasa deliberadamente controlou suas lágrimas. Não queria chorar mais. Ela sempre fora forte. Precisava ser forte, por Eren. “Filhos da puta, eles... eles... filhos da puta!”
Hannes levou Eren e Mikasa para a sala da diretoria enquanto os dois contavam os detalhes do que sabiam. Lá, foram recebidos por Darius Zackly. Foi Hannes quem explicou a situação desta vez. O homem pareceu pensativo e olhou para os dois adolescentes com pena. “Tim, chame Erwin imediatamente e venha para minha sala. Chame Petra também. E Nick. Avise a Petra para mandar o pessoal de pedagogia cobrir você e Erwin. E venha imediatamente para cá. Crianças, vocês teriam o e-mail para que eu possa ler?”
“O Armin tem o e-mail, ele também recebeu”, Eren disse. “Ele já foi chamar a a senhorita Ral”.
Quase como se fosse combinado, Petra Ral apareceu pela porta com uma expressão extremamente perturbada. Armin a seguia e, julgando pelo seu rosto suado e sua falta de fôlego, eles vieram correndo. “Diretor Zackly, você viu...?”
“Hannes estava me contando agora”, ele falou com calma. “Petra, vamos ver o que eu posso fazer. Hannes, vá chamar Erwin e Nick. Petra, mande alguém cobrir as ausências de Hannes e Erwin e depois volte para cá. Os dois vão ficar aqui na minha sala enquanto isso”.
E, deste modo, Hannes e Petra saíram. Armin ficou parado, confuso.
“E você seria o tal Armin?”, Zackly perguntou. “Você pode ficar também, garoto. Mas me mostre o e-mail se possível”. Armin tremia ao entregar o celular para o diretor. Ele apontou para um sofá na coordenação. “Sentem-se”, disse, antes de começar a ler.
Armin olhou para Mikasa e Eren, estudando seus rostos. Mikasa lhe deu um aceno sutil que pareceu tê-lo tranquilizado. Eren ainda segurava sua mão, ela notou. A garota sabia que enquanto tivesse Eren, tudo estaria bem. Apesar dos pesares.
“Isso não é nada bom”, ele disse. “Que deselegante. Você se incomodaria se eu repassar esse e-mail para mim, senhor...?”
“Arlert. Armin Arlert”, o loiro respondeu. “Claro, diretor Zackly, pode repassar”.
Ele mexeu um pouco no e-mail de Armin antes de devolver o celular. Ligou o monitor do seu computador e imediatamente imprimiu seu conteúdo. Mikasa observou em silêncio, enquanto Eren balançava a perna nervosamente e Armin relia o e-mail na tela de seu celular.
“Por isso o grupo de mensagens estava tão quieto ontem à noite e hoje de manhã”, Eren sussurrou. “E bem que Armin notou que ônibus veio quieto demais. Bando de filhos da puta, falsos”.
“Ei, Eren, relaxa. A culpa não é deles. É dessa Associação que mandou o e-mail”, Armin intercedeu. “Nossos amigos estão apenas assustados. Quando a situação for explicada, todos vão entender”.
“Amigos, pfff”, Eren debochou, carrancudo. Mas não falou mais nada.
Mikasa pensou na reação que viu. Marco, sempre gentil e educado, parecia alerta e desconfortável. Sasha, tão falante, sequer trocara um ‘oi’ com os três. Connie parecia abismado com a possibilidade de duas pessoas tão jovens terem feito tal coisa. E os outros da turma? Qual seria a reação deles? Reiner, Annie e Bertolt foram as primeiras pessoas com quem eles falaram em Trost. Será que eles se arrependem de terem falado com o trio? E os outros? Krista ainda seria simpática com eles? Ymir continuaria fazendo as mesmas brincadeiras? Jean teria coragem de falar com Eren novamente? E Mina, Thomas, Hitch...?
“Eu achava que os documentos da polícia estavam selados”, Armin disse baixinho. Antes que ele pudesse desenvolver sua ideia, um turbilhão de pessoas entrou pela porta. Além do professor Erwin, tio Hannes e senhorita Petra, apareceram professor Levi, professora Hange e um homem que Mikasa não conhecia. Supôs que fosse o tal Nick mencionado pelo diretor anteriormente.
O resto do dia passou rápido. Os adultos fizeram algumas perguntas para Mikasa, Eren e Armin. Depois, reuniram-se numa sala ao lado por um bom tempo, deixando os três aos cuidados de Hugo. Eles conheciam o homem desde antes de se mudarem para morar com Hannes. Aparentemente, em algum tempo no passado ele foi muito amigo do pai de Eren e de Hannes. Ele tentou distrair o trio contando histórias do passado deles, o que foi até eficiente. Ele até os fez rir.
Ele contava a história de como Hannes conheceu sua esposa com molho de tomate cobrindo sua cabeça. “Keiko chegou pela porta e viu a cena. Acho que ela quase voltou dali mesmo, arrastando Mercedez junto. Mas mesmo assim elas entraram e deram de cara com a cena: eu, Grisha, Carla, Tim, Ed e minha ex-namorada cobertos de molho de tomate e spaghetti. Então Tim se levantou todo sem jeito, porque ele estava realmente ansioso em conhecer a Mercedez e começou a gaguejar pedindo desculpas. Então Mercedez começou a rir e de algum modo, uma semana depois eles já estavam namorando firme”, Hugo disse. Ele deu uma boa gargalhada. Até os três soltaram um leve riso. Era estranho saber como essas pessoas que Mikasa conheceu já como pais, mães e adultos responsáveis eram quando mais novos. Nunca imaginou seu pai participando de uma guerra de comida. Ou o tio Hannes. Ou os pais de Eren. Era bom ver que eles foram humanos normais. Que se divertiram no passado.
Depois de um tempo, Zackly os chamou até a sala deles e explicou o procedimento. Eles decidiram chamar a polícia, pois o que a Associação dos Pais e Ex-Professores fizera algo ilegal. Os documentos que eles compartilharam não eram de acesso público, justamente para proteger Eren e Mikasa. Isso significaria que Mikasa, Eren e Armin seriam interrogados novamente, tal qual acontecera três anos antes. Eren e Mikasa iriam continuar na escola, Erwin garantiu, mas teriam que começar aqueles atendimentos com Petra e Nanaba mais cedo. Eles fariam uma reunião extraordinária com os pais dos alunos na terça para tranquilizá-los. Erwin insistiu que a situação dos três estava sob controle.
E o dia terminou com os três exaustos. Mental e fisicamente.
No dia seguinte, porém, eles não foram à escola. Eren insistiu para que não. Hannes suspirou com tristeza e disse que pegaria os deveres para eles reporem depois. Os três passaram a manhã em casa, sozinhos. Jogando videogame. Eren estava abraçado com Mikasa. Foi bom. Pareceu que o dia anterior havia sido apenas um sonho ruim.
De tarde, foram até o shopping e andaram a esmo. Eren com os braços nos ombros de Mikasa. Ela também achou que foi bom. “Ei, isso não conta como nosso segundo encontro, conta?”, ele perguntou. No sábado anterior, eles foram ao cinema.
“Armin está aqui, então não conta como encontro”.
“Vocês querem que eu vá embora?”, ele perguntou, brincalhão. Eren e Mikasa apenas riram.
O sábado e o domingo se passaram tranquilos, com o incidente da escola quase esquecido. Bem, não esquecido. Mas colocado de lado. Mikasa sabia que eles estavam adiando o problema. Ela e Eren já conversaram sobre isso em outra ocasião. Depois do incidente, a psiquiatra disse algo sobre repressão de memórias. Já não lembrava direito, para ser franca. Os dois não gostavam muito da psiquiatra que tiveram.
Na segunda, mais uma vez decidiram não ir à escola. Eren e Mikasa estavam inabaláveis em não aparecer em Trost, mas Armin até ameaçou ir. Ele chegou a se dirigir ao ponto, mas retornou pouco depois. “Melhor eu ficar aqui e cuidar de vocês”, ele disse ao retornar. “Não pegaria bem para a situação de vocês colocarem fogo na casa”.
“Ei, isso só aconteceu daquela vez”, Eren protestou.
“Mas vocês sabem que a gente precisa eventualmente voltar à escola, não sabem?”, Armin perguntou, mas nem Eren e nem Mikasa responderam.
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